Ao tirar a mala do armário, lembrei-me. Foi há um ano. No banco do parque das termas, sábado à tarde, sozinho, lia um livro. Chegou o homem, sentou-se e falou-me: também ele tinha agora vida espiritual, anunciou. Encarei-o.Homem de meia idade, aspecto popular retinto.
Também ele?! Pois muitos parabéns, apoiei. É bom ter vida espiritual.
Não arranjei outra resposta e o homem apresentou-se de imediato. Era pedreiro. Teve sorte, almas iluminadas haviam acabado por iluminar a sua.
Traduzi: fora arrebanhado por uma seita que o convenceu de que estava ali o autêntico conhecimento do Deus autêntico, que com eles comunicava, o Único digno de adoração entre os falsos deuses propagandeados por apóstolos também falsos. Em troca, o homem entregou a sua consciência e tornou-se tributário da seita, aceitando pagar-lhe uma certa quantia mensal. A salvação custa dinheiro…
Ter vida espiritual, para ele, era com certeza acreditar num ritual religioso e numa promessa de vida eterna para a sua alma quando morresse. Percebi então que o homem viera para o meu banco e que continuava, feliz e contente, a esbarrondar-se em conversa porque me viu a ler um livro. Nem duvidara, tinha que ser uma das tais leituras que ele conhecia; portanto, eu também teria vida espiritual…
Que diálogo estabelecer com tão singelo e por isso tão expressivo representante do país profundo? Não havia «ponte» possível entre nós, a conversa em breve morreu e o homem afastou-se. Sorte minha, voltei ao livro.
Já com os missionários que me assediavam em casa, chamando-me à porta para a grande Revelação, poucas vezes consegui fugir a debates pirrónicos, inúteis e enfadonhos. Advertia-os educadamente (homem e mulher, ele activo e ela passiva) de que não perdessem tempo comigo, era «caso perdido», nada tinham para me ensinar. Mas, em vez de os enxotar para irem pregar a outra porta, sempre o modo educado punha neles a correr a K7 aprendida na formação doutrinal.
Pegavam no Livro bendito, abriam-no num versículo, depois queriam ler um trecho profético no desdobrável que logo insistiam em pôr-me nas mãos… e eu, sem querer virar-lhes as costas, lembrava que os versículos não tinham sido escritos em português, então inexistente, que foram traduzidos de uma língua para outra e para outra ao longo dos séculos e que abundavam as dúvidas e as divergências entre traduções… E que poderia valer hoje a coisa escrita na areia há que tempos? Até o «pai nosso», oração primordial, sofreu emenda no decurso da minha existência! E porque não liam uma boa história dos concílios? E porque desconheciam o significado original, a etimologia, de termos familiares que repetiam sem descanso com outra persuasão, em vez de se empaturrarem com leituras santas?
Embaraçava-os pouco: fanatizados até ao tutano.
Acontece, porém, que os pares de missionários andam agora a sumir-se quase por completo. Raramente aparecem na rua (o homem de pasta na mão, cara conhecida), a caminho de nenhures como se passassem por vinha vindimada. O povo está todo salvo, graças a Deus, ou ficou depauperado e sem dinheiro até para a salvação?






