Diagnosticar a origem do negrume (os efeitos da recessão, a crise) é pouco. Mas como demora a cura a anunciar-se, e ainda mais a chegar, aí temos a panaceia de recurso: programas de humor diários em opípara abundância. É recurso barato e universal, sem contra-indicações nem efeitos secundários afirmados.
Temos humor na rádio, humor na televisão, humor nos jornais, humor nas caixas de correio electrónico, humor no telefone… humor a correr por todo o lado. Temos produtores de anedotas a trabalhar de mangas arregaçadas. Quem sabe cuidar das necessidades do povo derrama estas brisas frescas no país murcho e entorpecido.
Mas o humor é coisa séria, voadora e bonita como a borboleta bela-dama. Aparece e acontece de asas abertas ao ar livre quando muito bem entende e o sol brilha, não em locais fechados de produção diária, em série, onde os martelos dos profissionais da anedota nacional, batendo nas suas bigornas, arrancam mais barulho do que humor. Espalha-se então a gracinha sem piada nenhuma.
Circulam pelo país as piadas fáceis, as anedotas descoloridas e sem jeito – orientadas para um nível cultural primário ou de viela - que deixam as bocas inertes, incapazes de se descerrarem num sorriso, numa completa indiferença. Talvez seja caso para supor que tanto esforço humorístico cansa, tanta cócega pré-fabricada já irrita. Sabe-se, aliás, que barrigas pouco cheias dificilmente sentem a cócega e que só com prodígios de arte consegue encher-se uma barriga de riso.
Irá isso demonstrar uma ingratidão? O povo tem falta de empregos estáveis e devidamente remunerados, falta de melhor qualidade de vida, de segurança. Aspira a melhores sistemas de saúde, de justiça, de ensino, etc., etc. Está aí a estagnação, a crise? Tenham paciência e esperem um pouco, está bem?! Entretanto, tomem lá este brinde, façam o favor de se distrair!
A indústria do humor serve ao povo o que o racionamento comeu.
Todavia, a experiência empírica parece anunciar que os períodos de quebra económica não são amigos do humor, antes, na inversa, os de alguma prosperidade. De barriga satisfeita e em paz, a piada graciosa tem graça e solta o riso prazenteiro. A cócega ajuda à digestão. Tanto humor, hoje, no país deprimido, talvez sirva apenas para demonstrar o que diz certo autor: que subjaz um fundo pessimista em cada humorista. O autor descreve-os como pessoas notavelmente desiludidas com o mundo e consigo próprias, que produzem anedotas porque na realidade se queixam de tudo.
Assim, os humoristas seriam uma espécie de palhaços que choram quando querem fazer rir. E temos a imagem clássica: junto da boca aberta em teatral gargalhada vemos a máscara da dor.





