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segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Em nome da Democracia

Está visto, a Democracia não é como a pintam quantos a erguem como bandeira para remar até à ilha dos seus amores. O sistema democrático pode aparecer em certos momentos, aqui e ali, com geometria variável, sem ofender a consigna básica forjada em Paris pelos revolucionários da Comuna. Não pode é perder ou deixar subverter a consigna suprema que a identifica como sistema assente no poder do povo, pelo povo e para o povo.
Os movimentos políticos de direita sempre quiseram colorir-se de algum matiz democrático, isto é, sempre quiseram afirmar-se “democráticos” por mero oportunismo demagógico. No fim de contas, todas as políticas e todos os partidos reivindicavam o rótulo nas suas propagandas e estratégias eleitorais ainda que beijassem a mão à minoria social e penalizasse duramente a maioria popular. Ser “democrático” acabou por soar tão vulgar como um lugar-comum, nada a levar a sério.
Porém, a irrupção dos alegados populismos na Europa e na América acordou as inteligências bem-pensantes dos cosmopolitas e outras figuras das elites ocidentais para o perigo nascente. Continuam a defender a globalização (ou seja, a liberdade de comércio para fruição das empresas transnacionais, bancos e fundos financeiros omnívoros; logo, não promove a interdependência positiva das nações) e a Comunidade Europeia mas confundem líderes ditos populistas de direita radical com líderes de esquerda autenticada. Confusão nada ingénua, muito lamentável.
Um sistema pratica a democracia na medida em que, realmente, outorga o poder efectivo à maioria dos cidadãos cuja vontade teve expressão política em liberdade. Acusar de “populismo” um líder que se dispôs a escutar os anseios e apelos populares e sai vitorioso, com maioria eleitoral, é propaganda antidemocrática, argumento ilegítimo e balofo. Assim se explicam as estranhezas que tornaram a surgir com a recente eleição de Donald Trump nos Estados Unidos, não com base na contagem dos votos populares mas sim na soma de uns 280 votos dos Grandes Eleitores estaduais, apenas!
É, portanto, na expressão da vontade popular (quando erra aprende com o erro) e na consequente concretização prática das reformas, revolucionárias quando necessário, que poderemos encontrar o índice democrático presente e envolvido. É, enfim, o sistema (denegrido, suspeitoso) do povo, para o povo e pelo povo. Autêntico, desnudado, sem rótulos enganadores ou roupagens “democráticas”.
Vejamos. Uma democracia (é o que mais está a faltar; abunda, sim, a desigualdade – e para onde foi a fraternidade humanista?), bem desenvolvida, pode avançar até atingir o socialismo integral completo - essa magnífica utopia. Será a realização da temida democracia directa que, qual vento gélido, eriça o pêlo a tantos fervorosos “democratas” de aviário?

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Elites em falência

Finalmente, a acumulação de elementos que anunciam a eclosão de uma tempestade perfeita a desabar sobre o Ocidente começou a ser notada. Vozes de bom aviso apontam semelhanças da situação que está a desenhar-se após a eleição do novo presidente estado-unidense com o período histórico vivido nos anos ’30 do século XX. Um calafrio percorre as bolsas de meio mundo.
Ora eu, nascido em 1930 (adolescente no fim da Segunda Grande Guerra, que acompanhei ouvindo a BBC e lendo jornais), julgo ter sentido ainda alguma coisa da Grande Depressão no pós-guerra. Lembro também a Europa de então: fascismo e nazismo, ditadores em Portugal, Espanha, Itália, Alemanha; direitos fundamentais banidos, atraso, repressão, desemprego, miséria, fome. Os intelectuais queriam-se deveras ao lado do povo mas naquele tempo as massas populares estavam irremediavelmente entregues a si mesmas: não havia redes sociais, qualquer fonte de informação alternativa.
Eis como os anos vividos sob os terríveis efeitos do Crash se distinguem do nosso tempo. As elites ocidentais distanciaram-se largamente das massas populares, no Reino Unido votando o “Brexit”, sentando na Presidência dos EUA Donald Trump e, na Europa, apoiando partidos, políticas e líderes de extrema direita. Assim se compôs um quadro inquietante, alarmista, que desperta por fim para a necessidade urgente de mais economia, mais economia – e como?
As elites (intelectuais, políticos, académicos, cosmopolitas) traçam neste quadro a linha de uma clivagem fundamental: aderem à globalização, à União Europeia e à moeda única; são-lhes indispensáveis os EUA e a NATO à “defesa do mundo livre”. Repudiam, portanto, a saída do Reino Unido da EU e a política antiglobalização de Trump, contrária às “parcerias” comerciais (que convidam as transnacionais a deslocarem-se em busca de baixos salários e transforma a nação antes exportadora em importadora). Neste “proteccionismo” dito populista encontrou Trump o seu maior trunfo eleitoral.
As elites não aderem à direita nem à extrema esquerda, preferindo claramente não arriscar navegando ao centro no mainstream. Misturam populistas e líderes de esquerda num mesmo saco (em lamentável confusão com ditadores) Al Sissi, Recep Erdogan, Putin, Xi Jinping, Kin Jong-un ou Nicolás Maduro. Estarão hoje estas elites verdadeiramente ao lado do povo?
As massas populares (a maioria que elege políticos, partidos e governos, onde tem raiz a democracia que tantos reduzem a relíquia-miniatura a exibir na lapela) estão desligadas dos intelectuais virados para a globalização; sentem a pátria debaixo dos pés, acreditam ora em populistas de direita, ora de esquerda. As elites preferem olhar para o alto, levitam na alta cultura, já nem se lembram do hino nacional. Estão em falência.

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Os cosmopolitas avançam

Multiplicam-se velozmente. Aparecem, abundantes, nos aeroportos, cruzam os céus a caminho de Londres, Nova Iorque, Paris, Tóquio, Vancouver… e quando regressam já estão de partida. São viajantes incansáveis, autênticos cosmopolitas.
Encontram interlocutores em qualquer cidade, têm estatuto académico, brilham em colóquios e areópagos internacionais onde se engendram grandes estratégias, conhecem os principais hotéis e museus do mundo. Já participaram de um governo ou estão em fila de espera, e falam fluentemente pelo menos três línguas. A primeira é a novíssima língua franca (o inglês, naturalmente), dado que os cosmopolitas se querem sintonizados com o quotidiano nova-iorquino e, o mais possível, o pulsar da potência americana.
São defensores aguerridos da globalização em curso, de modo que apoiam o famigerado TTIP que pretendia pôr as multinacionais americanas a mandar discricionariamente nos países europeus, tal como aquele mesmo tratado de comércio, na versão CETA, entre Canadá e União Europeia, que acabou desgraçadamente por ser assinada. Coerência deles: recusam nacionalismos, fronteiras, alfândegas.
Parece que pretendem o mundo inteiro aberto e livre de peias para os grandes monopólios transnacionais se expandirem e poderem agir à vontade. Vêem tão alto e tão longe que não enxergam a inovação que vai arruinar em cada país a agricultura, as comunidades rurais, as pequenas e médias empresas, o pequeno comércio, fazendo disparar o desemprego, a pobreza e a miséria. A sua visão é a de quem vê o mapa da janela dos seus voos a jacto.
Os cosmopolitas evocam talvez uns antigos “cidadãos do mundo”. Mas a comparação falha porque os cosmopolitas aparecem desprovidos dos “idealismos utópicos” que impregnavam os “cidadãos” em meados do século XX. Contraste marcante: o humanismo de uns foi substituído pela tecnocracia nos outros.
Sabem a cartilha toda escrevendo e publicando crónicas, artigos, ensaios e conferências sobre questões cruciais. Ninguém dirá que têm ideias políticas de direita e, ainda menos, de esquerda. São por uma democracia de largo espectro, que se basta com dois partidos alternantes no poder e algumas reformas cosméticas.
Curioso e sintomático: questionam a existência da pequena burguesia, ou classe média, que não reconhecem corporizada na maioria da população nacional e base eleitoral legitimária das políticas governamentais, mas atestam a existência histórica da classe burguesa. Não se sabe o lugar certo onde sentam o clero e a nobreza (de sangue ou a nova, dos himalaias de riqueza). Talvez o mundo cosmopolita se componha e complete somente com burguesia e povo – o plebeu, a ralé dos patrícios do império romano…

segunda-feira, 4 de julho de 2016

Nacionalismo e patriotismo


bola.jpgOs políticos que mais se revezam nos órgãos informativos têm na boca, sempre pronta, uma palavra: nacionalismo. O termo tem significados e sentidos diversos, mas o contexto habitual das frases descarta a semântica. Ao nacionalismo invocado, sempre em sentido pejorativo, opõe-se o antónimo: globalização.

Aquela gente mostra-se inabalavelmente convencida de que a globalização - nas ideias, nas mentalidades, nos comportamentos - é o único caminho a seguir por nações, empresas e cidadãos para progredir e prosperar neste nosso abençoado tempo. São políticos iluminados por grande experiência de vida, que já integraram governos ou aspiram a ter lugar num próximo a formar e que sabem colocar-se em posições estratégicas para vencer. Não têm dúvidas: este tempo é de globalização, ou melhor, de competição.
O nacionalismo foi assim arrumado na prateleira dos conceitos desprezíveis, obsoletos ou quase bacocos por quantos vêem Nova Iorque no centro do mundo e Washington como sua metrópole ideal. Mas, sem nacionalismo, sem nacionalidade, onde pára, onde pode aparecer o patriotismo? Por que motivo este sentimento está a ser tão radicalmente expurgado do discurso politicamente correcto?
À evidência, abunda “patriotismo” futebolístico. Bandeiras nacionais flutuam ao vento por todo o lado, em apelos para que Portugal vença o campeonato e ganhe a taça. Posso testemunhar: nas ruas da minha cidade, quase desertas nas horas do jogo, ecoam gritos, brados, urros impressionantes - altifalantes e gargantas humanas em coro a vociferar a plenos pulmões.
De facto, somente formações políticas minoritárias, com reduzida expressão eleitoral, mantém patriotismo nos seus vocabulários. Hipnotizadas pelo golo na baliza, as massas populares deixaram-se alienar, ficaram sem pátria. Transformaram-se em “cidadãos da bola”, género novíssimo de cidadãos do mundo, esperando talvez que o futebol acabe com o desemprego, a pobreza do crescimento económico, a insegurança social.
Todavia, a globalização tem servido para quê? Para os milhões dos ricaços viajarem pelo mundo sem passaporte e se esconderem nos paraísos fiscais. Para deslocalizar empresas e explorar mão-de-obra barata, sem direitos e tantas vezes infantil, inspirando por cá, na União Europeia, os défices orçamentais, prodigiosos cavalos de Tróia prontos para tudo menos arrancar unhas em vez de no-las ir cortando até ao sabugo.

O sentimento patriótico, livre de egoísmo e exaltações nacionalistas, isto é, educado na solidariedade internacionalista com todos os povos democráticos, requer o sentido da nação a que se pertence para poder nascer e animar o cidadão. Sem patriotismo nenhuma cidadania estará completa. Assim será possível que cada habitante deseje e trabalhe verdadeiramente pelo bem da pátria que é nossa.

quinta-feira, 7 de maio de 2015

O tempo da jogatina


Entrámos a valer no tempo da jogatina desenfreada. O que nos resta senão jogar tudo por tudo? Parece impossível perder mais do que já foi perdido, agora só poderemos ir ao jogo para ganhar.
Temos as velhas lotarias, as raspadinhas, os euromilhões, os casinos com roletas e slots machines, et caetera. O que faltava? A cereja no bolo: a legalização da jogatina online.
Evidentemente, abundam os concursos televisivos, telefonemas para números de valor acrescentado ou preços certos para cima e para baixo, mas isso pouca emoção dá, é como pedir factura com o NIF do contribuinte e esperar por carro topo de gama sorteado. Convinha melhorar a oferta e o (des)governo tratou disso. A legalização dos jogos pela Internet vai gerar impostos de uns milhões, para começar.
Sabe-se perfeitamente que os fregueses do jogo são da população de mais baixos rendimentos (pois a jogatina dos ricos é diversa). Por outras palavras, são da população mais pobre. Exactamente aquela que, tendo perdido, aposta que chegou o momento em que tem por força que ganhar.
Assim são convidados a supor os reformados com pensões de miséria, os jovens sem primeiro emprego e os desempregados sem subsídio nem requalificação profissional ou direito à reforma. Os empresários da indústria do jogo puseram a atenção nesta vasta freguesia e vão servi-la cada vez melhor. Basta um computador e ligação à Net, a sorte será lançada.
Porque… Vejamos! O que mais poderá fazer tanta população, tanta freguesia ávida de sorte?
O trabalho deixou de dignificar a pessoa, a própria conduta honrada se desvalorizou na bolsa dos valores sociais. O trabalho, o emprego que possa encontrar-se mal dá para comer. Amealhar, nunca; enriquecer, jamais.
Quem quer sonhar, progredir na vida, o que pode fazer senão virar-se para o jogo? Os programas da austeridade, que extinguem os empregos e baixam os salários, querem impor-se e durar tão brutalmente que no jogo aparece a luzir a derradeira esperança. E apetece aí arriscar os trocos que restam a desafiar a sorte.
Conforme a regra do jogo, uma imensa maioria de pobres paga para fazer um rico e continuar mais pobre. Todavia, uma parte do que pagaram fica retida, como lucro, por quem explora o jogo. Curiosamente, ninguém sabe ou quer saber a quanto monta esse lucro.
Mas é assim que o dinheiro corre pelas artérias e veias do sistema capitalista. Faz cada vez mais pobres, igualando-os na pobreza, e gera cada vez mais ricos, e outros ricos ainda mais ricos, e outros ricos mais ricos do que os ricos ricos. E rico sistema, incorrigível multiplicador das desigualdades sociais.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Semblantes esculpidos

Agora é muito difícil descobrir por aí um rosto de pessoa idosa que me dê autêntica vontade de retratar, disse ele. Encarei-o, estranhando, porque era uma frase singular de um amigo também já idoso. Conheciamo-nos desde os tempos da nossa juventude e ele, desde então, continuava apaixonado pela fotografia.

Gostava de fotografar semblantes de mulheres e homens bem curtidos pela vida tanto como detestava fotografar bebés e crianças. Procurava-os e descobria-os em romarias, feiras e encontros ocasionais, primeiro com o seu “caixote” Kodak de película em rolo de 6 x 9 cms a preto e branco, e em seguida com outras máquinas de mais evoluída técnica. Mas eram sempre figuras populares dos campos em redor que o atraíam, nunca habitantes do ambiente urbano homogeneizado.
Acompanhei, partilhando enquanto pude as suas artes como fotógrafo amador até que me cansei da novidade. Entretanto, andei a trocar máquinas e a enviar pelo correio os rolos usados para revelar, aprendendo a corrigir os erros que notava nas imagens impressas no papel e se nos amontoavam nas gavetas. Era o tempo de medir as distâncias focais, graduar a abertura do obturador conforme a luz ambiente, a velocidade do disparo… antes de haver flash como acessório, filme em rolo de 35 mm, filtros, diapositivos, projectores, Photoshop… e muito, muito antes da actual abundância de cameras digitais com tantos automatismos incorporados que só pedem que alguém carregue no botão.
O meu amigo queria captar os traços que numa fisionomia anónima vincam as marcas da sua especial humanidade. Desprovido de tais marcas, um rosto humano era para ele uma página em branco: nada lhe dizia com notável interesse, ao modo da carinha de elegante e sedutora rapariga, bonita de ver ou mesmo desejar, e ponto final. Decerto por isso, repetia, citando Balzac, que todo o homem com mais de trinta anos é responsável pela cara que apresenta.
A frase que acabava de lhe ouvir puxou-me pela memória. Acordou-me. O meu amigo parecia lamentar a raridade, talvez a desaparição, das “suas” apreciadas fisionomias de uma gente de trabalho honrado e sofrido que tinha o olhar claro e sereno posto no futuro sabendo da vida o bastante para aceitar com estoicismo o que não tem remédio e rir-se a mangar do que afinal não tem remédio.
Compreendi o meu velho amigo. Este país deprimido cobria-se de seniores, porque os jovens saíam em massa, emigrando, e a natalidade baixava, deixando à vista o seu desgraçado e envelhecido povo. Um povo que teimava em resistir no seu pátrio chão, já sem as marcas viris de um heroísmo quotidiano sem tréguas afirmado na dignidade da sua condição modesta mas honrada.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Uma ignorância (in)feliz

Agora que o aquecimento global já acumula consequências ecológicas irreversíveis e os críticos do facto científico abandonam o combate tendo cumprido o seu papel ao distrair o mais que puderam as atenções, está o planeta a ser invadido por um arrefecimento não menos catastrófico. É um arrefecimento que podemos representar em cor azul, caso vejamos o aquecimento em cor vermelha. Mas esta outra mudança de temperatura não é de ordem da física; é mental, cultural, ideológica, política.
Todavia, é tão vasta, arrasadora e tremenda que está a alterar dramaticamente a existência quotidiana de povos de nações e continentes inteiros, a atentar contra as regras de coexistência entre as nações e a colocar sob ameaça crescente a paz e a segurança do mundo. Só uma mudança planetária tão radical poderia espalhar um esfriamento das mentalidades assim tão violento que impõe à História a transição para uma “outra” época. Os portugueses que iam nos vinte anos no 25 de Abril (1974) e sentem na pele os sacrifícios impostos pela “crise” percebem a mudança: o povo antes participativo e reivindicativo, alegre e solidário, de esquerda democrática, agora anda frouxo, ensimesmado, individualista, apolítico, interessado sobretudo em futebol, telenovelas e fados.
O tecido das relações humanas gerais deixa à vista a dimensão das transformações havidas em quarenta anos. O panorama social que este rectângulo ibérico então ofereceu passou de vermelho para azul - esfriou. E, no continente europeu, ou à volta, mais longe, onde aparece hoje um governo com políticas que não sejam de direita?
A indiferença pelo exercício dos direitos e deveres da cidadania estabeleceu-se como regra comum; o bem colectivo tornou-se abstracto; os governantes aproveitam-se e, em vez de cuidarem dos interesses legítimos de quantos os elegem, apoiam as grandes empresas privadas, bancos incluídos, agravando a pobreza e as desigualdades. Assuntos correntes da maior relevância ou significado, como a “censura” (ilegal) aplicada pela direcção do ISCTE ao último nº da revista “Análise Social” e ao seu director por causa de um artigo de teor político “abusador”, ou como a discussão, no Conselho Europeu, do TTIP, que propõe um acordo comercial entre a EU e os EUA e que vai anular completamente a soberania nacional a favor das empresas exportadoras, quase nem despertam atenções.
Um sinal de toda esta transformação, soprada de algures sobre os povos em transe, esteve diante de mim: uma linda rapariga com 23 anos e casamento à vista, licenciada a trabalhar a recibos verdes, conversou comigo. Quis convencer-me da sua ideia: que o “não saber é o seu caminho para ser feliz”. E não a convenci, ninguém a convence, de que, por tal caminho ela se condena a ser uma (in)feliz ignorante. [Foto do certame Amdan, 2014; autor não indicado.]

quarta-feira, 12 de março de 2014

Costumes bárbaros

Por favor, digam-me que estou a confundir os aspectos, a exagerar as proporções. Principalmente, deixem-me ao alcance dos olhos o que negue as sombras que os vai cobrindo de tristeza. Porque, para mim, não tem dúvida nenhuma, os nossos costumes entraram em decisiva barbarização.
A barbárie estendeu-se ao ponto de banir, por inúteis, dos comportamentos sociais da “cultura geral” massificada, preceitos e exigências mínimas de convivência humana. Antigas regras e maneiras preceituadas, varridas, deram lugar às errâncias de um voluntarismo desbragado que sobreveio das lacunas de formação. Vejamos: quem se lembra hoje dos guias, manuais e compêndios de civilidade, educação e boas maneiras que “toda a gente” leu até meados do século XX?
Eram leituras básicas, obrigatórias, numa época em que o sistema escolar e o ambiente familiar impunham deveres, gestos e estilos praticamente em todas as particularidades do dia-a-dia (à mesa, caminhando na rua, convivendo, escrevendo cartas) sob pena de grave sanção. Quem era ou queria ser “civilizado” seguia orientações aplicáveis a cada situação que, sem chegarem a ser “de etiqueta”, valiam como emblemas de boa educação compartilhada. Actualmente, a delicadeza demonstrada arrisca-se a valer como sinal de fraqueza, inferioridade ou subalternização perante um outro amiúde propenso a mostrar arrogância, superioridade agressiva, vontade de vencer, como avançados que, no campo de futebol ou jogando a feijões, rematam para ganhar, nunca para saírem derrotados.
Pela idade, tenho fácil memória dessas leituras comuns no meu período juvenil e, a propósito do tema, fui pela memória conduzido até um livro dos tais, O Perfeito Cavalheiro, assinado por Sevim Akmen e traduzido por M. Osswald (pseudónimos?; 317 pp., Porto, 1949). Folheei-o um pouco para sentir como se distinguem hoje, cruamente postas preto no branco, as duas épocas que levo de vida. Larguei-o, arrependido, ouvindo outros idosos em queixas porque não aturam “isto” e não têm mais mundo para onde fugir.
A competição acesa contaminou as mentalidades e os costumes. Se, caído do céu, um cavalheiro se revela aqui ou acolá, é encarado como figura saída de museu, relíquia talvez agradável mas também ridícula. O tempo já não dá para pieguices de bom-tom, o próprio índice de civismo nos espaços públicos baixou tanto quanto subiu a indisciplina nas escolas, a conflitualidade nos meios familiares, a violência nas relações laborais, o impudor nas promessas dos políticos…
Ora não é só a crise que faz reinar a competição; é o sistema socioeconómico de base (capitalista) que desumaniza as relações sociais e as próprias pessoas. Desvaloriza os indivíduos transformando-os em meros consumidores, “máquinas” produtoras-reprodutoras, simples peças descartáveis das bases de dados ou das estatísticas. Que lugar resta para a civilização em relações sociais norteadas pela regra do “cada um por si”?

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Sapateiro e político


Uma peripécia vivida ontem acordou-me a memória para uma reminiscência que me traz a sorrir. Vem muito a propósito. Por isso a descarrego e deixo aqui, dando-a como veraz lição de vida.
Naquele tempo, havia na minha comunidade de origem um sapateiro que punha cabedais de molho numa selha e depois os batia sobre os joelhos em pedra chata e redonda como uma broa. Quer dizer, era sapateiro à antiga que víamos no cubículo com avental de pele suja, sovela e fios na mão, sentado em banco baixinho, ao lado de mesinha coberta de ceras, pomadas, fios e formas, tachas e protectores. Fabricava botas e sapatos de encomenda para a vizinhança e botifarras e sapatinhos para as feiras dos arredores.
Eram muitos os talentos do homem (p. ex., bombo, caixa e pratos eram dele na banda que animava os bailes da região) e, humorista à sua maneira, abundava em picardias e matreirices. Quando um cliente lhe aparecia à porta a queixar-se de que os sapatos novos lhe magoavam os pés, recebia-o com irrepreensível gentileza. Estão apertados? Deixe-os aí, sim, sim, vou pô-los na forma e já ficam bem…
O freguês ia recuperar os sapatos, tornava a calçá-los e repetia a queixa. Ah, continuam apertados?! Mas já apertam menos, não? Sim, estão melhorzinhos, mas… Está bem. Vou metê-los outra vez na forma e alargá-los um pouco mais, até posso metê-los em água, com cuidado, é claro, para não ficarem largueirões...
Tornava o freguês a enfiar os pés no aperto, sofria com as bolhas nos calcanhares, até que em desespero voltava à loja do sapateiro. E ele, dando à sovela, admirava-se: Caramba, ainda não estão bem?! Vou metê-los outra vez na forma, vais ver que te assentam como luvas.
O homem não tornava a aparecer à porta com os sapatos na mão e queixas na boca. Nessa altura já os usara, sofrendo, uns tantos dias e os pés, calejados, tinham-se habituado ao sofrimento. Ou desabafara o seu calvário e alguém, caridoso, o prevenira da marosca.
Na verdade, o sapateiro não se inibia de contar as suas proezas aos mais próximos, gozando com a inocência dos fregueses que ludibriava. Prometia fazer e não fazia, pois os sapatos “apertados” ficavam ali, no monte, até a pessoa os buscar. Então pegava neles, passava-lhes a escova cuspindo e era capaz de sentenciar que todos temos nos nossos próprios pés umas formas ideais.
O sapateiro sabia meter em apertos a clientela que mal servia, convencendo-a a aguentar as dores com promessas que sabia tão incríveis que era o primeiro a divertir-se com elas. Acabou mal: sem fregueses, teve de emigrar e entretanto extinguiu-se o tempo dos sapateiros políticos para chegarmos a este desgraçado tempo de políticos sapateiros da classe mais barata, a dos remendões.

domingo, 24 de março de 2013

Um prémio por castigo


Mulher rica que caia na pobreza não é notícia, mas a pobre mulher do povo que nestes tempos agrestes arrisca duas moedas no totoloto e ganha 51 milhões já tem manchete. Aconteceu desta vez na zona nortenha do país. A sortuda, casada e com filhos, correu logo a Fátima com a família para agradecer à Virgem a colossal fortuna que lhe caía em cima da cabeça e, assim de golpe, virava o mundo do avesso.
Um mundo de loucura. A nova milionária, antiga empregada doméstica, junto com os familiares, têm agora que obedecer a rigorosas medidas de segurança (até escondeu a cara quando deu entrevista à tv) que os agentes lhes ditam: ninguém pode sair à rua, ir fazer compras, dar uma volta. Está presa dentro de uma casa nova, em local secreto, onde foi metida de urgência com a família e todos rodeados de gente estranha paga para os proteger.
E agora todos têm motivos para se perguntar, com genuíno espanto, se um prémio tão bom será castigo. Têm de se entregar, confiantes, a toda aquela gente estranha, seguranças e conselheiros de investimentos, gente desconhecida. E estão a ocorrer coisas absolutamente extraordinárias: o Estado também saiu premiado pois confiscou, do prémio, uns dez milhões de impostos; dizem que um governo de um qualquer país europeu, mandado pela Alemanha, vai confiscar uma parte dos depósitos bancários das pessoas como impostos para pagar as suas dívidas; o patriarca da Igreja daquele país ofereceu os bens da Igreja para ajudar a pagar as dívidas!
Nunca coisas tais aconteceram nos dias da vida! E a sortuda, reunida com os familiares, deita contas ao que lhes resta do bolo dos 51 milhões e já lhe parece pouco. Mas não, o problema agora é outro, o de conservar os milhões que restam a salvo de alguma expropriação legal ordenada por este governo também atolado em dívidas ou de um banco hoje seguro e amanhã falido.
As despesas e encargos da família crescem desalmadamente ainda que isso por ora não lhe doa. Dói-lhe é ouvir que enriqueceu à custa de milhões de pobres que apostaram e perderam no jogo e agora, sem compreensão pelos caprichos da sorte, até discutem a justiça divina ou os rios de dinheiro que saem do país para o jogo em troca de uns raros “camiões-cisterna” que cá entram quando entram. Roem-se de invejas miudinhas, ela conhece-as bem, mas… deixou de ser pobre!
Graças a Deus agora é milionária, quer conservar o que ganhou, pelo menos metade do prémio e com esses milhões ganhar outros tantos. Diz adeus à pobreza antiga, que recorda com crescentes saudades ao atingir uma conclusão. Mais do que ter monte de riqueza tão colossal que nem sabe avaliar, já sente que essa riqueza toda é que a tem a ela, bem amarrada, como fiel guardiã.

sábado, 19 de janeiro de 2013

Um povo incompreendido?


A folhinha não mente: a semana começa ao domingo, mas a ordem estabelece que a provação dos cinco dias entra à segunda-feira e logo de manhã. Uma pessoa sai então à rua de mau-humor, entra no café para ingerir o seu quente, escuro e perfumado viático matinal, aprecia o calor do ambiente e dos comentários aos resultados da véspera, solta uns remoques azedos pois continua mal-humorada e corre para o emprego, onde, com mais vagar, entra no fórum habitual que por ali já o espera…
É preciso comentar tudo, mesmo os comentários dos comentários e isso, que já vem da véspera, vai estender-se pela tarde e a noite, nos jornais e nas conversas de rádios e canais de televisão. E… querem ver?! Um relâmpago golpeia o negrume cerrado que parecia amortalhar tanta gente, nela iluminando de golpe novidades maravilhosas.
Subitamente, este país aparece habitado, de norte a sul, por uma população atenta e participante, pronta a tomar a palavra e a intervir em defesa da sua opinião, porque a tem e exerce o direito de se fazer ouvir. Está bem informada e - como é isto possível? - sabe juntar e analisar os factos com lucidez, declarando ou apenas deixando transparecer a inclinação que deveras sente pela cor da sua bandeira. E sabe exprimir-se, e fala com entusiasmo e convicção!
Mas outras surpresas, ainda mais incríveis, saltam. Este povo mostra possuir muito boa memória! Mergulha e torna a mergulhar nos seus arquivos individuais, vasculha nas suas recordações, cita leis, regulamentos e regras aplicáveis, compara factos, raciocina com segurança, analisa, conclui...
Quem diz agora que este povo, a tal maioria silenciosa do Portugal profundo, que não tem memória? Que, por exemplo - chegando uma ou duas horas antes ao seu lugar - não participa com entusiasmo nos confrontos que lhe interessam? Quem diz agora que se afunda em apatia quando lhe sobram motivos para reagir e, zangado, se encabritar?
Uma sucessão de escritores aplicaram-se tentando estudá-lo, entender a sua alma esquiva: desde Estrabão até Antero de Quental, Almeida Garrett, Oliveira Martins, Agostinho da Silva, Eduardo Lourenço, José Gil… Não concordam entre si e nós, hoje, não podemos concordar com eles.
Dizem por aí que somos um povo enigmático? Tão incompreendido quão incompreensível? Pois seja, os tugas perdem a cabeça no jogo da bola e ficam depois sem cabeça para as questões da política (por isso o neoliberal Gaspar os vê como valioso ativo nacional!), mas nada do que é humano lhes é estranho. [Autor da imagem (parcial): Rafael Bordalo Pereira.]

sábado, 22 de dezembro de 2012

No país das cantigas

Alguém deve pensar que o povo está a ter o que quer em medo e repressão. Engana-se, mas, no seu tolo contentamento, não o admite. Então este país em crise fica a rever-se outra vez, como num espelho baço, na metáfora criada por um rançoso filme dos anos '50.
Portugal torna a ser um «pátio das cantigas», pois se foi enchendo de música, muita música, para alegrar todos os gostos à medida que, por outro lado, se foi enchendo de depressão e desespero, desemprego e baixos salários, raiva e opressão. Música, a ligeira, mais abundante, ou a outra, dita culta, são cultura apreciável, é verdade. Mas a dificuldade talvez seja já a de ouvi-la, tanta é a que se espalha pelos quatro cantos da agitação sem conseguir distrair ou acalmar as dores dos brutais apertos de cinto.
Não há dúvida, porque é facto evidenciado, o comércio da música gravada caiu a pique. Os autores queixam-se da pirataria que a Internet permite, embora permita também imensas cópias legais gratuitas entre outras pagas. Alterada pela generalização do formato digital, a situação atingiu duramente editores e sociedades de autores, que reclamaram contra a liberdade na Net reagindo contra a «liberdade da pirataria» (duas questões distintas, julgo eu).
Mas, neste tempo de terríveis carências, é música embaladora o que mais abunda. As rádios debitam-na, torrencial, e os diversos aparelhos de reprodução portátil em uso levam-na para todo o lado. Somando os festivais, não é pequena a romaria, mas falta ainda agregar qualquer coisa.
Temos, estrategicamente semeados pelo país, uma apreciável quantidade de antigos cine-teatros que foram adquiridos pelos municípios (lembre-se, com subsídios europeus tão generosos como os que serviram para construir isto e paralisar aquilo - a agricultura, as pescas, a produção nacional de bens de consumo) e transformados em modernos auditórios onde realizam concertos bandas nacionais e estrangeiras em itinerância. E temos a jóia da coroa, a Casa da Música, a funcionar no Porto, com subvenção anual do Orçamento de dez milhões, agora reduzido apenas a sete, imagine-se o revés musical!
Todavia, o povo dispõe-se a abrir a boca cada vez menos para cantar modas de embalar meninos. Prefere gritar, de goela aberta, os seus protestos pelas avenidas, erguendo bandeiras vermelhas e negras e exibindo palavras de ordem em faixas que estendem de lado a lado. Já não vai em cantigas.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Diálogo a correr

Isto já não vai lá assim... Assim como? Com papelinhos, eleições, propagandas, comícios, discursatas, partidos eleitos, lideres promovidos, políticas legitimadas. Mas não acredita nas eleições? São o princípio da democracia! Você não é democrata? Sou, claro, convictamente. Da verdadeira democracia, não de um remedeio, um simulacro. E então? Quero a democracia por vir, plenamente restaurada, numa sociedade desperta e livre de gritantes desigualdades. Mas que partido vê você a defender essa sua democracia que esteja em posição de ganhar eleições? Os eleitores não lhe confiariam os votos, é isso? Então concorde comigo: isto já não vai lá assim... Assim como? Por este caminho: eleições e promessas políticas logo esquecidas. Mas não será essa a política-espetáculo o que o povo quer? Ora ora!, quererá mesmo este empobrecimento, sempre mais do mesmo? Pois é, estou a ver, precisamos realmente de políticos e de política a sério que nos tirem do buraco. Então, se os partidos que os eleitores de cabeça formatada podem eleger não nos tiram do buraco em que nos meteram, resolva você: desiste dos partidos que se revesam no poder, ou desiste deste povo que teima em os eleger? Ora, nem uma coisa nem a outra. Os partidos são necessários, a democracia não os dispensa. Esta «democracia»? Não funciona mais para o povo que trabalha e produz, funciona para os banqueiros. Mas o povo é a fonte do poder soberano. Foi! Agora diga-me: sabe porque votou o povo como se viu? Por medo. Conhece pouco e receia muito, vendo-se constantemente atacado e enganado. Mas a comunicação social não pára de manipular a informação, dispensa bem a censura prévia. Sim, é escandalosa tanta lavagem aos cérebros que nem deixa ver o que está à vista. Está à vista o quê? Que o povo, fonte do poder soberano, o deixou fugir, primeiro para as mãos dos seus representantes, os políticos, e a seguir para os sugadouros da alta finança europeia e internacional. Mas tudo isso não foi por um processo democrático? Ora, os políticos pouparam demais o povo ao incómodo de se pronunciar e hoje nem o povo decide nada com real importância nem sequer os políticos arriscam decisões vitais inovadoras, preferem deixar-se levar e juntar-se debaixo do guarda-chuva da Nova Ordem Mundial que tudo governa graças ao poder financeiro exercido por gananciosos especuladores não eleitos. Então... e a democracia? Vai como a vê, de rastos. E o poder soberano do povo? Foi usurpado e tão subtilmente que o povo adormecido mal se apercebe. Então... que fazer? Discutir soluções, discutir uma vez e outra até ao raiar da nova aurora. Bem precisamos dela, dessa nova aurora, metidos neste túnel escuro e sem luz anunciada!

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Este nosso povo

Se alguém quisesse convencer-me da realidade mesma deste conto, eu não acreditaria. Mas estou aqui e vejo. Vejo e nem acredito no que tenho no olhar.
O povo - rebanho manso e calado no interior do corpo vivo da nação - este povo que labuta enquanto a grandes golpes perde a democracia, se repara no governo entregue à dominação estrangeira, pouco se importa ou pouco se rala.
Ouve falar de guerra ao terrorismo e da necessidade de segurança, está em situação real cada vez mais insegura e, convencido a ter medo, não questiona o que ouve (que terrorismo, que segurança para quem).
Escuta as vozes claras da vanguarda que conseguem furar o bloqueio a prevenir as classes médias contra as políticas servis perante as estratégias dos «mercados» (financeiros)  e os governos igualmente postos ao serviço da ganância dos bancos e fica incrédulo, sem saber ainda que é isso a globalização... do empobrecimento.
Aguenta jornadas de trabalho mais prolongadas e ganhando menos, empregos precários, deslocalizações, despedimentos, abusos de poder patronal, trabalhar por objetivos, salários em atraso, cortes de direitos laborais, redução de períodos de descanso ou férias, e admite-o porque a isso obriga a «competitividade», os empresários têm de lhe resistir...
É sobrecarregado com mais impostos aplicados aos trabalhadores e aos pensionistas e, de ouvidos cheios de «crise», aceita apertar o cinto mais um furo e outro furo, e ainda outro, agravando a recessão.
Consome produtos indispensáveis ao seu dia a dia encarecidos por novos impostos e decide-se pela redução do consumo ou pela respetiva privação, baixando mais e mais o nível de vida até à pobreza estreme.
Despojado das proteções do Estado social no desemprego, na doença, na reforma, fica trilhado, sem voz, perante quem protesta e engrossa as multidões que  fazem greve ou enchem a praça e a avenida em manifestações eloquentes contra a austeridade.
E até admite, à força da repetição, que viveu a gastar mais do que podia, chegando  agora ao momento dos sacrifícios porque é preciso pagar as dívidas, e não toma a tragédia grega, que dura há cinco anos, como lição.
A Nova Ordem Mundial, desmascarada como desordem, mudou completamente de paradigma, será necessário um tempo para que este e outros povos reconheçam tão brutal mudança. Não se sabe se iremos esperar muito ou pouco tempo pelo que então acontecerá. Gostaria só de não estar aqui para ver a convulsão a estourar.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

O polvo come-tudo

Dispensam-se os fraseados eruditos dos especialistas que pouco entendemos. Lucraremos ficando com a verdade simples dos factos no osso, o osso que nos dói porque nele sentimos as pancadas. Vejamos: é possível entender o que se passa com a crise da dívida soberana nos países europeus, a designada debitocracia, com a cabeça lavada do cidadão comum.
Basta querer e, desde logo, querer recordar, a experiência que vivemos em Portugal nos últimos trinta anos. A complicação principia quando um governo, assobiando para o lado, gasta em anos sucessivos mais do que o parlamento aprovou sem ter apoio ou explicação em catástrofe imprevista, algum revés grave. De facto, esse desmando até pode envolver responsabilidade criminal para os seus responsáveis (caso da legislação vigente portuguesa segundo parecer competente), mas os políticos escudam-se atribuindo, não à justiça, e sim ao povo eleitor uma condenação puramente «democrática».
Os políticos, façam o que fizerem, querem-se expostos a meras sanções «políticas», colocando-se desse modo, declaradamente, acima das leis que para nós elaboram e promulgam. Porém, na Islândia - aquele recôndito país que teve categoria para recusar a «ajuda» do FMI, caso que os media tanto sonegam - um político que foi primeiro-ministro vai a tribunal acusado de negligência grave de governação (levou o país à bancarrota), o que constitui um precedente memorável neste período de furiosas mudanças. Estranharemos que os partidos da atual maioria da direita portuguesa estejam a reclamar, previdentemente, uma nova Constituição?
Neste ponto, convém averiguar se a mera sanção política contida nuns resultados eleitorais basta para a condenação de governações ou políticas ostensivamente ruinosas. Apesar de a via eleitoral ser o modo legitimário do poder democrático, a verdade é que o modelo corrente deste poder perdeu bastante da sua legitimidade devido à degradação da política como espetáculo (mais um), o colaboracionismo dos media, os altos níveis da abstenção, a débil consciencialização/participação cívica. Parece-me que neste ponto poderemos ver o fiel de uma balança preciosa que hoje vale a pena ter à mão.
Os partidos que, depois de levarem o país à recessão através da progressão imparável da dívida soberana, se mostram favoráveis à entrega da governação nacional à especulação predadora da alta finança, são, por essas mesmas ações e palavras, partidos alinhados à direita. Sem disfarce, praticam uma política que entrega as riquezas do país à ganância do capitalismo globalizado. Arruína a sua estrutura produtiva prendendo o país no  garrote (em círculo vicioso) do endividamento e sugando o povo através dos bancos nacionais.
O desmando dos responsáveis desses partidos merece condenação decerto não somente «política». Pelo contrário, porque, nada democraticamente, aplicam e declaram bons uns comportamentos políticos altamente lesivos do interesse nacional, manobrando inclusive para conseguir prolongar a agonia socioeconómica e os sofrimentos do povo ao serviço da estratégica capitalista dominante. E, contudo, sabem que o país apenas sairá do abismo da «crise» apostando resolutamente numa política de esquerda, que restaure a sua produção própria (nem que tenha de recorrer a medidas protecionistas de emergência), pois não há outro caminho para escapar ao polvo come-tudo.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Estamos entregues

Umas eleições não servem para dar razão ao candidato vencedor, servem para o legitimar - lembrou quem as perdia ao assumir a derrota. É bem verdade. E assim, em notória viragem para a direita, se extinguiu uma antiga maioria sociológica dita de esquerda que persistia no quadro português.
Desviando os seus votos do PS e do BE, os eleitores impuseram que o sistema democrático entrasse ao serviço de fins pouco ou nada democráticos mas agora legitimados. Elegendo dois partidos neoliberais-conservadores e dando-lhes maioria absoluta, os eleitores aceitaram formalmente a tutela da troika externa, deixando a sucumbir a soberania nacional. Repetiu-se a história: amedrontados (o desemprego, as crescentes dificuldades  de vida, a propaganda da «crise»), os eleitores preferiram meter o lobo na capoeira para esconder o medo.
Surpresa? Nenhuma. A situação dramática em que o país foi colocado pela governação dos dois partidos principais (o «centrão») que se revezaram no poder ao longo dos últimos trinta anos não augurava outra coisa, nem melhor.
Entramos agora num período completamente diverso. Entregues à «ajuda» do FMI e associados europeus, os portugueses enveredaram por um caminho que não se sabe onde nem quando irá acabar. Garantida temos a austeridade, vulgo «apertar o cinto» até ao derradeiro furo, isto é, a recessão com todo o seu cortejo de  consequências: paralisia do aparelho produtivo, pobreza e miséria em expansão.
Elegendo a triste submissão de corda ao pescoço, a maioria dos votantes entregou o país à ganância da alta finança internacional. Dela não sairá sem grandes sofrimentos e demoras, pois não restam dúvidas, o país encontra-se mesmo num período dos mais dramáticos da sua história.
Mas arguir a alta finança internacional é praticar, ainda hoje, linguagem gestual perante normais ouvintes. Não entendem como funciona na realidade o nosso sistema financeiro,  o dito «mercado», de maneira que o capitalismo de vanguarda desenvolve uma estratégia de acumulação da riqueza de modelo que escapa à percepção comum (apesar da divulgação na Net de esclarecimentos, avisos, prevenções, alguns dos quais em links indicados nestas crónicas). Valendo-se da fraca regulação existente, que até permite os escandalosos «paraísos fiscais», a alta finança pressiona e verga os governos através dos bancos dos países mais a jeito (de economia deprimida), e prende-os na espiral do endividamento para sugar em proveito próprio as riquezas de cada Estado.
Os países que já estão de corda ao pescoço vão mostrar, aos que cairão a seguir como peças de dominó, até que ponto acertam e dizem a verdade uns senhores que anunciam a prazo uma hecatombe global. A dinâmica capitalista de vanguarda, apostada na especulação financeira (nessa especulação altamente lucrativa se especializou), percorre o mundo, e, conforme alguém prevê, promete instalar um novo feudalismo invasor que transformará os povos - os «servos da gleba» de antanho - nuns «servos do Estado». [Foto de recente manif em Lisboa; autor desconhecido. Clique para ampliar.]

terça-feira, 24 de maio de 2011

Uma taça de loucura

Ia tranquilamente de regresso ao tugúrio, depois do jantar. No trecho de auto-estrada ultrapassou-me um carro e, nele, um rosto fitou-me através do vidro, um braço acenou e soaram toques de buzina. Afrouxei, alarmado, espreitei atentamente o painel, alguma anomalia havia com certeza.
Mas as portas estavam bem fechadas, nenhuma lâmpada fundida, fogo nenhum saía em fumarada pelo cano de escape. Intrigado, continuei. Não tardei a ser de novo ultrapassado e outra vez avisado com sinais e sucessivos toques de buzina.
Portanto, qualquer coisa me corria mal: teria de parar logo logo onde pudesse e, no exterior, averiguar a causa dos avisos. A olhar para o painel é que nada descobria. Apenas ia sentindo e avaliando, com aplauso e gratidão, a magnífica entreajuda dos condutores portugueses.
Ao entrar na cidade, de repente, fez-se luz... Grupos de carros com os quatro piscas ligados iam apitando freneticamente, um autocarro com faixas, bandeiras e cachecóis  manobrava a custo no cruzamento, pessoas corriam e pulavam pelos passeios. Era... isso mesmo, a noite decisiva do campeonato europeu, o jogo concluído, o troféu da vitória final exibido na ponta do braço dos heróis!
De manhã eu fora convenientemente informado mas negligenciei tudo: saltei oito ou dez páginas do jornal sobre o glorioso prélio, mal escutei a rádio pública em emissão especial lá do sítio para não perder pitada, não estive um cisco de tempo a ouvir os comentários e os prognósticos e tantas outras sentenças durante o dia. Acabei por esquecer a Convocação Nacional para me emocionar com a importância vital extrema do evento que ia decidir o futuro do país.  Confesso a culpa: não sou, nunca fui, adepto do espetáculo da bola (por muito que, como os gatos, goste de jogar à bola) e estou em seguir sem mudança.
Mas eis-me com mais e mais motivos para me maravilhar. No próprio dia em que o Banco (BdP) previa que o nível de vida português ia sofrer um abaixamento «histórico» e constava que seiscentos mil trabalhadores tinham os seus salários penhorados por dívidas aos bancos, o povo da minha cidade festejava, a transbordar de alegria, a conquista da taça. Evitei passar pelo centro do burgo, sabendo que não iria romper: a multidão em magotes também ali erguia nos braços, como os heróis do momento, não a própria taça... mas grandes copos de cerveja... e também se sentiam outros grandes heróis do momento.
País abençoado este cujo povo recebeu em festa e delírio, no dia seguinte, quinta-feira, a equipa vitoriosa! Uma reportagem televisiva mostrou o percurso passo a passo, o helicóptero acompanhou, carros e motas em procissão e o champanhe jorrou em borbotões sobre cabeças e roupas como chuva de oiro. Uma taça de loucura embriagou as massas populares, que tudo esqueceram para obedecer à Convocação Nacional, assim manifestando à troika da tutela externa que eventos mais importam ao futuro do país (fazendo-me desejar a vinda urgente de menino e tambor para acordar, não já os duendes da floresta africana, mas quem se embriaga com a taça da loucura). [Foto extraída de pps com legenda final (em castelhano): «Para ver claro basta mudar a direção do olhar».]

quarta-feira, 11 de maio de 2011

O cronista assaltado

Para que lado há-de virar-se? Os golpes e as pancadas chovem de todas as direções por cima dele, é a calamidade do século a jorrar como chuva de inverno e o pobre a senti-la por todo o corpo, sobretudo nas costas doridas, atacadas à traição. Sem forças já para abrir a boca e soltar o berro, morde a mordaça.
Todavia, mesmo sob a chuva das agressões - e cada uma pedia um grande berro descrito em crónica - o amordaçado cresce em espanto e maravilha. Este povo do país não pára de o surpreender. Uma parte, a mais idosa, conheceu a ditadura mas esqueceu-a nuns poucos anos de ensaio democrático; a outra parte, mais nova, teve a sorte de não ter conhecido o racionamento, a censura prévia e a polícia política, mas o resultado é o mesmo.
Perante as sondagens que andam a ser divulgadas das tendências eleitorais populares, porque outro plebiscito se aproxima, resulta inquestionável a conclusão: o povo continua agarrado às políticas de direita e a virar a cara às da esquerda (pois «comunista» é a esquerda que resta). Aguenta com toda esta pancada no lombo e insiste e teima e vota nos seus mesmíssimos partidos. Dizem-lhe da esquerda que esta crise de gravidade excepcional (crise das dívidas pública e privada e tudo o mais de roldão) resulta das políticas impostas pela direita, que têm vindo a governar o país, o povo conviveu dia a dia com a verdade e...? O povo parece agir como os ratos hipnotizados por Hamelin. Sob o ribombar desta tempestade consegue escutar a música dos políticos enquanto vai correndo para a fundura -  é um povo cego e surdo, ou então está encantado. Veja-se então como outros ratos votam!
Os seus políticos prometem deixá-lo com menos hospitais e centros de saúde, menos escolas públicas, menos deputados e funcionários estatais (que têm a missão de o servir)... e o povo tudo admite. Os seus governantes prometem sobrecarregá-lo com mais impostos, e desemprego, e recessão económica, e desordem social, e carestia de vida... e o povo acolhe e apoia, votando conforme sempre votou. Como vai o povo assim fazer-se respeitar, merecer melhores políticas, melhor país?
As políticas de direita vergam Portugal, nove milhões de votos, números redondos, amordaçam a voz de um milhão. Obrigam a privatizar as derradeiras entidades públicas ainda apetitosas para a boca dos financeiros de olho alerta no que lhes pode valer. O Estado, crivado de dívidas, fica sem mais nada para salvar os dedos e então chega a hora da verdade.
Entregue à ganância dos especuladores financeiros, as riquezas do Estado deixam-se devorar pela minoria privilegiada que sempre procurou lucrar à sua sombra. Os impostos continuarão a suportar os custos do funcionamento do Estado, mas pagá-los-á o povo, essas ditas classes médias, porque outra coisa quem manda não consentiria. Logo, é o povo que vai continuar a fazer todos os sacrifícios a troco de uma qualquer mísera cenoura da «política social».
Anunciam os presságios ao que vai dar este caminho. Endividada até às fraldas, a nação será pertença exclusiva da arraia miúda que o Estado tratará como servos. Lembram-se dos servos da gleba do feudalismo? [Ilustração parcial de uma das mais antigas edições da história de Hamelin. Clique para ampliar.]

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Lendo o mundo me confundo

Sabem os acompanhantes deste blogue da atenção que temos vindo a dar às mudanças profundas e dramáticas em curso neste nosso tempo. Em jeito de crónica, opinou o cronista sobre questões variadas e tão variadas que, dir-se-ia, também ele se candidatava a ser mais um capaz de ter opinião pronta para despachar qualquer assunto. Evitemos, porém, a crítica fácil quando a pedra de toque consiste neste caso em avaliar se as opiniões aqui defendidas se baseiam a sério na realidade dos factos.
Não será o desconhecimento ou a dúvida mais ou menos momentânea desses mesmos factos que irá invalidar as opiniões expressas. Damos tempo ao tempo: as mudanças ocorrem e os movimentos do corpo social nem sempre reagem de pronto (e é assim que as ideias nas nossas cabeças correm atrás das novas realidades e a custo as alcançam). Habitamos num mundo perigoso e cada vez mais ameaçador, de modo que, talvez por isso mesmo, é agora que mais apetece prolongar as sonecas nos baloiços da rotina (acreditando nos políticos, confiando nos banqueiros) como que embalados em suaves harmonias de esferas celestiais.
Mas, desgraçadamente, tantas são as pancadas que se derramam do alto e tantas são as que se anunciam que o povo estremunha e desperta. Alarme: como pudemos chegar aqui?! Portugal está de novo diante do espelho, a interrogar-se como se não se reconhecesse.
Estamos pois a retomar o fado português que teimamos em viver como um psicodrama coletivo, em círculo vicioso, que se repete dentro do pátrio labirinto. Do 25 de Abril restam agora os cacos, da independência nacional não há sobras e o país de rastos põe-se a postos para receber de fora «quem o governe melhor» do que os seus naturais. A especulação de alta finança é que mais ordena, venha ela completar a destruição da economia nacional operada por criminosas políticas de direita e condenar-nos  a outro período de miséria salazarenta como povo sem colónias agora e sempre colonizado.
É portanto o fado português que regressa ao centro de múltiplas abordagens para motivar mais abordagens, a juntar à estante das antecedentes. Lá estão os textos de Oliveira Martins, Antero de Quental, Eça, Fidelino de Figueiredo, Eduardo Lourenço, Agostinho da Silva... Leonel Cosme, no seu livro Os Portugueses - Portugal a descoberto (Porto: 2007; Profedições, col. Bichos carpinteiros) cita também, nomeadamente, Fernando Pessoa, António José Saraiva, Miguel Torga, Jorge Dias, Jorge de Sena e Vitorino Magalhães Godinho.
Na sua demanda ao «ser português», este escritor e amigo percorre de relance os séculos da história nacional, tentando desenhar o perfil da identidade essencial deste povo. Esboça um «retrato» que nos interroga mais do que nos responde mas deixando no seu percurso, à atenção do leitor, uma boa porção de elementos que sinalizam a sua pessoal visão. Trata-se de uma nova reflexão, de flagrante atualidade, sobre as grandezas e as misérias deste povo que a cada passo tropeça e se desencontra consigo mesmo até pôr de remissa a Democracia.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Debruçado à janela

Assomo a esta janela para entabular conversa com quem passe e queira deter-se uns momentos a falar comigo. O tempo não vai de feição para expansões de alma, as pessoas andam a ensimesmar-se e, quando uma fala, desatam-se as línguas e todas querem falar para o monte. Quer-se dizer, debruço-me à janela e poucos interlocutores me calham dispostos à conversa estando eu a crepitar de espantos e maravilhas.
Continuem os amigos a pedir crónicas poéticas, literárias, bonitinhas, porque ainda não será hoje que os meus dedos se põem a dançar nas teclas ao som dessa melodia. A canga que a classe média carrega aos ombros já derreia com tanto peso novo acrescentado e, em vez de indignação, repúdio e revolta, parece que se espalha por ali um medo insidioso, de quem sente medo de ter medo. E eu aqui a maravilhar-me sozinho com autênticas maravilhas.
Aos peixinhos que me atendem ouvirei então perguntar, em desafio, se acaso não foi surpreendente o conjunto de manifes de sábado, 12, que animaram Lisboa e diversos pontos do país.  Sim, também surpreendeu pela energia da sua afirmação: gerações à rasca, professores na corda bamba, licenciados a recibo verde, pensionistas e trabalhadores com descontos, tudo coube nas reivindicações populares. O sucesso atingido pela concentração convocada, pela primeira vez, à margem de qualquer partido ou sindicato pode vir a ter sequência e mesmo alguma consequência.
Os políticos do país tremem quando o povo sai à rua e enche as avenidas,  povo especialmente a arder com quatro programas de austeridade impostos, um a um, em poucos meses, no alegado «combate ao défice». Mas os políticos conhecem o povo. Esperam cansá-lo deste outro fogacho emocional, mirrando-lhe os frutos, para que o povo desanime e torne a adormecer no atoleiro nacional da passividade.
A maravilha maior, porém, será a de o país, pela mão do Governo, multiplicar o pedido de empréstimos, largas centenas de milhões, ou mais de mil milhões de cada vez, e ninguém, uma única alma caridosa aparece a explicar porquê, para quê. Então Portugal precisa daqueles empréstimos todos para «financiar a sua economia» e seguir vivendo?
Nem sinal de que se destinam a investimentos produtivos, geradores de emprego e diminuição das dependências nacionais. Servirão para pagar os juros dos empréstimos já conseguidos, conforme se aventou, e fazer subir, num círculo vicioso, ainda mais os juros para a gula dos benditos «mercados»? Como pode assunto de tal magnitude e gravidade manter-se sem a mínima alusão, comentário, esclarecimento derramado em público?
E não menor maravilha é haver neste país desgraçado três milionários já a figurar em lugares muito cimeiros na lista mundial dos seus pares. Claro, a reforma da supervisão financeira, anunciada em 2009, mantém-se na gaveta ganhando os bancos como nunca. Maravilha final: o conflito líbio, orientado pelo imperialismo, promete envolver a União Europeia, principal consumidora das suas energias fósseis, cujos preços, naturalmente, irão elevar-se  em seguida e agravar a estagnação económica, provocando mais inflação, desemprego e miséria. [Ilustração: de Isa Ventura com seus alunos.]