Temos um ministério dito da educação mas é a educação que mais falta no país. Porque um fulano pode atravessar os níveis todos do ensino e sair continuando a ser um pequeno javardo. A educação, da pessoa ou da comunidade, é outra coisa, sabem muito bem disso os idosos que conheceram, de outro tempo, as regras da civilidade.
Foram de leitura quase obrigatória uns manuais de bom comportamento com regras preceituadas que era preciso acatar na rua e em qualquer situação relacional quotidiana. Ia ao ponto de se confundir com a etiqueta mas não chegava a sê-lo. As regras faziam reinar a disciplina e o respeito pelo próximo... e vou abrir-me de orelha a orelha num sorriso se me alegam que isso se devia ao ambiente repressivo da ditadura, ao atraso social português, à nossa baixa escolaridade.
Hoje tiro o chapéu às pessoas bem educadas. São gente bonita, que rareia aflitivamente. Abunda a grosseria, a falta de tato, a estouvadice, a indisciplina bisonha, o desbragamento da linguagem, a prosápia arrogante, a inveja tacanha, tudo à mistura e quase ao ponto de se impor como comportamento social «normal».
Em tal ambiente, a pessoa educada é recebida primeiro com estranheza e logo tomada por um ser débil, um lunático preso a convencionais rodriguinhos ou serôdios maneirismos do tempo da maria cachucha. Ignorando a qualidade e a força do mérito, aprestam-se para abusar do alienígena como se fosse ovelha tresmalhada de um outro rebanho. E vendo-se repelidos e postos no seu lugar, ficam na surpresa de terem que respeitar quem se dá ao respeito.
A pessoa educada não pretende receber em troca do seu interlocutor mais do que está a dar-lhe. Aspira a uma relação em perfeita igualdade, harmoniosa e de bom nível, sobretudo perante as molestas javardices. Não pode ser outra a atitude de quem efetivamente habita na Ci[vi]dade e põe a brilhar a Civilização.
Pessoa educada é, além de cultivada, pessoa humanizada. Ainda que, digamos, sem formação escolar, provindo do lugar mais campestre, a pessoa entendeu, nem que seja por simples intuição, o lugar efetivo que tem no mundo. Bastou-lhe decerto a observação do comportamento dos humildes bichos da natureza para entender como funciona e deve funcionar o princípio do relacionamento humano.
De facto, a pessoa educada de raiz possui um sedimento matricial capaz de apresentar alguma afinidade com uma «religião», a religião da humanidade. Conceito este porventura nebuloso, que porém se esclarece por uma aproximação à conceptualização de David Hume (1711-1776). O filósofo britânico, desejando que os homens pudessem e soubessem por fim viver em sociedade com tanta harmonia como os humildes seres da natureza, concebeu a «religião natural», não teísta, para realizar uma efetiva re-ligação do homem individual ao todo da humanidade no seio da natureza.
Aludi ao tema há quase três anos (ver aqui). Persuadido do valor da educação devidamente colocada num primeiríssimo lugar das prioridades em resposta a dar à crise. Demonstrando agora como quem pergunta: se uma pessoa perde toda a educação, o que dela ficará ainda a valer?!
Aludi ao tema há quase três anos (ver aqui). Persuadido do valor da educação devidamente colocada num primeiríssimo lugar das prioridades em resposta a dar à crise. Demonstrando agora como quem pergunta: se uma pessoa perde toda a educação, o que dela ficará ainda a valer?!




















