Ressoou pelos quatro cantos a frase famosa: «É a economia, estúpido!» Martelada que foi, entrou nos ouvidos e ficou nas memórias a significar que a coisa mencionada seria tão óbvia e tão indiscutível quanto o pôr-do-sol ou a marcha imparável do tempo. Assim se impôs uma economia a valer por si mesma qual soma aritmética, ou seja, sem outra relação lógica que não fosse consigo mesma.
Mas não será isto «economês» balofo e corriqueiro? Será possível, na verdade, que esta economia nada tenha a ver com as consequências que provoca nos planos social e moral? Pode a economia, colocada no próprio lugar do seu funcionamento, ser amoral… ou imoral?
Um artigo de José Castro Caldas, intitulado «A impossibilidade de uma economia amoral» («Le Monde Diplomatique», edição portuguesa, Dez. 2008, p. 2), lança a questão numa surpreendente abordagem que as mentes adormecidas deveriam ler para espevitar. Com efeito, aquele investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra demonstra algo que está à vista e, todavia, continua invisível.
Cito dois trechos: «a crise do capitalismo que estamos a viver é uma crise moral. A crise de uma economia que se pensou a si mesma como nem moral nem imoral, mas antes amoral e que foi sendo politicamente construída à luz desse pressuposto.» «Esta sociedade, ou melhor, este projecto de sociedade, é o que se encontra em crise. Essa crise é, antes de tudo o mais, moral: principia no não-reconhecimento das obrigações e da gratidão mútua.»
José Castro Caldas lembra duas obras de Adam Smith, a Riqueza das Nações, clássica, e a muito menos lida Teoria dos Sentimentos Morais, para as comentar no ponto em foco, uma sociedade de mercadores «que empolgou muitos dos que agora clamam pela ‘moralidade’ e pelo ‘castigo dos culpados’.» Sublinha: «Os contratos são o cimento da sociedade puramente mercantil» para considerar: «Não fosse o sentido de obrigação mútua (de natureza moral) que apesar de tudo existe, os contratos nem sequer seriam concebíveis.»
Chegou-se por aí ao enfraquecimento das obrigações e gratidões mútuas, isto é, a uma sociedade de risco. «O mundo dos negócios é o domínio onde a aversão aos compromissos, ou se preferirmos a preferência pela liquidez, se manifesta de forma mais pura.» O autor liga a J. M. Keynes esta preferência pela liquidez, o designado «dinheiro vivo», que se exprime nos mercados das acções, em instabilidade sistémica e agora descamba na crise financeira e em crise de confiança. O artigo conclui: «A sociedade e a economia caracterizadas pela liquidez estão tolhidas na sua capacidade de realizar projectos em conjunto, de enfrentar colectivamente problemas. Estão bloqueadas, presas numa armadilha. Em crise… moral.»
Devo pedir desculpa a José Castro Caldas pelo temerário arrojo de tentar resumir o seu texto numas poucas linhas, mas pretendi trazê-lo aos outros vossos olhares e penso que me irão agradecer. Derrama uma luz nova, reveladora de quanta manipulação afecta as inteligências, condicionando-as.
Contei-as agora. Somei cento e trinta as crónicas editadas neste blogue iniciado em Janeiro. É altura de balanço no mês terminal do ano.
Naturalmente, cada uma das crónicas é um texto que o leitor recebe como peça autónoma, assim como um «todo». O cronista escreveu-as ao longo do ano, página a página, ora evocando as suas memórias pessoais, ora recordando peripécias e figuras com que lidou. Mas também comentou acontecimentos da actualidade e reflectiu, debateu ideias ou questionou mentalidades.
Com efeito, no meu percurso existencial, assisti ao deflagrar da Segunda Grande Guerra e ao advento da penicilina, dos motores a jacto, dos plásticos, da televisão. Acompanhei a propagação da rádio, do cinema, dos automóveis, o avanço da físico-química, da astronomia, e aguentei sob o regime de Salazar. Os anos já longos que levo de vida, todavia, não me poupam ao que sinto quando vejo recordado como História factos que para mim são «do meu tempo».
Apesar de todas as suas maravilhas, não se me afiguram ditosos os meus anos de vida. Por isso exarei a exclamação «Que tempo!» à entrada do blogue, no Limiar. Sempre trabalhei e estudei conforme pude e soube, mas isso atendeu a uma função tão vital e primária como a de respirar. As maravilhas do «meu tempo» histórico perdem-se, a meus olhos, em sombras e negrumes que certos discursos apontam como a falência geral do progresso moral perante o progresso técnico.
Esta perda, pela obnubilação, tem vindo a aumentar dramaticamente. Sinto com pungente nitidez que não estava preparado para viver num ambiente social deste género. Por supor que mereceria melhor sorte na fase última da existência? Ignoro.
Eis o que tenho vindo a querer exprimir no conjunto destas crónicas. Gostaria que, depois de terem sido lidas uma a uma, possam agora, a outro nível, serem percebidas como uma espécie de mosaico. É mosaico mental composto pela agregação das peças com formas e tonalidades diversas, mas de tamanho quase regular como numa calçada à portuguesa. Que a visão lúcida do leitor ilumine o conjunto!
Eu julgo que em cada pessoa pode conter-se um universo e que cada pessoa, ao exprimir-se, poderá exprimi-lo o mais possível, trazendo-o para a luz. O «meu tempo», vivido no meu lugar, tem sido marcado por vivências talvez sem adequado registo. Ora o cronista tem por função o papel de testemunha e de espectactor. Aqui deixa o juízo do seu tempo no tempo do juízo, narrando: E foi assim…
Pintura de Gil Maia
As monstruosidades impressionam, causam horror e pânico. Mas existem monstruosidades de vário tipo. Se forem de tipo vulgar, isto é, se se repetem, tornam-se um tanto habituais: como que perdem a malignidade e transformam-se em meros aleijões familiares.
Assim aconteceu outrora com a escravatura, a segregação racial, a pirataria, o canibalismo, a tirania do forte sobre o mais fraco, os atentados contra a criança e a mulher, a desumanidade em todas as suas formas. Entramos neste esplendoroso século XXI cheio de civilização, riquezas e tecnologias, a proclamar orgulhosos «direitos humanos», e que acontece? Somos informados que há gente a trabalhar escravizada, a segregação étnica continua, há piratas a assaltar navios e a fazer reféns, canibais matam e comem em orgias de superstição, crianças e mulheres são caça apetecida inclusive para exploração sexual, a força maior ainda aplica as mais brutais formas de exploração do homem lobo do homem!
Somos informados e no entanto quantos de nós sabem ou querem saber? Quem advertiu, por exemplo, a emenda das frases que no «Pai nosso» cristão aludiam a dívidas e devedores, motivo antigo de escravização? As monstruosidades estendem-se pelo mundo nas agonias do nosso tempo, banalizam-se pela multiplicação, mas nunca deixam de ser monstruosas, de causar pânico e horror.
A crise mais dramática no nosso tempo concentra-se precisamente no ponto em que verdadeiras monstruosidades se tornam vulgares, não por serem leves ou pequenas, mas porque são apenas… vulgares («normais», frequentes). Parece que as multidões se vergam a tolerar o intolerável, resignando-se a uma qualquer fatalidade imaginária que inalam, como um veneno, neste ambiente. É, porém, à relação do homem com os outros homens que devemos regressar para reencontrarmos o diapasão, a pedra de toque de tudo o que é determinante no tecido limpo das relações sociais.
A atitude como cada pessoa encara e trata uma outra e toda a gente reflecte o estofo da sua própria humanidade e, por aí, a sua ideologia, o pulsar da sua opção cívica e política. Não é possível estar de barriga cheia e contente ao lado de quem, perto ou longe, sucumbe de fome. Ninguém pode, sem grave contradição, ser de esquerda e apoiar hoje uma (des)governação de direita que dizima as classes médias.
Monstruosidades vulgares giram hoje no carrossel que põe a desfilar os basbaques de gesso defensores da democracia política, esquecendo, porém, que tal democracia, esvaída dos seus conteúdos económico e cultural socialmente humanizados, vale pouco menos que nada assim reduzida a figura de retórica. Um problema, no entanto, subsiste: alguém poderá viver bem e sentir-se em segurança neste mundo escalavrado que acumula tensões e contradições explosivas? Ainda que se distancie das multidões, metido dentro de espessas muralhas?
Um bom e velho amigo em visita, há poucos dias, deixou-me envolvido nestas reflexões. Alinha na «esquerda», aplaude a terceira via, mas declarou-me «de esquerda» aos seus acompanhantes. Nenhum de nós, porém, vai rodear-se de muralhas…
É facto indesmentível, percorre o mundo um vento soprado pela boca da insânia. Os atentados ocorridos há dias na cidade indiana de Bombaim parece que levaram até mais longe as previsões do pior que está por vir no processo desta desregulação global permanente. A violência assume sem vacilar as formas da brutalidade de uns quantos que entram em desespero no estertor de qualquer esperança.
A brutalidade daqueles ataques foi pasto de televisões, jornais e rádios durante dias. Encheram-se de ecos os continentes com cenas da destruição, contagens de mortos e de feridos. Duas palavras foram marteladas no ar: muçulmanos, terroristas.
Mas outra palavra, a terceira, sobressaiu inevitavelmente: aquela violência atingiu inocentes. E poderiam acaso não ser inocentes os atingidos, fossem turistas ou indianos? E, todavia, quem leu Jean-Paul Sartre do tempo da guerra na Argélia, colónia francesa em luta pela independência, pôde compreender que ninguém, e não apenas em França, era «inocente».
Os Franceses beneficiavam da exploração da colónia, bebiam do seu vinho e etc., teriam dificuldade em provar que o nível de rendimento nacional não lhe devia nada. Logo, como poderiam sentir-se «inocentes»? Alguém, ontem ou hoje, num mundo assim, terá a ilusão de estar verdadeiramente «de fora»?
O meu computador tem componentes feitos na Ásia e no Extremo Oriente, ao almoço comi laranjas do Chile e nas lojas vejo sapatos, vestuários, etc. vindos das cinco partidas, entro em casas com soalho de madeira africana… E o ouro negro, o petróleo da energia que povos ricos extraem com tanta violência, vem de onde? Eu, como toda a gente, sou culpado e tenho consciência disso.
Culpado serei, porém, bem menos do que a equipa governante, com George W. Bush à frente, que ordenou a invasão de um país indefeso, o Iraque, onde talvez um milhão de pessoas já tenham sido mortas, entre crianças, mulheres e velhos, e vários milhões de habitantes enxotados para o exílio. Um crime de guerra a somar a outros, praticados na Palestina invadida e ocupada à força de armas e sangue, no Afeganistão, no Kosovo, no Darfur, no Zaire (Congo)… Crimes colossais sem responsáveis, sem julgamentos, para esquecer.
Nos ecrãs das televisões do mundo dito «civilizado» e nos nossos olhos ficam apenas as imagens da violência exercida por muçulmanos de esperança completamente perdida, os designados «terroristas». Armaram-se e lutaram às cegas com o sacrifício supremo da própria vida e ficam como bárbaros fanáticos para quantos, amolecidos de carácter, seriam incapazes de bem menor sacrifício. E quem lembra onde estão a morar os piores terroristas, as maiores ameaças da paz e da segurança?
A cobertura mediática de tais acontecimentos limpa cuidadosamente as nossas consciências. Tenta abafar-nos e mesmo anestesiar-nos os cérebros sob a torrente diária do que devemos conhecer e como devemos entender. Quer atordoar-nos com discursos de direitos humanos, liberdade e democracia, para deixar a rir de todos os direitos universais e à solta quem não sabe o que isso é. Até quando?!
Perde vigor a ética nos negócios, aumenta a desconfiança e mesmo o descalabro nas relações sociais. É uma triste verdade, o ambiente de crise desenvolve-se na cama nefasta destas circunstâncias. Importa, porém, notar a particular influência que exercem no descalabro geral as acções e declarações de políticos - os tais que declaram o preto branco e o quadrado redondo conforme lhes convém.
Diversas empresas transformam-se aqui e ali em armas apontadas ao peito dos que com elas lidam, trabalhadores e fornecedores. Os donos e uns quantos administrativos fiéis tornaram-se nómadas predadores, saltam e armam a tenda onde há colheita a fazer, atrás deixando terra queimada, salários em atraso, impostos por pagar, créditos bancários malparados. Acudiram antes a diversos subsídios e apoios públicos, digeriram-nos à pressa enquanto reproduziam a cassete contra o Estado previdência (pois o querem em exclusivo), e abalam em triunfo.
Confiar, hoje, é arriscado e problemático. A palavra honrada, a seriedade das intenções, a rectidão do carácter tornaram-se não a regra, mas a excepção. E foi assim que se implantou o paradigma de uma desregulação no interior das famílias e das sociedades, à semelhança da desregulação global que alterou as relações internacionais.
A metáfora que melhor exprime o descalabro ético do nosso tempo estará talvez no automóveis que vemos parados em fila dupla, com os quatro piscas ligados, a estrangular o trânsito. Quem os conduz age como se os piscas os habilitem a largar o carro onde calha. Colocam-se desse modo na vanguarda marcante, não na exemplar.
Ainda assim, surgem comportamentos tão abusivos e descarados, ou tão impudicos e desonestos, que aos visados, sejam meros clientes, apanhados de surpresa, só resta estarrecer. Comportamentos não de indivíduos, sim de empresas poderosas que têm no topo figuras milionárias. Empresas que andam apontadas por atafulharem os tribunais com processos de cobrança coerciva por dívidas no sector das telecomunicações.
Cito dois casos. O primeiro remonta à data em que cancelei o serviço telefónico da rede fixa. A derradeira factura da PT registou um saldo a meu favor de uns milhares de escudos, levei o documento a uma loja da empresa para o reembolso e foi-me dito que não havia quem me pagasse (as máquinas são mais correctas nas contas do que as pessoas)!
Todavia, a PT reivindicou um pagamento por uma alegada «portabilidade» do meu número de telefone – que afinal não era meu! Esperava-me pior. Aderi à Home da Optimus, o aparelho ou a rede tinha graves deficiências e, sem assistência pós venda, após meses a aturar os chicos espertos da loja Home e de contactos com a sede da empresa, desisti formalmente com saldo a meu favor: uns 48 euros. Três anos depois recebo carta de advogado com ameaça de tribunal - o meu saldo transformara-se em dívida! Fui lá provar os factos, ouvi boas promessas e desculpas, tornei a receber carta para reembolso do IVA pela empresa e… mais nada. Mas a empresa obrigou-me a pagar segunda «portabilidade»! Poderei dizer agora que o número é meu?!
Pertenço ao tempo em que uma empresa, onde surgia, era tida em geral consideração. Produzia, gerava riqueza, expandia os empregos. Digo que pertenço a tal tempo mas deveria dizer também que nessa pertença me honro.
Declaro-me fora do tempo presente, pois «no meu tempo» um empresário dava a cara à empresa de maneira que reciprocamente se prestigiavam. Foi o tempo do «progresso»! Hoje as empresas acima dos tamanhos pequeno ou médio não têm a cara dos donos à vista e, quanto à dimensão social que realmente a empresa assume ao surgir, estamos conversados. E dado que bastante produção industrial deixou de verter ganhos rápidos e chorudos, os antigos patrões (termo este derivado de «padrão», exemplo) agruparam-se, enriquecidos, em sociedades financeiras de investimentos e especializaram-se, já não em produzir, mas em especular.
A especulação pode não produzir nada de concreto e, todavia, gerar lucros vultosos que, com um pouco de habilidade, até ficam – louvado seja deus! - isentos de impostos. Isto é sabido, estamos a rever a matéria. Mas percorreu-me a espinha um calafrio ao ler no papel, uma e outra vez, o trecho: «Verifica-se, com matéria de facto, que o sistema bancário privado é estruturalmente predador e desonesto – não serve aos interesses das sociedades em que estão implantados, serve-se delas.»
Quem conheceu o «outro» tempo, em que os banqueiros até resistiam a pôr anúncios nos jornais, vê publicidade enganosa, espanta-se e não acredita. Um depositante, tratado naquele tempo como um esmoler pelo mendigo, lê hoje que o que os bancos querem é apanhar-lhe o dinheiro, espanta-se e não acredita. Paga os cheques, o cartão e as comissões, receia o custo das idas ao MB, ouve anunciar que os pensionistas mais pobres têm de pagar «manutenção de conta», espanta-se e não acredita.
O sistema financeiro de vanguarda desertou do terreno da economia real, que é por definição o da empresa clássica, para se concentrar no investimento puramente especulativo. Produzir bens reais úteis interessa cada vez menos, jogar na bolsa ou investir especulativamente (comprando algures empresas em risco, mandando administrá-las a chicote e depois abandonando-as exauridas) interessa cada vez mais. A dita «economia de casino» habita em offshores e vai estendendo os tentáculos.
Apontar, tão ao gosto de certos patrões, os níveis baixos da produtividade nacional (que aparece num quarto lugar, entre os piores), não ilude o facto de que os trabalhadores fazem o que lhes mandam. Sublinha, portanto, a escassa competência com que as empresas são administradas e não outra coisa. Mas se é verdade o que consta por aí, que já temos em Portugal uns quinze mil milionários, juntemos e interpretemos os sinais da realidade…
Talvez isso tenha a ver, por algum lado, com os níveis da desigualdade de rendimentos em Portugal, quase a rivalizar com os americanos. Pensemos então no que regista o «Finantial Times» (19-05-2008), citando um relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento publicado em 2005: cinquenta das maiores fortunas do mundo ganhavam mais do que os 416 milhões de pessoas mais pobres.