Mulheres, sobretudo jovens, multiplicam-se nos empregos. A percentagem das portuguesas empregadas é por isso das mais altas no quadro europeu. Conhecemos o facto há longos anos e pouco ou nada parece notar-se. Todavia, traduzindo embora uma evolução positiva (liberta as mulheres da sujeição económica a pais ou maridos), o facto introduziu graves consequências e logo esta: contribuiu também, como efeito perverso, para forçar no país um abaixamento geral dos salários.Ocorre-me de novo esta ideia em contacto com a directora de uma instituição privada de solidariedade social para idosos. É jovem, licenciada em Serviço Social, em início de carreira. Terá entre 25-30 anos e, muito provavelmente, ainda espera companheiro.
A licenciatura, como qualquer curso tecnocrático, serviu-lhe para iniciar a vida activa. Repete quatro ou cinco vezes a mesma frase, convicta e firme no seu posto como se já tivesse atravessado todas as dúvidas e atingido conclusões definitivas. A formação em Serviço Social, e porventura em geriatria, embrulha em nicles uma obra fundamental de Michel Foucault como «Vigiar e Punir», que lhe cito, e põe-me em dúvidas: estará ela habilitada a compreender um idoso?
Realmente, a menina teima comigo. Pensa que um idoso perde a razão apenas porque, atenção, acumulou anos vividos - fica imputável e sem ter consciência disso! Não um ou outro idoso atingido qualquer degenerescência, sim em regra!
A circunstância impediu a controvérsia que se requeria, mas custou-me. Gostaria que a menina me dissesse em que idade certa, na sua opinião, um idoso perde a lucidez das suas faculdades mentais. E neste caso, se um idoso não é capaz de sentir essa perda quando nele se inicia, como poderia ela garantir a si própria, apesar de jovem, que não tem agora a mente perturbada?!
Eis como a menina avaliava o idoso que tinha pela frente - menina directora de uma IPSS privada. E eis como progride no terreno a mentalidade tecnocrática, isto é, desumanizada, que manda para a reforma pessoas com cinquenta anos de idade e pede que trabalhem até aos setenta as que estão no activo…
Passou o tempo em que os velhos foram ouvidos e respeitados. A supremacia do «novo», do «jovem», decalca o modelo económico do consumismo que é o non plus ultra da mentalidade tecnocrática que tudo mercantiliza. Um hóspede idoso de IPSS transforma-se à entrada em «cliente», conforme esta menina directora insiste em o designar, ignorando decerto que a semântica do termo alude a freguês e a lucro, quando uma IPSS não pode ter finalidade lucrativa legítima.
Saio da reunião entristecido. Aquela menina tão firme porque atingiu conclusões definitivas, que decerto não leu Foucault e vai lançada na carreira, está privada dos termos de comparação que eu, por via da idade, tenho e utilizo. Cresceu neste ambiente modelado pelo capitalismo selvagem, vulgo neoliberalismo, que tudo coisifica e, ingenuamente, supõe que o mundo foi sempre assim inóspito, onde uma pessoa nasce para consumir e dar lucro a quem manda.



