A concentração dos media em pouquíssimas mãos ocorreu em países europeus da comunidade, não apenas em Portugal. Porém, no nosso país, a concentração adquire aspectos especiais dado o atraso sociocultural de uma parte substancial da população e o peso da «memória» que nela ainda tem a Ditadura. Em geral, a posse de jornais, rádios e televisões, e agora também editoras de livros, na Europa, demonstra o crescimento inaudito da riqueza privada acumulada que chega para investir em estratégias de domínio e manipulação da informação e dos comportamentos massificados; e demonstra mais, as portas francas dos legisladores quando a elas chamam os poderosos.
Não admira, pois, que o poder da Informação (defendido até à dor por gerações de jornalistas) se tenha transformado na informação do Poder.
E foi assim que os jornalistas ficaram como estão: com a dignidade profissional atropelada, embebidos no desemprego ou nos jogos do patrão, na autocensura e numa permanente instabilidade imposta por vínculos laborais precários. E foi assim que, pela conjugação de circunstâncias nada inocentes, se instalou entre nós este jornalismo pardacento e seguidista (basta ver nos telejornais as mesmas notícias, com abordagens idênticas e quase simultâneas). E foi assim que se espalhou pela Europa, com a degradação do ensino público, a «cultura» da verdade única difundida por canais noticiosos principais (ingleses, americanos, europeus), decerto porque os políticos do velho mundo sintonizam a Casa Branca com fervor devoto. Na verdade, parece que a União Europeia quer partilhar o Ocidente com os Estados Unidos, nação altamente militarizada que os pacifistas têm de considerar com bases espalhadas a esmo.
Felizmente, a era Bush está no fim e, com ela, esperemos que se extinga também a gracinha de acusar de antiamericanos amigos autênticos do povo americano, mas críticos de Bush. Só as particularidades do sistema eleitoral da nação o fizeram presidente duas vezes e nunca, tanto quanto sei, o voto universal directo e reconhecido. Todavia, com ele, o mundo tornou-se bem mais inseguro e perigoso.
Ouvem-se vozes a afirmar que os alegados «senhores do mundo», esses sim, são mais perigosos até porque não são evidentes. O livro de Daniel Estulin, de 2005, suponho que ainda não traduzido e editado em português, analisa a existência e o sentido do Club Bilderberg, descrito como um «governo mundial na sombra». Foca o eventual perigo de se estabelecer uma «escravidão total», mas o autor tranquiliza-se, descartando tal perigo. Aponta investigações e ensaios sobre o comportamento humano demonstrativos de que a manipulação deste comportamento não pode resultar de castigos ou penalizações que, embora disciplinem os comportamentos em certa medida, geram – diz ele - «sentimentos de raiva, frustração e rebeldia» (pp 8-9 da edição Planeta, em espanhol).
Gostaria de partilhar da tranquilidade de Estulin. Porém, o que se nos oferece à vista não vai por aí. A saúde mental de uma população convenientemente distraída e cretinizada pode degradar-se mais e mais. Há quem trabalhe nisso (in progress desde o início dos estudos de mercado e marketing, é bom lembrar).
Sujo os dedos nos jornais diários há imensos anos. Posso contá-los (são uns 65), pois estou a ver-me, adolescente, debruçado nas páginas de «O Primeiro de Janeiro» abertas como velame de caravela. Rugia em 1944 a Grande Guerra no mundo (os políticos prometiam-nos que ia ser a última!) e chefiava a redacção do jornal portuense Jaime Brasil, que deixou fama de homem sério, competente e democrata autêntico, amordaçado porém, como todos os jornalistas, pelo regime da censura prévia imposto por Salazar. Neste período, o «Janeiro» colocou-se à frente dos outros órgãos da imprensa diária nacionais ao surgir impresso com duas cores que, misturadas, permitiam a tricromia, novidade apetecível entre a negrura da concorrência.
Acontece que ando agora a sujar não apenas os dedos, também o precioso miolo que o crânio, pela sua dureza, protege. Eis porque estou a despedir-me do último jornal que ainda leio cada vez mais irregularmente, exclamando no íntimo todas as manhãs: adeus, diários generalistas!
O velho «Janeiro» finou-se há semanas após lenta agonia, e passou a jornal gratuito. Foi solução da sobrevivência para o que já estava caduco. Mas os tempos vão maus, vão mesmo péssimos para os diários ditos de informação geral, idem para o jornalismo e para os jornalistas. Não por acaso, a informação já nem se distingue bem da publicidade ou da propaganda!
Depois de ter ficado com o jornal menos mau, verifico que todos são igualmente maus e vou-me convencendo de que que não valem o tempo de os folhear. Podem aprimorar os grafismos, abundarem as fotos, imprimirem-se a cores… porque as vendas caem, as tiragens baixam, e então os ditos correm em busca dos anúncios, muitos anúncios, mais e mais anúncios…
Diz-se por aí que os jovens não lêem imprensa (apesar de convertida ao tabloide), que preferem a Internet. É verdade, pelo computador chega-nos imensa e muito variada informação a casa, mas a dimensão virtual da Net não nega o mundo tal como é, cheio do fervilhar constante de acontecimentos diversos à tona dos dias, cheio de superficialidades e enciclopedismos baratos, pois por ali se expande tudo quanto de nefasto o mundo tem, por vezes até com manipulações horrendas a que não falta cheirinho a enxofre.
Os públicos vão ficando menos informados, ou desinformados, do que realmente acontece na actualidade autêntica que os envolve mas da qual vão sendo arredados, de olhos postos no caminho da bola como se dela possa vir honra e fortuna, ou entretidos com questões de lana caprina. Avulta em crescendo no país um défice de informação jornalística (isto é, fiável, clara e correcta) que se traduz, noutro plano, num défice de cidadania.
Evidentemente, a Net alberga também matérias dignas deveras interessantes e positivas. Mas têm a sorte das vozes que, fora do mundo virtual, apelam para a clarificação das inteligências: a maranha total abafa-as. Enfim, há quem vaticine a morte breve dos jornais de referência. Teremos então chegado ao tempo das ignorâncias e alienações instaladas, propiciadoras de soluções totalitárias?
Um velho e estimado amigo surpreende-me pela sua capacidade de paixão, coisa rara nos tempos que correm. Mas acontece. E aqui temos o caso do Manel, o Manuel Silva. Passou tanta vida em volta dos rádios – designados outrora como telefonias sem fios, depois rádio-receptores, agora apenas rádios – que acabou apaixonado por eles. Não os transistores da actualidade, sim os «retro» perdidos da vista, com válvulas metidas em caixas aparatosas.
Na verdade, o Manel aprendeu a consertar os circuitos, a substituir as válvulas fundidas, enfim, a trazer para a vida cada um daqueles objectos mortos. Abriu nos anos ’50, na nossa terra natal, uma loja, a Radiolândia, nome que ele diz ter sido proposto por mim (e o Manel é pessoa séria, não mente). Começou a vender os aparelhos e acabou por os comprar onde os encontrasse, algures no mundo, por vezes caríssimos, para completar as suas colecções.
Actualmente, possui muitas centenas de aparelhos (todos em normais condições de funcionamento, garante ele, e são perto de 1400), desde os mais antiquados, que alinha por marcas e modelos, de fábricas europeias, americanas ou outras. Abundaram sobretudo nos anos ’40-’60 do século passado, ou seja, até ao advento e popularização dos televisores. São um pedaço palpitante de história e de memória, que em nós se aviva perante receptores familiares, que usámos em nossas casas e fomos trocando como roupas velhas através dos anos. E surgem revelações curiosas ligadas à produção e comercialização de certos aparelhos.
O Manel conta com prazer tudo quanto sabe, e é imenso, ao percorrer com o visitante, passo a passo, as colecções que guarda no seu museu. Sim, um museu, que também designa como Radiolândia e que alberga em edifício próprio no local da sua residência, Vagos.
Pode não ser o único do género existente em Portugal mas é sem dúvida importante. Talvez o mais importante. E está para ali, numa espécie de «segredo»…
Felizmente, o amigo Manel decidiu ouvir-me e trouxe o seu museu para uma janela da Net. Qualquer pessoa encontra a Radiolândia na página http://www.cfeci.pt/sites/radiosantigosnoar/links.htm. Temos ali, além de imagens para visita virtual, links para história da Rádio, coleccionadores de rádios antigos, tudo sobre marcas e modelos, quem repara os aparelhos e até um link para ouvir, se quiser, a vizinha rádio Terra Nova, de Ílhavo.
É já, quero crer, alguma coisinha. Só que, à evidência, não chega. E não chega porque mais está para além do alcance daquele amigo, que é capaz de pagar milhares de euros por um único aparelho velho que talvez já nem funcione e que terá conseguido localizar do outro lado do mundo e que faltava à sua colecção, mas se vê sem condições reais para dar ao seu museu o destino mais adequado, a sua abertura e exposição ao público.
Ah, Manel, se fosses Joe Berardo!...
Pintura de Jacek Yerka, n. em 1952, na Polónia
Este blogger não flutua no borbulhar dos dias, não comenta hoje as peripécias que foram a conversa de ontem. Sabemos que é de crónicas que se alimenta este sítio. Que assim tem lugar na extensíssima variedade dos blogues existentes. Esboça o julgamento do nosso tempo, porque é tempo de julgamento e há testemunhas, testemunhos.
Parece que não serão muitos os blogues irmãos deste. Mas o cronista está no miradoiro da praia, em seco, não tem prancha de surf para cavalgar a onda que vai e vem. Prefere contemplar a ondeação geral, medi-la com o olhar, perceber as camadas de algas que retorce e arranca com aquela força que bate na rocha a que se agarra o mexilhão.
O cronista habituou-se a recuar uns passos para ver melhor. Todavia, não recua para ver melhor, agora, porque entra no ripanço. Vai fechar os olhos no preguiceiro em gozo de férias, fica a comunidade virtual bem entregue a si mesma. Promete regressar, obviamente. Até já!
Ao tirar a mala do armário, lembrei-me. Foi há um ano. No banco do parque das termas, sábado à tarde, sozinho, lia um livro. Chegou o homem, sentou-se e falou-me: também ele tinha agora vida espiritual, anunciou. Encarei-o.
Homem de meia idade, aspecto popular retinto.
Também ele?! Pois muitos parabéns, apoiei. É bom ter vida espiritual.
Não arranjei outra resposta e o homem apresentou-se de imediato. Era pedreiro. Teve sorte, almas iluminadas haviam acabado por iluminar a sua.
Traduzi: fora arrebanhado por uma seita que o convenceu de que estava ali o autêntico conhecimento do Deus autêntico, que com eles comunicava, o Único digno de adoração entre os falsos deuses propagandeados por apóstolos também falsos. Em troca, o homem entregou a sua consciência e tornou-se tributário da seita, aceitando pagar-lhe uma certa quantia mensal. A salvação custa dinheiro…
Ter vida espiritual, para ele, era com certeza acreditar num ritual religioso e numa promessa de vida eterna para a sua alma quando morresse. Percebi então que o homem viera para o meu banco e que continuava, feliz e contente, a esbarrondar-se em conversa porque me viu a ler um livro. Nem duvidara, tinha que ser uma das tais leituras que ele conhecia; portanto, eu também teria vida espiritual…
Que diálogo estabelecer com tão singelo e por isso tão expressivo representante do país profundo? Não havia «ponte» possível entre nós, a conversa em breve morreu e o homem afastou-se. Sorte minha, voltei ao livro.
Já com os missionários que me assediavam em casa, chamando-me à porta para a grande Revelação, poucas vezes consegui fugir a debates pirrónicos, inúteis e enfadonhos. Advertia-os educadamente (homem e mulher, ele activo e ela passiva) de que não perdessem tempo comigo, era «caso perdido», nada tinham para me ensinar. Mas, em vez de os enxotar para irem pregar a outra porta, sempre o modo educado punha neles a correr a K7 aprendida na formação doutrinal.
Pegavam no Livro bendito, abriam-no num versículo, depois queriam ler um trecho profético no desdobrável que logo insistiam em pôr-me nas mãos… e eu, sem querer virar-lhes as costas, lembrava que os versículos não tinham sido escritos em português, então inexistente, que foram traduzidos de uma língua para outra e para outra ao longo dos séculos e que abundavam as dúvidas e as divergências entre traduções… E que poderia valer hoje a coisa escrita na areia há que tempos? Até o «pai nosso», oração primordial, sofreu emenda no decurso da minha existência! E porque não liam uma boa história dos concílios? E porque desconheciam o significado original, a etimologia, de termos familiares que repetiam sem descanso com outra persuasão, em vez de se empaturrarem com leituras santas?
Embaraçava-os pouco: fanatizados até ao tutano.
Acontece, porém, que os pares de missionários andam agora a sumir-se quase por completo. Raramente aparecem na rua (o homem de pasta na mão, cara conhecida), a caminho de nenhures como se passassem por vinha vindimada. O povo está todo salvo, graças a Deus, ou ficou depauperado e sem dinheiro até para a salvação?
Meu caro amigo, acredita. Isto está preto! Se julgas ouvir o fado nacional nessas queixas, atenta nos sinais que, mesmo assim ao longe, sem dúvida te hão-de chegar. Este país, em vez de se erguer, cai de exaustão.
A dívida ao estrangeiro tem-se agravado - anuncia um ou outro inconfidente quando lhe doem os calos, o que é raro, e pelos vistos já excede os mil e quinhentos euros distribuídos por cada habitante. Então, como indivíduos e como país, estamos mais prontos a consumir do que a produzir? Ninguém parece ralar-se com isso, apenas com as suas dívidas privadas. Entretanto, multiplicam-se as famílias insolventes que pedem em tribunal declaração de falência, arriscando-se a perder o que possuíam (e o que perderiam os habitantes de um país que por fim a declarasse também?)
A população afastou-se do poder político levado pela desilusão, a indiferença ou a suspeita. Tornou-se difícil crer nos políticos do sistema e nas suas políticas, tanto como nos partidos ou nas suas apregoadas estratégias de «interesse nacional», quando é visível a cumplicidade do Estado com os grandes grupos económico-financeiros. As manigâncias e a corrupção invadiram o terreno de lés a lés, instalando a «ordem nova» que escancarou as portas a oportunistas sem ideais, militantes do pragmatismo, medíocres jactanciosos e nulidades de montra em fim de época.
Os políticos do sistema tão-pouco confiam na população. Fogem a debater o custo e o benefício social de cada investimento, de modo que falta desenvolver uma consciência colectiva esclarecida do preço que todos e cada cidadão pagam, por exemplo, para ter submarinos, um novo museu, um centro cultural, uma biblioteca pública. As decisões são tomadas numas instâncias longínquas e opacas, os políticos decidem sozinhos, soberanamente, pelo que tem vindo a definhar a participação cidadã. A Imprensa está domesticada, traficâncias engendram milhares de novos milionários, morre muita classe média.
Adensou-se por cá a confusão de ideias e de valores, de princípios e de métodos. Vozes críticas sustentam que é nesta confusão trapalhona que os políticos do sistema querem viver e que vivem bem no que querem. Contribui decerto para tal situação o fracasso do ensino oficial obrigatório, assolado há décadas por reformas que destroem programas e conteúdos escolares e azedam os professores. Enfim, escasseiam cidadãos. Se houver uns cem mil no país, dizem certos cálculos, perfazem algo como um por cento - insignificante minoria.
E temos os centros históricos das cidades, com prédios a cair pedaço a pedaço. Repete-se que centenas de milhares de casas permanecem devolutas e que milhares de pessoas vivem em alojamentos impróprios. As estatísticas do desemprego não atingem níveis mais sérios graças à emigração, pois a situação interna tornou a sangrar as fronteiras. E parece que nem todos vão com desejos de mandar dinheiro, voltar…
Meu caro amigo, compreendo que digas que também nessa tua sociedade adoptiva existem dificuldades, problemas, mas concorda, as duas realidades em confronto nada têm de comparável. Continua onde estás, vem cá apenas para um abraço.