Os publicitários apoiam-se energicamente numa teoria para defenderem a sua profissão e a validade do papel que a publicidade desempenha na esfera da economia. Alegam que a publicidade serve os consumidores, não porque estimule sobretudo a concorrência, sim porque, ao expandir os consumos, faz crescer em volume as produções e daí virá o respectivo embaratecimento. Assim, pela teoria, saem a ganhar os conumidores.Evidentemente, o que os consumidores querem ter para compra é artigos baratos e da melhor qualidade possível. Porém, isso vai-se tornando miragem no deserto. A carestia é geral, os preços sobem, o valor do dinheiro é comido pela inflação enquanto os níveis de rendimento estagnam ou, na realidade, diminuem.
Entretanto, chovem as campanhas publicitárias, os anúncios, as promoções, os estratagemas, as habilidades de vendedores de feira. Os televisores, a imprensa, a rádio, os espaços públicos, os computadores, os telefones domésticos ou pessoais… andam sob uma frenética invasão de reclamos. A inundação chega-nos às caixas de correio e bate-nos às portas.
Esta manhã a campainha tocou com insistência. Vozes anónimas anunciavam a distribuição de publicidade; outras vezes, sem se anunciar, o distribuidor esperava que a porta se abrisse para despejar o saco. Mas pouca gente tolera já o desperdício. Então, em alternativa, os papéis são deixados em monte, â entrada.
Na verdade, parece que chegámos ao tempo de recusar mais publicidade para a compra do que não podemos alcançar ou para o que não desejamos. Possivelmente os consumidores estarão a perceber que a despesa feita pelos fabricantes e comerciantes com cada campanha de anúncios entra sempre nos custos do produto e que estamos agora a querer, claramente, artigos mais baratos e de boa qualidade. É suposto que, em numerosos casos, a publicidade encarece inutilmente artigos de uso indispensável ou quotidiano.
Julgar-se-á decerto que neste ambiente de crise instalada há quem tente sobreviver para não morrer, jogando ao máximo nas operações do mercado, mas nem as empresas reclamadas nem os publicitários poderão rebater facilmente a contra-teoria segundo a qual a despesa de uma campanha de anúncios tem que ser paga pelo próprio produto promovido. Não estamos em época de prosperidade, de expansões do mercado, sim em época de sinal inverso. Entre tanta desregulação global, a realidade vê-se nua.
Seja como for, uma questão emerge neste quadro. A publicidade distingue-se da propaganda porque obedece a um código deontológico que impede por exemplo a publicidade enganosa. Apela ao consumo, atrai os consumidores e ponto final. Manipula às claras, digamos assim, recorrendo inclusive à análise dos comportamentos psicológicos. A propaganda, não. É insidiosa, mal intencionada. Tenta dominar os cérebros, não para qualquer consumo, mas para colonizar as consciências.
Questão a analisar seria a de saber se a publicidade continua entre nós fiel ao seu código deontológico ou se anda a contaminar-se com alguma propaganda.




