Detenho-me neste percurso para, de certo modo, retomar o fôlego.
Na verdade, após 85 «postagens» - conforme a expressão corrente, mas, cá por mim, dou preferência a «edições» - num período de três meses, chega o momento de abrandar um pouco e de olhar para trás. Tenciono tratar das etiquetas que permitem catalogar tematicamente cada texto editado e, de passagem, rever-lhes a apresentação, pois de início a inexperiência restringiu a edição de imagens.
Significa isto que vai ser menos assíduo o aparecimento de «novidades» neste blogue. Abre-se aqui uma nova fase mas manter-se-á de algum modo o fio destas minhas crónicas da final-idade. Fio adelgaçado, não partido. Adelgaçado neste ponto para que possa atender ao papel que como administrador deste espaço tenho que desempenhar.
Gostaria realmente de que o espaço continuasse vivo, a receber visitantes. Neste sentido vou trabalhar. Desejo a sua valorização mediante propostas inovadoras em projecto para muito breve, não da sua estagnação.
Poderia portanto escrever, numa tabuleta tão imaginária quão temporária, que o blogue entra em obras de beneficiação por uns dias.
Uma alteração já introduzida retirou os Comentários. Tiveram sempre pouco uso, até agora, porque amigos e conhecidos preferiam enviar por e-mail, directamente para mim, os seus comentários, de modo a obterem mais amplas trocas de opiniões. Poderiam continuar activos, mas… desde há poucos dias começou a entrar por essa janela uma mosca varejeira que, tendo o gosto de frequentar retretes, se julga no direito de vir sujar o que a seus olhos alveja.
Outra alteração que vou tentar introduzir consistiria em inverter a ordem por que os textos podem ser (re)lidos: do início (em 27 de Janeiro) para o fim (digamos, este «post» de hoje).
O que dispensaria deveras, com notável benefício, seria o funâmbulo que passa por aqui em busca de alimento para a baixa intriga que reina nos meandros da literatura ou do jornalismo. Há gente de nós cegos nas tripas e fel no coração, capaz de ler no que escrevo a expressão de ajustes de contas pessoais em trechos que me saem em perfeita bonomia. Não percebe que nomeio com simples iniciais certas figuras que se cruzaram comigo para captar apenas um comportamento, uma personalidade, um episódio real vivido, porque é só o que interessa focar, nunca discutir a própria pessoa.
Evoco factos que se me afiguram iluminantes de um perfil psicológico ou chaves para decifrar existências humanas. Porque, seja como for e custe o que custar, não quero desabituar-me da minha dieta de pão-pão, queijo-queijo. Pago o preço, tantas vezes injusto, e nem o discuto para continuar em paz no meu cantinho - na companhia gratificante de bons amigos.
Uma superfície lisa é monótona. Cansa e faz nascer desejos de uma elevação libertadora da banal chateza. Desejos de elevação com vista para mais horizonte, mais luz conquistada. Mas de início a ideia manifestou-se nele lentamente, depois, com o tempo, desenvolveu-se. Iria honrar a terra-berço em que nascera e a redondeza.
Um dia notou umas pedras, depois umas pegadas antigas, logo mais pegadas inseridas nuns papéis. Foi juntando tudo, formou um recoleto e nesse lugar fez crescer vagarosamente um monte com os achados que ia acumulando naquela superfície rasa tão aborrecida, onde parecia não existir nada que não fosse também chato.
Engano. Os achados amontoaram-se, constituíram uma pequena colina. Do cimo daquela colina podiam descortinar-se outras colinas espalhadas pela redondeza porque, afinal, via-se agora, a superfície não era tão lisa quanto se supunha.
Ele, o fazedor, pretendeu então chamar as atenções dos vizinhos para a sua descoberta. Pôs-se em cima da elevação que criara e falou. Satisfeito por assim prestar um serviço à sua comunidade, tão útil que, conforme fez questão em demonstrar a quantos subiam ao seu cimo, permitia descobrir a existência de outras colinas em redor a emergir e a ondular na superfície monótona.
A satisfação, porém, foi breve. Apareceu um vizinho a reagir aparentemente porque alguém, que não ele próprio, tinha feito nome com a obra. Ali, mesmo à sua beira e ele… nada?! Foi ao monte recém-construído, retirou os materiais que quis e tratou de erguer o «seu» monte para discutir o outro, mas sem confessar que dele se fornecia e obrando tão à pressa que teve de o encher por dentro com as suas roupas mais velhas e surradas.
Quem lá ia olhava para dentro e via a trouxa da farraparia tapada por fora com as pedras surripiadas ao primeiro monte (os materiais disponíveis eram realmente poucos) mas não estranhava achando normal qualquer trabalho sobre um trabalho já feito. Além disso, as pegadas antigas ficaram ali dispostas numa equação alterada e tão confusa que nunca mais, naquele assunto, alguém pôde saber-lhe o princípio e o fim. E tudo isto mergulhou o fazedor em melancolia.
Em melancolia atravessou várias solidões até que foi de encontro a novos achados. O fazedor amontoou-os com renovada paciência, entusiasmando-se a cada passo porque bastava dar umas voltas levando os olhos curiosos abertos e os achados iam surgindo, eram mesmo inesperados, surpreendentes. Alguém poderia supor que, numa superfície assim tão lisa, tão sonolenta, estava tanto por descobrir?
Quando o seu novo monte já o fazia empinar o pescoço para lhe ver a altura, entendeu que era obra consumada. Tornou a chamar os vizinhos e deu-lhes a conhecer a maravilha dizendo-se ele próprio maravilhado. Só uns poucos, todavia, ousaram trepar àquele outro cimo, decerto por fraqueza de pernas ou por escasso maravilhamento. Houve até quem o criticasse, alegando que arruinava a paisagem.
Perplexo, o fazedor viveu o resto dos seus dias atirando ao ar cada um dos seus achados. Desforrou-se a vê-los cair a esmo até que dos montes restou apenas uma superfície sem memória. [Ilustração: mural de mestre Alves André (pormenor central), copiado do blogue «Ferroada»]
A apreciação de obras literárias «para crianças», pelas características especiais do género, não deveria ser feita, como é, apenas por adultos. As crianças também deveriam ter opinião na matéria, mas aí se levantam as dificuldades que, sendo óbvias, são grandes. Por seu lado, os apreciadores adultos podem dispor de aptidões pessoais para o efeito, mas isso, pelo que se vê, acontece raramente e no melhor dos casos. O ideal, em suma, seria termos um crítico literário ou comentador que fosse adulto sem deixar de ser «criança» e modelarmente apreciador da chamada literatura infanto-juvenil contemplada como área da Literatura, ou seja, com não menor exigência e rigor.
Evidentemente, os pequenos leitores apreciam de facto as obras que lêem (conforme lhes agradem muito, pouco ou nada), só que o fazem na recepção das obras, portanto do lado privado, já sem visibilidade pública. Interessante, então, seria perceber, se tal fosse possível, que comentários mereceria uma dada obra a algumas crianças… e que esses comentários fossem realmente genuínos e espontâneos, isto é, sem «toque» adulto.
Calhou-me em sorte viver a experiência. Foi na sessão de apresentação da ficção Os Segredos do Subterrâneo (na Cooperativa Árvore, Porto: 26-9-1986), que surgia com o Prémio Internacional da Juventude. Acho que foi a primeira vez que dois rapazinhos quiseram aparecer para se pronunciarem sobre o livro que acabavam de ler. Conhecia só um deles, era filho de casal amigo.
Pires Laranjeira fez o comentário da obra e no fim intervieram os dois amiguinhos. Achei magnífico, deveras assinalável. Seria, julgo, novidade estreme e sê-lo-á ainda hoje. Todavia, apenas um jornal mais atento publicou estas linhas: «Dois jovens assistentes que tiveram a oportunidade de ler o original da obra [corrijo: leram o livro já impresso, claro!] disseram, em termos simples, carregados de autenticidade, a impressão que lhes deixara o contacto com a narrativa.»
Os dois pequenos oradores confessaram-me por fim que, embora revezando-se a falar, só tinham conseguido dizer metade do que desejavam e haviam projectado. Exprimiam surpresa, frustração e desânimo. Grande descoberta: «É difícil falar em público!» Enaltecendo-lhes a coragem, eu concordei: «Pois é! Temos que praticar, é como começar a andar em cima das pernas ao sairmos do colo.»
Tarde luminosa, macia.
A hora já tardada apareceu no restaurante F. G. com três acompanhantes também para almoçar. Foi figura de partido, presidente, político no governo, enfim, é pessoa altamente relacionada… Sentaram-se e logo F. G. ficou de telemóvel na mão. Assim comeu, mudando de orelha e usando à vez uma única peça do talher, enquanto os acompanhantes, tristonhos, conversavam entre si. Poderiam dizer que almoçavam com o fulano? Ou o fulano que almoçava com eles?
A comida deixou-me um ressaibo que nem o café dissolveu.
Registo mais um desaire no livro das páginas em branco que abro para cada novo conhecimento. Pura perda! O fulano, A. G., aproveitou o mais que pôde das conversas que com ele tive: livrou-se a tempo da toleima de criar uma editora própria para lançar os seus livros, orientou-se para a editora que lhe recomendei, beneficiou de recensões que escrevi quando publicou novas obras, etc. Ele mesmo o disse: aproveitou de mim o máximo. Dele só aproveitei, no fim, a partida.
De início envolveu-me em frases de elogios tão gordos que, perante os excessos de exageração tamanha, lhe pedi insistentemente para abolir de mim tal linguagem. Como quereria fazer-se acreditar falando-me daquela maneira? Enfim, pouco a pouco, moderou-se, como se lhe custasse travar a língua e adaptar a sua expressão normal ao meu requisito. Mas teimou em brindar outras pessoas na minha presença com gordos elogios.
Tratando das aparências, anunciou uma reciprocidade. Ia realizar uma abordagem apreciativa que distinguiria ao que parece uma obra literária minha. Lembrou constantemente o projecto ao longo de meses enquanto eu, agradecendo, manifestava educada reticência. E foi sendo introduzido por mim em associação do género, aceitou convites para refeições,por sinal bem recebidos porque ele passava (dizia) semanas sem sair de casa onde era sozinho e pouco dormia… Económico até no telefone ou no uísque intragável para que as visitas bebessem pouco. E soube que prometia há cinco anos levar um livro oferecido a amigo seu vizinho...
Pois aquela sumidade de alto gabarito académico explicou-me o que fizera: o texto essencial que projectava «para mim» resolvera usá-lo (como veste de Pai Natal) numa apresentação de livro em Braga de alguém «amigo» e que esse texto iria ser encaminhado para publicação na revista literária à qual eu, para o contentar, lhe dissera que ia propô-lo. Fez muito bem, respondi-lhe.
Aquele texto mirífico servir-lhe-á decerto para outras ocasiões, será uma espécie de nómina de circulação académica universal, e com ele A. G. poderá cruzar os anos restantes da vida sem escrever mais nada.
Á. M. partilha comigo as iniciais do nome e mais nada. Não o conhecia ainda, nem de vista, mas o seu primeiro contacto dispensou-me de mais partilha. Aconteceu quando publiquei no jornal depoimentos de alguns autores nacionais num mini-inquérito sobre a situação da chamada literatura infanto-juvenil. Ofendido por se ver excluído, sem vergonha nem réstia de educação, mandou-me carta (escrita à máquina, fotocopiada) a clamar contra a injustiça e a expressar tanta torpeza de carácter que foi remédio santo. Penso que a beleza daquela alma paira no triângulo da sua letra, mas ainda não fui lá ver.
A. M. não é muito pior de aturar que, por exemplo, outro A. M., ou G. M. T. São uns impertigados que por onde passam deixam histórias para contar. Quem os convida critica mas acode a convidá-los.
Envolvido em perplexidade fico, uma e outra vez, ao deter-me em vocábulos de etimologia tão nebulosa e desafiadora quanto os de brinco, brincar, brincador ou brincadeira. Não vem para aqui uma abordagem linguística de modo a explanar minimamente o assunto, tão surpreendente quanto inesperado e singular. Basta prevenir que «brinquedo» é termo que parece remontar somente ao século XVIII. Ora! Então esses objectos destinados às crianças podem ser assim tão recentes? Não arranjaram sempre as novas gerações algo com que jogar?
Surpresa grande mas natural. Sentiu-a o prezado amigo arq. Fernando Lanhas, há anos, quando andou empolgado com a criação do Museu do Brinquedo no Porto. Não se descobria constância do termo em Português para além de Setecentos!
O Dicionário Etimológico de João Pedro Machado vincula o termo a «brinco», que na nossa língua materna tem significado idêntico ao castelhano: acção ou efeito de brincar – folgar, saltar, ou jóia da orelha, etc. Mas no castelhano significa ainda o gesto de içar e descer repetidas vezes uma criança nos braços, portanto fazendo-a «saltar no ar». Num auto de Gil Vicente e no Poema de Camões encontramos o vocábulo, atestando que era conhecido no século XVI. Os «brinquedos» e as «brincadeiras», aparentemente, vieram depois…
Quanto à origem de «brinco», reina a discrepância do costume. Provirá do germânico? Ou de outra fonte?
Na figura seca e um tanto mirrada, I. L. acumulou de alguma forma três nacionalidades: era alemã, era portuguesa (pelo casamento, que lhe deu o apelido) e era judia. Circunstância algo singular. A certa altura, admitiu que poderia estabelecer uma «ponte» entre as literaturas portuguesa e alemã, pretensão que não passou de esboço.
Um dia, anunciou-se que um escritor alemão fora distinguido com o Nobel de Literatura e alguns jornalistas contactaram-na para saber se ela o conheceria e como o achava. Embaraçada, I. L. telefonou-me de urgência para a redacção, a perguntar-me o que saberia eu sobre tal escritor, o que saberia o meu jornal. Respondi-lhe que sabíamos o que sabia toda a comunicação social: apanhada de surpresa, punha a circular a notícia descarnada, «no osso». Mas ela, pessoa de trato áspero, teimou, quase exigiu pormenores da vida e obra em foco. Evidentemente, não percebia que estava a pedir-me uma espécie de curto-circuito: eu, jornalista «iluminador», esclareceria através dela os outros jornalistas! Coube-me então apelar para o recurso retórico: respondesse I. L. como é de estilo nestes casos: o premiado era desconhecido mas ainda bem que o Nobel o laureava, ia ter leitores, etc. Reagiu prontamente, de brios feridos: isso sabia ela muito bem dizer!
Pois saberia. Mas avaliaria assim tão bem, perante mim, a sua exigência desmedida? A sua impertinência?!
Primeiro por instinto, depois por opção consciente, fugi da popularidade que tantos outros perseguem. Quanto mais uma pessoa for conhecida, menos liberdade lhe resta. Eis o que explica o incómodo que sinto ao ver-me fixado na rua por qualquer pessoa desconhecida (a procurar talvez na memória a identificação desta cara).
Curioso, sempre admiti mas nunca desejei plasmar a efígie nos meus livros. Acatei os requisitos do grafismo de cada colecção atendendo, por mera cortesia, os pedidos das editoras que me publicavam as obras. Mas o retratismo perseguiu-me… para me contrariar?
Uma tarde deparei-me na redacção do jornal com a minha cara numa enorme fotografia a acompanhar uma apreciação literária a livro recente (cada página do jornal era então composta em maqueta de papel). Reagi, achando excessivo, e a página foi recomposta. Provoquei, contudo, um pequeno escândalo.
Não houvera ainda jornalista ou autor literário a queixar-se por ver a sua imagem em grande plano. Queixas, sim, havia, mas da falta de imagem. Ora eu não pretendia «favores» na redacção e muito menos com o rabo de fora a rabiar. Imaginei como iria ser visto aquele meu retrato no dia seguinte, impresso no centro da página, e até imaginei que não fora por «simpatia» que alguém o pusera ali, ampliado. Camaradagem tão solícita não traria água no bico?
Agradou-me o que o neurocientista António Damásio disse em entrevista (Ana Gerschenfeld, «Público», 22-03-20007). Confirmando a ética de David Hume, que tinha por base as emoções, explica como os humanos rejeitam as formas extremas de calculismo utilitário em ligação com a produção de emoções sociais. Afirma: «Penso que esta forma mista de juízo moral, que alia a razão à emoção, é a manifestação de uma sabedoria lentamente acumulada ao longo da evolução (tanto biológica como cultural). Os juízos mais simples não exigem esta combinação, sendo possível lidar com eles ou somente com reacções emocionais.» Deste modo, uma «disfunção cerebral», podendo determinar comportamentos impiedosos, pode também existir sem que haja uma «lesão cerebral» clara. Acrescenta: «A melhor maneira de descrever estas personagens despóticas é dizer que se trata de psicopatas narcisistas, que tentam alcançar altas recompensas através da sua brutalidade.»
Preferiria que tratasse dos sentimentos, para os enaltecer, em vez de emoções, porque aqueles são raros e preciosos e estas, creio eu, são experimentadas de alguma maneira por toda a gente, déspotas incluídos. Mas aproveito para sublinhar aquela dita «manifestação de uma sabedoria lentamente acumulada ao longo da evolução» que até animais complexos, como os chimpanzés, de certo modo compartilham quando acatam regras morais simples: «por exemplo, ajudam os outros, quando estão em apuros, o que constitui um comportamento de compaixão».
Damásio, enfim, estabeleceu um princípio ético de alcance fundamental. Nele se revê, em corpo inteiro, a ideia de uma religião natural defendida por Hume (que certos autores ligam ao agnosticismo).
Costumo repetir que é a pessoa educada que avulta com toda a sua dignidade humana perante os outros. Claro, a noção de pessoa educada implica uma boa consciência de urbanidade e de cidadania. Confundir maneiras educadas, respeitosas, com humildade, condição social modesta ou timidez é tropelia comum de quem já não atina na matriz em que se gera a autêntica categoria da pessoa. Assim se tornaram ostensivamente lamentáveis os indivíduos que se julgam «formados», cultos e ocupando posições de relevo e que, talvez por isso mesmo, exibem comportamentos em que abunda a grosseria. Gostaria de ter garganta potente para gritar como quem escreve no céu em gordas letras vermelhas: despoja-se realmente de tudo quanto poderia qualificá-la a pessoa rude, agressiva, arrogante, presunçosa, envaidecida com títulos académicos, condição social, fama, riqueza…
Cedo me habituei a enfrentar gente em frenesim com manifestos propósitos de me agredirem ou humilharem. Poucas vezes me alterei. Ao sentir-lhes a ponta fria da animadversão e sem atinar num pretexto sério que a pudesse justificar, isto é, reconhecendo-me maltratado ou injustiçado, via-me imediatamente diante de alguém que a si próprio perante mim se rebaixava, humilhando-se e comprazendo-se na indignidade. Querendo atingir-me, não se importava de agir em agressão gratuita. Sereno, virando-lhe as costas, eu mostrava que não queria degradar-me. Mas não terá festejado essa gente as suas tolas vitoriazinhas, crendo estupidamente que venciam mais do que a si próprias se venciam e no acto se derrotavam?
«Ó jovem algures que sentes em ti subir qualquer coisa que te faz estremecer, aproveita o facto de ninguém te conhecer. E quando aqueles que te tomam por nada te contradisserem, quando aqueles com quem convives te abandonarem de todo, quando te quiserem exterminar por amor dos teus queridos pensamentos, - que significa este perigo visível que te mantém concentrado em ti mesmo, comparado com a manhosa inimizade da glória, mais tarde, que te torna inofensivo, disseminando-te?
Não peças a ninguém que fale de ti, nem mesmo com desprezo. E quando o tempo passar e tu notares como o teu nome circula entre os homens, não o tomes mais a sério do que tudo o que encontras na sua boca. Pensa que ele se perverteu, e desfaz-te dele. Adopta outro, qualquer outro, pelo qual Deus te possa chamar à noite. E esconde-o de todos.» (Rainer Maria Rilke, Os Cadernos de Malte Laurids Bridgge, pp. 81-82.)
Quão singulares, mesmo loucas, parecerão hoje estas palavras! A estranheza imensa que provocam! Mas é exactamente nessa agulha do sismógrafo que podemos ver desenhada a curva traçada pela deriva. Vale a pena acordar e sair da confusão! Exactamente como Rilke, estamos na vida com a mesma nudez, apenas nos revestem espessas camadas de ilusões. [Imagem: pintura de Munch.]