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quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Cultura “pop” é popular?!


Estão sem defesa os leitores, consumidores de literatura, entregues como ficaram às lógicas lucrativistas do mercado. Todavia, isso deixa-nos em condições de avaliar o nefasto efeito das mudanças recentes por que passou o panorama da edição literária em Portugal. Tamanha e tão rápida foi a alteração que quase se poderia falar de um “antes” a contrastar com o “depois”.
Recordarei aqui apenas os acontecimentos vividos para deles extrair a devida conclusão. O ponto de viragem pode ser colocado na ofensiva do grande capital que se apoderou de quantidade substancial das editoras de livros, quando a propriedade dos jornais principais já havia caído também em poucas mãos. Mas o ponto é convencional, pois a viragem se iniciara antes, no tempo, hoje incrível, em que os jornais portugueses, matutinos e vespertinos, tinham muitos mais leitores e publicavam suplementos literários semanais com artigos, críticas, entrevistas, notícias – lembram-se?
Então, o livro, que vemos convertido agora em vulgar objecto de comércio, mantinha toda a sua dignidade cultural e nas livrarias havia espaço para mostrar as “novidades”, tão raras (e boas) que causavam prolongada sensação. Os autores amadureciam o que escreviam, os críticos apreciavam-nas orientando os leitores para as obras, que eram discutidas e exerciam realmente uma influência que hoje – tempo de banalização e banalidades – se nos afigura quase mítica. É certo, então os leitores eram poucos, mas, pelo menos, eram melhores.
Desapareceram os suplementos e as páginas literárias, os críticos eclipsaram-se, os jornais (sem censura prévia) baixaram tanto as vendas que correram a refugiar-se nos braços da publicidade a rodos e, deixando-se de idealismo, ficaram vassalos fiéis da verdade única oficial. O mercado do livro foi invadido (colonizado?) por traduções de obras dos autores de best-sellers em voga e obras de autores de best-sellers nacionais também eram traduzidos “lá fora”, de modo que, no panorama da edição literária do país em vertiginoso crescimento, se estratificou uma cultura de massas pretensamente popular.
A literatura de consumo engoliu a autêntica literatura, que cultiva a arte literária, perante os leitores indefesos, por outro lado sujeitos à pressão do conjunto dos media. A degradação do gosto dos leitores e da imagem pública do Escritor passou a reflectir-se na tipologia das obras que aparecem nos circuitos da leitura e na facilidade impressionante com que qualquer bicho-careta se decide, numa loja de print on demand, a publicar, isto é, a obrar, e a considerar-se “escritor”. Consumou-se uma brutal subversão e há por aí quem diz, apontando as consequências, que não foi nada inocente: serviu interesses não só mercantis... [Foto de Laurent Schwebel]

terça-feira, 17 de junho de 2014

Editores “fazem” escritores

O campo da edição literária deu uma grande volta e continua a mexer no terreno multiplicando as consequências implicadas. Eu, como qualquer autor idoso, venho acompanhando (isto é, estranhando) as evoluções e mudanças que ocorrem na área. Ora hoje assinalo a maravilha a que chegamos: há editores que já vão ao ponto de “fazer” novos escritores!
Dantes, eram os autores de obras principais que faziam prosperar os editores, dando-lhes futuro. Todos sonhavam com eles, ambicionando ver algum dos maiores entrar-lhes pela porta. Todavia, os ditames do deus-mercado impõem agora outros mandamentos.
Vai-se tornando “normal” que um editor contacte um autor para lhe propor a aceitação de uma encomenda. Quer escrever um livro sobre um dado tema de palpitante actualidade ou sensacional escândalo, que venda muito e depressa, seja um romance, um estudo, uma entrevista? O autor (novato, naturalmente) embarca no convite que porá a soar o seu escasso nome na praça literária e ganhar, escrevendo, um bom dinheiro.
Deste modo, é o próprio mercado que, através do editor, coloca o autor a trabalhar por encomenda na directa dependência da lógica dos interesses comerciais envolvidos. O editor escolhe o “tarefeiro” e, à americana, não se limita a contratá-lo para a tarefa: fornece-lhe pistas, indicações, ajudas várias; orienta-o e por fim até poderá compor-lhe o escrito. O autor passa a escrever em absoluta dependência do mercado.
Evidentemente, vai crescendo o número de autores que almejam ser “escritores” em condições de viverem do seu trabalho de escrita. Objectivo este aceitável mas que em contrapartida os prende às flutuações do mercado, dos gostos massificados e da cultura de consumo de bens efémeros. Dilui-se por completo a independência do autor, a sua pessoal criatividade e alguma dignidade.
Outras consequências substanciais acompanham a perda da liberdade de iniciativa do autor (e uma, relevante, consiste em permitir que o editor seja um real co-autor omisso). Não escreve apenas por tarefa, escreve também por encomenda. Não elabora o livro que considera necessário, abstém-se, optando pelo sucesso fácil quase garantido.
Publicar no mercado editorial o que o mercado está pronto a absorver acaba por ser viciante. O autor, sintonizado com o marketing, seguirá inspirado pela escrita de sucesso fácil. Para ele, que quer sido lido de urgência, literatura para minorias é elitismo, inutilidade.
Lamentável é ver depois as leituras que mais circulam no mercado, produzidas pelos autores das grandes vendas. Abundam de literatura popular assumidamente descartável, simples verbos de encher. Escondem, porém, sob mantos de silêncio e de invisibilidade a literatura viva, autêntica, que nos falta.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Tanto comodismo!

Habituámo-nos, como alunos obedientes, à passividade. Premimos teclas e botões, compramos comidas confeccionadas, utilizamos máquinas que executam por nós imensas tarefas manuais, sentamo-nos em fofas almofadas para ver televisão, pegamos no carro para ir ao café próximo… Caindo na inércia, transformámos o comodismo num estilo de vida ou, pior, num traço de carácter.
É traço tão popular que o comodismo se limpou da condenação antiga - injuriado como porta aberta para qualquer vício - e até já se pretende virtude. Parece evitar canseiras, complicações aborrecidas ou mesmo maçadas e perigos pois todos vêem que “as coisas não estão fáceis”. Evita aderir ao sindicato e à greve, entrar na manif, abrir a boca para o que vai no coração e reclamar contra a austeridade, o governo e a desgraça em que o país se afunda.
Mas, associado ao comodismo, o medo infiltra-se como água mole através das porosidades e frinchas das rochas. Põe a reinar o receio de nova perda a somar ao que já se perdeu e venha complicar ainda mais a vidinha, porque, não estando fáceis, as coisas, ainda assim, vão indo. Convém não fazer ondas, agitação, esperemos um pouco, isto há-de compor-se…
O medo associa e acompanha o comodismo. Ganha força com a inércia de quem se resigna a perder comodidades supondo saciar a fera selvagem que as devora e já avança com renovado apetite para outras partes do seu bem-estar. Abre a porta do galinheiro ao lobo esfomeado que, a salivar, mente ao prometer defendê-lo.
Comodismo é o que dispensa o cidadão de votar nas eleições a pretexto de que o seu voto não vale nada. É querer viver sem “entender a política”, as decisões dos governantes, a importância da aprovação de um orçamento de Estado. É condenar os políticos e os partidos do governo por corrupção e continuar a votar neles ou, com idêntico resultado, manter-se na abstenção.
Comodismo é dispensar-se de pensar e de ter memória. É assumir opinião alheia como própria. É ser emocional e não racional.
Comodismo é aceitar a austeridade imposta pela crise financeira (a debitocracia = democracia expulsa pela dívida). É acreditar na onda da manipulação que impõe a Verdade Única, crer no crescimento contínuo da economia, na segurança geral do mundo. É aplaudir o consumismo acrítico, delirar com os gooolos do espectáculo do futebol.
Comodismo é desistência sem luta em troca de medo. Quarenta anos depois do 25 de Abril, o regime democrático não lhe diz nada. A direita, crescendo, aproveita.

quarta-feira, 19 de março de 2014

Pensamento débil

Os nossos tempos não vão favoráveis à afirmação vigorosa do pensamento. Criações mentais desejavelmente inovadoras parecem recostar-se numa passividade acomodada ou numa conformação indiferente ao que de renovador mais importaria. O panorama como que adormece numa espécie de estagnação pantanosa ou mesmo numa real decadência.
Onde pode o observador encontrar hoje um sinal de rasgada afirmação? Percorre os diversos sectores da criatividade intelectual e o que se lhe depara? A mentalidade tecnocrática, dedicada ao serviço das empresas, sufocou a cultura humanista obliterando a relação de cada pessoa com a espécie integrada na natureza, nosso berço.
Ia prosseguir, desenrolando o fio do meu discurso, mas, neste ponto, parei a escrita. Caiu-me o olhar numa frase em crónica de Vasco Pulido Valente que parecia exprimir a ideia que começava a enunciar. A frase: “A autoridade da ‘inteligência’ desapareceu.”
Mas, então, de onde emana a autoridade que continua a exercer-se nos variados planos da vida social se a autoridade da “inteligência” desapareceu? Se o regime republicano e o sistema democrático continuam vigentes, incluído o sistema da justiça, que processo terá conseguido descartar a preclara “inteligência”? Substituiu-a acaso a mediocracia eleitoral?
Não poderia eu dizê-lo melhor, com menos palavras nem com maior eloquência. Mas a brutalidade da expressão justifica-se pelo seu inegável realismo: a “inteligência” (que outrora distinguíamos como “intelligentsia”, ou escol, elite dominante) perdeu o seu lugar, autoridade, prestígio. É facto tão notório que espalha pela minoria realmente culta um calafrio visceral e um alarme.
E que espécie de autoridade será essa, declaradamente não iluminada pela “inteligência”? Decorrerá da mediocracia da mediocracia eleitoral e poderá ser ainda legitimável como “civilização”? Ou a monstruosidade contida na síntese de VPV, ao causar-nos um estremeção de profundo horror, também nos adverte do sentido de uma geral deriva política em crescente afirmação da direita (da austeridade programada, do empobrecimento do povo)?
Vejamos. Do que se trata não é, afinal, da abolição da “inteligência” da autoridade (do poder governante, da justiça). É da imposição liminar do seu inverso, ou antónimo, pois a inteligência (democrática) que nos tem governado vai sendo absorvida por uma diversa “inteligência” estratégica que se declara presente e omnipotente.
Por este caminho, quanto tempo faltará para se repetir o memorável caso dos anos ’30 do século passado? Decorria a sangrenta guerra civil espanhola, provocada pelos franquistas contra o governo republicano eleito, patamar preparatório da Segunda Grande Guerra. Quem falasse de “cultura” punha franquistas a puxar da pistola… [Imagem: “Zé Povinho com sua albarda”, pintura de Rafael Bordalo Pinheiro.]

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Respondo por carta (aberta)

Caro amigo: não te peço concordância, apenas a compreensão que puderes dar-me. Eu sei, é já pedir muito, talvez demais. Mas estou simplesmente a pedir e no pedir, pelo menos, não quero ser peco.
Questionas o mutismo que percebes no teor dos textos aqui editados desde há umas tantas semanas em face de acontecimentos de grande relevo e retumbância internacional. Apontas-me a morte de Eusébio e a “bola de ouro” de Cristiano Ronaldo, sem esquecer os temas da crise feita de crises que devastam o mundo. Consideras estranho que assuntos de tamanho destaque fiquem aqui num silenciamento inexplicável, dado que o cronista escrevia opinando antes sobre o vasto temário que as “Etiquetas” apenas indiciam.
Sem dúvida, meu caro, o teu reparo justifica-se e eu admito-o. Mas... como explicar? Os acontecimentos do dia não têm novidade que preste, o mundo caiu, para o cronista, em confrangedora monotonia.
Que dizer do passamento de Eusébio, do imenso carpir beato de idólatras sobre urna do ídolo morto, ou da “bola de ouro” e lágrima de Cristiano que valessem um átomo mais do que rançosos verbos-de-encher, mais do que estafados lugares-comuns? Não sufocaste até à náusea debaixo das montanhas de papel impresso e das horas, dias inteiros, de rádio e televisão hipnotizadas por tais ocorrências? Mais e melhor: terás sentido, nas gravações de rádio e tv arquivadas e reeditadas, o contraste entre a compostura antiga do relator do jogo e o atroar do actual que aos berros faz passar o golo pelo maior arco de triunfo?
Pobre país com uma cultura onde jornais ditos de referência elevam à suprema categoria de “deuses” uns habilidosos de chuteiras e se dispõem a glorificar um deles como herói no panteão nacional. Triste mundo com uma civilização onde um jogador acumula milhões porque mete mais golos e serve à multidão a droga virtual que a multidão pede. Delírio insano que nem por se ter tornado tão colectivo menos insano será.
Meu caro, devo declarar este (des)interesse: nunca na vida comprei entrada num qualquer estádio; jamais li um jornal desportivo ou discuti pormenores do jogo-espectáculo. Sabes que venho praticando nesta coluna uma modalidade de jornalismo cultural continuando de algum modo o que fiz durante anos, em registo diverso, na prática profissional. Lembrarás também que escolhi o jornalismo aos 33 anos de idade vendo-o como profissão a mais próxima do que eu sentia amar, a Literatura.
Que mais poderei acrescentar? A decência nas relações interpessoais, sociais e internacionais é flor rara do deserto quando massas humanas conformadas, sem vontade nem perspectivas, avançam para a servidão pós-moderna. Onde teremos neste mundo outro Erasmo de Roterdão, igualmente humanista, que desperte as consciências escrevendo um novo e muito mais cabal “Elogio da Loucura”?

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Um lobo das estepes

Era já idoso quando nos conhecemos e, há semanas, sumiu-se deixando o mundo mais baço e perdido nas suas trágicas cegueiras. Tinha publicado um extenso conjunto de obras e era autor menos lido do que respeitado e ainda menos estudado. Estava pois a morar, como ele dizia, na penumbra dos escritores supranumerários.
Não parecia ralar-se com isso. Só raramente notava a pouca leitura que tantos dos seus livros conseguiam mas fazia-o sem rebuço, como uma consequência natural de menor importância. Promovia-os (promovendo-se) tão pouco que muitas das pessoas das suas relações pessoais directas até ignoravam as suas publicações, a sua projecção na escrita, vislumbrando dele, no melhor dos casos, algum artigo solto em jornal ou revista.
Contudo, no ambiente literário, o seu caso não era o dos escritores que produzem obra de vulto e depois, esmorecendo durante longos anos, caem no “esquecimento em vida”. Ele continuava a escrever e a publicar, mas, como figura pública, era ínfimo o alarde que fazia dentro da ruidosa praça literária. Na esfera restrita da sua existência (onde sobressaíam notabilidades porque eram realmente “amigos”, não por serem notáveis), consideravam-no homem de carácter, convivente e solidário, incansável militante das causas nobres aliás agora tristemente impopulares.
Mas aquele homem vivia em óbvia solidão, não estabelecia relações com figuras “interessantes” e, apegado à sua independência, recusava pertença a grupos, clubes, lobbies. Neste ponto, citou um dia lorde Byron: “A consequência de não pertencer a nenhum partido será a de que os incomodarei a todos.” Sorriu num trejeito muito seu e acrescentou: “pelo que a todos dou o direito de me incomodarem a mim”…
Tivemos conversas surpreendentes. Idoso, ainda lhe sobrava energia moral para defender a sua extrema solidão contra a ordem burguesa que afinal era a sua e a nossa. De repente fez-me lembrar “O Lobo das Estepes”.
Este romance de Hermann Hesse, publicado na Alemanha em 1927, marcou especialmente a obra do Autor, prémio Nobel em 1946. O movimento juvenil dos anos ’60 colocou-o como seu próprio expoente de radicalidade. A figura-símbolo central, Harry Haller, o “lobo” solitário e desirmanado, também exprimia em época de trágica crise – semelhante à que afunda em desgraçada decadência a Europa na actualidade - uma rejeição total da cultura, da política, da comunicação social existentes, então como hoje.
Quis reler o livro. Não o encontrei em casa, pedi-o na biblioteca pública. Nele topei um conceito que acabara de ouvir na conversa com o escritor meu contemporâneo: “O verdadeiro sofrimento, o autêntico inferno, esse só advém na vida humana onde e quando duas épocas, duas culturas e duas religiões se intersectam.”
Mais adiante detive-me para reler e tornar a reler: “O burguês é por isso mesmo, pela sua própria natureza, uma criatura de fraca vitalidade, medrosa, receosa de todo e qualquer abandono da sua pessoa, facilmente governável. Por isso colocou, no lugar do poder, a maioria; no lugar da força, a lei; no lugar da responsabilidade, o exercício do voto.” “A grande maioria dos intelectuais, a maior parte dos homens artistas, pertence a esse tipo.” [Imagem: escultura de Bruno Torfs, Austrália.]

sábado, 14 de dezembro de 2013

O que é ”Kitsch”?

O termo veio do alemão e tem utilização crescente. Um vulgar dicionário regista o que significa: “produto artístico, literário, de utilidade doméstica, etc., de qualidade inferior, mas com cunho sensacionalista, que pretende ir ao encontro do gosto popular.” Assunto esclarecido e encerrado?
Não, está em esclarecimento e continua aberto. Assunto agora reavivado pelo contributo de João Medina (“O Kitsch português, reflexões sobre o inautêntico na história cultural lusa”) publicado há dias num blogue (http://malomil.blogspot.pt/2013/11/o-kitsch-portugues.html). Agradeço ao prezado amigo que mo trouxe ao conhecimento.
O termo, na origem alemã, deriva de “atamancar” (obra mal feita) ou impingir como boa coisa de qualidade inferior. Mas, em Portugal, em alguns círculos sociais, o kitsch até tem categoria próxima do belo ainda que, agrega o dicionário, seja “manifestação cultural ou artística que explora estereótipos sentimentalistas, melodramáticos ou sensacionalistas”. Porém, o sentido real do termo é obviamente pejorativo: é tendência, expressão ou conjunto de objectos considerados de mau gosto ou de má qualidade por terem características associadas ao gosto popular.
O trabalho do Prof. João Medina – um ensaio muito ilustrado – desfaz quaisquer confusões assentando desde logo no conceito do que deve entender-se correctamente por kitsch. Abre com epígrafe do ensaísta Abraham A. Moles, autor de basilar livro sobre o tema: “O mundo dos valores estéticos deixou de ser dicotomizado entre o Belo e o Feio; entre a arte e o conformismo estende-se a vasta praia do Kitsch.”
Para Moles, a civilização do consumo produz a cultura de massas, identificável como kitsch. Surge a indagação: poderá a produção industrial ser arte?
Vem a seguir uma outra epígrafe, do espanhol Antonio Muñoz Molina (“«Kitsch» nacional”, Babelia, 21-IX-2013), e é extensa: “…o kitsch é o império dos espaventos descontrolados da emoção e a sensibilidade, da desproporção entre a substância e o invólucro (…). O kitsch define-se por comparação porque a sua natureza é derivada e parasitária. O kitsch está para a arte como a margarina para a manteiga, o Arcopal para a louça, o romance histórico para a História, a Isabel Allende para o melhor Garcia Marquez, (…). O que os anúncios turísticos da Junta da Andaluzia para a realidade da Andaluzia (…). O kitsch é inseparável da efusão nacional porque esta consiste na translação para o público daquilo que em rigor pertence ao âmbito das emoções privadas. (…).”
Estabelecida a abordagem correcta e precisa da questão em foco, João Medina passa a aplicar o conceito exposto ao “kitschismo” acéfalo que invade a realidade portuguesa sem esquecer ideologias e doutrinas conservadoras. À literatura (os best-sellers José Rodrigues dos Santos, Margarida Rebelo Pinto, ou Dan Brown, Leon Uris, etc.) e à arte (Joana de Vasconcelos, José de Guimarães, o Malhoa de “O fado”, etc.) segue-se o teatro, o cinema, a arquitectura, a música… Acende-se, inevitável, a polémica e aí vem a discordância caceteira pedir desforra das “ofensas”. Enfim, o que é kitsch? [Imagem: cartaz-réplica do conhecido quadro "O Fado", de José Malhoa; autoria omissa.]

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

O Português sem mestre

O crónico praticante da escrita acaba por se enredar nas palavras que usa. Com elas se veste para sair à rua e a elas se prende ao enamorar-se, senão de todas, pelo menos de algumas escolhidas. Então, como fugir ao golpe que sente ao ver atropeladas algumas delas por descuido ou ignorância?
O respeito pela língua materna confundiu-se outrora com o respeito pela pátria e o patriotismo. As regras da educação impunham o máximo primor da linguagem no contacto directo, oral ou por escrito, das relações sociais. Mas os costumes mudaram, esfumou-se a civilidade e deliquesceu a educação tanto quanto a consideração pelo “outro”.
A desvalorização sistemática do próximo acompanhou a desvalorização do respeito pela língua materna como se uma insubordinação civil pudesse tornar mais tolerável uma subordinação larvar imposta pelo sistema dominante em crise (e por aí se avançou até à degradação dos princípios e dos valores). Os atropelos às regras do bem falar e bem escrever vulgarizaram-se ao ponto de se instalar a confusão actual e se banalizarem liberdades e libertinagens. O léxico vulgar e a semântica abriram-se a inovações sem critério alargando-se tanto quanto, por outro lado, se empobreceram.
Exemplos? Vejamos o caso das palavras formadas por iniciais (Pide, laser, sida): têm crescente uso pois simplificam a elocução tornando-a mais eficaz. São, realmente, acrónimos, mas a designação correcta vê-se substituída por esta outra, sigla, termo com significado diverso que os dicionários registam.
Cresce também a utilização de estantes que apoiam microfones e textos dos oradores em variadas sessões. Chamam-lhes pulpitre (ou mesmo púlpito) quando julgam atinar na designação correcta, mas o termo vem do espanhol significando “carteira escolar”. Ora o objecto, conhecido desde há séculos, tem nome bem português: é atril, “estante em forma de plano inclinado, para se pôr aberto o livro, ou o papel, a fim de se poder ler comodamente”.
O anglicismo ranking popularizou-se nas esferas desportivas, escolares e outras. Dispensa vocábulos como categoria, classificação, posição, tal como tranche, galicismo igualmente escusado porque ignora expressões portuguesas aplicáveis como prestação, fatia, parte. Parece que é chique usar estrangeirismos na elocução, comportamento que revela o abandono a que os portugueses votam a sua língua materna, isto é, a sua literatura, a sua cultura, a sua identidade. Mas continuo (e na melhor companhia!) a ver esta língua como a maior criação do génio deste povo… vendo-a, lamentavelmente, a corromper-se no interior da sua própria matriz.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

O tempo dos escritores


Esta crónica começa com a mão em devaneio sobre o papel. Rabisca o nome de uns quantos escritores falecidos que vai juntando porque os foi conhecendo ao longo do seu itinerário existencial e que a recordação agora recupera da ausência. A folhinha não se enche de todo porque a mão se suspende, desiste e pára.
Tantos nomes prestigiosos, tantas memórias a borbulhar em grupos na evocação como cerejas do cesto vindos da fundura límbica onde o esquecimento já os deixava! Quem se lembra hoje  dos escritores que conheci e que tão aclamados foram no seu tempo? Lembro José Gomes Ferreira, Fernando Namora, Manuel Ferreira, José Rodrigues Miguéis, Mário Dionísio, Manuel Mendes, José Cardoso Pires, David Mourão-Ferreira, Natália Correia, Augusto Abelaira, Alexandre Cabral, Faure da Rosa, Luís Sttau Monteiro, Sidónio Muralha, Alexandre Pinheiro Torres… sem esquecer Ferreira de Castro, Mário Sacramento, Mário Braga e tantos, tantos mais!
Foi também o tempo de Alves Redol, Manuel da Fonseca, Carlos de Oliveira, Vitorino Nemésio, Miguel Torga, Eugénio de Andrade. Mas estes autores, felizmente, continuam entre nós, são presenças tão claras que os seus nomes acodem à memória sem esforço. Em meados do século XX e até anos ’70-’80, eles eram, eles foram a Literatura, de modo que é neste ponto que se perfila a questão do tempo dos escritores.
Bem o sabemos, poucas vezes a longevidade das suas obras no plano da leitura pública é francamente maior do que a duração das suas vidas. Os escritores queimam os seus talentos e afãs para que essas obras perdurem, sonham com a migalha de glória póstuma que lhes caiba e recebem não poucas decepções. Mas entretanto algo aconteceu que transtornou a situação: instalou-se o fenómeno da obsolescência de bens de consumo, incluídos os culturais (e regressamos à frase de Oscar Wilde, “para ser popular é indispensável ser medíocre”).
A literatura agora é esta, a do consumo rápido e em massa, produzida para não durar no mercado dos bens efémeros como cançonetas novas ou os filmes de Hollywood que passam pelos cinemas a cada semana e são previsíveis como fábulas já conhecidas. É a literatura do comércio lucrativo dos contadores de histórias, o negócio sem poesia. Implantou-se com um efeito maléfico: tomou o lugar da Literatura e varreu do cenário autores e obras que mereciam outra sorte.
É preciso dizer, sem papas na língua, que o negócio da edição literária corrente matou a Literatura. Temos de fugir da produção padronizada para o medíocre gosto da maioria consumista, da literatura descartável, do verbo de encher lombada grossa com capa vistosa. O que nos diz que importe deveras à arte, à vida?!
Voltemos para os escritores hoje secundarizados pelas obras do efémero descartável. Os de há meio século ou anteriores, como, por exemplo, Raul Brandão Aquilino Ribeiro. Nas suas páginas reencontraremos a palpitação fremente da literatura viva e, nos melhores casos, a personagem colectiva ou, se for caso disso, o herói singular que se ergue e bate para defender o seu povo. [«Salomé», escultura miniatural criselefantina de Dimitri Chiparus (1888-1950).]

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Haja Feiras do Livro!


Dizemos que nenhum livro admirável consegue ser completamente bom nem que um outro, embora medíocre, irá ser completamente mau. A ideia é que muitos livros diversos ou, idealmente, todos quantos existam resultam bons na medida em que uns aos outros se esclarecem e ajudam. E porque o dito condensa uma verdade demonstrável, tornamos a repeti-lo.
Portanto, uma grande biblioteca constitui um Grande Livro e uma Feira do Livro babélica aproxima-se de uma grande biblioteca em projecto. Venha, portanto, muita Feira! Acontece porém que a segunda cidade do país, este ano, ficou privada do certame tradicional que lhe enchia de animação e de livros a Avenida.
Barafustou a organizadora (a APEL, composta sobretudo pelos editores nacionais, atingidos pelo revés que sofreriam as suas vendas directas ao público, i. e., sem intermediação das livrarias). O município local recusou o aumento de uns milhares de euros e o evento, sem tal apoio, emperrou. Ergueu-se então em protesto contra o município um grupo de novos escritores, com José Luís Peixoto na primeira linha.
Gesto comovente! Eram escritores em voga e já apareciam na Feira de Lisboa em canseirosas sessões de autógrafos, davam entrevistas, conversavam, passeavam, tornavam-se ainda mais populares, percebendo bem o que os editores querem quando lhes dizem que “são os autores que vendem”… Reagiram com elevado critério e dispuseram-se a realizar na cidade do “corte à cultura” uma sessão de autógrafos dos seus últimos livros.
Reacção exemplar! Evidenciou a maravilhosa generosidade do grupo que trabalha para se profissionalizar e viver da escrita literária e que se cansa, gastando os pneus, a percorrer o país, no esforço constante da promoção das suas obras e das suas imagens. São escritores em voga, é certo, mas precisam de não perder a corrida pois sabem que o mercado tem memória fraca e que é vital manter uma vela acesa naquele altar.
Felizmente, abundam as feiras, os convites, os encontros, os eventos culturais, oportunidades a não perder para botar figura. Ora, apesar da crise, a Feira de Lisboa rendeu este ano muito mais do que seria de esperar: as vendas globais troçaram da crise.
O animoso grupo dos novos escritores dispõe-se portanto a prosseguir na elaboração de literatura de consumo (o consumo de papel não vai diminuir!): rimas de livros, grossas lombadas e vistosas capas enfeitadas com o nome-marca do Autor em letras garrafais e prazos de validade como os iugurtes.

domingo, 7 de outubro de 2012

A edição literária, hoje

A cambalhota foi rápida. Efetivou-se nuns meses, de modo que o setor da edição literária nacional ficou virado de pernas para o ar. Já lá vão uns três anos e resta por aí ainda quem, escrevendo ou lendo livros, não tenha percebido claramente o que aconteceu e, portanto, estranhe a situação.
As principais editoras caíram na mão do poder financeiro. O livro reduziu ou perdeu de todo a sua dignidade cultural, transformando-se em objeto de negócio puramente lucrativo. Os autores literários mediáticos passaram a produzir para o mercado e os sobrantes viram-se obrigados a aceitar a condição de supranumerários senão mesmo a invisibilidade.
As consequências objetivas da viragem tinham de ser desastrosas nos planos da cultura e de uma normal renovação das linguagens literárias. Os autores de best-sellers, os nossos e os outros, proclamados escritores profissionais, produzem as obras (romances, muitos romances) que o mercado gosta de consumir depressa e em quantidades o mais possível industriais. Os editores querem que sejam os autores a vender com a força da sua imagem mediática e diligência aplicada no terreno, enquanto os próprios autores, profissionalizados, se tornam necessariamente produtores de obras vendáveis por «encomenda» do mercado.
Num pequeno país e, para mais, afundado em profunda crise, cabem poucos autores de best-sellers. A máquina da edição literária lança o preciso para funcionar e refuga os demais (não lucrativos). A comunicação social, orientada para a atualidade mediática que chama às luzes da ribalta os autores badalados, segue na corrente que, por outro lado, a inexistência de uma crítica pronta e atuante deixa correr sem baias.
O resultado ficou à vista. Os leitores, pegando nos livros à venda em supermercados, correios, papelarias e etc. (isto é, consumindo o que lhes metem pelos olhos dentro), estratificam o gosto em leituras padronizadas, feitas para eles pelos fabricantes de textos seguindo indicações estratégicas do marketing. Em suma, a edição literária torna-se monocórdica e repetitiva tanto quanto a imprensa, também caída em poucas mãos convenientes, é tendenciosa e unilateral.
O número das editoras e chancelas em atividade cresceu até à desmesura e a quantidade total  dos livros novos publicados a cada ano causa verdadeira estupefacção. As lojas e barracas de saldos de volumes a pataco mal esvaziam os armazéns atulhados com verbos de encher. Nas livrarias, os clientes arreliam-se porque, entre tanta livralhada, falta lá espaço para as obras de autores clássicos ou mesmo para obras lançadas há dois ou três meses e, se querem encomendar, o livreiro faz má cara - a distribuição está num caos.
Predomina na paisagem o preciosismo da escrita criativa com talento para extrair de  banalidades imenso suco de barbatana. Anemiza-se o envolvimento social do narrador, a palpitação humana autêntica na união sincera da arte com a vida. Boa escrita (liofilizada) não serve a boa literatura.
A intensificação da circulação desta literatura (dita descartável, light) espalha no terreno consequências indesejáveis a vários níveis. A mais saliente consistirá na imposição de um tipo de «cultura popular» capaz de submergir a cultura popular de raiz. Contribuirá também para estratificar nos seus leitores o conformismo ideológico, a debilidade do sentido crítico, o consumismo acéfalo.
Nesta situação confusa, ficam condenados a uma marginalidade nada inocente bons autores interventivos carecidos de «vedetismo» porque vendem pouco e devagar. Tinham editoras, leitores, renome, e a cambalhota reduziu-os quase ao emudecimento. Na sua visceral solidão, vêem-se constrangidos a conservar inéditos originais que não tiram da gaveta.
Mas agora são abundantes, numerosíssimos, os novos «escritores». Surgem e multiplicam-se pelos quatro cantos, parece que está na moda isso de publicar livros e qualquer estreante os publica, pagando a edição, com tiragens reduzidíssimas, do seu próprio bolso, e depois corre a vendê-los a conhecidos e vizinhos dos conhecidos. Escrevem, editam, distribuem e fazem venda direta - será este o caminho que resta aos autores não mediáticos?!
Quem isto escreve optou pela solução que se sabe: publica os seus livros com formato e-book numa plataforma da Internet. Nesse escaparate já alinhou dez títulos e pretende continuar. Os milhares de visitantes que os folheiam nada pagam ao autor mas deixam-no perfeitamente gratificado.
A conjuntura sociopolítica, dominada pelas ganâncias da máquina ultra e neoliberal que tudo oprime e devora, acicata a criatividade individual e coletiva. De qualquer modo, é preciso, é urgente elaborar respostas, rasgar saídas. A liberdade de expressão, a necessária renovação cultural e literária, e a democracia pedem-nas.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Ordem ou subversão?

Enchem a boca a falar da «nossa democracia» como se ela fosse carruagem pomposa, cheia de cromados e veludos reluzentes onde viajassem sentados e nós, os párvulos, de pé, em magotes felizes a vê-los passar. Talvez falem da democracia que fazem sua pela conquista que a soma dos nossos votos lhes proporciona. Mas, limpando a questão da retórica e do ranço político, o que vemos?
Vemos os partidos e os seus políticos que se revesam na governação. A «nossa democracia» é deles por apropriação legitimada pelas regras por eles e para eles estabelecidas. Formam o designado arco do poder, isto é, entram na dança das cadeiras de modo que a música lhes cai sempre bem no ouvido.
Andamos neste baile há muito tempo e o resultado é de arromba: há campainhas de alarme a soar no corpo nacional, a crise desatada é devastadora e ainda nem sabemos que migalha de soberania nos resta. Aprendemos ao menos a lição? Que lição?
Os votos dos eleitores dão a maioria garantida, mais coisinha menos coisinha conforme a maré, aos mesmos de sempre, e no essencial a política vai ficando cada vez pior. As eleições transformaram-se em meros formalismos necessários apenas para a legitimação do poder e a entrada em cena de caras novas, deixando tudo o mais a sobrar nesta «democracia». Os arredados do arco do poder, partidos e políticos, naturalmente da esquerda, não tem o apoio da maioria da população, que se encontra sempre bem prevenida, por todos os meios, do perigo comunista ou de qualquer esquerdismo.
Felizmente, ninguém aproveita a ocasião para vir insinuar que a maioria eleitoral não aprende a votar. O crescimento das abstenções é apontado com preocupação, mas é forçoso reconhecer, não é fácil pôr a delirar com os golos do futebol a população e esperar ter em maioria os cidadãos atentos aos negócios nacionais. Todavia, já houve defensores da ideia pela qual os votos da maioria, ditos do Portugal profundo, não tinham mérito igual ao dos votos dos outros eleitores...
Não vai ser fácil sair desta situação desordenada ao máximo pela crise. É verdade, a ordem opõe-se à subversão, e vice-versa. O que lembra que a subversão pode iniciar-se de todas as formas possíveis, em nome da democracia real, como desobediência civil.

sábado, 16 de junho de 2012

O jogo da vida

Venho de um outrora em que qualquer passatempo servia apenas para passar o tempo em ociosidade. Por outras palavras, reconheço e assumo os anos já longos que levo de vida, sentindo agora que esta idade não tem só pungências, também algumas competências. Pelo menos terá uma, a de poder perceber a extensão que foram ganhando os chamados tempos livres e as «ocupações» que os foram preenchendo e absorvendo.
Antigamente havia poucas pausas para descanso, logo, poucas distrações. A disciplina do trabalho era exigente: viver do esforço honrado valia para o trabalhador como um brasão, a ociosidade era apontada como um desperdício, quase um vício. Nesta ordem de ideias, o jogo, máxime qualquer jogo de azar, que leva dinheiro e não feijões, desaparecia das vistas condenado por uma densa nuvem de sentenças morais.
Mas foram surgindo as lotarias, os casinos, os totobolas, os totolotos, mil sorteios sem sorte... Os maridos deixaram de ganhar o suficiente para sustentar suas famílias, as esposas tiveram que ajudar aceitando salários mais baixos, e ambos perdiam imenso tempo nos transportes. Sua majestade o futebol impôs-se como espetáculo de massas, alcançou mesmo o estatuto de «indústria», e a televisão das telenovelas, cantigas e concursos completou o quadro das distrações obrigatórias.
Habituámo-nos a dispor dos tempos livres até criarmos deles uma forte dependência, mas, contraditoriamente, habituámo-nos também a lamentar que, andando sempre a correr, não temos tempo para nada. Nem conseguimos ver o lugar central em que pusemos os jogos nas nossas vidas. O jogo da bola é um deles e tão absorvente quanto se sabe.
Aliás, absorvente e alienador. Instala a competição entre pares, a ambição da vitória a qualquer preço, e vulgariza a degradação dos vencidos. O patriotismo, o brio e a própria honra nacional dependem do pontapé da sorte que faz entrar uma bola na baliza.
Mas, assim, para onde são varridos, pelo mesmo golpe, o sentimento patriótico e o brio nacional dos povos arrebanhados e adormecidos em camas de resignação onde sonham alto? Acreditarão que é possível ter direitos e liberdades cívicas sem se incomodarem quanto for preciso na sua defesa? Ou terão de perceber um dia que a loucura é tão contagiosa quanto qualquer medo?
O jogo preenche a vida (individual, coletiva) que por outro lado se esvazia de sentido. Mas poderá a vida resumir-se ao jogo? O que será jogar a vida? 

terça-feira, 22 de maio de 2012

Tecno versus Humano

Eduardo Galeano, numa charla recente, tal como noutras anteriores, sugestiva e sumarenta, que teve a sorte de passar na TV portuguesa (no canal 2, a desoras convenientes), deixou bastante demonstrada a perda da diversidade humana e quanto essa perda se deve a mutilações da variedade humana real provocada pelo sistema dominante. Mas Galeano é um óbvio humanista, reafirmado, por exemplo, no vídeo mais antigo sobre a «Ordem criminosa mundial», com janela de acesso aqui ao lado. Este uruguaio nascido em 1940, autor de livros que recusa ser «intelectual», tem portanto uma voz que ressoa tanto mais no mundo quanto neste mundo já rareiam os humanistas.
Estamos a ficar cada vez mais cegos para a nossa variedade humana obedecendo a um sistema que nos empurra uns contra os outros de forma implacável,
-- fazendo reinar o individualismo egoísta e a mediocridade. A economia de mercado que temos a funcionar é mutiladora da possível e apenas sonhada plenitude humana, mas o presente, hoje mais agudo e dramático, na verdade vem de longe a acumular consequências e danos. Agravaram-se os fatores sociais da distinção por via do racismo, do machismo ou do militarismo (lembra Galeano) a somar a exclusões e segregações de pobres, índios, africanos, etc.
Em meados do século XX, nas universidades portuguesas ainda persistiam estudos humanísticos. Todavia, já então eram notados os riscos de endeusamento de uma Técnica invasora trazida pela onda das máquinas-ferramentas e surgia o «homem sem qualidades». Nos anos seguintes operou-se uma viragem e hoje parece não restar vestígio das velhas Humanidades.
Deste modo, a originalidade (isto é, a criatividade) de cada ser humano fica submersa ou  mesmo perdida em proveito de uma uniformidade social imposta por um silenciamento conformado. O desenvolvimento social e até a dimensão autêntica das liberdades sofrem constrangimentos -- no meio de seres humanos estereotipados, atomizados e fragmentários, induzidos a uma indiferença obediente pela coisa pública, pelos sindicatos, os partidos, a política, o diálogo cultural. O ser humano, em radical solidão e desprovido de memória, encara o seu vizinho não como irmão, um semelhante, sim como um concorrente incómodo, um estorvo.
Nem o próprio teísmo resgata o indivíduo da solidão para o inserir no conjunto a que pertence na sua comunidade e na sua espécie. Projeta-o para um plano celeste inacessível, atirando-o portanto para fora deste mundo em vez de se realizar como re-ligação possível do homem ao seu semelhante. Vale a pena relembrar aqui as ideias do filósofo inglês David Hume, apontadas a uma «religião natural», sem Deus, a «religião da espécie».

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Ser «escritor», hoje

Considerei um dia que a qualificação de «escritor» era devidamente atribuída ao autor literário pelos seus leitores em resultado da quantidade e da qualidade dos aplausos que a sua obra merecia. Aplausos dos seus leitores, naturalmente, com a ponderação e o mérito, em quantidade e qualidade, de quem aplaudia. Tentava contribuir assim para moderar a pressa de um qualquer neófito se pretender reconhecido como «escritor» logo ao estrear-se nas letras.
A situação é agora um tanto diferente (e não falo dos «escritores de canções», que escrevem umas escassas letras e compõem as notas musicais no pentagrama), pelo que retomo o assunto. A cambalhota foi repentina como um passe de mágica - as editoras principais, mudando de mão, ficaram na posse de uns poucos mas grandes grupos financeiros - e o golpe deixou tudo, mais do que mudado, virado do avesso. «Escritor» é hoje, sem margem para dúvidas, o autor com bastante presença mediática.
Tem nome badalado, publica livros com estratégica regularidade, percorre o país de norte a sul apresentando as suas novidades literárias a um público sedento de autógrafos. E tem suficiente «força» no mercado, pelo que pode trabalhar com a editora convencionada, provavelmente em concorrência com outras. É, em suma, um escritor profissional e leva a sua profissão muito a sério (não o pensamento atribuído a Lao-Tsé: «O sábio é notado sem se exibir; renuncia a si mesmo e jamais será esquecido»).
Este o perfil assumido do autor que está no mercado para vender e que nessa medida agrada à sua editora porque a põe a render. Ambas as partes se entendem entendendo o livro (banalizado)  como objeto de comércio e consumo intensivo, que invade estações de correio, supermercados, livrarias, feiras de saldos, tabacarias, depois de, feito estojo, servir para guardar os autógrafos.
Conforme venho apontando desde 1994 (vd. meus livros Inclinações Pontuais, 2000, e Letras Sob Protesto, 2004) e também aqui (consultar«etiquetas»), esta situação gera variados efeitos perversos. Concentra a maioria do público e as principais editoras em torno dos fazedores de best-sellers, incentiva a progressiva redução do seu número e variedade real e, para cúmulo, reduz a liberdade de escolha dos leitores. Acresce a isto a consequência mais gravosa e daninha: uma quantidade substancial de cultores da Literatura, dos artistas da palavra estética, fica condenada a uma total inexistência, uma espécie de (mortal?) invisibilidade.