Fiquei de olhos colados ao recorte do jornal. O papel, amarelecido, com um título em letras vermelhas, falava de voltinha dada em torno do meu nome. De um salto recuei mais de vinte anos: aquela crónica, saída no meu jornal em 22-08-1987, pôs-me o filme a correr no ecrã da memória.Evoquei a redacção e a piada fácil que o meu escrito mereceu (como tudo o que naquele ambiente sobressaísse do chão). Mas desde a meninice era muita a estranheza com que eu e os meus irmãos percebiamos os nomes que os nossos pais nos haviam escolhido. Nomes invulgares os quatro, do primeiro ao último (o meu). Indagávamos o motivo, os nossos pais entreolhavam-se a sorrir… e nada esclareciam.
Quando já ia nos 58 anos resolvi indagar por minha conta. Peguei na palavra que me dava o nome, consultei onomásticas, vasculhei na biblioteca e coligi uns dados curiosos. Havia arsénios espalhados por metade do planeta, a começar pelo Leste, onde se citava o poeta Arsenii Tarkovskii, então com Oito ícones traduzidos em Portugal, e hoje sabe-se que o presidente do parlamento ucraniano é outro Arsenii. Parece que entre nós o nome foi adaptado do francês Arsène, que por sua vez o tomou do grego Arsénios, baseado em ársen através do latim tardio Arsenius.
Evidentemente, a palavra designa também a substância química altamente venenosa, de aparência metálica negro-azulada, da qual o arsénico, por exemplo, é derivado. Certos autores, por exemplo José Pedro Machado, atribuem a ársen o significado de «viril, másculo». Neste sentido, o grego arsenikón (latim arsenicum) significaria «que tem propriedades fortificantes».
A piada fácil espirrou na redacção contra mim porque… estaria na gabarolice! Os companheiros ignoraram que não escolhera o meu nome e que ao nascer tão-pouco poderia saber o que diziam do Arsénio os alfarrábios que por fim eu iria consultar. Não quiseram saber dos livros que consultei nem apreciaram o bocadinho de informação que o texto incluía: referia que o arsénio pode ser nome próprio ou apelido, existindo ainda na forma feminina de Arsénia, substância já conhecida dos Árabes no século IV e, segundo dois autores, os alquimistas conheciam como o «arsénio dos filósofos».
Tenho agora, felizmente, outros companheiros, outros leitores. Resisto porém a pôr aqui por extenso o que li numa espécie de horóscopo (recebido por e-mail como FW) com base nos dias do mês. Logo nas primeiras linhas, a «carta astrológica» estabelecia: «O nativo deste dia, […] vive constantemente em busca do desejo da moralidade. É um pensador, um estudioso e, em vista disso, profundo conhecedor de vários assuntos, podendo destacar-se e ter sucesso nos mais variados segmentos, como ciência, ocultismo, filosofia ou sobre a Natureza na sua mais abrangente expressão. O 25 é perfeccionista, exigente (consigo e com os outros), diplomata, versátil, com grande capacidade intuitiva, senso analítico e perspicácia. Por vezes precisa de ficar a sós, em silêncio, para poder meditar e receber inspiração do Eu interior.»
Não me encanta nada a astrologia, mas fiquei impressionado e não direi porquê.
[Ilustração: retrato de Arsenii Tarkovskii.]






