sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Faltam termos de comparação

Mulheres, sobretudo jovens, multiplicam-se nos empregos. A percentagem das portuguesas empregadas é por isso das mais altas no quadro europeu. Conhecemos o facto há longos anos e pouco ou nada parece notar-se. Todavia, traduzindo embora uma evolução positiva (liberta as mulheres da sujeição económica a pais ou maridos), o facto introduziu graves consequências e logo esta: contribuiu também, como efeito perverso, para forçar no país um abaixamento geral dos salários.
Ocorre-me de novo esta ideia em contacto com a directora de uma instituição privada de solidariedade social para idosos. É jovem, licenciada em Serviço Social, em início de carreira. Terá entre 25-30 anos e, muito provavelmente, ainda espera companheiro.
A licenciatura, como qualquer curso tecnocrático, serviu-lhe para iniciar a vida activa. Repete quatro ou cinco vezes a mesma frase, convicta e firme no seu posto como se já tivesse atravessado todas as dúvidas e atingido conclusões definitivas. A formação em Serviço Social, e porventura em geriatria, embrulha em nicles uma obra fundamental de Michel Foucault como «Vigiar e Punir», que lhe cito, e põe-me em dúvidas: estará ela habilitada a compreender um idoso?
Realmente, a menina teima comigo. Pensa que um idoso perde a razão apenas porque, atenção, acumulou anos vividos - fica imputável e sem ter consciência disso! Não um ou outro idoso atingido qualquer degenerescência, sim em regra!
A circunstância impediu a controvérsia que se requeria, mas custou-me. Gostaria que a menina me dissesse em que idade certa, na sua opinião, um idoso perde a lucidez das suas faculdades mentais. E neste caso, se um idoso não é capaz de sentir essa perda quando nele se inicia, como poderia ela garantir a si própria, apesar de jovem, que não tem agora a mente perturbada?!
Eis como a menina avaliava o idoso que tinha pela frente - menina directora de uma IPSS privada. E eis como progride no terreno a mentalidade tecnocrática, isto é, desumanizada, que manda para a reforma pessoas com cinquenta anos de idade e pede que trabalhem até aos setenta as que estão no activo…
Passou o tempo em que os velhos foram ouvidos e respeitados. A supremacia do «novo», do «jovem», decalca o modelo económico do consumismo que é o non plus ultra da mentalidade tecnocrática que tudo mercantiliza. Um hóspede idoso de IPSS transforma-se à entrada em «cliente», conforme esta menina directora insiste em o designar, ignorando decerto que a semântica do termo alude a freguês e a lucro, quando uma IPSS não pode ter finalidade lucrativa legítima.
Saio da reunião entristecido. Aquela menina tão firme porque atingiu conclusões definitivas, que decerto não leu Foucault e vai lançada na carreira, está privada dos termos de comparação que eu, por via da idade, tenho e utilizo. Cresceu neste ambiente modelado pelo capitalismo selvagem, vulgo neoliberalismo, que tudo coisifica e, ingenuamente, supõe que o mundo foi sempre assim inóspito, onde uma pessoa nasce para consumir e dar lucro a quem manda.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

O cronista cede o lugar

Nas circulações do correio electrónico cruzam-se mensagens reencaminhadas com anexos os mais diversos. Chegou-me agora um, apenas com texto, que me surpreendeu. Decidi inactivar as mãos. Hoje o cronista cede o lugar a quem, no anonimato, escreve assim. Omito apenas trechos iniciais do texto intitulado País:

«Um jovem de 18 anos recebe 200 euros do Estado para não trabalhar; um idoso recebe de reforma 236 depois de toda uma vida do trabalho.
O mesmo fisco que penhora indevidamente o salário de um trabalhador demora três anos a corrigir o erro.
Um professor é sovado por um aluno e o Governo diz que a culpa é das causas sociais.
O café da esquina fechou porque não tinha wc para homens, mulheres e empregados. No Fórum Montijo a wc da Pizza Hut fica a 100 mts e não tem lava-mãos.
O Governo incentiva as pessoas a procurarem energias alternativas e depois multa quem coloca óleo vegetal nos carros porque não paga imposto sobre produtos petrolíferos.
Nas prisões distribuem gratuitamente seringas por causa do HIV, mas é proibido consumir droga nas prisões!
Um jovem de 14 anos que mata um adulto não tem idade para ir a tribunal. Um jovem de 15 leva um chapada do pai por ter roubado dinheiro para droga e é violência doméstica!
Uma família a quem a casa ruiu e sem dinheiro para comprar outra, o Estado não tem dinheiro para fazer uma nova, vai viver conforme pode. Seis presos que mataram e violaram idosos vivem numa cela de quatro sem wc privado, não estão a viver condignamente e a associação de Direitos Humanos faz queixa ao Tribunal Europeu.
Militares que combateram em África a mando do Governo da época na defesa de território nacional não têm reconhecida nenhuma causa ou direito de guerra, mas o primeiro-ministro elogia as tropas que estão em defesa da pátria no Kosovo, Afeganistão e Iraque.
Começas a descontar em Janeiro o IRS e só vais receber o excesso em Agosto do ano que vem; não pagas às Finanças a tempo e passado um dia já estás a pagar juros.
Fechas a janela da tua varanda e estás a fazer uma obra ilegal; constrói-se um bairro de lata e ninguém vê.
Se o teu filho não tem cabeça para a escola e com 14 anos o pões a trabalhar contigo num oficio respeitável, é exploração do trabalho infantil; se és artista e o teu filho com sete anos participa em gravações de telenovelas 8 horas por dia ou mais, a criança tem muito talento, sai ao pai ou à mãe!
Numa farmácia pagas 0.50€ por uma seringa que se usa para dar um medicamento a uma criança. Se fosse drogada, não pagava nada!
E agora?! Sim, eu sei, vais voltar a olhar para o teu umbigo e dizer que tudo está bem; se disseres que está mal, que pensas fazer?! Deixar que os outros resolvam por ti?! Então mereces tudo isto em dobro.
Mexe-te, grita, mostra a tua indignação e luta. Ou em breve poderás estar tu e os teus dentro destas estatísticas e o teu vizinho fará como tu: olhará para o lado.»

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Não há mais Histórias da Literatura

Viver com os livros, não apenas tê-los em casa ou abri-los por desfastio. Amar a Literatura - feita de estreme poesia - por nela sentir o latejar da vida toda. Há gente assim, aberta para o mundo das Letras como para um outro céu azul recamado de estrelas fulgentes.
Essa gente habituou-se às Histórias da Literatura. Cada país, mais do que cada língua, não as dispensou no curso do tempo. Periodicamente, um autor habilitado empreendia a tarefa. Em Portugal, os últimos foram, que me lembre, Albino Forjaz de Sampaio, Fidelino de Figueiredo, António José Saraiva e Oscar Lopes.
As suas «Histórias» evocam o dealbar da nossa Literatura, as correntes e os movimentos estéticos-literários que se seguiram, os autores em evidência em cada período, as singularidades e os valores intrínsecos assumidos por cada mutação sociocultural. De certo modo, ao arrumarem por categorias os grupos literários e as individualidades, os historiadores como que deixavam desenhado no terreno os caminhos seguidos pela criação literária. Ao distinguir ou a separar, uniam e tornavam coerente o quadro da evolução nacional.
Recuados para além da linha da recepção (que se pronuncia sobre os livros recém-publicados), os historiadores podiam estabelecer com maior segurança as suas perspectivas críticas. O mérito dessas obras contribuía para alicerçar autênticos prestígios e elevar em glória uma obra e um nome. O público leitor era informado.
Mas há quantos anos não se vê aparecer uma nova História da Literatura Portuguesa? Conclusão: a maré não vai boa para este género historiográfico. Alíás, ter-se-á extinguido mesmo o lugar de onde surgia. Apenas parece restar espaço para uma sociologia dos consumos.
De facto, terminaram as escolas, os movimentos de vanguarda, as correntes regidas por uma determinada consigna. Deixou, portanto, de existir na realidade aquela substância que servia ao historiógrafo para distinguir um de outro período. Desde há uns trinta anos, aproximadamente, há, sim, apenas uma literatura de autores individuais não assimiláveis entre si.
Viável, nesta situação, é a elaboração de dicionários de autores, obras estas que têm vindo a sair com alguma frequência. A obra de Oscar Lopes e António José Saraiva apenas a vejo em reedição, por sinal cada vez mais rara. O público leitor arreda-se de especificações críticas que foram apaixonantes: o neo-realismo, o presencismo psicologista, o visualismo do novo romance, o realismo naturalista, o parnasianismo…
Ocorreu realmente uma mudança decisiva. Os livros banalizaram-se, transformados que foram em objectos de comércio. Publicam-se agora num mês tantos títulos como antes na roda de um ano. E já quase ninguém faz crítica regular nos jornais. Mas é possível agora ganhar bom dinheiro com a literatura na condição de se ganhar o mercado e, para isso, basta ter o rosto nos ecrãs e nas páginas da imprensa. Proliferam, portanto, os autores que escrevem para vender, de mão guiada pelo manual da «escrita criativa», e que os leitores consomem como se não houvesse mais nada!

domingo, 9 de novembro de 2008

Um soco no estômago

E foi assim: inesperado e violento. Veio o golpe de um congresso de panificadores hoje reunido, onde se anunciou o encerramento de duas mil padarias e o despedimento de uns dez mil empregados. Escasseia, no país, o pão!
O pãozinho, alimento elementar e por isso também simbólico! O pãozinho, que é a última coisa a faltar à mesa dos mais pobres! A refeição completa dos desgraçados sem conduto, adquirido com o dinheiro último que reste no bolso!
Ontem, na minha terra natal (algo suburbana mas ainda aldeã), já me deixara estarrecido a senhora do atendimento. Queixou-se de que vendia menos pão. A viatura da distribuição saía menos e ao balcão acudiam poucos fregueses a comprar menos, quando antes deitavam ao lixo pão de sobra. E a senhora contou: vendo o gesto, ia tirar o pão velho dos contentores e dava-o às suas galinhas, mas agora não há mais sobras…
Pois sim, o pão ficou mais caro recentemente e a carestia tornou-se geral no meio da crise declarada. Mas o pão, senhores?! O pãozinho que só as bocas famélicas sabem de sabor tão doce e aromático?!
É preciso ânimo para reconhecer: onde escasseia o pão, há fome.
Fome!
Os panificadores em congresso, querendo salvar o negócio, pediram medidas de apoio ao Governo. Têm voz. Mas estão a fechar as padarias, a multiplicar-se os desempregados, e aí temos em crescendo os sem-abrigo, a multidão a engrossar às portas humanitárias das sopas quentes. E estes muitos não têm voz, o Governo sabe-o: ocupados como andam a procurar nos restos a sobrevivência, nem ouvem já quem fala no alto.
Todavia, é neste ponto que se ilumina e decide a relação que cada governante e cada cidadão concreto estabelece de facto com cada outro ser humano. Como se, por exemplo, uma pessoa é ou não capaz de mastigar a sua comida com indiferença vendo ao lado alguém a rilhar fome. Acresce que a pessoa abastecida com comida até pode sentir-se em grande unção religiosa.
Na verdade, há quem, rodeado por muralhas de egoísmo, não se importe com o Outro. E pode erguer as mãos, bater no peito e dar esmola se possível para obras pias. Mas, e os governantes, senhores?! Os governantes têm por obrigação funcional prover de segurança a comunidade constituída por todos.
Ora, nesta comunidade, estão a alastrar à vista negras manchas de fome. A segurança alimentar antecipa todas as outras: da saúde, da habitação, etc. Que resposta dão os governantes à fome que se expande?
Para quem queira ver, a resposta é clara. As desigualdades são cada vez mais gritantes e mesmo terríveis. Os problemas sociais agravam-se dramaticamente. Uma parte da sociedade parece em condições de vir a perecer, condenada do alto.
Civilização, isto? Coesão nacional, isto? A pessoa com fibra humana, o simples cidadão, destaca-se nesta situação do conjunto de quantos vão na onda amontoando riqueza ou consumindo freneticamente sem olhar para o lado.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Estudar economia?

A crise financeira desatou no mundo uma convulsão cataclísmica. Se estamos atentos, bastam-nos as luzes permitidas por uma simples cultura geral para sentirmos no escuro a desabar a hecatombe. E também para percebermos como governantes e outros profissionais da política preferem desfocar as evidências a elaborar as devidas respostas.
Fica demonstrada, de uma vez por todas, a irracionalidade do sistema capitalista. O sistema não pode autocontrolar-se, simplesmente porque não é capaz, pelo que precisa indispensavelmente de intervenções reguladoras dos Estados numa vigilância aturada e constante. De facto, o sistema detesta a regulação estatal, fazendo sua a reivindicação de «menos Estado», quando, afinal, é bem preciso o contrário, «mais (e forte) Estado».
Demonstrada fica, igualmente, a evolução recente que trouxe o sistema até à actualidade. A crise financeira deixa à vista não apenas os jogos especulativos do capitalismo global, ávido predador à solta; deixa ver também a rapidez com que os diversos governos injectam milhares de milhões para salvar da falência bancos, sociedades de investimentos, seguradoras. Esses governos garantem desse modo que as mesmas oligarquias predadoras continuarão de saúde (assim revigorada) e com forças para mais.
Proteger e premiar criminosos será chocante? Sim, será chocante para os povos que combatem e morrem nas guerras que alguns outros desencadeiam, povos habituados a sofrer as penúrias da vida, sobrevivendo à desvalorização dos salários, à subida geral dos preços, à penúria, ao desemprego… Mas, veja-se: quem viaja com os governos em visitas oficiais não são os pequenos e médios empresários, não é o povo miúdo (a lembrar a frase célebre: o que interessa à General Motors interessa aos Estados Unidos).
Na verdade, colossais recursos financeiros têm sido desviados para a especulação, actividade realmente nada produtiva. Pode gerar lucros substanciais em proveito de privados e nada, ou quase nada, de valor económico socialmente útil. Foi por este processo, tanto quanto sei, que se ergueu a bolha imobiliária nos Estados Unidos.
Correndo para lucros fáceis, os financeiros enfraquecem as economias nacionais, quando antes investiam nas empresas de produção real. Por este caminho, as empresas não atendem ao papel social que lhes cumpre. Tem havido casos de extrema voracidade em que empresas recém-adquiridas se viraram contra os seus trabalhadores.
Esta transformação do capitalismo de vanguarda, aliada um tanto às off-shores e às deslocalizações, parece ter dado ao sistema uma nova fisionomia. Ainda é cedo para tal avaliação, que provirá naturalmente dos especialistas. Mas até um leigo atento, com a sua cultura geral, pode sentir quanta confiança merece hoje a apregoada «ciência» económico-financeira. Todavia, a irracionalidade do capitalismo existe tanto para especialistas como para leigos. Talvez isto mesmo tenha levado José Silva Lopes, ao sair do Montepio, a anunciar com fino humor que ia finalmente «estudar economia»… depois de presidir ao Banco de Portugal, etc., e atingir os 75…

terça-feira, 28 de outubro de 2008

A conexão dos aspectos

Na minha cidade vejo multiplicarem-se pelas ruas os prédios com cartazes que anunciam: vende-se, trespassa-se, aluga-se, vende-se ou aluga-se. Passa o tempo, a luz solar esmaece a cor das letras, as chuvas enrugam e escondem algarismos dos números de telefone… Por vezes, a idade já é muita e os prédios substituem portas e janelas apodrecidas por tijolos que emparedam toda a esperança.
Cada uma destas propriedades em venda, trespasse ou aluguer teve dono abonado com o respectivo rendimento. Hoje, os valores venais dessas propriedades estão a faltar aos seus donos, aflitos porque precisam desses valores para equilibrar a vida e não há quem compre, alugue ou negoceie um trespasse. Quem percorre as ruas e calcula por alto, somará sem dúvida muitas centenas de milhões só na minha cidade… e esses muitos milhões, agora em falta angustiosa, desapareceram queimados numa fogueira invisível.
Vale a pena ver as coisas de olhos abertos. Assim se chega à fábula de Pedro Cem que já teve e agora não tem. De facto, os proprietários sem candidatos a negócio mostram nos cartazes expostos o que possuíam e deixaram de poder possuir (por dívidas contraídas, reveses familiares).
As propriedades continuam a existir, é certo. Se o mercado «esfriou», nem por isso deixaram de ter valor. Mas agora fazem-se poucas transacções de imobiliário, pois se os vendedores estão de recursos financeiros exaustos, também os eventuais compradores não têm melhor sorte.
A maravilha é que estas propriedades com cartazes à vista vão sempre arranjar algures um dono, seja ele quem for. Como o dinheiro em circulação, os bens imóveis concentram-se mudando de mãos. Estão esses outros donos a tardar e a tornar o mercado «frio» porque isto se passa no interior das classes médias (tão descapitalizadas quanto se sabe), enquanto, ao lado, nos estratos médio-alto da população, se negoceiam como pão quente casas novas de luxo e alto preço.
A paisagem da crise vai-se tornando mais triste e deprimente. Multiplicam-se os automóveis com letreiros de «Facilita-se» [o pagamento] apelando à venda. Fecham lojas, restaurantes, cafés: escasseia-lhes a clientela. Vou contando as desistências pelas minhas ruas (lembram-me, não sei como, dentes caídos em boca repentinamente envelhecida).
Há semanas correu os taipais uma loja de artigos usados. Fechou à míngua derradeira. Não apareciam mais clientes para compra-venda depois do espaço dos armazéns se reduzir a metade e parar o negócio dos ouros velhos e pratas após um assalto que levou tudo. Fechou mesmo o quiosque dos jornais meu vizinho, o dono já não tinha receita para cobrir as despesas.
Quem ergue o olhar do seu canto para o país, ouve notícias não menos deprimentes: só uns 60% dos desempregados recebem subsídio; os novos pobres (necessitados de assistência) são gente com emprego; há pessoas, homens e mulheres, que trabalham, não têm abrigo… Alegre-se, porém, o pagode: já andam a decorar as ruas com galas de Natal!