A crise financeira que se declarou com epicentro na Wall Street e ondas globais em crescendo expansivo na Europa, revela indesmentivelmente duas verdades clamorosas. A primeira, a democracia em sistema capitalista é dominada pela oligarquia financeira em seu exclusivo proveito. A segunda, o sistema capitalista do modelo que conhecemos entrou em total descrédito, não podendo mais tornar a merecer confiança.Compreende-se portanto que nem a democracia, sistema político, nem o sistema económico, possam sair deste transe como se nada tivesse sucedido. Encadearam-se uns nos outros escândalos gigantescos da máxima gravidade e os cidadãos, incluídos os que não possuem habilitação económico-financeira, vêem-se chamados a pronunciar-se. Confirmada ficou, entretanto, a fase imperialista do capitalismo actual e a sua tendência suicida para a desregulação e a desordem. Alguém, há uns anos, previu que seria esta a sua fase derradeira. Será? As fachadas institucionais pedem agora correcções cosméticas urgentes, mas… o essencial das estruturas internas irá poder mudar em prejuízo da oligarquia?
Demonstrada fica, desde já, a apropriação do Estado democrático por uma oligarquia voraz que proclama a economia de mercado como matriz da democracia enquanto lhe convém. Mas basta que bancos, companhias de seguros e sociedades de investimento entrem em colapso para que o Estado lhes acuda, livrando-os da insolvência. À vista fica porém a corrupção que invadiu o sistema financeiro graças àquelas tão providenciais off-shores.
À vista ficam também algumas outras verdades clamorosas. O Estado, que andou anos a repetir que não possuía recursos para melhorar a segurança social, a saúde, o ensino público, etc., de repente, porque se trata de salvar uma parte podre do país do seu naufrágio, arranja milhares de milhões e lança-os como bóia salva-vidas. A contradição parece insanável.
Mais grave é que, assim tratados, os especuladores financeiros atiçados pela ganância – já designados banksters (banqueiros+gangsters) – e os seus acólitos da supervisão oficial, vão querer certamente continuar a especular sem leis ou criminologias. E quem puxou os governos para estes caminhos de especulação financeira pura e dura como se isso fosse a economia pós-moderna e não a pilhagem de recursos mais descarada?
É preciso travar essas altas cavalarias do cifrão em nome de uma economia realmente produtiva e socialmente útil. O poder da oligarquia financeira, que continua a ser imenso, não pode dominar o sistema democrático. O mercado não pode permanecer entregue aos seus «donos», precisa da regulação constante do Estado.
As classes médias norte-americana e europeias terão agora, mais uma vez, oxalá que em níveis diferentes, de suportar os custos desta crise. Os Estados irão buscar os recursos aos bolsos de quem possui algo, não aos prevaricadores fugidos de bolsos cheios. Cabe aos povos reclamar aos seus Estados uma distribuição mais equitativa dos rendimentos conjugada com a conservação da qualidade de vida e um apelo vibrante à paz cada vez mais em perigo neste Mundo perigoso…




