domingo, 18 de janeiro de 2009

Estamos a ser entregues!

Os múltiplos braços do Grande Irmão envolvem-nos por todos os lados e já formam a rede tentacular onde tantos vão caindo trespassados por uma estranha sonolência. A rede parece macia, talvez mesmo tentadora, no ambiente artificioso da feira de banha de cobra com tubas de propaganda delirante servida como informação digna.
Vigiados como filhotes que precisam de ser protegidos de milhentos perigos dentro e fora de casa, temos câmaras vídeo semeadas por todos os cantos a seguir os nossos passos, a filmar com quem falamos e o que consumimos, talvez, não tarda, o que pensamos. Temos o cartão único de cidadão, onde cabe o documento de identificação, de eleitor, de contribuinte, de utente do SNS, mais assinatura digital e uns quantos registos eventuais que outros lerão por nós. Teremos ainda, em breve, o DEM, aquele dispositivo electrónico que uma certa lei nos obriga a pagar e a instalar nos veículos, para que se saiba a cada momento por onde andamos.
Estamos entregues ao Grande Irmão quando confiamos nas máquinas e mais máquinas que o servem, por exemplo quando carregamos uma conta de telemóvel cujo consumo não nos é dado controlar. Ou quando desistimos de perceber que juros cobra de facto o nosso banco pela dívida. Ou de confirmar se os preços afixados nos produtos se mantém quando os paga e se a quantia somada das compras no supermercado está certa. Ou se a quantidade de gasolina que da bomba entrou no depósito do carro é realmente a que pagamos.
Quem conta já as notas recebidas do Multibanco? Quem duvida do saldo que tem na conta de depósitos à ordem, das contagens dos contadores de luz e água? Quantos contribuintes se dão ao tormento de averiguar a exactidão do cálculo feito à sua declaração de IRS?
Confiar nas máquinas convida ao comodismo e à passividade. Passamos os dias a carregar em teclas e botões e ficamos exaustos. É bom, então, confiar nas máquinas, tão úteis, quando já desistimos de uma boa porção de nós próprios. Alegar imenso stress permite aos adultos, como crianças grandes, quererem a vinda diária do Pai Natal para os brindar com lindos brinquedos. Mas isso é também confiar no Grande Irmão.
Nem todos se entregam, nem todos confiam na rede que se estende, aberta em acenos e convites. São, quero crer, minoria. Cidadãos de corpo inteiro num país devastado, cidadãos livres e sem compromissos que não os advindos da própria consciência. Ficam arredados, à margem, de vozes sumidas no barulho, sentindo o amargor da própria lucidez no ponto onde exorbita a solidão.
Maioria óbvia são o ques se entregam. Arrebanhados como obediente carneirada e conduzidos por pastores que nem o rebanho querem ver olhando quem os segue. É isto o que os políticos e até administradores de grandes empresas almejam para reinar plenamente nas suas sete quintas. Têm vindo a trabalhar sagazmente para isso e as criancinhas grandes, por fim, chegam ao que lhes faltava: depois de Salazar, eis um novo Pai!
[Ilustração: pintura de Imán Maleki – n. 1976, Teerão, Irão]

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Ensino sem educação

Uma certa democratização do ensino tornou a escolaridade num vulgar bem de consumo. O brilho social que antes a revestia perdeu-se com a massificação. Já poucas distinções restam entre o licenciado, o mestre ou o doutorado que não advenham da individualidade concreta de cada académico e, quanto a graus escolares anteriores, estamos conversados.
A derrocada começou, digamos, há uns trinta anos. Resultado: um diploma do ensino superior deixou de garantir bom emprego e o candidato a qualquer colocação no supermercado até pode ter de o sonegar para se ver admitido. Gente idosa, comparando, sentencia que, no seu tempo, em poucos anos de escola se aprendia bem mais do que, na actualidade, com um curso superior completo, pelo menos a julgar pelas aparências.
Assim se declarou uma crise que não se resolve e mais, e mais, se agrava. Diversas análises situam o nó da questão nas políticas que promoveram a escola lúdica ou mesmo alegre, em vez de local de aplicação e trabalho disciplinado:  pouca memória, tudo fácil. Entretanto, avançou um desinvestimento gradual dos governos nas escolas públicas enquanto os ambientes familiares acentuavam a desestruturação.
Diversas juventudes europeias, deprimidas e sem horizontes, duvidam do que pode valer hoje um diploma. Na verdade, não se sentem preparadas, pelas escolas e pelas famílias, para a vida. E já se torna difícil destrinçar o que é instrução, ensino e educação - termos com sinonímia relacionada embora distinta – porque o ensino ficou sem educação.
É incrível, e mesmo alucinante, a instabilidade introduzida nos sistemas pela quantidade de mudanças e reformas sucessivas. Pedagogias credíveis deram lugar a ligeiros experimentalismos alegadamente para aligeirar os conteúdos dos programas. A autoridade em aulas e o prestígio dos docentes sofreram rudes golpes, e também os seus salários. Tudo nivelado por baixo, factor de geral desmotivação.
A educação, avoengo processo apontado para o desenvolvimento harmónico da pessoa nos seus aspectos intelectual, moral e físico e a sua inserção na sociedade, confunde-se com instrução e ensino nos mesmos sistemas para iludir o que mais importa dentro desses sistemas. Decerto não há, nunca houve por aqui ou por ali geração rasca, mas o labéu ficou. Marca com ferrete uma geração perdida.
Porém, há notícia de estudo que detectou em certa amostra uma diminuição do coeficente intelectual médio. Se o diagnóstico é cientificamente credível, temo que venha em breve a ser corroborado por outros estudos. O nosso tempo afunda-se, aparentemente por uma espécie de osmose, na obnubilação das inteligências. Há poucos dias, anunciou-se em Portugal esta novidade: o nosso povo comporta-se como que atordoado…
Estaremos a estupidificar? A interrogação não é tola. Já se conhecem, por exemplo, alguns dos efeitos nefastos provocados nos cérebros pelas substâncias contidas nos populares plásticos, substâncias essas que acabam dissolvidas nas águas dos rios que as cidades bebem…

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Como temos de pensar

Estamos a viver num admirável mundo novo! Uma legião de funcionários operosos e serviçais arregaçam as mangas e trabalham para nós vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana. São como Shiva, antiga divindade indiana com inúmeros braços que, por tão maléfica e temível, inicialmente, o povo desesperado e sem esperança acabou por conceber de expressão apaziguadora.
Não precisamos mais de espremer a cachimónia, de coligir informação, de arriscar raciocínios e opiniões por conta própria. Abunda quem nos queira servir. Sentam-nos na passividade, ó gentes!
O que temos de pensar circula abundantemente, já pronto e abençoado como verdade verdadeira. O conforto que assim alcançamos é estupendo: basta-nos repetir a verdade verdadeira. Precisamos apenas de deixar-nos ir na onda, acreditando na fórmula digest que nos oferece em simplex cada questão num prático kit teórico com todos os pertences e pronto a usar.
Indicam-nos como temos de pensar canais de televisão, rádios, jornais e a multidão dos seus comentadores, opinadores, analistas, políticos mais votados, todos de palavra fácil e jorrante, que se pronunciam momento a momento sobre cada questão em termos claros, rotundos, definitivos. Orientam as nossas ideias, mal encaminhadas ou em risco de desvio. Clarificam-nos as frases que dizemos ou podemos dizer, protegendo-nos do erro.
Os próprios jornalistas, que seriam os primeiros interessados em defender o poder da informação - isto é, o debate plural - estão a reconhecer este admirável mundo novo e as suas maravilhosas comodidades. (Algumas excepções ranhosas que restem são para esquecer ou corrigir.)
Se os jornalistas falam da dureza crua do ataque israelita a Gaza, têm que referir também os rockets que de lá disparam contra «território israelita» e ponto final; o Hamas é fundamentalista, nunca por nunca Israel, que de resto o Hamas «não quer reconhecer». Se, por exemplo, têm de aludir a Hugo Chávez, devem considerá-lo esquerdista, populista e ditador, sabendo embora que foi eleito democraticamente por maioria significativa. Se têm de lembrar, com pinças, a existência da base militar norte-americana de Guantánamo esquecem o mais possível a existência, nela, da prisão com centenas de prisioneiros raptados, expatriados e ali torturados sem assistência jurídica nem culpa formada. Nações encaradas de revés pela Casa Branca, como a China Popular, a Coreia do Norte, o Irão ou Cuba, devem ser apresentadas nessa linha algo torcida… tal como a Federação Russa, organizada a seguir à queda do regime soviético, merece pouca confiança e nenhuma simpatia (senão expresso repúdio por qualquer resquício de comunismo, aberração neste glorioso tempo pós-moderno).
É notável a arrumação do mundo que desta forma se consegue. Tudo fica esclarecido, explicado, compreensível. Graças à verdade verdadeira prodigamente espalhada, podemos enfim adormecer. O Grande Irmão, vigiando-nos por todos os lados, vela por nós!

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Doem-me os pés em Gaza

Doem-me os pés que tenho em Gaza. O poder que junta em fila ameaçadora os tanques de canhões apontados diz que teve o cuidado inexcedível de fazer noventa mil telefonemas a avisar de mais este ataque. Porém, os pés continuam no sítio, pois para onde ir se temos de um lado o mar e do outro quem nos bombardeia?!
Afinal, estamos há muito tempo sitiados, permanecer e resistir até à morte é o que fazemos há sessenta anos - aqui em Gaza, sitiados, já não sabemos nem podemos fazer outra coisa. Mas doem-me cada vez mais os pés, há crianças e mulheres de corpos despedaçados pelos mísseis disparados pelos caças que nos sobrevoam e destroem, além de vidas inocentes, hospitais, escolas, templos, armazéns, habitações. Espalham por aqui não apenas devastação e sofrimento, sim também ódio.
Devo estar a pensar com os pés porque imagino que quem comanda o caça e dispara visando os alvos em terra, sendo agora militar a obedecer a ordens superiores, é o civil que sempre foi e há-de continuar a ser, talvez pacífico e simpático, agora porém a atentar contra gente que decerto nunca viu, gente pobre e desarmada, que formiga no chão sobrepovoado quase sem comida, sem remédios, só guerra (para «responder» a uns mísseis artesanais que fazem, suponho, mais estrondo que estragos).
Os rapazes que recebem à pedrada as forças de ordem imposta na rua recebem em troca granadas de gás lacrimogéneo e balas que ferem ou matam. Tapam cuidadosamente os rostos mas, se forem identificados, terão a sorte dos presos (que serão já uns dez mil). Como estranhar se eles, com os pais e avós, vivem naquela terra desde há séculos e dela são varridos pouco a pouco por um poder que dispõe de exércitos, aviões, bombas, tanques, abastecimentos infinitos?
Aquele novo país que nasceu e se vai expandindo mais e mais no corpo de outro país antigo, é ferida a gangrenar-se imparavelmente que espalha pelo mundo a infecção. Quem ali se ergue em luta contra o ocupante, é patriota corajoso e leal: sente na própria carne a tragédia de quantos guardam a chave da sua casa porque não lhes ficou mais nada antes de irem para o exílio na própria pátria ou num país vizinho. Terrorista será quem invade e ocupa, destrói e expulsa ao abrigo de um direito mirífico sem consistência.
Doem-me os pés que tenho em Gaza, a passividade das organizações internacionais perante este outro holocausto, os paninhos quentes das diplomacias cautelosas (pois evitam desagradar ao amigo americano), os fraccionamentos intestinos do povo que o inimigo aproveita. Doem-me até os telefonemas que anunciaram a guerra, golpe de propaganda que só serve a quem está servido. Que mundo é este?
Dilui-se o primado do direito. Pontifica o poder da força.

A propaganda varre dia a dia os noticiários mundiais. Os direitos humanos mais elementares são desfeiteados por quem fica impune. Agudizam-se as contradições e crescem os ódios através da porosidade das fronteiras. O sofrimento mais longo de um povo espezinhado não encontra eco nos corações ditos globalizados. Que mundo este!

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Tudo posto a render

Custa a acreditar no que se nos oferece à vista. O frenesim das compras natalícias tornou a electrizar o ambiente, atafulhou de trânsito em corropio as ruas e as estradas. Esvaziaram-se, nas lojas, as prateleiras das prendinhas; esgotaram-se, dizem, os programas de mini-férias… Onde se terá, então, escondido a crise?!
Já não temos salários baixos, vencimentos em atraso, pensões de miséria?! Ou será isto magia suprema da quadra festiva? Prodígio de galas e luzes multicores em exibição pública entre cânticos e epifanias de cassete?!
Os portugueses, tolhidos por dívidas acumuladas que «um dia» irão ser pagas, desistem pouco dos bons costumes. Tiram os anéis dos dedos, pagam as compras no supermercado com cartão de crédito e acodem ao penhorista, porque a tradição manda e festa é festa. Renegoceiam as dívidas, tantas contas complicadas, ainda bem que há quem ajude, assim lhes livrando a cacholinha daqueles cuidados, podem continuar a consumir, «um dia» alguém terá que pagar…
Afirma quem tem voz que a comunidade nacional vive acima das suas possibilidades, significando que gasta mais do que tem para gastar. Porém, há anos e anos que na comunidade se repete a afirmação e (graças à chico-espertice?) não se vê acontecer nenhum desastre.
Entre os portugueses e o país existe um notável paralelismo, assim como entre a careta e a letra. Pois não se anuncia que os edifícios públicos do património histórico-cultural português vão ser vendidos ou, à falta de melhor, arrendados a privados? Logo, também Portugal tira os anéis dos dedos e acode ao «invejoso» em maré de aperto.
Temos a crise financeira, empresas a fechar, a estagnação económica, o desemprego, tudo a crescer. Tantas contas complicadas para as cacholinhas administrativas, ainda bem que temos cá dentro quem ajude quando lá fora as coisas estão pretas. Manda a tradição, festa é festa!
Os milhares de milhões que a crise financeira custa ao Estado servem, evidentemente, para recompor o poder da alta finança, livrando-a da banca-rota. Mas esses milhares de milhões alguém os terá que pagar – e aposto, não serão os políticos milionários e muito menos os senhores da alta finança. Será o povo chico-esperto.
Sobre os ombros de milhões de portugueses vão recair em breve aqueles milhares de milhões na forma de migalhas (de todo o tamanho) a pagar em impostos novos ou agravados. Os proprietários de imóveis e os consumidores em geral pagarão, com toda a sua chico-espertice, os luxos do TGV e do novo aeroporto, as portagens nas vias sem custos e etc. E se a Autoeuropa desertar e as exportações caírem a pique?
Festa é festa… até quando? Pessoas, empresas e entidades diversas endividaram-se seriamente, em paralelismo com o Estado, que dá o exemplo indo à frente. Quem, na confusão contabilística reinante, sabe realmente das contas da administração nacional? Quem atenta nas variações do nosso PIB e indaga pelo PNB (produto nacional bruto)? País e povo estranho este, perpetuamente adiado! Inviável?!

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Restaure-se o social da economia!

A conclusão a extrair do post anterior é a de que o sistema económico em que estamos a viver contém o sistema moral nele implícito. Não é certo, pois, que toda a economia seja amoral, conforme José Castro Caldas bem demonstra no seu artigo. Logo, não é possível tratar as toxicidades do mundo actual sem tratar do sistema global que as gera, isto é, conseguir limpar as feridas e curar a doença sem eliminar a origem da pandemia.
A conclusão desemboca numa consequência de múltiplos alcances. Este sistema económico é profundamente marcado pela especulação financeira, actividade «económica» privada que gera lucros sem produzir bens socialmente úteis e que gosta tanto de paraísos fiscais ao ponto de os multiplicar onde lhe fazem jeito. Porém, foi por aí que entraram as desregulações todas que desencadearam esta crise – uma crise tão séria e grave que, segundo algumas predições, o capitalismo terá de sofrer grandes reformas ou vai explodir um dia na cama da sua própria insensatez.
Mas seja como for, a globalização financeira, as arremetidas das deslocalizações, a titularização de dívidas, as privatizações de serviços públicos, as portas francas das ofshores, as quebras dos PIB nas economias americana e europeias (de produtores-vendedores de bens de consumo, transformaram-se demasiado em importadoras-compradoras), e etc., derivam das estratégias seguidas pela especulação financeira. Pretende lucros rápidos e gordos, cada empresa e respectiva administração valem na medida em que podem atender ao objectivo.
Assim avançou uma mercantilização geral das relações sociais, o desemprego, o retrocesso do poder real de compra das populações, os endividamentos familiares e o afundamento das classes médias, as falências, as fraudes, a instabilidade. Deste modo, se alguém me diz que a especulação financeira vai continuar por este caminho (como o meu velho amigo A. V. G. fez, a puxar-me pela língua), eu entendo que alguém está a defender, nesta ordem de ideias, a continuação do que antecede, e também um tanto o consumismo e as agressões ao ambiente, a violência doméstica, a prostituição, a emigração forçada ou ilegal, em suma, a defender o rico e forte senhor minoritário contra os fracos - a maioria… democrática.
Na verdade, julgo que não será possível isentar a economia de uma clara dimensão social. Evidentemente, esta dimensão pode ser escamoteada ou obliterada, mas isso resultará numa perversão do sistema conducente a um universo de relações desumanizadas. Será este o sistema caracterizador da fase imperialista do capitalismo (mais acelerada concentração da riqueza, depauperação de populações, risco de uma guerra em larga escala)?
Um sistema económico, qualquer que seja, estabelece no terreno os valores da sua própria moralidade. Portanto, será imoral se o sistema se quiser imoral. Mas que valor tem afinal a sentença aqui ditada? Por outras palavras: poderá um jornalista veterano, arrimado apenas à sua cultura geral, pronunciar-se sobre economia? Talvez sim. O estado da decadência das instituições em crise pede aos cidadãos pronunciamentos corajosos e desassombrados.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

«Economês» confunde economia

Ressoou pelos quatro cantos a frase famosa: «É a economia, estúpido!» Martelada que foi, entrou nos ouvidos e ficou nas memórias a significar que a coisa mencionada seria tão óbvia e tão indiscutível quanto o pôr-do-sol ou a marcha imparável do tempo. Assim se impôs uma economia a valer por si mesma qual soma aritmética, ou seja, sem outra relação lógica que não fosse consigo mesma.
Mas não será isto «economês» balofo e corriqueiro? Será possível, na verdade, que esta economia nada tenha a ver com as consequências que provoca nos planos social e moral? Pode a economia, colocada no próprio lugar do seu funcionamento, ser amoral… ou imoral?
Um artigo de José Castro Caldas, intitulado «A impossibilidade de uma economia amoral» («Le Monde Diplomatique», edição portuguesa, Dez. 2008, p. 2), lança a questão numa surpreendente abordagem que as mentes adormecidas deveriam ler para espevitar. Com efeito, aquele investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra demonstra algo que está à vista e, todavia, continua invisível.
Cito dois trechos: «a crise do capitalismo que estamos a viver é uma crise moral. A crise de uma economia que se pensou a si mesma como nem moral nem imoral, mas antes amoral e que foi sendo politicamente construída à luz desse pressuposto.» «Esta sociedade, ou melhor, este projecto de sociedade, é o que se encontra em crise. Essa crise é, antes de tudo o mais, moral: principia no não-reconhecimento das obrigações e da gratidão mútua.»
José Castro Caldas lembra duas obras de Adam Smith, a Riqueza das Nações, clássica, e a muito menos lida Teoria dos Sentimentos Morais, para as comentar no ponto em foco, uma sociedade de mercadores «que empolgou muitos dos que agora clamam pela ‘moralidade’ e pelo ‘castigo dos culpados’.» Sublinha: «Os contratos são o cimento da sociedade puramente mercantil» para considerar: «Não fosse o sentido de obrigação mútua (de natureza moral) que apesar de tudo existe, os contratos nem sequer seriam concebíveis.»
Chegou-se por aí ao enfraquecimento das obrigações e gratidões mútuas, isto é, a uma sociedade de risco. «O mundo dos negócios é o domínio onde a aversão aos compromissos, ou se preferirmos a preferência pela liquidez, se manifesta de forma mais pura.» O autor liga a J. M. Keynes esta preferência pela liquidez, o designado «dinheiro vivo», que se exprime nos mercados das acções, em instabilidade sistémica e agora descamba na crise financeira e em crise de confiança. O artigo conclui: «A sociedade e a economia caracterizadas pela liquidez estão tolhidas na sua capacidade de realizar projectos em conjunto, de enfrentar colectivamente problemas. Estão bloqueadas, presas numa armadilha. Em crise… moral.»
Devo pedir desculpa a José Castro Caldas pelo temerário arrojo de tentar resumir o seu texto numas poucas linhas, mas pretendi trazê-lo aos outros vossos olhares e penso que me irão agradecer. Derrama uma luz nova, reveladora de quanta manipulação afecta as inteligências, condicionando-as.