Nasci entre pinhais e vinhedos, cedo me habituei aos toros recém-serrados postos em monte que via ainda a escorrer resina branca e peganhenta. Quando quis explicar por que motivo, morando há tantos anos na cidade, não me desligava da minha terra natal e sua região, ocorreu-me a imagem daqueles toros tombados. Exprimia tão bem o que eu sentia que passei desde então a evocar aquela imagem para poupar mil palavras.Cortado pela base, um toro revela desde o centro até à casca o conjunto de anéis cada vez mais amplos que constituem a sua história de vida. E um homem? Poderá a sua história de vida ser encarada como um desenho de anéis cada vez mais amplos desenvolvidos a partir do seu centro até à periferia?
Eu creio que sim. Tomo mesmo a imagem como uma metáfora capaz de exprimir o que por vezes se me embrulha na boca. Encontrando por aí um caminho que me leva até uma das questões mais instantes do nosso tempo.
Vejamos. Toda a existência se inicia com o nascimento e este ocorre algures, num lugar concreto. Esse lugar fica para essa existência como o seu centro e será em torno desse centro que tal existência depois se amplia.
A apreensão do espaço circundante é gradual, vai crescendo com o tempo da existência e ganhando amplitude… Estou aqui a visionar não apenas uma existência humana, também o centro do toro do pinheiro, os anéis envolventes a crescer, cada vez mais largos, a sucederem-se uns aos outros, anos após ano… Comparação inevitável!
Acontece porém – e aqui está a questão – que encontramos na actualidade uma abundância de existências descentradas e como que privadas da capacidade de apreensão dos seus espaços naturais. Vivem num sítio sem lhe pertencerem. Estranho fenómeno!
Ora eu declarei um dia, neste blogue, a falência do sistema de pertenças, vendo-os como elemento básico social congregador das famílias e de toda a acção gregária, das comunidades pequenas e grandes e, por fim, das nações. Está visto, não sonho mudar o mundo (tão ocupado ando a prevenir que não me mude), mas é a tal questão que respondo quando tento explicar que, simultânea e coerentemente, sou da minha terra natal, da minha região, da cidade em que vivo há 45 anos, do meu país, da Europa e, o mais possível, do planeta Terra.
Nesta atitude, estranho a estranheza que por vezes me manifestam perante o facto de ter vindo a publicar livros que contemplam a terrinha que foi meu berço, a minha região de origem e o meu país. Julgo ouvir esta frase no ar: «Então um escritor volta-se assim para o local e o regional?» Querem convencer-me de algo insólito.
Esquecem porém que toda a existência estabelece um centro de mundo e que é a partir desse centro que se expande. No meu caso pessoal, pertenço igualmente a Bustos, à Bairrada, ao Porto, à pátria, etc., pois tudo isso corresponde a níveis sucessivos de vida que fui atingindo. Se me serrarem pela base, aposto que verão esses anéis rodopiarem volta a volta, em círculos cada vez menores, até regressarem ao ponto central onde tudo se iniciou…






