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segunda-feira, 25 de julho de 2016

Turquia, porta giratória da Ásia

us.jpgO mapa da Europa que eu, menino, encontrei nos livros e nas paredes das primeiras escolas abarcava a Turquia e o norte de África, portanto as duas margens do Mediterrâneo. O país modernizado por Kemal Ataturk aparecia ali numa fronteira imaginária entre a Ásia e o “velho continente”. Esta posição de país-charneira tem atribuído àquele país um papel de porta giratória entre os dois lados mas agora o presidente Erdogan parece disposto a virar as costas ao Ocidente acabando com o regime laico do Estado para o islamizar e a querer-se, em vez de presidente, sultão.

Assim, como porta de entrada e saída de europeus e asiáticos, a Turquia tem para mim uma reminiscência curiosa. Segundo José Pijoan, autor principal de uma história do mundo que traduzi (trabalho de três anos: 1973-75), a designação de Ásia teria começado por nomear uns prados em terras do continente avistados da ilha helénica mais próxima (onde por sinal vai chegando “à Europa” uma infinita corrente de refugiados das guerras); depois a designação alargou-se à medida que essas terras, do Levante e outras, chegaram ao conhecimento dos viajantes gregos. A designação da Ásia entrou na nossa língua pelo latim através do grego (Ασία, em acádio subir), mas são variadas as explicações da sua origem, de modo que nos atemos somente ao primeiro registo do topónimo: encontra-se em Heródoto, historiador grego que, por volta de 440 a.C., mencionava uma divisão do mundo em três partes mitológicas.
Todavia, sem dúvida nenhuma, a civilização asiática teve início há mais de 4.000 anos, muito antes de começar no mundo ocidental, com actividades económicas, manifestações culturais e desenvolvimento da ciência. Sabe-se igualmente que os povos da Ásia fundaram as cidades mais antigas, estabeleceram os primeiros sistemas de leis tal como as formas iniciais da agricultura e do comércio. E mais, os asiáticos inventaram a escrita, o papel, a pólvora, a bússola e os tipos móveis de imprensa e criaram as primeiras literaturas, sem esquecer que também foram asiáticos os fundadores das principais religiões do mundo: Buda, Confúcio, Cristo e Maomé.
Por tudo isto, convém lembrar que a Ásia - com o Levante, o Médio e o Extremo Oriente - é o maior dos cinco continentes, onde avultam nações enormes como a Rússia, a China ou a Índia entre outras nações de tamanho minúsculo. Os seus povos diferem igualmente quanto a árvores genealógicas, práticas, comportamentos, idiomas, crenças religiosas e modos de vida. Enfim, os europeus consagraram o Oriente com a velha frase de que é daquele lado que nos chega a luz – seja a da aurora ou do espírito – mas a frase tem-se perdido em corridas a apetitoso e abundante petróleo e maquinações que soltaram por lá a revolta e acordaram por cá uns monstros sanguinários.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Estamos na 3ª GG ?

guerra.jpgE entraremos nela de manso, tão devagarinho que pouca atenção suscita? Apenas uns fulanos tidos como lunáticos profetas da desgraça insistem que vem aí a Terceira Grande Guerra, mas não assustam sequer as criancinhas. Porém, de repente, milhões de refugiados (quando não se afogavam) cruzavam o Mediterrâneo e aportavam à Europa do tratado de Schengen e obrigavam o velho continente adormecido a acordar.
Realmente, vendo bem, havia lá longe uns fogos esparsos, a crepitar aqui e ali, onde cheirava a petróleo. Afinal, coisa pouca (apesar de envolver a Arábia Saudita e a Turquia, aliados firmes dos EUA). Até que o papa Francisco, apontando para a Síria, advertiu que a guerra agora estava a fazer-se aos pedaços.
Ninguém sabe nada desta guerra, apenas que já começou, e ainda menos que nada de quanto tempo vai durar e como irá terminar. A Segunda durou uns seis anos (1939-45) e, além das destruições materiais, de inenarráveis sofrimentos, ceifou uns 50 milhões de vidas. Mas pudemos descansar - prometia ser a última!
Todavia, as despesas militares mundiais têm vindo a aumentar desde 1998, atingindo já uns 45% apesar do fim anunciado da guerra fria. Segundo a ong SIPRI, de Estocolmo, a NATO continua no topo da despesa mundial militar, representando dois terços. Apenas 15 países gastam 80% da despesa militar mundial: EUA, China, Reino Unido, França, Rússia, Alemanha e Japão entre os oito restantes. Entretanto Washington anunciou há dias um aumento considerável da presença militar EUA nos países europeus que rodeiam a Rússia, de modo que o orçamento do Pentágono para 2017 vai crescer ainda mais.
Esta rematada loucura de tamanha corrida às armas é sustentada pelos contribuintes de cada país (e, por sinal, num período de acentuado recuo de crescimento económico geral, ou mesmo de estagnação, que parece atravessar o mundo inteiro). Tanta loucura é possível porque se processa sobre uma manta de amorfismo das massas passivas, desligadas da política e da participação cívica, que os lóbis dos fabricantes de armamento, pressionando os governantes, aproveitam. É esse o grande negócio do século XXI, mais apetitoso do que fabricar remédios ou traficar drogas, sexo e etc.
Evidentemente, ninguém deseja a guerra, mas países da Europa já a declaram como “guerra ao terrorismo” (de quem, contra quem?) sem disposição para reconhecerem o problema dos refugiados. Contemos nós os milhões de sírios, a somar aos milhões de palestinianos, afegãos, iraquianos e os tunisinos, líbios e etc. do magrebe que fogem das bombas.

Estamos realmente metidos noutra grande guerra? A Terceira? E onde soam uns sonoros e veementes clamores em defesa da Paz, pelo menos alguns, que não se fazem ouvir?

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Não sabem nem perguntam

petrol.jpg

O modelo único da informação jornalística apurou-se tanto que impera. Normalizado, espalha-se pelos jornais, canais de televisão, rádios, onde se atenuam e desaparecem as diferenciações caracterizadoras. Alterações do modelo corrente, estabelecido e consagrado pelas conveniências, tornaram-se desvios algo aventureiros não só prejudiciais, também perigosos.

A imposição crescente do modelo único da informação jornalística explicará decerto, por um lado, o motivo por que estão desempregados milhares de bons profissionais, e por outro, a indiferença crescente do público por essa monótona informação que, por exemplo, asfixia até à exaustão os jornais (impressos), obrigando-os a correrem para edições digitais. O público vai ficando privado de uma informação livre e plural, isto é, cada vez menos informado e mais desinformado por propagandas intencionais ao serviço de “causas” que envolvem estratégias inconfessáveis. Assim, a informação jornalística (pretensamente honesta, imparcial e objectiva) perde legitimidade enquanto função de relevante interesse social, enquanto, por outro lado, reforça nos leitores a massificação e o conformismo.
Eis como um jornal dito de referência sintoniza quase sem distorção as emissões de Washington e Nova Iorque. Escreve, em Editorial: “Haverá limites ao terror na Síria?” [Ali, os habitantes encontram-se] “entre duas formas de terror: o das forças de Assad, no poder, e o do autodenominado Estado Islâmico. Ambos atemorizam, intimam, matam, em nome dos respectivos fanatismos.” (“Público”, 18-01-2016)
A desmemória apaga o que ocorria na Síria há mais de cinco anos e agora parece contrariar o modelo único da informação. Já não lembra, sequer, que al-Assad, jovem, estudou medicina na Grã-Bretanha e que, no poder e com o seu país em paz, foi alvo de uma vasta campanha de acusações que começou por o declarar ditador, decerto porque o Pentágono e a Casa Branca não gostavam mais do homem, e depois, muito naturalmente, surgiram em Damasco manifestações populares, as manifes geraram alguma violência, a violência aumentou, aumentou ainda mais e rebentou a guerra civil (combatentes jihadistas no terreno de uma linha política anunciada, com armas fornecidas e pagas por quem?), guerra que destrói e já matou, ao que consta, mais de duzentas e cinquenta mil pessoas, enquanto não pára de empurrar a população síria para frágeis batéis através do Mediterrâneo. Refugiados na Europa que suportaram a guerra e Assad durante cinco longos anos de inferno!

É fácil, e cómodo, na informação corrente, igualar as forças do pretenso Estado Islâmico, que soltou os monstros, com as do governo sírio, que os aguenta; mas, vejamos, o que de relevante fica por explicar? Sem explicação ficam os que não sabem nem perguntam. Não sabendo nem perguntando, acabam por não querer saber – vão aos estádios, as novas catedrais, implorar o golo da vitória ou gritar em coro “Fora o árbitro!” “Grande ladrão!”

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Derivações da deriva

O dicionário dissipa quaisquer dúvidas: deriva é isto de ir à sorte, ao sabor das ondas; derivar é a acção que desvia uma coisa do curso natural, é afastar a coisa do seu rumo, apartar. Habituámo-nos neste mundo em convulsão a constantes derivas, dramáticas mudanças, alterações radicais. Acumulam-se tão vertiginosamente que o esforço maior é o da adaptação à mudança e não à compreensão do que mudou, de modo que as derivas quedam nebulosas, inexplicadas.

Todavia, algumas derivas resistem à mudança, parecem imóveis ou inamovíveis. Exemplo, a permanência da NATO (24 anos após a ex-União Soviética ter dissolvido o “seu” Pacto de Varsóvia acreditando decerto no fim da guerra fria), que interveio nos Balcãs em 1992-1995 deixando a Jugoslávia fragmentada, em cacos, entre os quais Kosovo avulta como eloquente símbolo. A NATO, organização militar liderada pelos Estados Unidos, confunde-se por vezes com a nação líder na visão de comentadores que apontam na sociedade americana a feição violenta e no exterior o seu comportamento belicoso, militarista, de potência agressiva, envolvida em frequentes guerras.
As intervenções no Vietnam e, mais remota, na Coreia, ambas terríveis, ficam quase sem memória perante a invasão do Iraque, em 2003, que o governo de Bush justificou com recurso a mentira e falsa propaganda. Nasceu então o alegado “terrorismo” (quer dizer, a agressão do “outro lado”, não a nossa), transformado em serviçal bandeira com o colapso das torres gémeas em Nova Iorque mais qualquer coisa no Pentágono. O que a retórica da anunciada “Primavera árabe” prometia viu-se logo: a Tunísia entrou em ebulição imparável, a Líbia idem, Kadafi acabou algures, misteriosamente executado, como Bin Laden ou Sadam Hussein.
Chegou a vez do Egipto. Em 2011, Morsi, da Irmandade Muçulmana, ganhou a presidência numas eleições muito saudadas que observadores europeus acharam livres e democráticas. Porém, não terminou ali o reinado dos faraós pois o general el-Sissi achou por bem substituir, em 2013, o presidente eleito. Na vizinhança, a Síria sofria martirizada pela guerra entre grupos fundamentalistas rivais…
A Ucrânia também realizou eleições consideradas muito livres e democráticas. Yanukovich foi eleito presidente mas uma certa agitação civil quis aderir à União Europeia até que obrigou o presidente a exilar-se. Evidentemente, esquecido da União, a Ucrânia viu-se com um governo descrito como pró-nazi.
Entretanto, o jihadismo espalhava fogo e sangue por Argélia e vários países africanos, o Sudão se dividia em norte e sul e a Arábia Saudita agredia o Iémen. Quem olhar para o panorama de tais derivas e não souber extrair do que vê a conclusão óbvia deve estar distraído por excesso de mentalidade tecnocrática (ou seja, sem ver refugiados, perda de direitos humanos, democracia, segurança, bem-estar). Tem cunho americano reconhecível e ocupa o lugar matricial deixado pela cultura humanista abandonada pelo ensino geral europeu.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

O petróleo do séc. XXI


Opinião piedosa será a que pretende justificar a televisão e a imprensa ocidentais que se recusam a mostrar imagens das terríveis destruições de pessoas e bens realizadas dia a dia em variados países somente para poupar as populações às cenas de tamanhas violências, tão atrozes sofrimentos. Mas a comunicação social não abdica da sua função por piedade em intenção dos seus públicos, sim por indiferença por quem sofre. O mundo enche-se de horrores entrando na terceira guerra mundial e os públicos esperam que a valsa continue nos salões onde nada mais pode acontecer.
Entretanto, acontecem maravilhas absolutamente extraordinárias que ligeiríssimos reparos merecem. Veja-se: o petróleo, energia fóssil que continua a subordinar as economias mundiais, tem mantido o preço quase pela metade apesar de – eis a primeira maravilha - o seu custo de exploração tenha saltado para cima tanto quanto os furos extractivos caíram para a fundura. Agradados, os consumidores finais só lamentam que o preço do produto no mercado não acompanhe o seu embaratecimento.
Todavia, a exploração do petróleo prossegue em alta, indiferente tanto à quebra dos lucros quanto ao problema gerado pelos combustíveis fósseis no ambiente planetário. Estará a dar prejuízo? Uma ONG anuncia agora que o Fundo Monetário Internacional (FMI) declara que os países industrializados gastam mais em subsídios para combustíveis fósseis do que em saúde - uns dez milhões de dólares por minuto!
Com efeito, os países industrializados já acordaram em subsidiar os países mais pobres com cem mil milhões de dólares por ano, até 2020 – oceanos de dinheiro que, naturalmente, os contribuintes desses países vão pagar. Mas há cientistas que responsabilizam os combustíveis fósseis pelas catástrofes climáticas, prevenindo que estas se agravarão a partir de 2020. Nesta base, os países pobres exigem aumentos sucessivos das contribuições…
Aliás, os países pobres, exportadores de outras matérias-primas importantes que baixaram de preço no mercado internacional tal como o petróleo, ficaram com as suas economias desbaratadas. O mundo inteiro parece ter entrado numa estagnação económica expansiva e crescente, transferida por capilaridade, traduzida em desemprego, pobreza e maior desigualdade social que avassala os povos dos países emergentes e já atinge os industrializados. Venezuela, Irão, Angola e Brasil, nomeadamente, apertam o cinto que, apesar de tudo, para a Arábia Saudita, grande amiga da América, continua largo.
Suprema maravilha estará em concluir que forças poderosíssimas são capazes de assim condenarem o mundo. Não têm nome nem rosto visíveis em público. São um por cento do tal um por cento de que nos fala o Outro – conhecem?

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

O mar bate-nos à porta

Tornados, furacões, inundações, secas, vagas de frio, ondas de calor – estes e outros fenómenos climáticos extremos repetem-se e vão sendo já habituais onde mal surgiam. O clima está a mudar, diz o povo, e o facto parece incontroverso porque é objectivo. É o aquecimento global, acusam, mas os climatologistas discutem e não se entendem.
Tão-pouco concordam com eles outros cientistas que também estudam as mudanças ambientais e até declaram desacreditada a ciência do clima. O entrechoque das opiniões alarga-se, argumentos e contra-argumentos espalham nuvens de poeira pelo ar, desorientando as populações que só percebem que realmente algo mudou e pressentem a enormidade do perigo. Entretanto, o consumo das energias fósseis já se projecta até 2030 sem diminuição de vulto porquanto a exploração dessas energias poluentes avança por cima dos recursos mundiais onde quer que estejam com apetite voraz quase feroz.
O simpósio internacional realizado recentemente em Varsóvia, Polónia, para “actualizar” o protocolo de Quioto adiou soluções e pouco mais. No entanto, o relatório de 800 cientistas de todo o mundo publicado no fim de Setembro por uma agência da ONU, que avaliou as alterações climáticas, deixou claro que os meios tecnológicos mundiais da geoengenharia (para enterrar o CO2) pouco ou nada podem dadas as suas reais limitações. O aumento previsto das temperaturas médias globais provoca alarmes dramáticos: sobem um grau, dois, três, ou quatro, até 2030, 2040, ou mesmo 2100?
Fechados no seu egoísmo, países e governos, sob pressão de poderosos interesses instalados, justificam-se uns com os outros na retórica e na rotina do deixa correr. De facto, torna-se cada vez mais claro que é todo o modelo de desenvolvimento mundial que está no centro do problema a reclamar solução urgente e capaz. Nesta base, com bom motivo se alvitra a criação de uma espécie de “Conselho de Segurança Climático” para dar força executiva à ONU.
Não é possível continuar a avançar pelo mesmo caminho, realmente cego, sem medir todos os riscos, no mínimo sem atender ao princípio da mais elementar prudência (ou a humanidade terá outro Planeta Azul à sua espera?) As mudanças climáticas vão alterando o regime das chuvas, a subida das temperaturas médias vai estender a desertificação e prejudicar as colheitas. O degelo de colossais massas de gelos polares e o aquecimento originam mudanças ainda pouco avaliadas e farão subir o nível dos oceanos (e será só 1 metro até 2100?!)…
Em Portugal, país com um litoral grandemente exposto à erosão marítima [ver em “Etiquetas”: erosão], as questões ambientais despertam sempre pouquíssima atenção. E agora, mais uma vez, ondas gigantes e marés vivas flagelam a costa neste período invernal, esburacando-a com surpreendente energia. E de novo os governantes de turno visitam os danos e prometem milhões para gastar em obras de protecção que mais e pior invernia vai destruir deixando o mar a bater-nos à porta ou já dentro das nossas casas.

sábado, 17 de novembro de 2012

Energias fósseis vão durar?

Vozes credíveis vinham avisando: o declínio da exploração mundial do petróleo iria acentuar-se nos próximos tempos. A quebra não se deveria só ao período de recessão socioeconómico em que se afundam tantos países e sim, principalmente, às reservas naturais planetárias que estariam a esgotar-se. Mas temos agora a novidade: o futuro das energias fósseis ainda parece radioso.
As explorações correntes do crude estão de facto a estagnar e a diminuir até à exaustão final. Porém, a quebra sofrida por esse lado vai ser compensada por outro. Depois de se atreverem a explorar os próprios fundos oceânicos, descendo até profundidades consideráveis (e perigosas: os custos ambientais tem sido enormes, mas a BP paga-os baratinho, por 4,5 mil milhões) e de avançarem sobre o Alasca, os capitães da indústria descobrem petróleo e gás natural em areias betuminosas e mesmo em rochas.
Essas novas áreas de exploração tornam-se viáveis e mesmo apetitosas decerto porque a cotação do produto vai trepar pela escala acima. Mas outra novidade se anuncia: neste quadro, os Estados Unidos irão ocupar o lugar cimeiro da produção mundial das energias fósseis no decurso de uns vinte anos, dispensando então, completamente, o recurso atual à importação. Consequências?
Se tal vier a acontecer, teremos o planeta condenado por mais umas quantas décadas a queimar energias fósseis e portanto a acumular os gases causadores do conhecido «efeito de estufa». Por outras palavras: a «economia do petróleo», adaptada à situação, continuará a expandir-se. Poderá dizer-se, assim, que o século XX, conturbado como ficou por esta «economia» tão cega, agressora e poluente quanto se sabe, irá alastrar através do século XXI.
O planeta inteiro será empurrado pelo «império do petróleo» para um verdadeiro cataclismo ecológico, com mudanças dramáticas que atingirão desgraçando inevitavelmente milhões de habitantes. A própria fisionomia de muitas zonas naturais sofrerá destruições apocalípticas às mãos gananciosas dos capitães da indústria. Se o governo dos EEUU o permitir, serão eles - bichos homens, com perdão dos bichos - os únicos a rir-se, sentados na hecatombe em cima dos seus novos milhares de milhões. [Foto: mancha de petróleo no Golfo do México, EEUU, derramado por plataforma da British Petroleum.]

domingo, 24 de junho de 2012

(In)sustentabilidade

Esperava-se um pouco mais que nada da cimeira no Rio de Janeiro que debateu a sustentabilidade. Não houve, portanto, desilusão. Fica apenas a preocupação quanto ao futuro do nosso planeta cada vez mais ameaçado por milhentas loucuras a trepar por solos, mares e ares durante mais dez anos.
A Terra, suporte vital da humanidade e mesmo habitáculo único que podemos ter no inóspito espaço celeste, acumula tantas agressões e desgastes que os sinais de alarme disparam nos mais diversos sentidos. Não é possível continuar por este caminho, é urgente pôr travões a fundo nas quatro rodas, mas os senhores do mundo, à frente de governos e das grandes corporações, limitam-se a discursar e a sorrir para as câmaras.
O planeta precisa de um governo global capaz de responder eficazmente à situação. Mas onde pode estar ele? A ONU, por infelicidade, caiu nas mãos do poder maior e não tem substituição entre quaisquer organizações internacionais existentes de âmbito regional; a NATO, aliança militar que perdura (apesar de ter desaparecido o «perigo comunista» e o Pacto de Varsóvia), agora talvez por causa da «ameaça terrorista», terá vocação para atear conflitos, não para resolver problemas da sustentabilidade planetária.
Todavia, a exploração dos recursos naturais não renováveis atingiu pontos já sem retorno. As delicadas cadeias da biodiversidade entram em ruptura, problemas endémicos como a pobreza (associando fome, miséria, doença) continuam sem paliativo e os conflitos armados  que se renovam por ali e acolá onde cheire a petróleo somam-se às destruições resultantes das catástrofes naturais. O aquecimento, tão discutido e negado por «cientistas», tem retardado o recurso às energias renováveis, mas sendo hoje ponto assente, resta aos  profissionais da opinião esperar com fé de que a Terra se regenere para lhes dar razão.
Vai sendo tarde, irremediavelmente tarde, para muita coisa decisiva. A crise socioeconómica que contagia países e continentes, impondo programas de austeridade e redução dos consumos, atenuará, nos próximos tempos, alguns dos efeitos nefastos da (in)sustentabilidade. Será porém escasso o alívio.
Demonstrada fica a loucura que coloca o planeta inteiro em poder de quem o arrasta às cegas, de orelhas moucas, para o abismo.  É preciso um governo que garanta a sustentabilidade do planeta e onde, e como encontrá-lo? Aflição!

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Cristãos em guerra santa

Os foles da guerra acordaram e sopram com força nas brasas. Estão a ficar rubras, a crepitar, a incandescer. É a guerra anunciada por Samuel P. Huntington, o entendido que em 1996 prevenia do «choque de civilizações» quando a pancada já nos batia à porta.
Na Europa, na América, umas velhas diferenças religiosas existentes entre as populações do mundo servem de repente para provocar temores e terrores contagiosos como a gripe. A cristandade agita-se: a torre Eiffel, símbolo da cultura francesa-europeia, aparece em sonhos de pesadelo encimada por um quarto crescente, e o novo eleito da Casa Branca com pele não branca abisma certas imaginações em terrores e suores frios.
O perigo, agora, é o Islão, que alarma o Ocidente com uma monstruosa subversão, um apocalipse arrasador. Que fazer? Cruzam-se as mensagens nas correntes da Net, expande-se o pânico: na Europa os muçulmanos são já 50 milhões, este nosso continente será islâmico em poucas décadas e então até poderá mudar de nome e chamar-se Eurábia!
E o Islão invade a América. Veja-se o Canadá, um mero exemplo, onde em 2001 já havia 400 mil muçulmanos com 80 mesquitas. E sucedem-se as conversões, imagine-se, de cristãos virados para essa ideologia política e religiosa...
Com este discurso delirante, aplaude-se a repressão decidida por governos europeus que proibiu a construção de nova mesquita ou mesmo o uso do simples véu islâmico na rua. As vagas de imigrantes magrebinos vindas ao assalto do nível de vida europeu são encaradas como ondas de choque interessadas em consumar a subversão do Velho Continente (de população envelhecida e fraca reprodução). Alega o discurso: o islamismo é uma «falsa religião da paz», atente-se na jihade, a guerra santa pregada pelo Corão (mas, diz quem sabe, guerra não maior do que a Bíblia ou a Tora)...
A bandeira da luta contra o terrorismo, assim desfraldada ao vento, liberta um cheiro a petróleo que tresanda e não deixa ver aos bons olhos cristãos o influxo que a cultura árabe deixou na península ibérica após a queda do Império Romano, sem dúvida valioso e marcante. E faz por esquecer que os «invasores» souberam ser pacíficos coabitantes e as posteriores guerras santas lançadas para «libertar Jerusalém». Mas os factos da história e da atualidade acabam por se impor.
Foi preciso que milhões de pessoas se juntassem, derramando sangue, a exigir liberdade e democracia na Tunísia e no Egito para que os respetivos governantes ganhassem por cá o merecido rótulo de ditadores e corruptos. Barafustando corajosamente, os povos da orla mediterrânica, do Magrebe ao Médio Oriente, demonstram por fim que são governados por tiranos brutais, e não apenas na Líbia. Graças a essa luta, podemos avaliar agora quanto a Europa e a América têm dependido da exploração desses países, exploração vital para estes nossos níveis de vida sustentados por povos empobrecidos, desempregados, esfomeados e oprimidos por governantes afinal execráveis...

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Vem aí a III Guerra Mundial

Apelos pacifistas percorrem o mundo. Multiplicam-se em todos os sentidos, num crescendo de alarmes angustiados. Os motivos saltam à vista: antes o mundo estava perigoso, agora está ameaçador, eis a III Guerra Mundial a bater-nos à porta.
O sistema global do capitalismo «ocidental» afundou-se  numa crise que lhe põe à prova as estruturas e os próprios alicerces. Conseguirá o sistema enfrentar e resolver a crise mantendo-se como é? Ou terá chegado a hora suprema de se regenerar?
Mas poderá o capitalismo - sistema velho, ancilosado e exausto - ter forças para verdadeiramente se regenerar? Pode o «selvagem» civilizar-se? Opiniões das mais esclarecidas são terminantes: a única saída dentro do sistema será sempre a da solução bélica.
Assim foi ao longo da história (e convém lembrá-la em atenção às semelhanças da conjuntura internacional desta crise com, por exemplo, a da época do grande crash): desemprego, inflação, governos empenhados em políticas de direita e mesmo racistas, quebra dos ritmos de atividade económica normal, desamparo social, incremento das indústrias de guerra, massas populares asfixiadas por propagandas asfixiantes, insegurança quotidiana... 
Assim foi com o nazismo e o fascismo nos anos '30, e assim decerto se irá repetir a desgraçada experiência da conflagração mundial de 1939-1945. Justificam-se, pois, os veementes apelos à paz lançados por entre os augúrios da próxima calamidade ainda que, mais uma vez, poucos queiram acreditar em tais avisos de Cassandra. De facto, Milan Kundera é certeiro na ideia de que a perda da memória das dores e das destruições sofridas numa guerra é que torna possível a repetição de tão medonha loucura.
Mas o capitalismo do século XX, alimentado a petróleo tanto quanto se sabe, vê a sua economia a descambar. Depois do desastre do golfo do México, a exploração das energias fósseis torna-se mais problemática, cara e difícil. Todavia, o Irão possui umas jazidas apetitosas (10% das reservas mundiais e de qualidade excelente), e o Médio Oriente (Síria, Líbano, Jordânia...) ainda tem muito para dar aos amigos de Israel que sorriem para os chefes da NATO.
De modo que chegamos a isto. Lamentando a sorte da Cassandra mitológica que augurava sem ninguém convencer, enquanto decorrem os preparativos finais para a guerra - que será nuclear. Recordemos então o aviso deixado por Albert Einstein: «Não sei com que armamento se combaterá na Terceira Guerra Mundial, mas na Quarta Guerra Mundial combater-se-á com paus e pedras.»
E os guerreiros serão uns desgraçados trogloditas, sobreviventes do holocausto nuclear, regressados à Idade da Pedra depois do «século do petróleo». Eis-nos a caminhar em frente, a cantar a vitória do último jogo de futebol e a discutir o melhor treinador mais precioso e capaz de afirmar a honra nacional.
Abrimos as portas e os braços para acolher de olhos fechados os horrores que não queremos ver até que nos caiam em cima e seja tarde demais. Pouco falta para que as autênticas liberdades sucumbam e alguém grite «Viva a morte». Outro alguém apontará então a pistola ao último defensor que se atreva a falar de inteligência, cultura ou humanidade.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

O petróleo envenenado

Agora que as reservas mundiais do petróleo estão prestes a esgotar-se e que as do gás natural irão ter a mesma sorte, vemos chegar as mudanças. As energias renováveis aparecem como grandes «novidades» embora sejam velhinhas de um século. Chega assim a hora de começarmos a perceber toda a destruição que o famigerado «ouro negro» deixa no planeta.
É preciso juntar o que vamos sabendo. Lembrando o acidente no golfo do México, os milhões de barris vomitados no mar, soubemos há dias pelos jornais que os pescadores que limparam o petróleo derramado pelo «Prestige» nas costas da Galiza, em 2002, apresentam alterações de ADN e, além disso, têm queixas pulmonares. Ora o desastre na Galiza, ocorrido há oito anos, adverte para o que está a acontecer desde há meses no golfo do México e zonas costeiras abrangidas.
Nestes termos, ganham consistência os estudos que anunciam efeitos absolutamente catastróficos a declarar-se na área do golfo em resultado do acidente na plataforma da BP. A poluição lançada pelo colossal derrame vai dizimar a fauna e flora marítima, envenenar o ar e as terras envolventes. Prevê-se que milhões de habitantes tenham que partir dos litorais contaminados (desertificados) e serem acolhidos como refugiados, algures.
Trata-se, afinal, de uma verdadeira hecatombe, como se houve explodido ali uma potente bomba nuclear. O espanto, mesmo a incredulidade, acolhem de início tão graves sentenças? Olhemos, então, para o caso dos pescadores galegos que trabalharam na recolha dos derrames (pois não mais poderiam pescar) e têm agora alterações de ADN (que pode continuar idêntico mas com funcionamento diverso)...
Vamos podendo saber umas coisinhas e, juntando-as, chegar a conclusões - o que não é proibido e talvez até seja sinal de inteligência e consciente cidadania. Sabemos, ouvimos e lemos, por exemplo, que já andam dispersos em águas marítimas bocadinhos de plásticos microscópicos que os peixes ingerem... e nós podemos comer. A pureza das águas dos abastecimentos públicos e o ambiente respirável das cidades levanta dúvidas ou sérias reservas.
Os biólogos marinhos detetam crescentes anomalias nos sistemas reprodutores dos animais. Notam hermafroditismos ou ausências de definição sexual (condição para um animal se reproduzir), e outras malformações. É impossível não lembrar, neste quadro, o alastrar das baixas taxas de natalidade humana... e, porventura, a voga atual de certos comportamentos sexuais.
Logo, porém, é impossível parar. Outras lembranças se precipitam sobre quem não ignore as concentrações de chumbo, de mercúrio e outros químicos perigosos: os generalizados insucessos escolares, enfraquecimentos da capacidade de concentração, hiperatividade infantil, baixas alarmantes de natalidade... O petróleo, que envenenou o século XX com guerras e poluição, apenas principia agora a mostrar todo o potencial destruidor do qual brotou - dentro do efeito de estufa - uma gigantesca concentração da terrena riqueza não menos perigosa e poluente.

sábado, 4 de setembro de 2010

Água em garrafas de plástico

É curioso ver como certas mensagens em circulação se anulam umas às outras num despique que não aproveita a ninguém. Amigos solícitos distribuem uns avisos que nos previnem dos perigos que corremos ao consumir a água da rede pública, outros avisos alarmam-se com a «pegada humana»: as montanhas de vasilhas de água feitas de plástico a crescerem no planeta. E ninguém sabe como viver sem abastecimento de água canalizada nem exige aos respectivos governos que imponham aos vendedores de água, por lei, o uso de garrafas de vidro, material reciclável.
Os avisos são terminantes. Quem bebe da rede pública ingere, segundo lemos, um quilo de fezes num ano. Resposta risonha, a sair da manga: bebamos vinho!
Não brinquemos, então, com assuntos sérios. Porque a água dos rios que alimenta as redes públicas contém, além de restos excrementícios, vários poluentes químicos de elevada perigosidade e a esses as análises laboratoriais correntes teimam em não ligar. A poluição dos plásticos, derivados do petróleo, acrescenta-se na água aos outros elementos poluidores... e não são apenas cancerígenos.
Estamos, sem dúvida, sujeitos à poluição acumulada na atmosfera e na terra que nos dá de comer, mas lembremos que cerca de três partes do nosso corpo são compostas por água. Na base deste problema planetário gigantesco aparece em grande plano a matéria prima que transformou o século XX  no «século do petróleo». Ora as reservas mundiais estão gastas mas ainda não esgotadas, sendo de esperar, portanto, que o «século XX», com todas as suas tresloucadas tinetas, se prolongue com mais guerras, destruições e poluições ostensivas em prol de uma exploração capitalista cega e predadora.
Os malefícios gerais derivados da exploração petrolífera global são sem dúvida muito superiores e muito mais graves do que é voz corrente. Não o sabe a opinião pública generalizada porque as poderosas centrais que manipulam a informação global continuam ao serviço, filtrando (isto é, censurando) os factos «inconvenientes», a exemplo do que ocorreu com os malefícios do tabaco, tarde e a más horas reconhecidos e assentes. Mas um dia, outra vez tarde e a más horas, iremos deparar-nos com a realidade real do que foi, preto no branco, o calamitoso século XX, o do petróleo.
A Europa perdeu então o seu protagonismo.  E não só. Assistiu a guerras e conquistas abjectas, destruições criminosas, pilhagem de recursos não renováveis, imposições descaradas da força como lei quando tal convinha, redução e amesquinhamento da vivência democrática e da cidadania popular, promoção de políticos cada vez mais «cinzentos» ou mesmo medíocres para lugares cimeiros, desaparecimento de Mestres prestigiosos capazes de brilhar pela cultura humanística, o pensamento e a ética social...
Este século XX ainda não acabou porque o mundo se alimenta ainda de petróleo (até quando?!). O que foi e o que valeu no manicómio dos mais loucos comportamentos está à espera do historiador realista que lhe pinte o retrato. Essa será a herança hedionda pela qual as novas gerações julgarão e condenarão as anteriores - declarando-as estúpidas, feias e más.

NOTA ESPECIAL
Quem escreve esta coluna, sendo aprendiz confesso da vida, não é especialista em coisa nenhuma. Aqui, ao versar uma diversidade de assuntos, como é seu hábito, tem o cuidado de previamente se informar em fontes credíveis antes de botar sentença. Nesta base, divulga conhecimentos de interesse geral que os media tendem a silenciar mas que um jornalismo independente deveria informar. Sim, os media alarmariam as populações, mas cumpririam o seu dever! Porque o desafio, hoje, é: venha a esta coluna, daqui a dez, quinze ou vinte anos, alguém que leia e aponte onde o cronista errou no que anunciou ou, digamos, previu no que estava à vista no seu tempo!