A apreciação de obras literárias «para crianças», pelas características especiais do género, não deveria ser feita, como é, apenas por adultos. As crianças também deveriam ter opinião na matéria, mas aí se levantam as dificuldades que, sendo óbvias, são grandes. Por seu lado, os apreciadores adultos podem dispor de aptidões pessoais para o efeito, mas isso, pelo que se vê, acontece raramente e no melhor dos casos. O ideal, em suma, seria termos um crítico literário ou comentador que fosse adulto sem deixar de ser «criança» e modelarmente apreciador da chamada literatura infanto-juvenil contemplada como área da Literatura, ou seja, com não menor exigência e rigor.
Evidentemente, os pequenos leitores apreciam de facto as obras que lêem (conforme lhes agradem muito, pouco ou nada), só que o fazem na recepção das obras, portanto do lado privado, já sem visibilidade pública. Interessante, então, seria perceber, se tal fosse possível, que comentários mereceria uma dada obra a algumas crianças… e que esses comentários fossem realmente genuínos e espontâneos, isto é, sem «toque» adulto.
Calhou-me em sorte viver a experiência. Foi na sessão de apresentação da ficção Os Segredos do Subterrâneo (na Cooperativa Árvore, Porto: 26-9-1986), que surgia com o Prémio Internacional da Juventude. Acho que foi a primeira vez que dois rapazinhos quiseram aparecer para se pronunciarem sobre o livro que acabavam de ler. Conhecia só um deles, era filho de casal amigo.
Pires Laranjeira fez o comentário da obra e no fim intervieram os dois amiguinhos. Achei magnífico, deveras assinalável. Seria, julgo, novidade estreme e sê-lo-á ainda hoje. Todavia, apenas um jornal mais atento publicou estas linhas: «Dois jovens assistentes que tiveram a oportunidade de ler o original da obra [corrijo: leram o livro já impresso, claro!] disseram, em termos simples, carregados de autenticidade, a impressão que lhes deixara o contacto com a narrativa.»
Os dois pequenos oradores confessaram-me por fim que, embora revezando-se a falar, só tinham conseguido dizer metade do que desejavam e haviam projectado. Exprimiam surpresa, frustração e desânimo. Grande descoberta: «É difícil falar em público!» Enaltecendo-lhes a coragem, eu concordei: «Pois é! Temos que praticar, é como começar a andar em cima das pernas ao sairmos do colo.»
Tarde luminosa, macia.
A hora já tardada apareceu no restaurante F. G. com três acompanhantes também para almoçar. Foi figura de partido, presidente, político no governo, enfim, é pessoa altamente relacionada… Sentaram-se e logo F. G. ficou de telemóvel na mão. Assim comeu, mudando de orelha e usando à vez uma única peça do talher, enquanto os acompanhantes, tristonhos, conversavam entre si. Poderiam dizer que almoçavam com o fulano? Ou o fulano que almoçava com eles?
A comida deixou-me um ressaibo que nem o café dissolveu.
Registo mais um desaire no livro das páginas em branco que abro para cada novo conhecimento. Pura perda! O fulano, A. G., aproveitou o mais que pôde das conversas que com ele tive: livrou-se a tempo da toleima de criar uma editora própria para lançar os seus livros, orientou-se para a editora que lhe recomendei, beneficiou de recensões que escrevi quando publicou novas obras, etc. Ele mesmo o disse: aproveitou de mim o máximo. Dele só aproveitei, no fim, a partida.
De início envolveu-me em frases de elogios tão gordos que, perante os excessos de exageração tamanha, lhe pedi insistentemente para abolir de mim tal linguagem. Como quereria fazer-se acreditar falando-me daquela maneira? Enfim, pouco a pouco, moderou-se, como se lhe custasse travar a língua e adaptar a sua expressão normal ao meu requisito. Mas teimou em brindar outras pessoas na minha presença com gordos elogios.
Tratando das aparências, anunciou uma reciprocidade. Ia realizar uma abordagem apreciativa que distinguiria ao que parece uma obra literária minha. Lembrou constantemente o projecto ao longo de meses enquanto eu, agradecendo, manifestava educada reticência. E foi sendo introduzido por mim em associação do género, aceitou convites para refeições,por sinal bem recebidos porque ele passava (dizia) semanas sem sair de casa onde era sozinho e pouco dormia… Económico até no telefone ou no uísque intragável para que as visitas bebessem pouco. E soube que prometia há cinco anos levar um livro oferecido a amigo seu vizinho...
Pois aquela sumidade de alto gabarito académico explicou-me o que fizera: o texto essencial que projectava «para mim» resolvera usá-lo (como veste de Pai Natal) numa apresentação de livro em Braga de alguém «amigo» e que esse texto iria ser encaminhado para publicação na revista literária à qual eu, para o contentar, lhe dissera que ia propô-lo. Fez muito bem, respondi-lhe.
Aquele texto mirífico servir-lhe-á decerto para outras ocasiões, será uma espécie de nómina de circulação académica universal, e com ele A. G. poderá cruzar os anos restantes da vida sem escrever mais nada.
Á. M. partilha comigo as iniciais do nome e mais nada. Não o conhecia ainda, nem de vista, mas o seu primeiro contacto dispensou-me de mais partilha. Aconteceu quando publiquei no jornal depoimentos de alguns autores nacionais num mini-inquérito sobre a situação da chamada literatura infanto-juvenil. Ofendido por se ver excluído, sem vergonha nem réstia de educação, mandou-me carta (escrita à máquina, fotocopiada) a clamar contra a injustiça e a expressar tanta torpeza de carácter que foi remédio santo. Penso que a beleza daquela alma paira no triângulo da sua letra, mas ainda não fui lá ver.
A. M. não é muito pior de aturar que, por exemplo, outro A. M., ou G. M. T. São uns impertigados que por onde passam deixam histórias para contar. Quem os convida critica mas acode a convidá-los.
Envolvido em perplexidade fico, uma e outra vez, ao deter-me em vocábulos de etimologia tão nebulosa e desafiadora quanto os de brinco, brincar, brincador ou brincadeira. Não vem para aqui uma abordagem linguística de modo a explanar minimamente o assunto, tão surpreendente quanto inesperado e singular. Basta prevenir que «brinquedo» é termo que parece remontar somente ao século XVIII. Ora! Então esses objectos destinados às crianças podem ser assim tão recentes? Não arranjaram sempre as novas gerações algo com que jogar?
Surpresa grande mas natural. Sentiu-a o prezado amigo arq. Fernando Lanhas, há anos, quando andou empolgado com a criação do Museu do Brinquedo no Porto. Não se descobria constância do termo em Português para além de Setecentos!
O Dicionário Etimológico de João Pedro Machado vincula o termo a «brinco», que na nossa língua materna tem significado idêntico ao castelhano: acção ou efeito de brincar – folgar, saltar, ou jóia da orelha, etc. Mas no castelhano significa ainda o gesto de içar e descer repetidas vezes uma criança nos braços, portanto fazendo-a «saltar no ar». Num auto de Gil Vicente e no Poema de Camões encontramos o vocábulo, atestando que era conhecido no século XVI. Os «brinquedos» e as «brincadeiras», aparentemente, vieram depois…
Quanto à origem de «brinco», reina a discrepância do costume. Provirá do germânico? Ou de outra fonte?
Na figura seca e um tanto mirrada, I. L. acumulou de alguma forma três nacionalidades: era alemã, era portuguesa (pelo casamento, que lhe deu o apelido) e era judia. Circunstância algo singular. A certa altura, admitiu que poderia estabelecer uma «ponte» entre as literaturas portuguesa e alemã, pretensão que não passou de esboço.
Um dia, anunciou-se que um escritor alemão fora distinguido com o Nobel de Literatura e alguns jornalistas contactaram-na para saber se ela o conheceria e como o achava. Embaraçada, I. L. telefonou-me de urgência para a redacção, a perguntar-me o que saberia eu sobre tal escritor, o que saberia o meu jornal. Respondi-lhe que sabíamos o que sabia toda a comunicação social: apanhada de surpresa, punha a circular a notícia descarnada, «no osso». Mas ela, pessoa de trato áspero, teimou, quase exigiu pormenores da vida e obra em foco. Evidentemente, não percebia que estava a pedir-me uma espécie de curto-circuito: eu, jornalista «iluminador», esclareceria através dela os outros jornalistas! Coube-me então apelar para o recurso retórico: respondesse I. L. como é de estilo nestes casos: o premiado era desconhecido mas ainda bem que o Nobel o laureava, ia ter leitores, etc. Reagiu prontamente, de brios feridos: isso sabia ela muito bem dizer!
Pois saberia. Mas avaliaria assim tão bem, perante mim, a sua exigência desmedida? A sua impertinência?!
Primeiro por instinto, depois por opção consciente, fugi da popularidade que tantos outros perseguem. Quanto mais uma pessoa for conhecida, menos liberdade lhe resta. Eis o que explica o incómodo que sinto ao ver-me fixado na rua por qualquer pessoa desconhecida (a procurar talvez na memória a identificação desta cara).
Curioso, sempre admiti mas nunca desejei plasmar a efígie nos meus livros. Acatei os requisitos do grafismo de cada colecção atendendo, por mera cortesia, os pedidos das editoras que me publicavam as obras. Mas o retratismo perseguiu-me… para me contrariar?
Uma tarde deparei-me na redacção do jornal com a minha cara numa enorme fotografia a acompanhar uma apreciação literária a livro recente (cada página do jornal era então composta em maqueta de papel). Reagi, achando excessivo, e a página foi recomposta. Provoquei, contudo, um pequeno escândalo.
Não houvera ainda jornalista ou autor literário a queixar-se por ver a sua imagem em grande plano. Queixas, sim, havia, mas da falta de imagem. Ora eu não pretendia «favores» na redacção e muito menos com o rabo de fora a rabiar. Imaginei como iria ser visto aquele meu retrato no dia seguinte, impresso no centro da página, e até imaginei que não fora por «simpatia» que alguém o pusera ali, ampliado. Camaradagem tão solícita não traria água no bico?
Agradou-me o que o neurocientista António Damásio disse em entrevista (Ana Gerschenfeld, «Público», 22-03-20007). Confirmando a ética de David Hume, que tinha por base as emoções, explica como os humanos rejeitam as formas extremas de calculismo utilitário em ligação com a produção de emoções sociais. Afirma: «Penso que esta forma mista de juízo moral, que alia a razão à emoção, é a manifestação de uma sabedoria lentamente acumulada ao longo da evolução (tanto biológica como cultural). Os juízos mais simples não exigem esta combinação, sendo possível lidar com eles ou somente com reacções emocionais.» Deste modo, uma «disfunção cerebral», podendo determinar comportamentos impiedosos, pode também existir sem que haja uma «lesão cerebral» clara. Acrescenta: «A melhor maneira de descrever estas personagens despóticas é dizer que se trata de psicopatas narcisistas, que tentam alcançar altas recompensas através da sua brutalidade.»
Preferiria que tratasse dos sentimentos, para os enaltecer, em vez de emoções, porque aqueles são raros e preciosos e estas, creio eu, são experimentadas de alguma maneira por toda a gente, déspotas incluídos. Mas aproveito para sublinhar aquela dita «manifestação de uma sabedoria lentamente acumulada ao longo da evolução» que até animais complexos, como os chimpanzés, de certo modo compartilham quando acatam regras morais simples: «por exemplo, ajudam os outros, quando estão em apuros, o que constitui um comportamento de compaixão».
Damásio, enfim, estabeleceu um princípio ético de alcance fundamental. Nele se revê, em corpo inteiro, a ideia de uma religião natural defendida por Hume (que certos autores ligam ao agnosticismo).
Costumo repetir que é a pessoa educada que avulta com toda a sua dignidade humana perante os outros. Claro, a noção de pessoa educada implica uma boa consciência de urbanidade e de cidadania. Confundir maneiras educadas, respeitosas, com humildade, condição social modesta ou timidez é tropelia comum de quem já não atina na matriz em que se gera a autêntica categoria da pessoa. Assim se tornaram ostensivamente lamentáveis os indivíduos que se julgam «formados», cultos e ocupando posições de relevo e que, talvez por isso mesmo, exibem comportamentos em que abunda a grosseria. Gostaria de ter garganta potente para gritar como quem escreve no céu em gordas letras vermelhas: despoja-se realmente de tudo quanto poderia qualificá-la a pessoa rude, agressiva, arrogante, presunçosa, envaidecida com títulos académicos, condição social, fama, riqueza…
Cedo me habituei a enfrentar gente em frenesim com manifestos propósitos de me agredirem ou humilharem. Poucas vezes me alterei. Ao sentir-lhes a ponta fria da animadversão e sem atinar num pretexto sério que a pudesse justificar, isto é, reconhecendo-me maltratado ou injustiçado, via-me imediatamente diante de alguém que a si próprio perante mim se rebaixava, humilhando-se e comprazendo-se na indignidade. Querendo atingir-me, não se importava de agir em agressão gratuita. Sereno, virando-lhe as costas, eu mostrava que não queria degradar-me. Mas não terá festejado essa gente as suas tolas vitoriazinhas, crendo estupidamente que venciam mais do que a si próprias se venciam e no acto se derrotavam?
«Ó jovem algures que sentes em ti subir qualquer coisa que te faz estremecer, aproveita o facto de ninguém te conhecer. E quando aqueles que te tomam por nada te contradisserem, quando aqueles com quem convives te abandonarem de todo, quando te quiserem exterminar por amor dos teus queridos pensamentos, - que significa este perigo visível que te mantém concentrado em ti mesmo, comparado com a manhosa inimizade da glória, mais tarde, que te torna inofensivo, disseminando-te?
Não peças a ninguém que fale de ti, nem mesmo com desprezo. E quando o tempo passar e tu notares como o teu nome circula entre os homens, não o tomes mais a sério do que tudo o que encontras na sua boca. Pensa que ele se perverteu, e desfaz-te dele. Adopta outro, qualquer outro, pelo qual Deus te possa chamar à noite. E esconde-o de todos.» (Rainer Maria Rilke, Os Cadernos de Malte Laurids Bridgge, pp. 81-82.)
Quão singulares, mesmo loucas, parecerão hoje estas palavras! A estranheza imensa que provocam! Mas é exactamente nessa agulha do sismógrafo que podemos ver desenhada a curva traçada pela deriva. Vale a pena acordar e sair da confusão! Exactamente como Rilke, estamos na vida com a mesma nudez, apenas nos revestem espessas camadas de ilusões. [Imagem: pintura de Munch.]
Ando a descrer mais e mais das disponibilidades de inteligência que pode brindar-me a «multidão ampla» que me rodeia. Percebo que o meu comportamento público e mesmo algum privado deveria apresentar uma imagem construída, conveniente, e que a deveria vender ao consumo alheio, porque tal é de norma neste ambiente social (não apenas o literário). Mas fui-me retraindo à medida que avaliava a cedência implícita à «economia das representações» em expansão imposta pelas leis do mercado que tudo consome, incluídas as imagens enquanto meros artifícios em circulação. Desalinhei-me completamente ao ponto de a «multidão ampla» não ter de mim melhor opinião do que a que dela tenho.
A exemplo de tantos outros autores, deveria agir como «relações públicas» em sedução máxima para atrair os leitores para os meus escritos, mas fixei-me por fim nesta atitude incomplacente de quem, por opção sincera, se recusa a atrair (a enganar) alguém com acenos de maravilhas mil para dar simples bijuterias. Queria, e quero, chamar a atenção para os meus livros à espera dos juízos que possam merecer, juízos livres e competentes, na atitude de quem não se tem por admirável ainda que um qualquer seu escrito possa brilhar ao sol de alguma inteligência disponível. Em suma, queria apagar-me para deixar correr as obras. Mas concluo: se os autores literários vendem mais, actualmente, os seus livros através das imagens que construíram no mercado, não serão tanto os seus livros (lidos) quanto as imagens (cristalizadas) desses autores que fazem negócio. E valerá a pena ler essas imagens? Serão essas imagens «literatura»?
Entretanto, ancorado nos meus escrúpulos, eu tão-pouco consigo chegar pelos meus livros a uma comunicação real suficiente com os leitores. Descontadas as excepções, onde estão esses leitores? Não chegam para realizar a mais funda e secreta ambição de quem os deu à luz.
Que conversa! Mas um debate sobre conhecer o conhecimento vale sempre uma exploração às derradeiras zonas virgens da Amazónia…
Respondi-lhe:
- Todos nós sabemos menos do que julgamos saber. Porque julgamos certo o que é erróneo e portanto não confirmável, seja por deturpação momentânea da memória, seja por inexactidão do que a ignorância confunde ou por qualquer outra obliteração introduzida no assunto.
Por outro lado, também sabemos mais do que antes supúnhamos - descoberta que nos faz soltar a exclamação: «Pois é! Afinal, eu até sabia!»
Alguns dos conhecimentos que guardamos num esconso qualquer mantêm-se pendentes de uma boa ocasião para se revelar. E será impossível avaliar quanto um dado indivíduo que morre sabia e não chegou a revelar-se-lhe. [2ª ilustração: pintura de Michael Ende, nasc. 1929]
Desde que as nossas escolas começaram a ensinar competências e já não saberes, parece que deixaram também de ensinar o amor da pátria. É um sentimento estranho, mesmo exótico, agora. Em Portugal deixou de valer o patriotismo, talvez seja assunto entregue ao cuidado de alguém que é pago para sentir por nós o que nos competia.
Nesta atitude, escandalizam-nos os estrangeiros que vêm gozar as suas reformas ao nosso sol e, com imenso topete, desfraldam a bandeira da pátria de origem no mastro da casa que compraram no All…garve. Pois querem ensinar-nos o quê?! O português emigrado não faz isso e, quando regressa à pátria, até exibe em casa a marca de onde veio. Não tem por costume implantar no jardim ou no quintal um pau de bandeira e, ainda menos, de o enfeitar com o símbolo nacional - símbolo que não tem na gaveta. Basta-lhe exibir a bandeira da sua equipa de futebol.
O português alheou-se do sentimento patriótico, que passou a considerar rançoso, tonto, ridículo. Identifica-o por aproximação com uma ideologia nacionalista, de direita. Acha que este tempo é de globalização (conforme políticos e empresários gostam de repetir): na mundialização, portanto, se diluem as fronteiras e, ó maravilha, já declaram o português cidadão europeu.
Evidentemente, o comércio reclama portas abertas em geral para transpor livremente os limites territoriais e os fluxos financeiros não lhes ficam atrás, se é que não lhes cortam caminho. Mas estamos perante uma confusão tremenda que se foi instalando subrrepticiamente, desde data recente, no imaginário colectivo. Talvez haja bom motivo para supor que a mudança se iniciou, nos anos ’80, com a entrada de Portugal na União Europeia.
Todavia, a integração europeia não apagou as nacionalidades: integrou mercados e consumidores, políticas económicas e financeiras dos países envolvidos,. A dimensão sociopolítica ficou sentadinha na sala de espera e vai-se entretendo com uns acenos. Por outras palavras, a União Europeia continua composta por uns tantos países: uns principais, outros secundários, uns grandes e fortes, outros pequenos e anémicos… e, claro, aos principais sobra egoísmo nacional.
Verdadeiramente, qualquer que seja a ideia que aloje na cabeça, o português compartilha de algum modo, com a sua sorte, a sorte da pátria que é sua. A soberania dos Estados, aparentemente, anda enfraquecida, as nações e os povos sofrem atropelos neste ambiente de desregulação arbitrária, mas esses são outros tantos problemas da nossa época que urge resolver. Vendo limpamente através das cortinas em suspensão, o amor da pátria é tão necessário hoje como ontem. Com esse amor nos agarramos ao chão que pisamos - a rua, o bairro, a região, o país em círculos sucessivos – e, defendendo-o, nos defendemos. É o nosso barco, queiramo-lo a navegar. O sentimento patriótico, sem sofismas, abre-nos os olhos para o que de facto é nosso; teremos a segurança e a tranquilidade possíveis cuidando do que compartilhamos e nos pertence. [Ilustração: Mãe, desenho de Isa Ventura]