As teclas, hoje, vão descansar? Sinto-me em pousio, não estou para compor, linha a linha, um texto. Escrever o quê?, penso pela enésima vez, duvidando do que irá valer na verdade o meu escrito contra as resistências do mundo. Quem escreve não muda a realidade, opina uma senhora, sem dúvida interessada e culta, num comentário que li agora em outro blogue. Mas, para afirmar a ideia, a senhora também escrevia…
A palavra escrita e posta em público não tem poderes mágicos, é certo, sabemo-lo todos desde que aprendemos a lavar os olhos na água pura da clarividência, por isso repetimos que está escrito tudo o que é preciso para salvar o mundo, falta mesmo só… salvá-lo! E no entanto, quem escreve e publica - podendo embora evocar no seu gesto o homem primitivo que pintava na caverna a cena de caça que pretendia propiciar - intervém afirmando a condição da sua cidadania e toma posições depondo na mesa comum o seu juízo.
Hoje, porém, tolhe-me o cansaço, este cansaço em que me submergem tantas tropelias a correr à solta contra os direitos humanos, contra a dignidade dos povos, contra a inteligência e o simples bom senso lavado de reles interesseirismos. Por algum motivo me espantarão sempre as pessoas, tal como as nações, cuja consciência individual ou colectiva assume a forma e o alcance variável dos seus objectivos egoístas.
Estamos no tempo do pensamento único, que predomina porque vem emanado de cimo (e que por isso contém o selo real da autoridade), já nos habituamos a todos os ataques indiscriminados como estratégia da melhor defesa. É o tempo do unilateralismo, rosto ostensivo do imperialismo. Qualquer causa, ainda que se mostre claramente nefasta, anda por aí a justificar-se com espessas argumentações sem contradita audível e que se impõe pela força bruta das tubas da propaganda. As máquinas dos pregões funcionam a pleno vapor e as multidões encolhem-se atemorizadas.
As ameaças à segurança dos povos e das nações estabeleceram-se como base de uma próspera indústria e, politicamente, isso serve para restringir os espaços de exercíco de cidadania e das liberdades democráticas. A «globalização» expande, diluindo, as fronteiras do «terceiro mundo» até outras áreas, nivelando-as por baixo. A emigração de populações esfaimadas que forçam a entrada em zonas de consumismo e desperdício compulsivo ateia reacções xenófobas e de vesgo nacionalismo.
É possível que, de acordo com uma opinião que parece ir ganhando consistência, estejam a acumular-se semelhanças (ameaçadoras) entre este ambiente geral de crise socioeconómica e financeira e o ambiente que marcou o início dos anos ’30 do século passado. Foi a década da instabilidade social e do desemprego, da propaganda sufocante e da obliteração da inteligência, da ascensão dos fascismos, da guerra civil espanhola, da Segunda Grande Guerra, dos horrores de Guernicas e dos racismos…
Façam o favor de me persuadir: a massa de nuvens negras que avançam pelo céu estão num defeito da minha vista. Mas, à cautela, previnam-se: leiam o post de ontem «A propósito de Vladimir Maiakovski», no blogue Ferroada de Carlos Rebola. Vale a pena!






