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segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Canção da solidão radical


O nosso tempo puxa pelo radical. Parece ter perdido a noção do equilíbrio, está aberto a todos os extremismos. Não o demonstra apenas o que cada um de nós observa no seu dia-a-dia, agora até uma canção popular o exprime.
Agora? Não. Desde 1991, ou seja, há quinze anos que o país anda a ouvir a canção “Nasce selvagem”.
Essa canção está no CD “Palavras ao vento” do grupo Resistência e continua a integrar as playlists em voga, de maneira que percorre os pátrios ares. Mas a letra, musicada com inegável brilho, veicula uma mensagem atroz, pesada, intragável. Declara, ostensiva e rotundamente, o individualismo mais irredutível, feroz, irremediável.
A mensagem não se limita a observar uma certa marginalidade social, avança para mais longe; recomenda e aconselha: “Vive selvagem / E para ti serás alguém / Nesta viagem”.
Explica o porquê da opção: “Mais do que a um país / Que a uma família ou geração / Mais do que a um passado / Que a uma história ou tradição / Tu pertences a ti / Não és de ninguém // Mais do que a um patrão / Que a uma rotina ou profissão / Mais do que a um partido / Que a uma equipa ou religião / Tu pertences a ti / Não és de ninguém”.
Se esta mensagem pretende dirigir-se a um (ou uma) jovem, quer persuadi-lo de que se encontra de facto no mais completo desgarramento, numa absoluta solidão. Não pertence a nada, sejam pais, irmãos, amigos, parentes. Não tem pátria, tradições, história ou religião e, menos ainda, profissão, clube desportivo, sindicato, partido.
Que espécie de ser humano, assim concebido, isto é, assim tão despojado de atributos humanistas, poderá ser este, radicalmente separado de todas as redes de pertenças que o definem socialmente? Despojado de uma dimensão social e, por decisão própria, feito “selvagem”, estará tal ser humano preparado para viver enfrentando um mundo eventualmente ainda mais selvagem? Pior: esse “selvagem” terá de viver dentro na sua “selva” e, muito mais, consigo mesmo!
Nada resta aqui do lembrado “selvagem” de J. J. Rousseau, “bom” porque ainda se mantinha integrado na natureza em que nascera. A canção “Vive selvagem” insiste na sua mensagem dissolvente, repetindo: “Quando alguém nasce, / Nasce selvagem / Não é de ninguém”. Talvez a quadra natalícia seja apropriada para questionar pais irmãos, amigos, partidos, associações culturais, filantrópicas, desportivas e etc.: uma nova geração nasceu e cresce ouvindo isto – não há nadinha, influência nenhuma, a reportar?

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

A teologia perdeu o lugar

corneta-1.jpgO homem arengava contra o televisor e, em volta, ouviam-no com indiferença. Mas o homem animou-se, agitou os braços e disparou: “As religiões nascem dentro da ignorância, as teologias da superstição, as crenças de esconjurações do medo.” Depois, como que esgotado, bebeu o que restava da cerveja e foi-se.

Eram palavras interessantes, ficaram-me a ecoar na memória. Na verdade, a enciclopédia dos conhecimentos científicos actuais permite elaborar conclusões seguras, muito aceitáveis, sobre questões que em tempos recentes permaneciam em discussão aberta. Basta conjugar ciências como astronomia, física, biologia, antropologia, geologia e outras para se chegar à luz.

No fim de contas, tudo se explica e, portanto, pode compreender-se no fenómeno prodigioso que é a vida nas múltiplas formas que assume. A vida que surge sempre envolvida na matéria, demonstrando que a vida não é imaterial. Logo, compreendamos a vida conhecendo como a ciência desvenda os segredos da matéria.

Podemos avaliar a idade da formação do Sol e da Terra, terceiro planeta do nosso sistema planetário, ou há quantos milhões de anos andaram por cá dinossauros e australopitecos ou perceber que a espécie humana a habita há já centenas de milhares de anos. Importante, porém, é olhar para o céu em que este planeta e este Sol se encontram, não para o céu metafísico. Estamos no espaço cósmico, nele vivemos, e no entanto parece que nada nos convence de que é matéria o que mais abunda no espaço, que é possível que em alguma dessa matéria (viajante em meteoritos) esteja uma simples bactéria e que essa bactéria, multiplicando-se, origine toda a complexa vida biológica de um planeta em tais condições.
A hipótese de que haja outros planetas semelhantes à Terra é portanto perfeitamente admissível. Deve haver muitos no cosmos, difícil é chegar lá. Veja-se a notícia recente sobre o planeta “como a Terra” descoberto na constelação do Centauro: sendo nosso “vizinho”, fica a mais de quatro milhões de anos-luz de distância…
Afinal, o que mais sobra no Universo é espaço, distâncias incomensuráveis à escala humana. Talvez o espaço cósmico seja uma “matéria negra” numa outra organização da matéria que desconhecemos. Que lugar pode restar, então, para as teologias?
Nenhum. Todavia, neste ambiente de crises acumuladas, de sofrimento e desespero, novas religiões e novas teologias irrompem e multiplicam-se como medusa, a mitológica serpente de mil cabeças. Crenças e crendices continuam, infrenes, a povoar os imaginários populares embora uns tantos notáveis insistam em declarar o fim dos dogmas e a “morte de Deus”.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Turquia, porta giratória da Ásia

us.jpgO mapa da Europa que eu, menino, encontrei nos livros e nas paredes das primeiras escolas abarcava a Turquia e o norte de África, portanto as duas margens do Mediterrâneo. O país modernizado por Kemal Ataturk aparecia ali numa fronteira imaginária entre a Ásia e o “velho continente”. Esta posição de país-charneira tem atribuído àquele país um papel de porta giratória entre os dois lados mas agora o presidente Erdogan parece disposto a virar as costas ao Ocidente acabando com o regime laico do Estado para o islamizar e a querer-se, em vez de presidente, sultão.

Assim, como porta de entrada e saída de europeus e asiáticos, a Turquia tem para mim uma reminiscência curiosa. Segundo José Pijoan, autor principal de uma história do mundo que traduzi (trabalho de três anos: 1973-75), a designação de Ásia teria começado por nomear uns prados em terras do continente avistados da ilha helénica mais próxima (onde por sinal vai chegando “à Europa” uma infinita corrente de refugiados das guerras); depois a designação alargou-se à medida que essas terras, do Levante e outras, chegaram ao conhecimento dos viajantes gregos. A designação da Ásia entrou na nossa língua pelo latim através do grego (Ασία, em acádio subir), mas são variadas as explicações da sua origem, de modo que nos atemos somente ao primeiro registo do topónimo: encontra-se em Heródoto, historiador grego que, por volta de 440 a.C., mencionava uma divisão do mundo em três partes mitológicas.
Todavia, sem dúvida nenhuma, a civilização asiática teve início há mais de 4.000 anos, muito antes de começar no mundo ocidental, com actividades económicas, manifestações culturais e desenvolvimento da ciência. Sabe-se igualmente que os povos da Ásia fundaram as cidades mais antigas, estabeleceram os primeiros sistemas de leis tal como as formas iniciais da agricultura e do comércio. E mais, os asiáticos inventaram a escrita, o papel, a pólvora, a bússola e os tipos móveis de imprensa e criaram as primeiras literaturas, sem esquecer que também foram asiáticos os fundadores das principais religiões do mundo: Buda, Confúcio, Cristo e Maomé.
Por tudo isto, convém lembrar que a Ásia - com o Levante, o Médio e o Extremo Oriente - é o maior dos cinco continentes, onde avultam nações enormes como a Rússia, a China ou a Índia entre outras nações de tamanho minúsculo. Os seus povos diferem igualmente quanto a árvores genealógicas, práticas, comportamentos, idiomas, crenças religiosas e modos de vida. Enfim, os europeus consagraram o Oriente com a velha frase de que é daquele lado que nos chega a luz – seja a da aurora ou do espírito – mas a frase tem-se perdido em corridas a apetitoso e abundante petróleo e maquinações que soltaram por lá a revolta e acordaram por cá uns monstros sanguinários.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Em nome “da” civilização?

Um indivíduo ou um grupo, uma comunidade ou um povo, que caricaturam e troçam de valores principais ou ícones consagrados de outros povos não exercem singelamente o seu direito à liberdade de expressão. Avançam, queiram-no ou não, até mais longe. E nesse longe aparecem agora acumuladas consequências.
Naturalmente, nenhum direito é absoluto, ou seja, que pode reinar sobre qualquer outro. Pois não manda a boa lógica que as minhas liberdades pessoais cessam onde principiam as dos outros? Mas verdades destas, comezinhas andam a sumir-se por aí nos vórtices rodopiantes da confusão.
Vejamos. O gesto, repetido, de caricaturar e troçar de valores notoriamente consagrados por uma comunidade ou povo até pode demonstrar, em última análise, que a pessoa ou o colectivo do gesto não considera nada, absolutamente nada, sagrado. Eu, porém, nunca vi nem consigo imaginar alguém de consciência totalmente alheia ao que é ou pode ser sagrado (com ou sem vínculo religioso), mas, se tal aberração puder acontecer, o seu gesto desrespeitoso dará aos ofendidos o direito recíproco a reagir.
Neste ponto preciso, creio eu, temos o fulcro da questão que alvoroça e sangra o mundo. Quem troça e escarnece, com irreverente à vontade, do que outros têm como sagrado, demonstra que não respeita o sagrado alheio com alguma da facilidade com que prescinde de respeitar o seu próprio. Permite, no mesmo acto, que o vejam como vil intruso despojado de qualquer transcendência.
Todavia, a irreverência assume todo o seu impacto no gesto que pretende submeter o que é declaradamente diverso para o apagar. Provém de uma força beligerante, arrasadora e brutal, com vocação pretensamente planetária de carácter imperialista. Mas terá uma qualquer civilização, em nome “da” civilização, o direito de se considerar superior e suplantar uma outra?
Talvez esteja aqui a contradição que vai opondo, mais e mais, o ocidente cristão ao oriente islâmico (e sobretudo às comunidades jihadistas geradas em matrizes criadoras de antagonismos estratégicos), de acordo com o “choque de civilizações” prognosticado por Samuel P. Huntington, político norte-americano que viu nas diferenças culturais e religiosas dos povos o elemento detonador de conflitos, depois de Fukuyama teorizar acerca de uns eventuais “fins da história”. Passo a passo, regressou a guerra fria e, sorrateiramente, vai-se preparando o ambiente (só europeu?) para uma terceira conflagração. Acirrados uns contra os outros, os povos começam a armar-se com propagandas intoxicantes, incompreensões induzidas e aversões instaladas… antes de pegarem em armas.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

O sagrado em reflexão

A ordem das coisas sagradas não é hoje, ou pode não ser, apenas uma questão religiosa, matéria de especulação teologal. Sagradas podem, e devem ser, vidas humanas em risco, aspirações de mais alta justiça, mais liberdade, mais paz. O sagrado dos crentes coabita no mundo com o profano dos não crentes ao ponto de se (con)fundirem nas duas faces de Janus.
Aparentemente, os progressos científico e tecnológico, que permitiram conhecer a estrutura do átomo e a vastidão do cosmos, comprimiram o lugar antigo das religiões, pouco a pouco invadido pelas mentalidades modernas e os costumes da vida laica. Basta, porém, notar, por exemplo, os temas que vão correndo em filmes e romances populares, tão alienantes, recheados de magias incríveis, crendices retrógradas ou fantasias sobrenaturais, para de relance se perceber quanto mudou na paisagem da cultura religiosa vulgar. Ainda assim, note-se, sem paradoxo, a crescente agressividade que os manifestantes cristãos e muçulmanos europeus, acusando-se mutuamente de fanatismo, actualmente revelam.
Uma dimensão sagrada, qualquer que seja, parece inerente à condição humana normal. Sem se imbuir da noção do que é sagrado, proveniente de formação religiosa ou outra, sem deus, mas cultural e humanizada, as pessoas ficam privadas do atributo que supomos estrutural. Por isso, o problema do nosso tempo reside talvez no apagamento de uma formação que, em última análise, confunda educação religiosa ou cultural, ética e humana. 
Daí a interrogação antes posta: o que resta de sagrado no mundo, hoje? É perante o que temos de sagrado que se estabelecem os interditos, as obrigações gerais da ética, os princípios humanos basilares. Ora, o apagamento do que seja sagrado (quer dizer, do “sacrário”, lugar íntimo onde guardamos os valores supremos, imateriais, sem os quais os indivíduos e a espécie ficam sem defesa) expõe os povos a incalculáveis perigos. 
Não há dúvida, a barbarização dos costumes está a progredir e a (in)civilização do século XXI a descambar, avançando cegamente, conforme algumas vozes previnem, para uma nova Idade Média e, provavelmente, uma terceira grande guerra. 
As massas habituaram-se ao seu próprio aviltamento e à violência – nos campos de futebol, nos filmes, nos televisores – e praticam-na quotidianamente, de variados modos, nos ambientes familiares e nos espaços públicos. A decadência da Europa vai além da estagnação económica e da crise geral em que se afunda. Envolve os desvios sofridos pelos sistemas escolares, a fraqueza da criação e fruição cultural autênticas, o abandono de programas de elevação colectiva das pessoas e dos povos.

terça-feira, 8 de julho de 2014

O Estado e a religião


Segundo leio, restam apenas três estados teocráticos no mundo. São o Estado do Vaticano, o Irão, país dos ayatollahs, e Israel. Mas este vai ao ponto de entronizar a religião como elemento constitutivo do próprio Estado, identificando e agregando não cidadãos enquanto tal mas crentes e praticantes da Tora.
Os outros países, sendo mais ou menos laicos, organizam o Estado de muito diversas maneiras. De facto, o desenvolvimento dos povos e as mudanças das mentalidades e dos costumes provocou a evolução geral das estratégias políticas. Os hierarcas da igreja dominante não coroaram mais os reis de antanho nem, por exemplo, os governantes impuseram mais barretes cardinalícios.
Assim, parece ter-se imposto, desde o fim do século XIX, uma tendência crescente para afastar a religião da esfera dos estados. O laicismo correspondeu a esse desígnio incluso em Portugal sem conseguir, no entanto, iludir deveras a influência da igreja dominante. A Católica mantém entre nós a primazia em muitos aspectos da vida nacional, de modo que deixa ver ainda hoje o poder estatal bastante subordinado ao poder religioso.
Em tal contexto, vem à memória um livrinho publicado em Portugal em Novembro de 1970, intitulado “Sobre a Religião”. Lembro: Marcelo Caetano era presidente do Conselho desde 27-9-1968 e o país debatia-se entre a continuidade ou a evolução com tamanha ânsia que rebentava as baias da repressão da ditadura. Ora, se o tema do livrinho era melindroso, atente-se no seu autor: V. I. Lenine.
Naquela circunstância, exagerando possivelmente, direi que a obra causou um grande impacto. Mas faço declaração de interesses: fui o tradutor e editor o livro (estreou, por sinal, as efémeras Edições Razão Actual). Singularidade: uns tantos exemplares foram apreendidos nas livrarias pela PIDE (os livreiros mandaram os autos de apreensão) mas o livro, sem reedição, acabou por não entrar na lista dos proibidos!
Traduzi o texto do espanhol, que encontrei publicado em Cuba, em volume com prólogo de Francisco. Era uma recompilação de vários artigos de Lenine (mais duas cartas dirigidas a Máximo Gorki) datados de 1905 a 1922 que expõem o seu pensamento acerca do tema religioso. Uma ideia essencial percorre a obra: “Nós exigimos que a religião seja um assunto privado relativamente ao Estado […] O Estado nada tem que fazer com a religião; as sociedades religiosas não devem estar ligadas ao poder do Estado. Qualquer pessoa deve ser completamente livre de professar a religião que lhe agrade ou não aceitar nenhuma religião, ou seja, ser ateu” (pp 33-34).
Entretanto, a ideia da separação dos dois poderes tornou-se bastante consensual, ao ponto de atravessar o espectro político-ideológico da esquerda à direita. De facto, uma eficaz e rigorosa delimitação dos poderes das duas partes transformou-se numa aspiração dos povos. Desejam o fim da intromissão da influência de uma parte sobre a outra para que saia favorecida a maior transparência do processo de tomada das decisões democráticas. [Imagem: desenho de Almada Negreiros (1893-1970)]

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Esta nossa vida “laica”

A Constituição da República não consagra expressamente que o Estado é laico. O Artigo 41, sobre “Liberdade de consciência, de religião e de culto”, deixa o assunto em indefinição de modo a servir com oportunidade quaisquer interesses. Todavia, um Estado que se pretenda moderno opta decididamente pela laicidade, declarando na sua lei fundamental que não tem religião porque nenhuma assume.
Segundo os livros, a vida laica é não religiosa; é profana, mundana, apreciadora dos prazeres sensuais. Laica também é leiga (sem pertença a ordens sacras), vida ignorante “do povo” no mundo secular contraposto a mundo espiritual. Mas o estilo da vida moderno tornou-se tão assumidamente laico que se torna cada vez mais estranho o facto de a laicidade da nossa República não aparecer consagrada na ordem constitucional vigente.
A presente situação mantém-se desde 2004, ano da nova concordata que substituiu a de 1940. Foi negociada por Portugal com o Estado do Vaticano quando Durão Barroso era primeiro-ministro. Desperdiçada ficou a oportunidade para proceder ao aggionarmento que já então se impunha, deixando a reinar a ambiguidade.
Enfim, a separação do Estado das várias igrejas não priva a Católica de uns antigos privilégios que não quer perder e que nenhuma outra alcança. Os portugueses até podem ser muito católicos mas não cumpre ao Estado sê-lo. Se for ou se é, perde a independência, torna-se confessional, um Estado teísta como os poucos que restam no mundo e que os governos ocidentais tão acirradamente condenam.
Na realidade, as coisas conjugam-se de maneira a beneficiar a Igreja Católica com importantes privilégios. O ensino católico obtém largos apoios oficiais (quando “O ensino público não será confessional”: Const., Artº 43, 3) mas vêem-se cruzes em escolas públicas, sacerdotes a abençoar novos equipamentos, presença de entidades católicas em actos oficiais, etc. Entre bastantes isenções de impostos e outras variadas regalias conservadas pela Igreja, é de notar a conservação da capelania das Forças Armadas.
Em data recente, quando o governo PSD/CDS decidiu abolir uma quantidade de feriados nacionais, causou geral surpresa e algum escândalo a simetria numérica imposta: o Estado abolia cinco feriados civis e a Igreja Católica abolia outros tantos, religiosos. Reacendeu-se mais uma vez a velha questão: o Estado tem ainda agora que continuar a prestar contas à Igreja? O que é de César não tem que ser de César? [Imagem: cerâmica de inspiração mourisca, com motivos relevados, painel de Rafael Bordalo Pinheiro.]

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Em busca de alento

O leitor atento destas páginas deve vir notando o interesse, mesmo o fascínio, que certas palavras carregadas de história em mim despertam. Fascina-me realmente o que podemos encontrar devassando o que nelas se guarda. E assim terão notado quanto me atraía o vocábulo anima, que encontramos na raiz latina da alma”, a tal que os teólogos dizem eterna, e na animação que em tempo recessivo nos escasseia.
Porque a semântica de anima (sopro, ar; alento) aponta para respiração, fácil era perceber que o vivente animado tem alma” na justa medida da sua animação. Mas logo a respiração me guiou para o verbo folgar” que, como recordaremos, não passa de um folegar, dar muito aos foles do peito, portanto de uma animação. No entanto, outras descobertas novas se fazem devassando vocábulos de uso corrente.
A respiração também aparece no alento”, substantivo de abordagem não menos reveladora. Significa, sem segredo, força para respirar; bafo, respiração; força; ânimo. Ou ainda, por outra via - de (h)alenitu - que o Dicionário regista, exalação; respiração
Curioso é que ao falar de anima ou folegar, ou de alento, a semântica aponte de imediato, com impecável pontaria, para a função respiratória. A lembrar-nos, afinal, que é função impreterível de todo e qualquer organismo vivo que vai continuar vivo. Mas, com especial relevância, que é função a mais vital da espécie humana...
Logo, são diversos os vocábulos que aludem ao fenómeno vida, que é respiração, bafo, exalação. E “hálito”? (“ar expirado, sopro, viração, bafejo”, do lat. halitu); e “anelo”? (do v. lat. anhelare, “respiração ofegante”).
Na sua variedade, exprimem a admiração maravilhada que sempre rodeia o fenómeno da vida a eclodir em acto onde quer que se anuncie. Mas como compreender verdadeiramente o fenómeno? A inteligência humana aplica-se, esforça-se e acaba sem mais alento...
Avança pelos organismos vivos, vai do mundo biológico até ao inorgânico, lá onde se dilui a fronteira entre o último ser vivo, digamos um vírus, e os processos físico-químicos. A ciência esclarece mais e mais, identificando a alma teológica com a respiração natural do ser vivo. Mas se quiser explicar o fenómeno da vida tal como o conhecemos no planeta, talvez considere que a Terra foi atingida há milhares de milhões de anos por um asteróide portador de elemento fecundante, uma simples bactéria, trazida do respirar cósmico...

sábado, 16 de março de 2013

De dom até dono e domus


Ando a ser perseguido por umas palavras que me agoiraram o miolo. São antigas, mergulham as raízes no latim e provavelmente em outras mais antiguidades. Mas não é verdade que nas palavras se guarda a história do tempo que as fez e que, se nos dispusermos a um esforçozinho para as abrir, veremos a luz que têm lá dentro?
Comecei a empreender no vocábulo dom. Sentia-lhe, desde há tempos, uma esquisitice intrigante. Na escola primária habituei-me, como toda a gente, a vê-lo ligado a reis e outras figuras da aristocracia, depois também a bispos e cardeais e por fim, graças à democratização, a senhoras donas. No tira-teimas, lá estava abonada a semântica: donativo, dádiva, qualidade ou vocação; do lat. donu-, “oferta aos deuses” e, como título, do lat. dominus, “senhor, dono [de casa], possuidor, proprietário; chefe, soberano, árbitro, senhor (com sentido próprio e figurado)”.
Eis quanto foi preciso para ficar agarrado ao tema. O dicionário regista que “dono”, proprietário, provinha do lat. dominu- e remetia-nos para o “dom”. Ora dominiu-, domínio (propriedade, direito de propriedade; banquete solene, festim) conduzia a domina, “dona de casa, esposa, e também senhora, soberana”…
Neste ponto, tendo na mão o dom e respectivas derivações fui, inevitavelmente, até ao lat. domus (casa, morada, habitação, domicílio), que lembra a domus municipalis. Era evidente a correlação existente entre as partes deste conjunto lexical. Apontava para um facto de grande relevância histórica com especial significado.
O facto demonstra que o dom era adquirido pelos felizes, então muito raros, possuidores de bens terrenos, propriedades. Um rei, portanto, adquiria-o por possuir vastos domínios com povos, palácios e castelos. No período feudal esses domínios entraram em progressiva fragmentação (repetiam-se as doações régias), de modo que o número dos senhores “donos”, isto é, com “dom”, foi crescendo.
Mas acaso poderiam assistir a isso os grandes hierarcas da cristandade sem disputa, eles que, no esplendor das catedrais, coroavam as cabeças dos reis sagrando-os em nome da divindade? A Igreja também possuía bens terrenos (e não eram assim tão poucos), ainda que, alegadamente, o seu reino não fosse deste mundo: estaria numa transcendência. Todavia, os “príncipes da Igreja” chegaram a ser titulares de domínios celestes atribuídos pelo soberano absoluto, o papa.
É verdade, os príncipes da realeza e da cristandade, conservadores empedernidos, continuam a manter na actualidade o seu dom, ao passo que outros grandes donos do planeta o dispensam, abraçados como estão aos seus milhares de milhões ou de triliões, mas será de notar que os colonos romanos da antiga Lusitânia, sentindo-se decerto miraculados, dotavam muitas vezes as suas villae com uma capela, costume depois mantido por donos posteriores de palacete solarengo. E por aqui me detenho, sem atender a outras derivações de tão prodigioso dom. [Iluminura medieval: tocadores de sanfona.]

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Vaticano: o papa resigna

A resignação de Bento XVI, tal como foi anunciada, de rompante, provocou o choque mediático que podia prever-se. Os ares e os dias encheram-se com ladaínhas devotas dos turibulários de sacristia a incensar e a glorificar os esplendores da decisão papal. Mal se ouviu, porém, no meio do alarido, a voz de quem percebeu no caso o sinal perturbante de uma crise que se aprofunda na cúria romana.
Essa crise aumentou ao ponto de provocar esta insólita novidade, impelindo para a desistência de funções o chefe supremo da Igreja católica. Certas fontes vinham de referir o seu real isolamento, o poder fragilizado. A situação geral merecia comentários, as preocupações adensavam-se.
Aparentemente, a renúncia de Bento XVI descerra o que as espessas paredes do Vaticano gostam de conservar bem dentro de círculos muito restritos e esse gesto, de chamar as atenções de um público mais amplo para a situação, será por certo o resultado maior que pretendeu atingir. Talvez o contexto em que se consumou deva incluir, por exemplo, a recente declaração do papa, que condenou o capitalismo selvagem, num pano de fundo em que se movem e contrapõem interesses que tomam o Vaticano como presa em disputa (máfias, maçonaria, opus dei...) Os poderosos senhores do planeta - novos deuses invisíveis - ambicionam estabelecer um governo mundial que naturalmente se completa com a integração do poder religioso.
Seja como for, a Igreja católica atravessa um período agitado de crise geral e de grave decadência. O papa pôde fazer-se perdoar pelo juvenil “passado nazi” mas não teve igual sorte pela cobertura dada enquanto cardeal Ratzinger a padres pedófilos alemães. Por outro lado, não contribuiu para o prestigiar o seu perfil conservador ou a sua pressa na produção de tantos e tantos beatos e santos.
Na verdade, a religião, e particularmente a católica, tem vindo a perder influência no interior das novas gerações (só europeias?), demonstrando que não há religião com as barrigas vazias. O que pode resultar do apelo do papa, há dias, para um renovado aggionarmento da Igreja católica, um outro Vaticano II? As populações envelhecem, há menos nascimentos, mas a sociedade actual, laica, ao desumanizar-se, aprofunda uma radical indiferença pelo outro, o próximo, o semelhante.
O enfraquecimento da vivência religiosa ressalta onde se generaliza a materialização das relações humanas que afirma o individualismo egoísta, a sensualidade ávida de prazeres fáceis e rápidos. Não será decerto apenas a falência da religião enquanto tal. Será também a perda do sentido do que é humano-humanizante no homem, dos valores universais da cultura, matriz da espiritualidade.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

A religião em tempo de crise

A situação económica, de crise estrutural, em que se afundam na atualidade tantos segmentos das populações europeias, ajudará realmente os povos a procurar consolo nas igrejas? Ou, inversamente, contribuirá para os afastar e deixar em descrença? A questão torna a pôr-se, pedindo novas avaliações.
O avanço dos conhecimentos científicos e da educação em geral, em coincidência com uma multiplicidade de fatores sociais, tem incentivado um progressivo enfraquecimento da adesão às formas cultuais da religiosidade tradicional. A laicização das populações vulgarizou-se e a religião foi-se resguardando na esfera do privado individual ou de grupo. O anúncio do “fim da fé” sobreveio à proclamada “morte de Deus”, supremo pai da vida substituído, nas sociedades de consumo e da liberdade fictícia, pelo “deus-mercado”.
De facto, Deus é não o criador da vida, logo da humanidade, sim criação humana elaborada em resposta a ignorâncias e medos ancestrais da espécie. Porém, a população católica portuguesa continua a ser maioritária no país, pois representa uns 85%. No entanto, abalada por escândalos de especial impacto (pedofilia, ocorrências no Vaticano), pode ter enfraquecido a fé, concorrendo para o aparecimento de 615.332 habitantes que o recenseamento de 2011 regista sem religião.
Mas a crise socioeconómica, se não anima o valor das côngruas e dos dízimos, pode atrair ao santuário maior peregrinos em renovadas súplicas por um emprego, ainda que lá cheguem de mãos vazias. Por outro lado, nem todas as correntes religiosas sentem a crise de igual modo. Enquanto a católica regista menos fiéis nos templos aos domingos, outras igrejas, da IURD e de outras organizações oriundas do estrangeiro, parece que singram com bom vento.
Nesta situação despontam alguns sinais de uma evolução geral surpreendente. Certas missas e outras celebrações religiosas apresentam-se com liturgias que transformam os templos em teatros e os oficiantes em atores de uma qualquer pantomima, com verbo inflamado e um pequeno sortido de frases repetidas (marteladas) cem vezes até aquecer e levar ao rubro a freguesia. Ora a freguesia aumenta: aprecia o espetáculo, a vozearia, a emocionalidade fácil e mesmo alguma superstição, sai satisfeita e volta.
Deus, lá do Seu etéreo assento, conserva o indefectível mutismo que tomou desde o princípio das idades e, portanto, nada diz. A liturgia deixa-se contaminar pelo lado laico e as celebrações religiosas, com abundantes Bíblias e crucificados, abrem-se para a cultura do espetáculo ruidoso e festivo. A vivência espiritual intimista sai para o exterior a tomar ares, prova da novidade e gosta, fechada num individualismo que não mais distingue religião de religiosidade, fé de crença iluminada por inteligência viva. [Imagem: placa de ugarit, a primeira escrita alfabética.]

sábado, 1 de setembro de 2012

Freguesias, herança milenar

Surpresa: as freguesias são uma das mais marcantes caraterísticas da organização territorial do nosso país. Não encontram paralelo além fronteiras, garantem os entendidos. Mas é contra esta verdadeira originalidade portuguesa que o governo pretende agir, reduzindo-as em número.
Agiu antes contra os sistemas escolar, de saúde, de justiça e do trabalho, pouco mais havia a jeito para completar o quadro da destruição. Engrolado na retórica da «crise», o povo crédulo aguentou e segue carregando nos ombros (até quando?) o andor da desgraça. Agora  veremos quantas freguesias vão acomodar-se com as disposições do governo sem entrar em protesto desatado.
As populações de cada uma dessas partes - sejam de tipo rural, semiurbanas ou urbanas contidas no território municipal - estão integradas na sua freguesia de formas bastante peculiares.  É a autarquia que tem mais próxima, para a qual podem eleger os mandatários conhecendo-os pessoalmente. As reduzidas competências atribuídas a estes órgãos básicos da organização político-administrativa do país e suas escassas receitas (cemitérios, feiras, baldios) ajudarão decerto a compreender a desatenção geral em que tem permanecido.
Na verdade, um único livro aparece a quem pretenda abordar de relance o assunto: As Freguesias - História e actualidade, estudo de José António Santos (Celta Editores, Oeiras, 1995). Junte-se o artigo que Carlos Mendes Pauleta lhe dedica (in «Finisterra», XXXII, 64, 1997, pp. 145-148), mais umas migalhas, e é tudo. E, caramba, é pouco!
Mas a surpresa bate à porta. A origem histórica das autarquias locais é remotíssima. Vem do tempo da cristianização da península pelos Romanos, portanto dos séculos III e IV, quando se formaram os embriões das paróquias, indica José António Santos citando o Padre Miguel de Oliveira.
Passaram, evidentemente, por diversas transformações, confundindo-se a princípio com o avanço do culto cristão. A própria designação dessas autarquias locais variou e sofreu alterações semânticas: «igreja», «diocese», «paróquia», «freguesia», «colação» - refere o Autor. Por outro lado, o artigo «Paróquia» do Dicionário de História dirigido por Joel Serrão conduz-nos à percepção de que as casas senhoriais das villae, espalhadas pelo campo, incluíam templo privado (paróquia = «igreja» primitiva).
Tudo isto ilumina com renovada clareza o processo do avanço da cristianização no terreno pondo em destaque a notável antiguidade dessas organizações de vizinhos. Estiveram sob a égide total da Igreja até ao advento do liberalismo, no século XIX, e em 1916, sob o regime republicano, laicizaram-se em completa autonomia civil. Existem hoje 4260 freguesias em Portugal, número que o governo (centralista) quer reduzir o mais possível... preparando o passo seguinte que será o de atacar o número dos concelhos e criar os círculos eleitorais uninominais que permitirão aos dois partidos maiorais revesar-se «democraticamente» no poder?

domingo, 8 de janeiro de 2012

Política e religião

Habituámo-nos à existência de forças sociais que defendem políticas consideradas de direita ou de esquerda. Esta clivagem vem de longe, percorre os anais da história desde a Revolução Francesa, demonstrando que as políticas defendidas pela direita tendem a servir segmentos sociais restritos mas influentes, enquanto as da esquerda tendem a contemplar largos estratos da população, isto é, o nível popular. São, a traço grosso, as duas tendências fundamentais presentes no dinamismo da sociedade.
A questão surge quando aparecem alinhados com a direita radical sucessivas gerações de políticos que, simultaneamente, são católicos fervorosos e obedientes. A religião, nesses casos, não é apenas assunto da vida privada do homem (ou mulher) público; passa a ser assunto também do seu partido e mesmo da sua Igreja. As políticas que defende contêm opções cujos valores éticos e humanos em geral se refletem na imagem do seu partido e na religião que professa.
A questão define-se, porém, lembrando-nos que é nos partidos da direita que se concentram os políticos nascidos nos berços das famílias privilegiadas. A militância aparece-lhes quase como um dever no sentido da conservação dos seus privilégios. A própria hierarquia católica, tão paternal, lhes mostra o caminho.
É neste ponto que se declara a questão: o papel e o valor do papel que a religião tem vindo a cumprir no interior da comunidade nacional. Falando não apenas do catolicismo, ou do cristianismo em geral, dos políticos da direita. Contemplando igualmente organizações como a Opus Dei, a Maçonaria.
A indagação fulcral consiste em apurar a flagrante contradição, verdadeiramente insanável, aberta entre os valores éticos e humanos contidos na doutrina propagada pelas apologéticas respetivas e as práticas concretas desses políticos. A religião fica parada à porta dos gabinetes - do Governo, do partido, da empresa - onde tomam as suas decisões. É algo como o vistoso sobretudo que deixam à entrada.
Tal contradição avulta, gritantemente, no quadro das crises que sufocam os países da união europeia governados por políticos de direita ou submetidos a políticas da direita, países levados pela onda do endividamento vicioso ao serviço da acumulação da alta finança que logo justifica a recessão e a austeridade. O sofrimento de extensas massas populares atingidas por desemprego, falência do Estado social, baixa de níveis de vida, instabilidade das uniões familiares - provocado diretamente pelas mudanças políticas - deixa esses políticos em notória indiferença. A religião desertou da política e, como sobretudo no cabide, ficou metida entre parênteses agora que a riqueza material reina a valer na terra e no céu.
Que papel e que valor atribuir, portanto, à religião? Se a fé, qualquer fé, já não liga o crente ao seu semelhante, isto é, se perdeu toda a transcendência, toda a espiritualidade, o que resta? Restará, pelo menos, a herança perpétua de uma religião natural de David Hume (1711-1776), a «religião (re-ligação) da humanidade»...

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Judeus ricos x católicos pobres?

O apagamento da memória que a evolução da religião católica teve ao longo dos séculos tende a inculcar a ideia, errónea, de que não houve evolução nem mudança. Todavia, a matriz comum de que nasceram as três principais religiões monoteístas mais conhecidas contém aspetos, por isso mesmo, pouco evidenciados.  Um desses aspetos parece continuar omisso e é o de encontrar uma resposta para esta velha questão: porque são, para os católicos, os judeus tão hábeis em negociar, lucrar, enriquecer?
A questão é assaz interessante e, longe de manchar a boa reputação da religião da maioria dos portugueses, realça, pelo contrário, a beleza da doutrina canónica emanada da basílica de S. Pedro para o mundo. Mas contrapõe, sem mais, um tempo antigo ao nosso tempo. Ora é aquele que fica a brilhar perante este.
É triste, creio eu, ter-se assim perdido um aspeto esplendoroso, embora nada impeça os católicos de considerar quanto queiram uns usurários incorrigíveis os judeus. Mas a questão traz à baila, já veremos porquê, a alteração que o pai nosso, eminente oração do cristianismo, sofreu e que já comentámos nesta coluna. Aponta para a rasura do trecho: «perdoai as nossas dívidas assim como nós perdoamos aos nossos devedores».
Posso testemunhar que, na minha pequena comunidade natal (situada entre Aveiro e Coimbra), pelo menos até 1945, aquela oração se manteve sem a emenda que depois sofreu. Curiosamente, ninguém deu fé da troca que então pôs «ofensas» no lugar das «dívidas». E mesmo hoje, afinal, pouca atenção merece a emenda daquele trecho da oração ditada por Deus, apesar de toda a magna relevância que assume no plano da orientação moral das relações sociais no universo católico.
Ficou a marcar uma viragem crucial na doutrina canónica vaticana. Finalmente, a Igreja passou a admitir o direito de quem concedia crédito não só de reaver o seu empréstimo como de auferir juros. Escreve Armando de Castro (artigo «juros», Dicionário de História, dir. Joel Serrão, Figueirinhas, Porto, 1981): «É bem sabido que na Idade Média, em Portugal como no resto da Europa, a Igreja combatia a cobrança de juros, justificando teologicamente a proibição com o argumento de que exigi-los seria extorquir valores ao devedor pelo uso do tempo, que era uma dádiva divina.»
De facto, «os princípios éticos e jurídicos medievais não previam sequer  uma retribuição em quaisquer empréstimos em dinheiro ou em espécie.» Escreve o mesmo autor na obra citada, artigo «usura»: «Sendo os juros proibidos pela Igreja durante a época medieval, somente quando o investimento na produção dos capitais mutuados se tornou possível e significativo é que as realidades começaram a levar de vencida as disposições proibitivas. No entanto, mesmo na Idade Média, a cobrança de juros praticou-se esporadicamente» [...], pois, é claro, sempre houve transgressões.
Essas proibições constam, por exemplo, das ordenações afonsinas e manuelinas. Evidentemente, a entrada no período do Renascimento permitiu a expansão do capitalismo, mas, ainda assim, até ao século XX os códigos civis portugueses condenaram a usura acima de um limite legal. Foi deste modo que os judeus, dispensados dos freios de tais dogmas, puderam dedicar-se à atividade financeira mais lucrativa e compensadora... e viraram-se cada vez mais para o espaço apetitoso que os católicos baniam.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Deus não tem mais Céu

O mistério rodeia as manifestações da vida onde e como surjam talvez porque a vida é o mistério absoluto. Sempre assim foi, de modo que esse mistério deu o berço ao nascimento das religiões. Todavia, o desenvolvimento do conjunto dos conhecimentos científicos foi crescendo ao ponto de, no nosso tempo, se extinguir até ao limite o lugar para quaisquer «explicações» religiosas do fenómeno Vida.
Não resta mais lugar para um Deus criador do mundo, os avanços da ciência extinguiram-no. O derradeiro golpe foi dado por Stephen Hawking no seu novo livro The Grand Design. Assumidamente agnóstico, o físico cósmico explica o Universo através do Big Bang primordial abolindo definitivamente a ideia teísta do criacionismo.
Na verdade, segundo afirma quem já o leu, Hawking procede neste livro a uma completa abolição da hipótese divina. Antes parecia admiti-la como hipótese última, nos limites do conhecimento, mas reafirmando o seu agnosticismo. Agora, por fim, aplicando somente as leis da Física cósmica, transpõe a última fronteira.
Degrau a degrau, sucessivamente, pode também chegar à contemplação do cosmos, ou seja, do Universo, quem se põe a cogitar (oxalá que após leituras de Carl Sagan e outros autores não menos estimulantes) nas origens do mundo e da vida. Precisa, porém, de elevar o pensamento para além do que o rodeia, não se detendo em meras aparências, e gostando de astronomia, assim como quem sobe de noite ao telhado mais alto e se demora, ali no escuro, disparando para o céu polvilhado de estrelas as suas interrogações e espantos. Decerto perceberá então que a vida, toda a vida, está contida naquela abóbada fantástica.
A ela pertence o sistema solar que integra o planeta Terra, com a natureza envolvente em cujo seio nasceu a humanidade. Afinal, tudo existe na abóbada celeste, onde tudo é tempo e espaço, isto é, matéria diversamente organizada e porventura transformável mas sempre indestrutível. Sagan o disse em síntese feliz: «somos feitos da matéria das estrelas».
Viver neste planeta sem percepcionar a infinitude sideral, portanto de olhos cegos para a verdadeira luz, como toupeiras no interior dos túneis que escavam, reduz a dimensão humana à sua mais ínfima condição. Rebaixa-a hoje para além do razoável, permitindo a sobrevivência de fenómenos sociais como superstições e crendices vetustas enraizadas no íntimo de gente parada no tempo. Mas a ciência é e torna a ser peremptória: a hipótese de Deus criador não tem mais Céu para reinar...

sexta-feira, 9 de abril de 2010

IURD: em nome do Senhor

São marcados por estranhos e inquietantes sinais estes nossos tempos. Fantásticos mirabolantes, feitiçarias medievais, magias negras, terrores delirantes de mentes sem mais imaginação e fantasias inconsequentes invadem a rodos o cinema e a literatura. Está em moda a irracionalidade supersticiosa que, por exemplo, leva tanta gentinha a consultar astrólogos, videntes, quiromantes, adivinhos, bruxas e professores Caramba.
O fenómeno parece apontar para este outro, contraditório: o do enfraquecimento do poder efetivo da Igreja e da religião católica que de algum modo assiste à instalação e expansão de novas seitas. Uma delas, muito notada, é a designada Igreja Universal do Reino de Deus, vinda do Brasil para Portugal, aparentemente inspirada num credo (pentecostal) nascido nos Estados Unidos em meados do século XX. Recusa os santos (incluso a pontapé), centrando a fé em Jesus e no seu poder triunfador.
Estarão as formas da religiosidade popular tradicionais a enfraquecer-se, a desaparecer? Ou, simplesmente, a modificar-se (para corresponder a uma procura, sem dúvida mais cega, de respostas teístas)? Até que ponto aí se manifestam: um remanescente dos anos da ditadura salazarista, a mudança para as grandes cidades de massas camponesas em fuga das zonas rurais em extinção, a situação de carência social originada pela crise económica, o desemprego, o desvalimento, a solidão?
Difícil responder. Admito, todavia, que no presente caldo cultural tudo isso se mistura. As religiões «oficiais» perdem influência e avançam as superstições mais grosseiras. Mas os crentes, que exclamam «graças a Deus!» à saída de qualquer dificuldade, continuam a agradecer a «salvação» teimando em não perceber de onde lhes veio a aflição...
As «missas» da IURD são, sem segredo, autênticos espetáculos com cenas emocionantes e «milagres» de encher o olho ceguinho. Frequenta-os gente da mais modesta e mesmo humilde condição. Serão já uns 30 mil, que sustentam mais de cem templos, ditos centros de ajuda espiritual, criados no país desde 1989.
Em cerca de vinte anos, a nova seita estendeu-se pelo país graças ao dízimo que uma falange de «dizimadores» aplica de garra e verbo afiado à freguesia em nome do Senhor que é preciso adorar, pagando dez por cento do salário, pela nossa pessoal salvação. E agora está para breve a inauguração, no Porto, da primeira catedral construída no país ao custo de uns 18 milhões. É edifício imponente, dotado com estúdios de tv e rádio (pudera não!), apartamentos residenciais, etc.
Depois dos conflitos e escândalos, entre acusações de lavagem de dinheiro, a IURD ergue à máxima altura a afirmação de que cresce mesmo no meio da cidade do maior desemprego, da pobreza e da miséria. Se isto não nos deixa pensativas as cabeças, então já não há mais cabeças pensantes. E a religião pode assumir qualquer coisa de sobrenatural para trazer para a realidade o vampirismo. [Cartaz da IURD no Brasil. Clique na imagem para ampliar.]

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Missionários à porta

Ao tirar a mala do armário, lembrei-me. Foi há um ano. No banco do parque das termas, sábado à tarde, sozinho, lia um livro. Chegou o homem, sentou-se e falou-me: também ele tinha agora vida espiritual, anunciou. Encarei-o.
Homem de meia idade, aspecto popular retinto.
Também ele?! Pois muitos parabéns, apoiei. É bom ter vida espiritual.
Não arranjei outra resposta e o homem apresentou-se de imediato. Era pedreiro. Teve sorte, almas iluminadas haviam acabado por iluminar a sua.
Traduzi: fora arrebanhado por uma seita que o convenceu de que estava ali o autêntico conhecimento do Deus autêntico, que com eles comunicava, o Único digno de adoração entre os falsos deuses propagandeados por apóstolos também falsos. Em troca, o homem entregou a sua consciência e tornou-se tributário da seita, aceitando pagar-lhe uma certa quantia mensal. A salvação custa dinheiro…
Ter vida espiritual, para ele, era com certeza acreditar num ritual religioso e numa promessa de vida eterna para a sua alma quando morresse. Percebi então que o homem viera para o meu banco e que continuava, feliz e contente, a esbarrondar-se em conversa porque me viu a ler um livro. Nem duvidara, tinha que ser uma das tais leituras que ele conhecia; portanto, eu também teria vida espiritual…
Que diálogo estabelecer com tão singelo e por isso tão expressivo representante do país profundo? Não havia «ponte» possível entre nós, a conversa em breve morreu e o homem afastou-se. Sorte minha, voltei ao livro.
Já com os missionários que me assediavam em casa, chamando-me à porta para a grande Revelação, poucas vezes consegui fugir a debates pirrónicos, inúteis e enfadonhos. Advertia-os educadamente (homem e mulher, ele activo e ela passiva) de que não perdessem tempo comigo, era «caso perdido», nada tinham para me ensinar. Mas, em vez de os enxotar para irem pregar a outra porta, sempre o modo educado punha neles a correr a K7 aprendida na formação doutrinal.
Pegavam no Livro bendito, abriam-no num versículo, depois queriam ler um trecho profético no desdobrável que logo insistiam em pôr-me nas mãos… e eu, sem querer virar-lhes as costas, lembrava que os versículos não tinham sido escritos em português, então inexistente, que foram traduzidos de uma língua para outra e para outra ao longo dos séculos e que abundavam as dúvidas e as divergências entre traduções… E que poderia valer hoje a coisa escrita na areia há que tempos? Até o «pai nosso», oração primordial, sofreu emenda no decurso da minha existência! E porque não liam uma boa história dos concílios? E porque desconheciam o significado original, a etimologia, de termos familiares que repetiam sem descanso com outra persuasão, em vez de se empaturrarem com leituras santas?
Embaraçava-os pouco: fanatizados até ao tutano.
Acontece, porém, que os pares de missionários andam agora a sumir-se quase por completo. Raramente aparecem na rua (o homem de pasta na mão, cara conhecida), a caminho de nenhures como se passassem por vinha vindimada. O povo está todo salvo, graças a Deus, ou ficou depauperado e sem dinheiro até para a salvação?

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Os medos da vida

Quero ser cremado. E se posso ter voto post-mortem no assunto, peço e agradeço que as minhas cinzas, depostas em urna, fiquem guardadas no jazigo familiar em Bustos, junto aos restos dos meus pais. Ali, morto, ocuparei tão pouco espaço quão pouco no mundo ocupei, vivo.
O meu querer é simples e sem mistério: serei um sentimental até o fim.
Decidi-o lá longe, no tempo, quando me esquivava aos funerais da praxe social e me apercebia da necessidade de resguardar o âmbito restrito do acto (o familiar e o cordial).
Um dia houve notícia de alterações legais e eu, querendo estar ao corrente, interroguei um familiar, jurista e amigo, sobre o assunto. Respondeu que o interessado teria de fazer declaração notarial, mas que não contasse com ele próprio (nada quer que invoque a morte). Percebi que ignorava a notícia da alteração. Enfim, deu-me a ler a legislação revista e actualizada.
O horror à morte condiciona muitos comportamentos. Certas pessoas (que não aquele meu familiar), chegam a considerar ímpia, ou desalmada, a incineração de cadáveres. Uma delas é a minha irmã. Mesmo agora, quando se expande a carência de terrenos para os cemitérios (que se resolve aqui e ali pela adaptação de prédios a tal fim), e se reconhece que a incineração é bem mais higiénica e aconselhável de variados pontos de vista.
Não há dúvida: nos medos da morte se reflectem os tamanhos pessoais dos medos da vida. E embaraçam-na, tolhem-na.
Por mim, creio que avancei no tempo de olhos abertos para a inevitabilidade da morte, pelo menos desde as torturas sofridas na Pide, em Coimbra. Contava 35 anos. tive de a enfrentar de olhos nos olhos sem susto e sem desvio. A seguir, foram bastantes as ocasiões em que, reflectindo perante certos comportamentos (egoístas, arrogantes, mesquinhos, deslumbrados por óbvias fantasias) de quem me rodeava, eu intuía que esses comportamentos teriam na origem a determiná-los um certo medo da morte – medo irracional, degradante…


À pressão doutrinária da Igreja se deve provavelmente uma boa parte da repugnância que existe perante a ideia do fim. Nesse caso, a religião prende a gente ao mundo, não a prepara para «outra vida». Não a põe a viver preparando a morte, antes a deixa agarrada à existência até à sufocação. Neste pé se poderão entender as encenações por vezes ridículas com que é costume cerimonizar um falecimento: as urnas, as flores, as condolências, os préstitos cerimoniosos, a arquitectura das campas… Não é uma eventual dimensão «pública» alcançada pelo acontecimento - abrangendo uma comunidade inteira ou um breve punhado de familiares e amigos – que determina o desgosto da perda, se acaso não o eleva ao paroxismo mórbido. Tenho para mim que a morte de alguém é momento de inviolável intimidade, momento a viver pelos mais próximos numa esfera privada. [2ª ilustração: porta de capela em Roriz, Santo Tirso; data de 1560]

terça-feira, 25 de março de 2008

Um conto hiperbólico

Estou a desejar escrever um conto hiperbólico para conceber a possível origem do Dom – aquele precioso carisma que põe a brilhar quem o possui e que, a crer nos livros, tem raiz no latim donu-, significando também presente, oferenda feita aos deuses; mas que evoca o dominu, senhor, dono, possuidor, proprietário, chefe, soberano.
Começaria por evocar o aparecimento, lá longe na fundura do tempo, dos primeiros heróis saídos das façanhas nas grandes batalhas vitoriosas que a soldadesca colocava sobre os escudos ensanguentados, dispostos em camada, e levava, elevados e enlevados, em triunfal desfile, coroados de aplausos. Alguns livros de história antiga relacionam a cunhagem das primeiras moedas nas cidades-estados com as efígies dos heróis das respectivas conquistas porque as insígnias dos seus escudos as identificavam. Mas isto não entra no conto; interessa-lhe bem mais a rivalidade que desde cedo se estabelece entre o herói, poderoso senhor da cidade, e o xamã principal. Um reina sobre o terreno, o outro sobre o espiritual, mas as invejas recíprocas põem-nos em confronto.
De facto, o herói feito senhor precisa que o xamã, ou o chefe espiritual, proclame a conquista consumada como alto desígnio obtido pela graça celeste, e tanto isto se repete que o herói vai sendo tido cada vez mais como filho mítico dos deuses. O xamã confirma-lhe mesmo o dom recebido dos céus e, em lugar sagrado, com gestos cerimoniosos e rituais, celebra-o como ungido.
Enlaçadas, estas duas figuras dançam nas páginas da história. Requereram-se uma à outra ao longo dos tempos até se tornarem reciprocamente indispensáveis, porque desde o seu advento, a cidade tratou de dominar o campo, espaço cheio de «pagãos», vocábulo este com etimologia originada no latim paganus = habitantes de aldeias, de campos, significando «idólatras». E quando, mais tarde, surgiu o Império com religião oficial, os «pagãos» continuaram submetidos ao poder maior da cidade.
Será preciso lembrar que o xamã antigo se actualizou numa figura de bispo com cruz no peito cravejada de pedrarias? [Ilustração: escudo dos Reis Católicos]


Acontece vulgarmente: uma pessoa pode dar sem se dar. Dará, porém, tão-só coisa materializada: um beijo, um aperto de mão, um objecto qualquer. Mas assim, dando algo que pode dar sem envolvimento pessoal, dá o que der sem qualquer retorno.
O envolvimento emocional da pessoa que se dá gera uma corrente que se projecta na outra pessoa e que logo regressa, intensificada e duradoira, a quem se deu. A pessoa contemplada surge como uma espécie de espelho da primeira, conforme parece ter entendido o cristianismo (assentando porém no conceito de «esmola» a recompensar numa «outra vida»). Não são, pois, as ingratidões e asperezas do mundo que justificarão o egoísmo, a frieza de carácter. A envolvência emocional permite trocas vitais indispensáveis ao ser humano e quanto mais amplas essas trocas forem, mais vivificado e humano fica o ser. Vivemos uns através dos outros e através dos outros nos expandimos. A dimensão humana atingida pela pessoa concreta assume o tamanho das trocas que a pessoa efectuou.

sábado, 1 de março de 2008

Deus não intervém

Quando Teresa de Calcutá se finou circularam comentários a várias vozes sobre umas quantas cartas em que a «mãe dos pobres», aflita com as misérias tantas deste mundo (onde são precisos uns milhares de pobres para acumular riqueza suficiente para fazer um único milionário), exprimia a sua dúvida, ou descrença, em Deus. Essas cartas foram então justificadas por figuras da Igreja em termos razoáveis. Argumentaram: toda a fé, incluída a de Deus, vive e convive com a dúvida na medida em que crer e descrer são momentos de uma mesma vivência religiosa. Pois não passaram por momentos desses, desgarrados e angustiosos, os maiores santos?, acrescentaram. E a Igreja prepara-se para sacralizar Teresa.
Os teólogos católicos consideram que a designada «noite» ou «escuridão» de Deus tem por fim supremo pôr a pessoa crente à prova. Acontece, porém, que esta petição de princípio se torna imensamente perturbadora, pois não explica nada e abre janelas para terríveis perplexidades.
Com todos os atributos e poderes, poderá acaso Deus pôr assim à prova uma criatura? Se Ele, omniscientemente, omnipotentemente, sabe que a sua criatura aguentará o abalo da dúvida, estará a torturá-la inutilmente, ideia esta que, por ímpia, não colhe.
Se Ele próprio, o Adorado, tem dúvidas e quer apurar a verdade daquela adoração, então deixar-nos-á a nós em dúvida quanto àquela omnisciência omnipotente.
Se a criatura soçobra, se a sua fé se dilui na escuridão espessa em que não raia a luz divina, até que ponto poderá a criatura assumir em consciência a culpa da sua queda?
E sendo assim, o poder de Deus sofrerá dano, pois até um crente, erguendo-se quase à altura divina, poderá ver-se em condições de O negar. Teríamos então de concluir, com os teólogos medievais, que não existe apenas Deus, também existe e reina um Diabo igualmente poderoso…
Derradeira perplexidade: tentar as almas graças a Deus?!
Bastará isto para demonstrar quanto a alegação teológica a si própria se anula, enredando-se em labirintos sem saída? Restará, ainda e sempre, a saída de emergência escatológica pela porta dos fundos: Deus escreve direito por linhas tortas, quem somos nós para compreender os insondáveis desígnios do Senhor?! Dito isto, os teólogos voltarão a poder dormir a sesta descansados, mas, perguntemos nós, não estarão os católicos a precisar de outras e melhores convicções?
Se tais desígnios são insondáveis, vejamos agora: do que fala quem fala de Deus ou em Seu nome, apareçam como profetas, místicos, visionários ou teólogos?
Recurso extremo: se o mero raciocínio nos conduz a um irremediável agnosticismo, oiçamos os catequistas a bater na racionalidade: para ser boa, a crença tem que se desembaraçar da razão, tornar-se «puro sentimento». Mas poderá haver sentimento humano sem razão? E poderá a razão declarar a sua própria perda sem cair na loucura? Será a crença religiosa, por fim, uma superstição?