Entrei na aventura literária no início dos anos
’50, quando crescia no ambiente culto brasileiro e português um certo
escândalo. Incrível: : um diplomata (e repetia-se como que sublinhando o termo, um diplomata!), actuava cantando noite adentro pelos bares cariocas. Assim nasceu o «poetinha».
Era ousadia valente, mesmo no país do samba e do carnaval, um escritor, um intelectual, aparecer em espectáculo público sem qualquer ademane protocolar. Além disso, aquela veneta de compor e cantar versos e sambas que o povo, cantando também, aplaudia!... Nos círculos cultos do Portugal de então, no seu bafio salazarento, o caso parecia espantoso, tão espantoso que chegava a ser degradante. Os jornais falavam, a notícia corria, que descrédito! Inacreditável!
Mas Vinicius de Morais, nascido em 1913, era para todos os efeitos filho de poeta e tocador de viola. Cantou no coro do colégio, onde montou pecinhas de teatro. Formou-se em ciências jurídicas e sociais em 1933, entrou na carreira diplomática em 1946, e publicou peça em 1954, quando já estava, desde meados de 1950, a participar intensamente no movimento musical brasileiro (MPB, com Carlos Lyra, Tom Jobim, Toquinho).
Assim se desenhou no tempo a figura e a presença do poeta que teve coragem para resistir, permanecendo quem era. Resultado? Foi talvez o derradeiro aedo, isto é, poeta-cantor, poeta-músico, poeta-poeta integral, se formos buscar à tradição clássica da cultura grega o respectivo precedente.
Vinicius não descurou a obra literária, aí temos as «Antologias» para no-lo lembrar e revisitar o seu inolvidável «operário em construção». Mas o seu caminho estava escolhido, era um aedo - ou, se se quiser, bardo, um pouco jogral – e o seu caminho foi feito caminhando… a cantar e a dizer-fazer poesia.
Artista de rara estirpe, o «poetinha» cantou o amor e a beleza da mulher. «As muito feias que me perdoem, mas a beleza é fundamental.» Cantou a vida, que «é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida». Noctívago incorrigível («De manhã escureço / De dia tardo / De tarde anoiteço / De noite ardo»), teve fama de «vagabundo que nada fazia» fazendo tudo o que fazia: belíssimos sonetos, canções famosas, músicas para filmes. Encontrou no uísque «o melhor amigo do homem. É o cachorro engarrafado». Detestou «tudo o que oprime o homem, inclusive a gravata».
Em 1968, ano em que esteve em Lisboa com Chico Buarque e Nara Leão, foi aposentado compulsivamente da carreira diplomática após 26 anos de serviço. Corporizou-se a sentença, consumou-se a condenação. Juntava-se ao escândalo puritano o correctivo balofo. E foi assim que Jacinto do Prado Coelho, director do «Dicionário de Literatura», ed. Figueirinhas, omitiu Vinicius da obra escondendo-o todavia algures pois não consta dos índices. Quem se lembra hoje de Jacinto e da sua picardia? É poeira e mais nada.
Vinicius de Morais, falecido em 1980, saravá! Continue vivo, «poetinha», e connosco! Saúdamo-lo nesta evocação, matando saudades em (link)
Fala-se de crise, já ninguém a discute tão instalada a tem o país. Chega então a maré de lembrar que a quantidade de dinheiro em circulação não diminuiu (será até mais abundante), nenhum incêndio reduziu a cinzas as notas maiores deixando nas caixas do multibanco as de dez e vinte. As maiores desapareceram das mãos da arraia-miúda segundo uma lógica nada democrática; mas por essa lógica se avalia como sabe falar quem diz que são precisos milhares de pobres para fazerem um único rico.
Os pobres, hoje, são os que trabalham por quinhentos ou seiscentos euros mensais executando tarefas de escassas qualificação durante horários e sob exigências disciplinares de crescente severidade. Repetem-lhes que têm que produzir mais para poderem ganhar mais, como se tal fosse viável com tais patrões e directores a dar-lhes ordens. E agora, nesta crise geral (não apenas económico-financeira) que se expande, apenas falta pedir aos pobres - que já vivem com o mínimo ou ainda menos - para baixarem o nível de vida a fim de reduzir os desperdícios do consumismo…
Na verdade, é isto mesmo que anda a ser apregoado pelos media, que aconselham a poupar água, a poupar luz, a poupar dinheiro para aforro. Com o apelo a uma maior produção, temos a consigna emblemática da Ditadura restaurada: «Produzir e poupar, é o que manda Salazar!» Estarão a coincidir meras aparências?!
Seja como for, os problemas da nossa época, além de sociais, são também ecológicos. Uma sociedade nacional reclama regulações cruzadas em diversos sentidos a fim de obviar a graves rupturas, mas a conservação da natureza, isto é, da biosfera, já surge como condição de sobrevivência planetária. Para todos os efeitos, chegámos ao momento de compreendermos que dependemos vitalmente de recursos naturais finitos, como a água ou o ar respirável.
Somos pessoas cultas e civilizadas, hoje, na medida em que alcançarmos essa compreensão. Este grupo de pessoas será por certo «parte da solução».
Sabe-se, pois o facto é incontroverso, que aumentou desmesuradamente a diferença entre o que ganham uns quantos privilegiados, a minoria, e o que ganham as classes populares. Então, vendo de relance, as classes populares serão muito menos a «parte do problema» (podem querer consumir mas faltam-lhes os meios), do que os poucos que ganham muito e consomem nessa escala. Entre as nações, os Estados Unidos são disso um exemplo eloquente. Impõe-se agora a conclusão: não basta ter dinheiro para ter direito real a consumir certos bens de qualquer maneira (lembrete: menos de 1% das coisas compradas nos Estados Unidos no dia-a-dia não estarão no lixo dentro de seis meses).
As circunstâncias obrigam-nos a questionar o nível de vida da minoria abastada e também os seus modos de vida, lazeres incluídos. Obrigam-nos a não confundir consumismo e qualidade de vida, indo ao ponto de pôr na mesa da discussão o modelo de desenvolvimento vigente. Este bendito «crescimento» tem que ser contido, apenas os incorrigíveis teimarão em supor que iria ser imparável.
Oiçam o padre Fanhais: «Vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar».
A concentração dos media em pouquíssimas mãos ocorreu em países europeus da comunidade, não apenas em Portugal. Porém, no nosso país, a concentração adquire aspectos especiais dado o atraso sociocultural de uma parte substancial da população e o peso da «memória» que nela ainda tem a Ditadura. Em geral, a posse de jornais, rádios e televisões, e agora também editoras de livros, na Europa, demonstra o crescimento inaudito da riqueza privada acumulada que chega para investir em estratégias de domínio e manipulação da informação e dos comportamentos massificados; e demonstra mais, as portas francas dos legisladores quando a elas chamam os poderosos.
Não admira, pois, que o poder da Informação (defendido até à dor por gerações de jornalistas) se tenha transformado na informação do Poder.
E foi assim que os jornalistas ficaram como estão: com a dignidade profissional atropelada, embebidos no desemprego ou nos jogos do patrão, na autocensura e numa permanente instabilidade imposta por vínculos laborais precários. E foi assim que, pela conjugação de circunstâncias nada inocentes, se instalou entre nós este jornalismo pardacento e seguidista (basta ver nos telejornais as mesmas notícias, com abordagens idênticas e quase simultâneas). E foi assim que se espalhou pela Europa, com a degradação do ensino público, a «cultura» da verdade única difundida por canais noticiosos principais (ingleses, americanos, europeus), decerto porque os políticos do velho mundo sintonizam a Casa Branca com fervor devoto. Na verdade, parece que a União Europeia quer partilhar o Ocidente com os Estados Unidos, nação altamente militarizada que os pacifistas têm de considerar com bases espalhadas a esmo.
Felizmente, a era Bush está no fim e, com ela, esperemos que se extinga também a gracinha de acusar de antiamericanos amigos autênticos do povo americano, mas críticos de Bush. Só as particularidades do sistema eleitoral da nação o fizeram presidente duas vezes e nunca, tanto quanto sei, o voto universal directo e reconhecido. Todavia, com ele, o mundo tornou-se bem mais inseguro e perigoso.
Ouvem-se vozes a afirmar que os alegados «senhores do mundo», esses sim, são mais perigosos até porque não são evidentes. O livro de Daniel Estulin, de 2005, suponho que ainda não traduzido e editado em português, analisa a existência e o sentido do Club Bilderberg, descrito como um «governo mundial na sombra». Foca o eventual perigo de se estabelecer uma «escravidão total», mas o autor tranquiliza-se, descartando tal perigo. Aponta investigações e ensaios sobre o comportamento humano demonstrativos de que a manipulação deste comportamento não pode resultar de castigos ou penalizações que, embora disciplinem os comportamentos em certa medida, geram – diz ele - «sentimentos de raiva, frustração e rebeldia» (pp 8-9 da edição Planeta, em espanhol).
Gostaria de partilhar da tranquilidade de Estulin. Porém, o que se nos oferece à vista não vai por aí. A saúde mental de uma população convenientemente distraída e cretinizada pode degradar-se mais e mais. Há quem trabalhe nisso (in progress desde o início dos estudos de mercado e marketing, é bom lembrar).
Sujo os dedos nos jornais diários há imensos anos. Posso contá-los (são uns 65), pois estou a ver-me, adolescente, debruçado nas páginas de «O Primeiro de Janeiro» abertas como velame de caravela. Rugia em 1944 a Grande Guerra no mundo (os políticos prometiam-nos que ia ser a última!) e chefiava a redacção do jornal portuense Jaime Brasil, que deixou fama de homem sério, competente e democrata autêntico, amordaçado porém, como todos os jornalistas, pelo regime da censura prévia imposto por Salazar. Neste período, o «Janeiro» colocou-se à frente dos outros órgãos da imprensa diária nacionais ao surgir impresso com duas cores que, misturadas, permitiam a tricromia, novidade apetecível entre a negrura da concorrência.
Acontece que ando agora a sujar não apenas os dedos, também o precioso miolo que o crânio, pela sua dureza, protege. Eis porque estou a despedir-me do último jornal que ainda leio cada vez mais irregularmente, exclamando no íntimo todas as manhãs: adeus, diários generalistas!
O velho «Janeiro» finou-se há semanas após lenta agonia, e passou a jornal gratuito. Foi solução da sobrevivência para o que já estava caduco. Mas os tempos vão maus, vão mesmo péssimos para os diários ditos de informação geral, idem para o jornalismo e para os jornalistas. Não por acaso, a informação já nem se distingue bem da publicidade ou da propaganda!
Depois de ter ficado com o jornal menos mau, verifico que todos são igualmente maus e vou-me convencendo de que que não valem o tempo de os folhear. Podem aprimorar os grafismos, abundarem as fotos, imprimirem-se a cores… porque as vendas caem, as tiragens baixam, e então os ditos correm em busca dos anúncios, muitos anúncios, mais e mais anúncios…
Diz-se por aí que os jovens não lêem imprensa (apesar de convertida ao tabloide), que preferem a Internet. É verdade, pelo computador chega-nos imensa e muito variada informação a casa, mas a dimensão virtual da Net não nega o mundo tal como é, cheio do fervilhar constante de acontecimentos diversos à tona dos dias, cheio de superficialidades e enciclopedismos baratos, pois por ali se expande tudo quanto de nefasto o mundo tem, por vezes até com manipulações horrendas a que não falta cheirinho a enxofre.
Os públicos vão ficando menos informados, ou desinformados, do que realmente acontece na actualidade autêntica que os envolve mas da qual vão sendo arredados, de olhos postos no caminho da bola como se dela possa vir honra e fortuna, ou entretidos com questões de lana caprina. Avulta em crescendo no país um défice de informação jornalística (isto é, fiável, clara e correcta) que se traduz, noutro plano, num défice de cidadania.
Evidentemente, a Net alberga também matérias dignas deveras interessantes e positivas. Mas têm a sorte das vozes que, fora do mundo virtual, apelam para a clarificação das inteligências: a maranha total abafa-as. Enfim, há quem vaticine a morte breve dos jornais de referência. Teremos então chegado ao tempo das ignorâncias e alienações instaladas, propiciadoras de soluções totalitárias?
Um velho e estimado amigo surpreende-me pela sua capacidade de paixão, coisa rara nos tempos que correm. Mas acontece. E aqui temos o caso do Manel, o Manuel Silva. Passou tanta vida em volta dos rádios – designados outrora como telefonias sem fios, depois rádio-receptores, agora apenas rádios – que acabou apaixonado por eles. Não os transistores da actualidade, sim os «retro» perdidos da vista, com válvulas metidas em caixas aparatosas.
Na verdade, o Manel aprendeu a consertar os circuitos, a substituir as válvulas fundidas, enfim, a trazer para a vida cada um daqueles objectos mortos. Abriu nos anos ’50, na nossa terra natal, uma loja, a Radiolândia, nome que ele diz ter sido proposto por mim (e o Manel é pessoa séria, não mente). Começou a vender os aparelhos e acabou por os comprar onde os encontrasse, algures no mundo, por vezes caríssimos, para completar as suas colecções.
Actualmente, possui muitas centenas de aparelhos (todos em normais condições de funcionamento, garante ele, e são perto de 1400), desde os mais antiquados, que alinha por marcas e modelos, de fábricas europeias, americanas ou outras. Abundaram sobretudo nos anos ’40-’60 do século passado, ou seja, até ao advento e popularização dos televisores. São um pedaço palpitante de história e de memória, que em nós se aviva perante receptores familiares, que usámos em nossas casas e fomos trocando como roupas velhas através dos anos. E surgem revelações curiosas ligadas à produção e comercialização de certos aparelhos.
O Manel conta com prazer tudo quanto sabe, e é imenso, ao percorrer com o visitante, passo a passo, as colecções que guarda no seu museu. Sim, um museu, que também designa como Radiolândia e que alberga em edifício próprio no local da sua residência, Vagos.
Pode não ser o único do género existente em Portugal mas é sem dúvida importante. Talvez o mais importante. E está para ali, numa espécie de «segredo»…
Felizmente, o amigo Manel decidiu ouvir-me e trouxe o seu museu para uma janela da Net. Qualquer pessoa encontra a Radiolândia na página http://www.cfeci.pt/sites/radiosantigosnoar/links.htm. Temos ali, além de imagens para visita virtual, links para história da Rádio, coleccionadores de rádios antigos, tudo sobre marcas e modelos, quem repara os aparelhos e até um link para ouvir, se quiser, a vizinha rádio Terra Nova, de Ílhavo.
É já, quero crer, alguma coisinha. Só que, à evidência, não chega. E não chega porque mais está para além do alcance daquele amigo, que é capaz de pagar milhares de euros por um único aparelho velho que talvez já nem funcione e que terá conseguido localizar do outro lado do mundo e que faltava à sua colecção, mas se vê sem condições reais para dar ao seu museu o destino mais adequado, a sua abertura e exposição ao público.
Ah, Manel, se fosses Joe Berardo!...
Pintura de Jacek Yerka, n. em 1952, na Polónia
Este blogger não flutua no borbulhar dos dias, não comenta hoje as peripécias que foram a conversa de ontem. Sabemos que é de crónicas que se alimenta este sítio. Que assim tem lugar na extensíssima variedade dos blogues existentes. Esboça o julgamento do nosso tempo, porque é tempo de julgamento e há testemunhas, testemunhos.
Parece que não serão muitos os blogues irmãos deste. Mas o cronista está no miradoiro da praia, em seco, não tem prancha de surf para cavalgar a onda que vai e vem. Prefere contemplar a ondeação geral, medi-la com o olhar, perceber as camadas de algas que retorce e arranca com aquela força que bate na rocha a que se agarra o mexilhão.
O cronista habituou-se a recuar uns passos para ver melhor. Todavia, não recua para ver melhor, agora, porque entra no ripanço. Vai fechar os olhos no preguiceiro em gozo de férias, fica a comunidade virtual bem entregue a si mesma. Promete regressar, obviamente. Até já!