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quarta-feira, 2 de março de 2011

Quanto vale a educação

Temos um ministério dito da educação mas é a educação que mais falta no país. Porque um fulano pode atravessar os níveis todos do ensino e sair continuando a ser um pequeno javardo. A educação, da pessoa ou da comunidade, é outra coisa, sabem muito bem disso os idosos que conheceram, de outro tempo, as regras da civilidade.
Foram de leitura quase obrigatória uns manuais de bom comportamento com regras preceituadas que era preciso acatar na rua e em qualquer situação relacional quotidiana. Ia  ao ponto de se confundir com a etiqueta mas não chegava a sê-lo. As regras faziam reinar a disciplina e o respeito pelo próximo... e vou abrir-me de orelha a orelha num sorriso se me alegam que isso se devia ao ambiente repressivo da ditadura, ao atraso social português, à nossa baixa escolaridade.
Hoje tiro o chapéu às pessoas bem educadas. São gente bonita, que rareia aflitivamente. Abunda a grosseria, a falta de tato, a estouvadice, a indisciplina bisonha, o desbragamento da linguagem, a prosápia arrogante, a inveja tacanha, tudo à mistura e quase ao ponto de se impor como comportamento social «normal».
Em tal ambiente, a pessoa educada é recebida primeiro com estranheza e logo tomada por um ser débil, um lunático preso a convencionais rodriguinhos ou serôdios maneirismos do tempo da maria cachucha. Ignorando a qualidade e a força do mérito, aprestam-se para abusar do alienígena como se fosse ovelha tresmalhada de um outro rebanho. E vendo-se repelidos e postos no seu lugar, ficam na surpresa de terem que respeitar quem se dá ao respeito.
A pessoa educada não pretende receber em troca do seu interlocutor mais do que está a dar-lhe. Aspira a uma relação em perfeita igualdade, harmoniosa e de bom nível, sobretudo perante as molestas javardices. Não pode ser outra a atitude de quem efetivamente habita na Ci[vi]dade e põe a brilhar a Civilização.
Pessoa educada é, além de cultivada, pessoa humanizada. Ainda que, digamos, sem formação escolar, provindo do lugar mais campestre, a pessoa entendeu, nem que seja por simples intuição, o lugar efetivo que tem no mundo. Bastou-lhe decerto a observação do comportamento dos humildes bichos da natureza para entender como funciona e deve funcionar o princípio do relacionamento humano.
De facto, a pessoa educada de raiz possui um sedimento matricial capaz de apresentar alguma afinidade com uma «religião», a religião da humanidade. Conceito este porventura nebuloso, que porém se esclarece por uma aproximação à conceptualização de David Hume (1711-1776). O filósofo britânico, desejando que os homens pudessem e soubessem por fim viver em sociedade com tanta harmonia como os humildes seres da natureza, concebeu a «religião natural», não teísta, para realizar uma efetiva re-ligação do homem individual ao todo da humanidade no seio da natureza.
Aludi ao tema há quase três anos (ver aqui). Persuadido do valor da educação devidamente colocada num primeiríssimo lugar das prioridades em resposta a dar à crise. Demonstrando agora como quem pergunta: se uma pessoa perde toda a educação, o que dela ficará ainda a valer?!

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Assim é o povo tuga

Um povo que não se respeita não é respeitável. Nem, ai dele, respeitado. Desiludido de tudo e até de si próprio, não acredita mais em ninguém, apenas na sua capacidade para resistir à sorte que é a que quer no seu destino.
Vota ou abstem-se sem crer que vai mudar deveras alguma coisa. Votar, então, ou não votar, tanto faz. Para o povo tuga, os políticos querem é governar-se e, nada a fazer, quem se lixa é o mexilhão.
Mas os políticos, para este povo, afinal, são os políticos dos três partidos que têm governado o país. Os outros, da esquerda retinta, não entram em consideração simplesmente porque são de esquerda. Para «comunistas» e «comunismo» o povo nem olha, dá um passo à retaguarda e sente-se em perigo.
Após trinta e tantos anos a viver em sistema democrático, os tugas ainda suspeitam da esquerda, pronta a saltar do seu negro covil para lhes arrebatar mulher e filhos, casa e  propriedades. Prefere votar nos mesmos, sempre, porque são políticos familiares e lhes prometem segurança embora se inclinem para a instabilidade quando lhes dá jeito. E se os seus votos, além de entregarem o poder legitimado, servirem também, surpreendentemente, para levar a honra a vencer a infâmia, estabelecendo uma incrível vitória da verdade sobre a calúnia, este povo, habituado a manigâncias, nem resmunga.
Aflito com as dificuldades da vida a crescer, o povo vai perdendo apoios sociais, garantias de trabalho e emprego, enquanto, por outro lado, aceita pagar mais impostos ganhando menos perante a subida geral dos preços. Mas ouve dizer «é a crise» e acredita que a praga veio de fora para o afligir. Logo, assente na regra pelintra do «cada um é por si», vira as costas a sindicatos e a quaisquer apelos para fazer greve ou sair à rua em manifestação cívica de protesto e reivindicação.
Este povo é velho. Entrou em vibração nos gloriosos dias de Abril mas esses dias pertencem a um passado tão remoto como o primeiro baile em que dançou com gosto. Convenceu-se, agora é assim, o mercado manda nos empregos como nas colocações dos jogadores profissionais do futebol, o sexo ou a alta finança.
É deste povo, assim desanimado e com medo, que o governo precisa. Sai para vender mais dívida em cima de dívida a quem a compra em troca de apetitosos juros e o governo volta a cantar vitória porque, vejam bem, continua a ter quem lhe empreste para continuar a cantar vitória. E, se não vende dívida, vende património público.
Um dia nada distante o povo tuga acordará num país, que é o seu, afogado em dívidas colossais, que os governos de direita foram acumulando e ele dormindo aflito com as dificuldades da sua particular vidinha. Não estará sozinho: a seu lado, acompanhando-o no descalabro nacional, terá um outro povo, esse nada tuga, o tal dito maldito «comunista». E ambos, um arrastado pelo outro, juntos na desgraça, pagarão o que for de pagar.
As grandes corporações nacionais, de estatura fortalecida pelos seus negócios com o Estado, demonstram que o dinheiro não tem pátria nem cheiro. Investem fora de portas, onde  a ganância e  a cobiça as chama, deixando para trás, como vinha vindimada, a terra avoenga que as fez grandes. Quem ficará com a santa terrinha ao colo?

sábado, 20 de novembro de 2010

Os donos da Nação

Uma das questões que vem inquietando os portugueses ilustrados ao longo dos dois últimos séculos gira em torno desta questão decisiva: encontrar uma explicação para o atraso e mesmo a decadência do país. Parecem crescentes e sem remédio, como se não pudesse ser outro o seu fatal destino. Mas aí temos agora um livro que expõe a questão de forma perfeitamente inteligível.
O atraso de Portugal tem vindo a ser provocado por quem negoceia com o Estado e com o seu negócio enriquece mais e mais empobrece o povo. Desde a segunda metade do século XIX, quando os liberais lutavam por modernizar o país e enfrentavam as resistências do «Portugal velho», ou seja, quando o negócio era o monopólio dos tabacos e os empréstimos à Coroa, até à atualidade, sempre houve beneficiários das prodigalidades régias ou do Estado. Mas então não tinham o topete de reclamar «menos Estado», como agora, porque os senhores,  prósperos e fortalecidos com tanta riqueza acumulada, acabaram por ficar donos da Nação.
O livro Os Donos de Portugal (Edição Afrontamento), saído há poucas semanas, explica com linguagem acessível a formação e acumulação do capital, apontando os seus principais protagonistas. São designados como a «burguesia» nacional pelos vários autores da obra (Jorge Costa, Luís Fazenda, Cecília Honório, Francisco Louçã e Fernando Rosas), focalizando principalmente as relações políticas privilegiadas de que beneficiaram durante três períodos distintos do século XX: a primeira República, a ditadura e a democracia.
Os autores, quase todos universitários, expõem os rostos da oligarquia financeira nacional - Espírito Santo, Sommer, Champalimaud, Mello, Ulrich, Amorim, Azevedo, etc. - para analisar o processo da sua formação ao longo do tempo. Vão ao ponto de incluir um mapa com as respectivas árvores genealógicas e de nele registarem os cruzamentos entre os seus rebentos, e tão demonstrativo é que lhes permite referi-los em conjunto como a «família das famílias». Depois resumem cem anos sem nenhuma surpresa: «Em 2010, a burguesia é essencialmente a mesma que existia na ditadura, reforçada com alguns potentados emergentes e com poucos recém-chegados recrutados nas elites ministeriais e que demonstraram zelo inexcedível.»
Sublinhando a promiscuidade entre política e negócios privados que proporciona a esta «burguesia» gordas benesses do Estado, os autores atribuem à defesa dos seus particulares interesses a responsabilidade da crise. De facto, o país teve agricultura e pescas e mesmo alguma indústria (siderurgia, metalurgia pesada, reparação naval) enquanto tal conveio à «burguesia», pois a produção industrial nacional, segundo os autores, foi sempre muito subsidiada. Quando o filão se extinguiu, sem coragem para assumir riscos no mercado internacional, o capital financeiro estratégico preferiu refugiar-se nos investimentos da saúde e do turismo, ou na pura especulação. Assim ficou o país entregue ao défice estrutural atual, irremediável por muitos anos.
Quer dizer, assim sem saber para onde se vire. A gastar mais do que pode produzir. Suspenso sobre o abismo que vê a seus pés. [Imagem: pintura «Saturno devorando um filho», por Francisco de Goya.]

sábado, 13 de novembro de 2010

O capitalismo globalizado

Os murros no estômago que estão a sofrer as classes médias, e que as deixam, dobradas sobre si mesmas, em violenta convulsão, provocam naturais consequências. Atacadas por todos os lados (salários e níveis de vida a baixar, desemprego a aumentar, direitos sociais a desaparecer, impostos a subir,  idades da reforma a trepar), as classes médias estão a perceber, finalmente, qual o verdadeiro sentido das mudanças ocorridas nos nossos tempos. Não apenas em Portugal, não apenas na Europa, sim em todo o Ocidente.
Um facto parece, por tão notório, incontroverso: o capital financeiro especulativo, agora em crise, é que engendrou a globalização. Não tem nem quer ter pátria, fronteiras, limites. Quer-se livre de movimentos para chegar onde o lucro seja mais fácil, rápido e chorudo... ainda que lá ponha crianças a trabalhar, escravize ou corrompa (pretensamente sem rosto, o capital com donos vê isso com absoluta indiferença embora, por outro lado, mande os seus porta-vozes reclamar direitos humanos apontando para onde lhe convenha).
A globalização é a do grande capital, não a dos povos; da ganância predadora, não a da economia. Corresponde à fase em que a concentração do dinheiro no mundo atingiu um nível tão elevado que se tornou apátrida para afirmar a sua vocação imperialista. Estas mudanças, seja qual for a situação concreta que se registe em cada país, precisam de ser percebidas rapidamente para que alguém, pelo menos uma minoria, entenda o que na verdade se passa.
Os governos, eleitos pelos cidadãos, cederam pouco a pouco e de forma sonegada, a poderes não eleitos, competências legais importantes da governação que antes exerciam. A concepção característica das funções do Estado amoldou-se aqui e ali, pela prática, a um novo paradigma. Vestiu-se o Estado neoliberal por este outro figurino: é o capital financeiro que manda nos governos, é o mercado que comanda a economia.
Uma das consequências desta evolução é a de que deixa claramente à vista que são as classes médias as primeiras a suportar o peso de cada Estado. A camada mais débil da população não paga impostos, os dirigentes políticos e os amigos financeiros guardam-se para sorte ainda melhor, ficam portanto as classes médias, da média-baixa à média-alta, sozinhas a aguentar com o orçamento. Outra consequência aparece aqui: se os segmentos contributivos se contraem violentamente, diminuindo de tamanho, isso indicará que o tamanho do Estado igualmente enfraquece.
Mas a crise financeira é mundial, os Estados ficaram tremendamente endividados e, a todo o vapor, tratam de imprimir toneladas de notas (só papel impresso, não riqueza produzida, que essa, escondeu-se misteriosamente, deixando espalhadas por todo o lado montanhas de dívidas). Interrogação basilar: será que as classes médias nacionais irão assumir e pagar as dívidas do seu país? Por exemplo, sabe-se, porque não é segredo, que a maior potência mundial tem uma dívida pública e um défice tão altos que o FMI já teria tocado a rebate se no caso não estivessem os Estados Unidos.
E por cá? O total da dívida pública portuguesa representa, ao que dizem, já 110% do PIB nacional e o país, num descalabro crescente, continua a endividar-se para pagar juros de dívidas. Se o povo pagante, o tal que lida com notas de 5, 10 ou 20 euros, quiser sacrificar-se, vai sofrer durante muitos anos. E vão chegar cá as restrições do FMI, depois Portugal será enxotado para fora da união monetária ficando a pagar, com a sua moeda nacional desvalorizada, umas dívidas antigas inesgotáveis que vão parecer eternas. Mas eu, como tantos mais, nada fiz para merecer o castigo e posso prová-lo! Resta-nos o direito de abdicar do nosso Bilhete de Identidade: também queremos ser apátridas, cidadãos do mundo registados em offshores.

domingo, 30 de agosto de 2009

«Arre, porra, que é demais!»

Um amigo dos velhos, que são dos melhores, mandou-me para a caixa de correio um e-mail com os versos assim intitulados. A autora, identificada, foi sua antiga condiscípula e continua a ser dele uma amiga. Li o texto e também achei graça. Apreciem-nos como eu, saudando MLM, autora de poemas já publicados em dois volumes.


Portugal tem grandes vidas
Carros de luxo e mansões
Ensina a viver de dívidas
E a jogar no euromilhões

Ai este povo enganado
Vai andar sempre de banda
É agora e no passado
Quando a banca era a Holanda

Para a corte e outros mais
Terem palácios e nome
Este povo de mortais
Como dantes, passa fome

Ensinar às nossas gentes
Que o bom é viver à larga
E à custa de expedientes
É a herança mais amarga

Trabalho qualificado?
Sim senhor, seja o que for
Mas aqui no endividado
Corre tudo a ser dótor

Educação? E o exemplo?
Valores? Quem pode exigir?
Quando melhor neste tempo
É ter dívidas, mentir?!...

Portugal tem grandes vidas
E até dá boas esmolas
E cada um que se vire
Nos hospitais, nas escolas

Nos campos, no mar, a gente
Os portugueses mortais
Gritam como antigamente:
Arre, porra, que é demais!...

MLM/2009

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Não sou feliz com barbeiros

Queixam-se de que são uma classe profissional em vias de extinção e, de facto, são cada vez mais raras as barbearias. Não será isso apenas para nos obrigarem a estender a procura e a caminhar? Há motivos de sobra para dizer que não sou feliz com os barbeiros.
Podem fugir-nos de ao pé da porta para algures, longe, e rarearem como cervejas frias no deserto que nem por isso baixam o preçário. Fazem-nos esperar nos assentos da resignação uma hora, despacham-nos em sete minutos e pagam-se por este tempo à razão de um euro por minuto. No fim, de escova na mão, com toques simbólicos na indumentária, avezam mais um de gorjeta.
Um euro por minuto equivale a sessenta por hora. Nada mau para um fígaro, pois o aproxima em ganhos de especialistas, catedráticos e sumidades diversas. Tesourar uns pêlos reveste-se assim de uma auréola especial própria do oficiante que nos recebe, iniciado em arte cheia de mistérios.
Desde que, pela mão do meu pai, comecei a ir ao barbeiro e pela primeira vez me sentei na cadeira propiciatória, encolhi-me sob o manto que me envolveu como veste talar. Tinha a cara no espelho grande e, vendo-me, não me reconheci. Ouvia o tric-tric da tesoura, as suas batidas no pente junto das orelhas entre as conversas dos homens que prosseguiam apenas para disfarçar a solenidade do acto da criança inicianda.
Levo longos anos encolhido sob o manto, a celebrar o ritual sacrifício. Encaneceram-me os cabelos, luziu-me a calvície, alastrou a dita em coroa como incêndio na floresta. Restam-me umas dúzias de pêlos bem contados e nem assim me vejo livre das barbearias.
Diz o povo que os barbeiros têm pacto com o demo: sabem fazer-se indispensáveis nem que seja pela simples mancheia de penugem que nos reste. E têm artes de, em unânime consenso, quererem cortar-nos os cabelos dos cantos, nas têmporas, ainda que digamos que os queremos tal como estão. Trata-se, sem dúvida, de uma expropriação abusiva de um bem pessoal levado pela lâmina, o que levanta uma suspeita: o que ganharão os fígaros com isso?
Admirável é o consenso estabelecido pela classe quanto a desbastar a eito uns milímetros nos cantos. Falam pouco ou nada uns com os outros, devem dispor de técnicas de entendimento tácito que encontram paralelo apenas nuns tiques novos de expressão vocabular que de repente toda a gente partilha: falam de «mídia» em vez de media, «sendo que» em vez de porquanto, e sempre à última «da» hora...
Se há quem pense ainda que é difícil, hoje em dia, pôr um povo a falar pelos canais mediáticos a uma só voz, ponha o sentido neste milagre. Mas não sou feliz com barbeiros porque conversam com o freguês e, quando o diálogo fica interessante, perde-se em evasivas. Um deles abriu-se um dia e falou-me das cabeças tortas que com arte endireitava. Nunca mais consegui retomar tão fascinante conversa e nunca mais encontrei outro disposto a falar das cabeças tortas que lhe iam às mãos... [Ilustração: extraída de PowerPoint; sem indicação de autor.]

quinta-feira, 18 de junho de 2009

De olhos nos olhos

Estou a vê-la lá fora, na esplanada do café, numa cadeira que a coloca à`frente do vidro. Parece que os nossos olhares se cruzam, ficamos por momentos de olhos nos olhos, mas eu estou na sombra do interior, sei que sou invisível e que ela, rapariga de radiosa juventude, apenas se contempla espelhada no vidro. Conversa com outra jovem, sentada diante dela, decerto um pouco mais idosa pois já é mãe. Tem ao seu lado um carrinho de bebé para o qual se inclina enquanto conversa.
Tenho tempo de sobra não apenas para degustar a bebida, também para me perder em divagações, contemplações, minúcias várias. A rapariga acende agora um cigarro, talvez mais um (não sei, estou a chegar), é fumadora, motivo por que se sentou lá fora com a amiga. Imagino que está a pedir confidências à recém-casada, quer saber como é uma vida conjugal, ter sexo regular, ser mãe, lida doméstica.
A luz filtrada pelo toldo põe a resplandecer a pele doirada da rapariga que um decote generoso mas não exagerado descobre até às espáduas, onde poisa o feixe de cabelos compridos, enrolados na nuca, que lhe cai até o sovaco. Tem óculos de sol encarrapitados no coruto da cabeça. Perguntem-me e eu direi que conversam em voz baixa, ainda que o ruído do trânsito possa envolver numa amálgama o som das frases.
A rapariga pega no telemóvel e fotografa o bebé deitado no carrinho. Continuam a falar, são sem dúvida amigas íntimas, uma casou-se e hoje, por fim, encontrou-se com a amiga solteira para renovar a amizade. Naturalmente, esta sente uma ponta de inveja da outra, já casada e mãe, enquanto ela própria...
Terá, ao menos, namorado? Saberá de quantas outras moças da sua idade não conseguem encontrar quem? Idealiza o seu casamento com todos os pormenores e requintes para preencher o vazio emocional que vai crescendo?
Uma jovem de vinte anos, assim bonita, olha para o mundo entendendo-o como se tivesse sido criado para ela e que, sendo assim, apenas precisa de o abraçar para o fazer seu. Custa-lhe a acreditar que este mundo não está à sua espera nem está preparado para a receber e que tão-pouco sente a pressa de viver que a galvaniza, a pressão aguda de todas as suas expectativas a adiar-se no tempo.
Deve pensar que é «única», um caso especial autêntico, tão especial que acharia espantoso que um desconhecido idoso como eu, a observá-la desta minha concha de sombra, estivesse a percebê-la nestes termos. Se as minhas percepções forem ajustadas e certeiras, conforme creio, ela duvidará da minha compreensão e perguntará quem me informou do que sei. Mas eu poderia explicar-lhe coisas simples embora inacreditáveis.
Os pais da rapariga, e os pais dos pais, e os amigos da família, todos terão querido um mundo diferente deste para dar a esta filha. Mesmo eu, um desconhecido que com ela de vez em quando fica de olhos nos olhos, queria para ela melhor sorte. Não a tem e todavia ninguém se sente culpado. O tempo que lhe cabe viver é por infelicidade o da imensa abolição dos sentimentos, da fragilidade das relações interpessoais, da geral desumanização. A beleza plena da juventude, a força maravilhosa dos seus sonhos, tudo cabe no triturador que tudo esmaga e deixa numa boçal banalidade. [Ilustração: pintura de alunos da escola EB 2-3 Dr. Carlos Pinto Ferreira, Junqueira, Vila do Conde.]

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Ensino sem educação

Uma certa democratização do ensino tornou a escolaridade num vulgar bem de consumo. O brilho social que antes a revestia perdeu-se com a massificação. Já poucas distinções restam entre o licenciado, o mestre ou o doutorado que não advenham da individualidade concreta de cada académico e, quanto a graus escolares anteriores, estamos conversados.
A derrocada começou, digamos, há uns trinta anos. Resultado: um diploma do ensino superior deixou de garantir bom emprego e o candidato a qualquer colocação no supermercado até pode ter de o sonegar para se ver admitido. Gente idosa, comparando, sentencia que, no seu tempo, em poucos anos de escola se aprendia bem mais do que, na actualidade, com um curso superior completo, pelo menos a julgar pelas aparências.
Assim se declarou uma crise que não se resolve e mais, e mais, se agrava. Diversas análises situam o nó da questão nas políticas que promoveram a escola lúdica ou mesmo alegre, em vez de local de aplicação e trabalho disciplinado:  pouca memória, tudo fácil. Entretanto, avançou um desinvestimento gradual dos governos nas escolas públicas enquanto os ambientes familiares acentuavam a desestruturação.
Diversas juventudes europeias, deprimidas e sem horizontes, duvidam do que pode valer hoje um diploma. Na verdade, não se sentem preparadas, pelas escolas e pelas famílias, para a vida. E já se torna difícil destrinçar o que é instrução, ensino e educação - termos com sinonímia relacionada embora distinta – porque o ensino ficou sem educação.
É incrível, e mesmo alucinante, a instabilidade introduzida nos sistemas pela quantidade de mudanças e reformas sucessivas. Pedagogias credíveis deram lugar a ligeiros experimentalismos alegadamente para aligeirar os conteúdos dos programas. A autoridade em aulas e o prestígio dos docentes sofreram rudes golpes, e também os seus salários. Tudo nivelado por baixo, factor de geral desmotivação.
A educação, avoengo processo apontado para o desenvolvimento harmónico da pessoa nos seus aspectos intelectual, moral e físico e a sua inserção na sociedade, confunde-se com instrução e ensino nos mesmos sistemas para iludir o que mais importa dentro desses sistemas. Decerto não há, nunca houve por aqui ou por ali geração rasca, mas o labéu ficou. Marca com ferrete uma geração perdida.
Porém, há notícia de estudo que detectou em certa amostra uma diminuição do coeficente intelectual médio. Se o diagnóstico é cientificamente credível, temo que venha em breve a ser corroborado por outros estudos. O nosso tempo afunda-se, aparentemente por uma espécie de osmose, na obnubilação das inteligências. Há poucos dias, anunciou-se em Portugal esta novidade: o nosso povo comporta-se como que atordoado…
Estaremos a estupidificar? A interrogação não é tola. Já se conhecem, por exemplo, alguns dos efeitos nefastos provocados nos cérebros pelas substâncias contidas nos populares plásticos, substâncias essas que acabam dissolvidas nas águas dos rios que as cidades bebem…

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

O cronista cede o lugar

Nas circulações do correio electrónico cruzam-se mensagens reencaminhadas com anexos os mais diversos. Chegou-me agora um, apenas com texto, que me surpreendeu. Decidi inactivar as mãos. Hoje o cronista cede o lugar a quem, no anonimato, escreve assim. Omito apenas trechos iniciais do texto intitulado País:

«Um jovem de 18 anos recebe 200 euros do Estado para não trabalhar; um idoso recebe de reforma 236 depois de toda uma vida do trabalho.
O mesmo fisco que penhora indevidamente o salário de um trabalhador demora três anos a corrigir o erro.
Um professor é sovado por um aluno e o Governo diz que a culpa é das causas sociais.
O café da esquina fechou porque não tinha wc para homens, mulheres e empregados. No Fórum Montijo a wc da Pizza Hut fica a 100 mts e não tem lava-mãos.
O Governo incentiva as pessoas a procurarem energias alternativas e depois multa quem coloca óleo vegetal nos carros porque não paga imposto sobre produtos petrolíferos.
Nas prisões distribuem gratuitamente seringas por causa do HIV, mas é proibido consumir droga nas prisões!
Um jovem de 14 anos que mata um adulto não tem idade para ir a tribunal. Um jovem de 15 leva um chapada do pai por ter roubado dinheiro para droga e é violência doméstica!
Uma família a quem a casa ruiu e sem dinheiro para comprar outra, o Estado não tem dinheiro para fazer uma nova, vai viver conforme pode. Seis presos que mataram e violaram idosos vivem numa cela de quatro sem wc privado, não estão a viver condignamente e a associação de Direitos Humanos faz queixa ao Tribunal Europeu.
Militares que combateram em África a mando do Governo da época na defesa de território nacional não têm reconhecida nenhuma causa ou direito de guerra, mas o primeiro-ministro elogia as tropas que estão em defesa da pátria no Kosovo, Afeganistão e Iraque.
Começas a descontar em Janeiro o IRS e só vais receber o excesso em Agosto do ano que vem; não pagas às Finanças a tempo e passado um dia já estás a pagar juros.
Fechas a janela da tua varanda e estás a fazer uma obra ilegal; constrói-se um bairro de lata e ninguém vê.
Se o teu filho não tem cabeça para a escola e com 14 anos o pões a trabalhar contigo num oficio respeitável, é exploração do trabalho infantil; se és artista e o teu filho com sete anos participa em gravações de telenovelas 8 horas por dia ou mais, a criança tem muito talento, sai ao pai ou à mãe!
Numa farmácia pagas 0.50€ por uma seringa que se usa para dar um medicamento a uma criança. Se fosse drogada, não pagava nada!
E agora?! Sim, eu sei, vais voltar a olhar para o teu umbigo e dizer que tudo está bem; se disseres que está mal, que pensas fazer?! Deixar que os outros resolvam por ti?! Então mereces tudo isto em dobro.
Mexe-te, grita, mostra a tua indignação e luta. Ou em breve poderás estar tu e os teus dentro destas estatísticas e o teu vizinho fará como tu: olhará para o lado.»

domingo, 9 de novembro de 2008

Um soco no estômago

E foi assim: inesperado e violento. Veio o golpe de um congresso de panificadores hoje reunido, onde se anunciou o encerramento de duas mil padarias e o despedimento de uns dez mil empregados. Escasseia, no país, o pão!
O pãozinho, alimento elementar e por isso também simbólico! O pãozinho, que é a última coisa a faltar à mesa dos mais pobres! A refeição completa dos desgraçados sem conduto, adquirido com o dinheiro último que reste no bolso!
Ontem, na minha terra natal (algo suburbana mas ainda aldeã), já me deixara estarrecido a senhora do atendimento. Queixou-se de que vendia menos pão. A viatura da distribuição saía menos e ao balcão acudiam poucos fregueses a comprar menos, quando antes deitavam ao lixo pão de sobra. E a senhora contou: vendo o gesto, ia tirar o pão velho dos contentores e dava-o às suas galinhas, mas agora não há mais sobras…
Pois sim, o pão ficou mais caro recentemente e a carestia tornou-se geral no meio da crise declarada. Mas o pão, senhores?! O pãozinho que só as bocas famélicas sabem de sabor tão doce e aromático?!
É preciso ânimo para reconhecer: onde escasseia o pão, há fome.
Fome!
Os panificadores em congresso, querendo salvar o negócio, pediram medidas de apoio ao Governo. Têm voz. Mas estão a fechar as padarias, a multiplicar-se os desempregados, e aí temos em crescendo os sem-abrigo, a multidão a engrossar às portas humanitárias das sopas quentes. E estes muitos não têm voz, o Governo sabe-o: ocupados como andam a procurar nos restos a sobrevivência, nem ouvem já quem fala no alto.
Todavia, é neste ponto que se ilumina e decide a relação que cada governante e cada cidadão concreto estabelece de facto com cada outro ser humano. Como se, por exemplo, uma pessoa é ou não capaz de mastigar a sua comida com indiferença vendo ao lado alguém a rilhar fome. Acresce que a pessoa abastecida com comida até pode sentir-se em grande unção religiosa.
Na verdade, há quem, rodeado por muralhas de egoísmo, não se importe com o Outro. E pode erguer as mãos, bater no peito e dar esmola se possível para obras pias. Mas, e os governantes, senhores?! Os governantes têm por obrigação funcional prover de segurança a comunidade constituída por todos.
Ora, nesta comunidade, estão a alastrar à vista negras manchas de fome. A segurança alimentar antecipa todas as outras: da saúde, da habitação, etc. Que resposta dão os governantes à fome que se expande?
Para quem queira ver, a resposta é clara. As desigualdades são cada vez mais gritantes e mesmo terríveis. Os problemas sociais agravam-se dramaticamente. Uma parte da sociedade parece em condições de vir a perecer, condenada do alto.
Civilização, isto? Coesão nacional, isto? A pessoa com fibra humana, o simples cidadão, destaca-se nesta situação do conjunto de quantos vão na onda amontoando riqueza ou consumindo freneticamente sem olhar para o lado.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

A conexão dos aspectos

Na minha cidade vejo multiplicarem-se pelas ruas os prédios com cartazes que anunciam: vende-se, trespassa-se, aluga-se, vende-se ou aluga-se. Passa o tempo, a luz solar esmaece a cor das letras, as chuvas enrugam e escondem algarismos dos números de telefone… Por vezes, a idade já é muita e os prédios substituem portas e janelas apodrecidas por tijolos que emparedam toda a esperança.
Cada uma destas propriedades em venda, trespasse ou aluguer teve dono abonado com o respectivo rendimento. Hoje, os valores venais dessas propriedades estão a faltar aos seus donos, aflitos porque precisam desses valores para equilibrar a vida e não há quem compre, alugue ou negoceie um trespasse. Quem percorre as ruas e calcula por alto, somará sem dúvida muitas centenas de milhões só na minha cidade… e esses muitos milhões, agora em falta angustiosa, desapareceram queimados numa fogueira invisível.
Vale a pena ver as coisas de olhos abertos. Assim se chega à fábula de Pedro Cem que já teve e agora não tem. De facto, os proprietários sem candidatos a negócio mostram nos cartazes expostos o que possuíam e deixaram de poder possuir (por dívidas contraídas, reveses familiares).
As propriedades continuam a existir, é certo. Se o mercado «esfriou», nem por isso deixaram de ter valor. Mas agora fazem-se poucas transacções de imobiliário, pois se os vendedores estão de recursos financeiros exaustos, também os eventuais compradores não têm melhor sorte.
A maravilha é que estas propriedades com cartazes à vista vão sempre arranjar algures um dono, seja ele quem for. Como o dinheiro em circulação, os bens imóveis concentram-se mudando de mãos. Estão esses outros donos a tardar e a tornar o mercado «frio» porque isto se passa no interior das classes médias (tão descapitalizadas quanto se sabe), enquanto, ao lado, nos estratos médio-alto da população, se negoceiam como pão quente casas novas de luxo e alto preço.
A paisagem da crise vai-se tornando mais triste e deprimente. Multiplicam-se os automóveis com letreiros de «Facilita-se» [o pagamento] apelando à venda. Fecham lojas, restaurantes, cafés: escasseia-lhes a clientela. Vou contando as desistências pelas minhas ruas (lembram-me, não sei como, dentes caídos em boca repentinamente envelhecida).
Há semanas correu os taipais uma loja de artigos usados. Fechou à míngua derradeira. Não apareciam mais clientes para compra-venda depois do espaço dos armazéns se reduzir a metade e parar o negócio dos ouros velhos e pratas após um assalto que levou tudo. Fechou mesmo o quiosque dos jornais meu vizinho, o dono já não tinha receita para cobrir as despesas.
Quem ergue o olhar do seu canto para o país, ouve notícias não menos deprimentes: só uns 60% dos desempregados recebem subsídio; os novos pobres (necessitados de assistência) são gente com emprego; há pessoas, homens e mulheres, que trabalham, não têm abrigo… Alegre-se, porém, o pagode: já andam a decorar as ruas com galas de Natal!

terça-feira, 21 de outubro de 2008

No barco das mulheres

Haverá sempre numa mulher algo de irredutivelmente misterioso. Para um homem atento, é claro. Isso tem a ver com o sexo, pois é o sexo que lhe outorga a condição feminina.
O amigo que me falava nestes termos é homem atento. E comentador de voo largo. Estivemos uns anos sem nos vermos e ali estava ele comigo, por cima de outro divórcio, a palrar no café a meio da tarde quente. O meu trejeito de dúvida fê-lo prosseguir:
Talvez o mistério da mulher resulte ou se engendre nela, desde cedo, em torno do sexo. Tem-no no corpo, que a mulher vai desejando belo, atraente, sedutor ao máximo. Todavia, à medida que a sexualidade lhe amadurece o corpo, a mulher vai deslocando, digamos escondendo na fundura dos seus instintos, ou afundando no seu ser, a vibração carnal. Transfere a sexualidade nomeadamente para roupas e arranjos de cosmética. Repara: a mulher pode ter na vagina o seu ponto G mas isso não a impede de ter outros imensos pontos eróticos a explorar no corpo, enquanto o homem se concentra no pénis e pouco mais.
Calando, mas ouvindo-o atentamente para lhe registar o curioso essencial das ideias, eu olhava para o meu amigo de sorriso suspenso. Ficou picado:
Por aqui começam a ganhar forma as nossas diferenças. É esse o “segredo” que a mulher tem de nascença e que transporta consigo e que, por exemplo, a torna tão cativa ou mesmo dependente de galanteios, luxos, exibições mundanas ou brilhos sociais. Totta mulier in utero!
Ena, tanta teoria já puxa latinório?! – gracejei. Mas ele ia lançado:
Até certo ponto, é por aí que se trava a guerra dos sexos. A pior ofensa que um homem pode fazer a uma mulher será talvez querê-la “apenas” pelo sexo, meramente na percepção dela. Isso resulta de a mulher se pretender na realidade atraente pelo sexo mas como que diluindo-o pelo corpo, o corpo que é “Ela”, ser único entre todas as outras mulheres. Quer dizer, a mulher sabe que vale pelo corpo que tem mas não tolera que a tomem apenas pelo corpo. Quer valer mais: ser tomada pela Mulher que julga ser. Porque uma mulher se julga… única. Eis porque a traição suprema que uma pode fazer a outra é desviar-lhe o seu homem para a própria cama dela. Outra experiência: pergunte o homem a cada mulher de um grupo de amigas que defeitos tem cada uma delas e ficará bem informado. Não há melhores críticos das mulheres do que as próprias mulheres. Se pudessem, eliminavam a concorrência e ficava a última a reinar sozinha!
Metes as mulheres todas nesse teu barco? Generalizas demais!
Queres passar-me a rasteira? Não, isto não se aplica a “todas” as mulheres por igual. Digo que se aplica mais ou menos a cada mulher segundo teores tão variáveis quão a variedade humana. Lembra-te, o ouro também existe em imensos terrenos mas só em alguns sítios se encontra concentrado em filão.
Enfim, meu caro – rematei –, tantas ideias sobre as mulheres e não tens agora mulher nenhuma! Esgotaste o repertório? Falemos então de cerveja e tremoços…

sábado, 11 de outubro de 2008

Como falar?

Enche-se a linguagem corrente de eufemismos. Parece que as pessoas já têm receio de abrir a boca para dar o justo nome às coisas, chamando ao pão, pão e ao queijo, queijo. Anda no ar uma espécie de fuligem maligna que retém debaixo da língua o que devia saltar cá para fora.
Naturalmente, o fenómeno resulta do ambiente social alagado por uma cascata de provações e severos constrangimentos. A população anda deprimida, amedrontada, inquieta, infeliz. É o desemprego, a vigilância e a repressão nos locais de trabalho, a insegurança das pessoas, vidas e bens, o amanhã sem futuro que apeteça.
Assim encolhidas e esmagadas, as pessoas guardam-se de si próprias e dos outros. Os eufemismos são modos de falar à socapa, tal como o falar por subentendidos. Ou por abreviatura corriqueira: «Está tudo?» (bem contigo/vocês?), perguntam por cortesia e nem ouvem a resposta.
Os vendedores informam-nos que deixaram de ter o artigo que pretendemos, foi «descontinuado», não que a fábrica deixou de o produzir. Outra empresa foi «deslocalizada», não que se mudou para país com mão-de-obra mais incondicional e baratinha. Um cego não gosta de ser cego, sequer invisual, gostará de ser «amblíope», tal como um negro, ou preto, prefere ser considerado «de cor», e a tarefeira doméstica passou a ser «empregada».
As palavras ficaram com gumes tão sensíveis que, em qualquer situação de emergência e descalabro, o termo consensual que a descreve fica posto em cifra na frase: «É complicado!» Tanta vezes esta frase se repete que serve para dizer tudo sem mais adiantar.
E já podem desejar-nos um generoso fim-de-semana à quarta-feira, ou atenderem-nos ao balcão com um amável «Posso ajudar?», quando sabemos que quem atende o que quer é vender, não ajudar.
As expressões ficam veladas e os gumes do discurso são contidos como outrora, no tempo da Censura, quando escrevíamos, ou falávamos olhando atentamente em torno, a rastrear pides. Fala-se querendo manifestar o que afinal se esconde. O stress está aí para rotular comodamente todos os casos de perturbação da saúde mental ou de esgotamento.
Mas tanto eufemismo aparece compensado pelo seu contrário. A linguagem corrente torna-se aqui e ali paroxística ou hiperbólica, a denunciar o mesmo fenómeno de raiz. A senhora fala da sua «empresa» e, vai-se a ver, é uma simples loja de arranjos de costura; o auto-apresentado «industrial» é dono de uma pequena oficina de reparação auto; o alegado «empresário hoteleiro» tem um café onde só cabem seis mesas, anunciado cá fora como pastelaria e salão de chá… E quem se dispõe, uma vez na vida, a ir à enciclopédia para copiar uma informação, é capaz de reclamar que fez, não uma vulgar consulta, mas uma bela «investigação»…
Nos modelos da linguagem corrente pode, assim, ver-se uma imagem gráfica do tecido de perturbações que envolvem a população e a mergulham na infelicidade.

domingo, 21 de setembro de 2008

A cócega do humor

Os portugueses vivem num ambiente pesado, andam cabisbaixos, deprimidos, infelizes. O ambiente invade as ruas. Nem as alegrias do futebol já tonificam a alma colectiva quanto baste! A tristeza descamba aqui e ali em situações de naufrágio e desespero. O desemprego, a inflação, o abaixamento drástico do nível de vida, a criminalidade em ascenso, tudo contribui para ensombrar as fisionomias.
Diagnosticar a origem do negrume (os efeitos da recessão, a crise) é pouco. Mas como demora a cura a anunciar-se, e ainda mais a chegar, aí temos a panaceia de recurso: programas de humor diários em opípara abundância. É recurso barato e universal, sem contra-indicações nem efeitos secundários afirmados.
Temos humor na rádio, humor na televisão, humor nos jornais, humor nas caixas de correio electrónico, humor no telefone… humor a correr por todo o lado. Temos produtores de anedotas a trabalhar de mangas arregaçadas. Quem sabe cuidar das necessidades do povo derrama estas brisas frescas no país murcho e entorpecido.
Mas o humor é coisa séria, voadora e bonita como a borboleta bela-dama. Aparece e acontece de asas abertas ao ar livre quando muito bem entende e o sol brilha, não em locais fechados de produção diária, em série, onde os martelos dos profissionais da anedota nacional, batendo nas suas bigornas, arrancam mais barulho do que humor. Espalha-se então a gracinha sem piada nenhuma.
Circulam pelo país as piadas fáceis, as anedotas descoloridas e sem jeito – orientadas para um nível cultural primário ou de viela - que deixam as bocas inertes, incapazes de se descerrarem num sorriso, numa completa indiferença. Talvez seja caso para supor que tanto esforço humorístico cansa, tanta cócega pré-fabricada já irrita. Sabe-se, aliás, que barrigas pouco cheias dificilmente sentem a cócega e que só com prodígios de arte consegue encher-se uma barriga de riso.
Irá isso demonstrar uma ingratidão? O povo tem falta de empregos estáveis e devidamente remunerados, falta de melhor qualidade de vida, de segurança. Aspira a melhores sistemas de saúde, de justiça, de ensino, etc., etc. Está aí a estagnação, a crise? Tenham paciência e esperem um pouco, está bem?! Entretanto, tomem lá este brinde, façam o favor de se distrair!

A indústria do humor serve ao povo o que o racionamento comeu.
Todavia, a experiência empírica parece anunciar que os períodos de quebra económica não são amigos do humor, antes, na inversa, os de alguma prosperidade. De barriga satisfeita e em paz, a piada graciosa tem graça e solta o riso prazenteiro. A cócega ajuda à digestão. Tanto humor, hoje, no país deprimido, talvez sirva apenas para demonstrar o que diz certo autor: que subjaz um fundo pessimista em cada humorista. O autor descreve-os como pessoas notavelmente desiludidas com o mundo e consigo próprias, que produzem anedotas porque na realidade se queixam de tudo.
Assim, os humoristas seriam uma espécie de palhaços que choram quando querem fazer rir. E temos a imagem clássica: junto da boca aberta em teatral gargalhada vemos a máscara da dor.

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Idosos descartáveis?

São os velhos. Os velhos que poucos gostam de ver e de aturar – e ainda menos de querer. Estorvam a vida de quem tem pressa. Dão imensas ralações a meter no hospital ou num canto onde alguém os guarde mas que nem assim deixam de dar chatices aos seus descendentes, tão atingidos já pela decadência final dos progenitores.
E os velhos multiplicam-se por aí fora quando as escolas primárias fecham e se reconvertem em alojamentos para a terceira idade. A população portuguesa está a envelhecer, é a «revolução grisalha» que também avança por muita Europa. Mas a multiplicação dos seniores portugueses, aparentemente, não reclama nem favorece uma reconsideração social, de resto indispensável, a todos os níveis do problema.
Os costumes não ajudam, longe como estamos da veneração que envolvia outrora os velhos de respeito. Na verdade, a estrutura familiar tradicional enfraqueceu-se e entrou em depressão. Mitos como os da «juventude» e do «consumismo» contribuem para colocar os velhos na condição de supra-numerários no mundo vivo e já sem prazo de validade. Serão por isso descartáveis?
Privados de associação, sindicato ou deputado eleito, os seniores resignam-se. Parecem demais - são «peste»!  Vão para onde os mandam e comem a sopa que lhes servem. Os «lares» (eufemismo vulgar) não chegam para atender à procura, sempre uma lista de espera está à espera de quem chama à porta.
É conhecida esta situação, tal como alguns casos isolados, mais ou menos escandalosos, de maus tratos, que por vezes afloram na comunicação social. Mas isso, a bem dizer, é nada em comparação com o que ouvi, de fonte segura, sobre desmandos e abusos diversos gravíssimos praticados em instituições privadas de solidariedade social (IPSS). A fiscalização da Segurança Social, que subsidia os «lares» e à qual compete averiguar as denúncias, registou-os e ordenou encerramentos (e onde vão depois os familiares meter os seus velhos?!)
Prender um mísero deficiente a um poste, ou manter vários idosos num quarto abjecto, coberto de porcarias, maltratá-los ou descuidá-los, pouco pode estarrecer. Porém, estes casos estão longe de ser esporádicos. E não têm comparação com outros, altamente chocantes. Um exemplo: certo utente entregava a sua pensão, a família ajudava, a Segurança Social subsidiava e, tudo somado, o «lar» recebia uns 2.500 euros! Outros exemplos, menos escandalosos, ainda assim, supreendem.
São frequentes as exigências de elevadas quantias para «furar» a lista de espera e receber um novo utente. É dinheiro que entra nas algibeiras da corrupção, garantem-me. Ocorre igualmente a exigência da entrega, por doação, de casa ou outro bem imóvel pelo idoso para que seja recebido. Casos destes alimentam negociatas e esquemas que envolvem directores, comissões fabriqueiras, etc., entre abastanças particulares sumptuosas que contrastam com a penúria dos «lares» que os mesmos dirigem.
Ora as IPSS, declaradas como entidades não lucrativas, por sinal ligadas na maioria a misericórdias e à Igreja, pedem ao Governo melhores apoios. Reclamam do Estado mais e mais «previdência» mas defendem as privatizações com unhas e dentes. E, nas eleições, guiam os velhos a votar no partido que eles sabem…

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Texto anónimo achado dentro de uma garrafa

Retratistas diversos têm tratado de fixar a vera fisionomia do povo Tuga. Esforços vãos. Captaram-na com visão muito externa, como se, visto de fora, o povo Tuga fosse comparável e, por esse lado, compreensível. Mas esse povo, o retinto, não evolui com o tempo, não foge à fixação. Nega é o seu próprio retrato na medida em que, imobilizado, com ele se encontra.
Um novíssimo retrato poderá ser tentado desde que não queira ver em movimento uma fisionomia parada. Tentemos, pois, num flash, apontar para o país dos Tugas que se espalha pela «província» e está presente na capital, onde a fisionomia avulta atrás das portas e espreita às janelas de bairros e becos, nos centros e nas periferias (lembrete: esvai-se a cidade nas páscoas e nos natais e então é que se vê a quantidade de país profundo amontoado no topo macrocéfalo nacional). Acumulada a quantidade significativa de povo Tuga, poderá desenhar-se o seu novíssimo retrato a tinta da china, isto é, preto no branco. Começa por apalpar na sombra da história a formação do corpo social, remontando senão ao Fundador, pelo menos a Quinhentos, ao povo das caravelas embarcado ao cheiro de riquezas na lonjura, regressando abonado e tornando a partir sem cheta porque cá não cuidou de encetar bom governo, preferiu esbanjar o ganho. Deixou o governo para outros, já que ele se afidalgava, crescendo em orgulho, entre viagens e aventuras, ao ponto de a pobreza ou a miséria alastrar no país até pedir à rainha a criação da primeira Misericórdia.
A alma desse avoengo - aventureiro em terras estranhas, fidalgo na sua terra (detestável terra, nada faz por Ele!) – passou de geração para geração, alojando-se no âmago do povo Tuga como um atavismo, de onde se projecta em manifestações tão banais que se tornam invisíveis. Manifestações, porém, que saltam à vista quando a alma do fidalgo arruinado, estereótipo nacional, que outrora mandou o criado à rua a esmolar uma côdea para a fome de ambos, é picada e acorda do sono. Então o povo acredita no Pai Natal como uma criança: pede serviçais que o substituam na governação do país, e pede serviçais que lhe escalonem as dívidas e as renegoceiem com o banco. Reaparece pela mão das velhotas «caridosas» que alimentam na rua uma porção de gatos vadios, pombas, gaivotas, ratos, etc., pondo sobejos de comida sobre o papel do recente apelo da autarquia para que tal não façam. Assoma no gesto de quem deixa o saco de lixo à beira do lancil, junto à roda do automóvel que vai esmagá-lo, ou no sorriso da mulher que, contente porque, uau!, «está na tv», explica que a sua situação, com o cônjuge desempregado e ela atingida por extinção do emprego sem despedimento colectivo, é agora uma «situação complicada». O Tuga volta a emigrar por saber que «lá fora» consegue endireitar-se e, milagre!, fazer-se «outro». Se uma tempestade lhe derruba a tenda, reclama que «alguém há-de pagar» os danos, não ele. Discute futebol porque na sua roda é o que mais se discute e ele não quer ficar de fora, ora essa. Os seus vizinhos têm a mania mas ele faz-lhes ver. Afirma como suas as opiniões da cassete do partido e dos maiorais do clube, vota pouco e por fezada. Agrada-se de políticos que julga conhecer por os ver na televisão. Está com a maioria, seja qual for, mas prefere que a maioria rime com ele. Acredita na mediocracia mas ninguém lha explicou e também não pensou bem no que isso pode ser.
[Pela cópia: :-)]

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Um país distraído

Cena habitual: ao balcão peço um café cheio. Quem atende fita-me e acena um pouco, dá o troco ao último cliente e… vai servir o cliente que chega. Esqueceu-me! De facto, vejo a pessoa que trabalha como que ausente, está ali e também está longe. Repito-lhe o pedido, «café cheio, por favor». A pessoa parece responder «ah!» como quem acorda, vai para a máquina e confirma: «cheio?» Mas a chávena aparece-me logo semicheia e eu insisto: «cheio, por favor». Algo contrariada, a pessoa executa por fim o que lhe peço mas deixa-me em crer que me acha esquisito.
Não é cena episódica. Ocorre num qualquer balcão dos meus e tão frequentemente que se tornou vulgar, logo, «invisível». E assim se manteve até que, um dia, a conversar com um certo engenheiro, por sinal jovem, o contraste saltou para me acordar a atenção. Espanto! Quem falava comigo estava inteiro diante de mim, falava comigo todo presente. Fitava-me e sentia-o tão atento ao diálogo quanto eu!
O espanto apurou-se porque de imediato se tornou perceptível que, por aquelas bandas, normal era encontrar interlocutores «presentes de corpo inteiro». O contraste ficou então estabelecido. Habituara-me em demasia ao meu ambiente cheio de gente desconcentrada, como que pairante, sonhadora, evanescente, e, por contraposição, finalmente descobria-o.
Eu estava, porém, a uns milhares de quilómetros da orla atlântica que habito e à beira do Pacífico, longe, portanto, da pátria lusitana. Mas uma luz acendera-se, uma atenção nova deveria aplicar-se em tal direcção. E foi assim que, desde há anos, ando a observar comportamentos reveladores de vulgares alheamentos no rectângulo ibérico.
Seremos talvez, em parte, um povo distraído por um qualquer fenómeno que estará a pedir estudo ponderado de especialistas da vertente psicossocial. Perguntar-se-á: distraído com quê? Não o perguntem a mim, perguntem ao povo, àquele mesmo povo que parece andar ausente, nas nuvens, e sem querer acordar.

Hoje é dia de inauguração de mais um centro cultural. Bendito país! Cobre-se de uma rede de centros culturais cuja acção «cultural» incide principalmente, ou mesmo exclusivamente, na promoção de espectáculos. Investe-se muito dinheiro na criação de tais equipamentos. Com que fim? Chamar as populações envolventes para consumir os espectáculos que desfilam pelo palco?
Que tipo de espectáculos? Teremos teatro? Do sério, bom? Teremos cultura viva? Literatura, arte? Não. Teremos espectáculos musicais. Muita música, e da ligeira, para abanar o capacete, porque é mais popular e porque a bilheteira reclama freguesia. Talvez da pimba, ou quase, de sucesso garantido. Grupos em itinerância precisam de vender os seus últimos sucessos gravados em CD, agora de venda difícil ou muito lenta nas lojas.
Enfim, há vozes que declaram Portugal com uma economia de casino. A mim parece-me que somos bem mais o país do espectáculo.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Pátria sem filhos

Desde que as nossas escolas começaram a ensinar competências e já não saberes, parece que deixaram também de ensinar o amor da pátria. É um sentimento estranho, mesmo exótico, agora. Em Portugal deixou de valer o patriotismo, talvez seja assunto entregue ao cuidado de alguém que é pago para sentir por nós o que nos competia.
Nesta atitude, escandalizam-nos os estrangeiros que vêm gozar as suas reformas ao nosso sol e, com imenso topete, desfraldam a bandeira da pátria de origem no mastro da casa que compraram no All…garve. Pois querem ensinar-nos o quê?! O português emigrado não faz isso e, quando regressa à pátria, até exibe em casa a marca de onde veio. Não tem por costume implantar no jardim ou no quintal um pau de bandeira e, ainda menos, de o enfeitar com o símbolo nacional - símbolo que não tem na gaveta. Basta-lhe exibir a bandeira da sua equipa de futebol.
O português alheou-se do sentimento patriótico, que passou a considerar rançoso, tonto, ridículo. Identifica-o por aproximação com uma ideologia nacionalista, de direita. Acha que este tempo é de globalização (conforme políticos e empresários gostam de repetir): na mundialização, portanto, se diluem as fronteiras e, ó maravilha, já declaram o português cidadão europeu.
Evidentemente, o comércio reclama portas abertas em geral para transpor livremente os limites territoriais e os fluxos financeiros não lhes ficam atrás, se é que não lhes cortam caminho. Mas estamos perante uma confusão tremenda que se foi instalando subrrepticiamente, desde data recente, no imaginário colectivo. Talvez haja bom motivo para supor que a mudança se iniciou, nos anos ’80, com a entrada de Portugal na União Europeia.
Todavia, a integração europeia não apagou as nacionalidades: integrou mercados e consumidores, políticas económicas e financeiras dos países envolvidos,. A dimensão sociopolítica ficou sentadinha na sala de espera e vai-se entretendo com uns acenos. Por outras palavras, a União Europeia continua composta por uns tantos países: uns principais, outros secundários, uns grandes e fortes, outros pequenos e anémicos… e, claro, aos principais sobra egoísmo nacional.
Verdadeiramente, qualquer que seja a ideia que aloje na cabeça, o português compartilha de algum modo, com a sua sorte, a sorte da pátria que é sua. A soberania dos Estados, aparentemente, anda enfraquecida, as nações e os povos sofrem atropelos neste ambiente de desregulação arbitrária, mas esses são outros tantos problemas da nossa época que urge resolver. Vendo limpamente através das cortinas em suspensão, o amor da pátria é tão necessário hoje como ontem. Com esse amor nos agarramos ao chão que pisamos - a rua, o bairro, a região, o país em círculos sucessivos – e, defendendo-o, nos defendemos. É o nosso barco, queiramo-lo a navegar. O sentimento patriótico, sem sofismas, abre-nos os olhos para o que de facto é nosso; teremos a segurança e a tranquilidade possíveis cuidando do que compartilhamos e nos pertence.
[Ilustração: Mãe, desenho de Isa Ventura]

quinta-feira, 20 de março de 2008

Sonoridades inaudíveis

A meio da tarde fiquei à beira do jardim da Cordoaria, dentro do carro, esperando quem tardava. Então, de surpresa, fizeram-se ouvir carrilhões na torre dos Clérigos. Um concerto! Alguém, um raro carrilhonista, estaria a dar socos e pontapés nos comandos para fazer repicar os sinos.
Maravilha!
Quando a pessoa amiga deixou de se fazer esperar, disse-lhe:
– Ainda bem que tardaste. Corri os vidros e pude apreciar um esplêndido concerto nos carrilhões ali dos Clérigos.
Incredulidade:
– Concerto? Nos Clérigos? Não acredito. Parece que a torre até já se esqueceu que tem carrilhões!
Ri-me com vontade:
– Bom, também eu não sabia de concertos nenhuns, mas agora, depois de ouvir este, hei-de ouvir mais. Certamente são periódicos, vou averiguar…
Averiguando, explorei a roda das relações pessoais. Colhi o mesmo espanto e a mesma incredulidade. Neste ponto, pensei: por que diacho pessoas que tão bem julgam conhecer-me resistem assim, forte e feio, a crer no que digo tendo-me embora na conta de sério?!
E como é possível que tão inaudíveis sejam os brônzeos sinos da torre tripeira a bimbalhar?!
Tenho agora, na colecção de discos, um com o som dos carrilhões dos Clérigos. Felizmente. Pelo sim, pelo não. Como fará reagir os incréus?


Notícia para alegrar o dia cinzentão: um cientista do rectângulo ibérico afirma que a inteligência dos portugueses está a aumentar. Neste caso, porém, quem anuncia a boa nova é quem pretende pô-la a render, pois o cientista se apresenta como autor de recursos já criados, óptimos para expandir ou melhorar as capacidades mentais. Não por acaso, até quer ir mais longe, o que significa que projecta expandir o negócio.
Possivelmente, terá alguma razão. A inteligência, em certos indivíduos bem escrutinados, tem o poder da luz amplificada e estimulada, mas deixa-nos a perguntar: para que deve servir mesmo a inteligência? O raio da luz laser age como instrumento de cirurgias curativas ou como raio de morte?
Entretanto, para que alguns escolhidos fulgurem como sóis em noite escura, camadas e mais camadas de gente arrebanhada mergulhará na idiotia ou na imbecilidade. Não saberá ler = entender uma página ou fazer
de lápis na mão uma conta de somar. Para isso caminhamos.

quarta-feira, 12 de março de 2008

Escrever, hoje

Saio da conversa impressionado. Os amigos S. F. e A. A. M. declaram-se indiferentes à situação objectiva em que estão autores literários com «presença» comparável à nossa. Teimam ambos em continuar a escrever e a querer publicar de olhos cegos para uma realidade cada vez mais opaca. Para eles, é como se a situação actual fosse a de há trinta ou quarenta anos com alterações mínimas. Concorrem aos prémios em busca de alternativas editoriais para os seus inéditos e cada vez menos as «novidades» têm alguma réstia de visibilidade, leitores, permanência. Aponto-lhes a minha editora: por carta anunciou-me que ia retirar do mercado e saldar em feira ao desbarato sete obras minhas, todas recentes. Aqueles amigos encolhem os ombros, tornam-se evasivos. Parecem ignorar ou quererem contornar as consequências directas que resultam das mil e tantas novas edições que saem mensalmente neste pobre país, fazendo rebentar os armazéns pelas costuras. Direi: resistem a interiorizar as mudanças do tempo. Continuam, imperturbáveis, vendo tantos, que podiam ler (o verbo de encher?), a escrever com a freima sagrada de quem tem a última palavra em riste e a publicar nas centenas de editoras em actividade…
Atitude desconforme. Tão desrazoável a sinto que me enredo em pensamentos que me trazem cabisbaixo de regresso a casa. Com esta idade, vejo-me envolvido nos langorosos braços de D. Solidão, praticamente sem sentir família, sem alguém a quem deixar a minha obra publicada e a póstuma. Ainda e sempre a escrever, e não apenas estas linhas cruzadas do meu solilóquio. Questão essencial, hoje: escrever o quê? Para quem? Para quantos?
Interrogações minhas. Aqueles amigos não ajudam à resposta (desejavelmente colectiva, para situação colectiva).


Repete-se uma cena ridícula.
- E a menina o que deseja? – pergunta a empregada do balcão, uma fresca rapariga.
Sem dúvida nenhuma, o aspecto da cliente indica uma idade que a habilita a ser folgadamente avó dela. Todavia, a cliente acolhe com naturalidade o tratamento de «menina».
A terceira idade recua assim, envergonhada, perante a afirmação grotesca da «juventude» em moda aos balcões do negócio popular.
Decerto o fenómeno implica e explica um outro, o de rapariguinhas de catorze-dezasseis anos. Ao lado das mães, que parecem suas irmãs mais velhas, disparam-se para a vida adulta com tal pressa que depois, com vinte-trinta anos de idade, já acumularam rodagem que as transforma em «velhas» prematuras.
Anda a «juventude» elevada à categoria de mito que tudo é e nada contém?
Contraste bizarro: andam a proclamar por aí que os rapazes atingem realmente a idade adulta aos quarenta!