Os múltiplos braços do Grande Irmão envolvem-nos por todos os lados e já formam a rede tentacular onde tantos vão caindo trespassados por uma estranha sonolência. A rede parece macia, talvez mesmo tentadora, no ambiente artificioso da feira de banha de cobra com tubas de propaganda delirante servida como informação digna.
Vigiados como filhotes que precisam de ser protegidos de milhentos perigos dentro e fora de casa, temos câmaras vídeo semeadas por todos os cantos a seguir os nossos passos, a filmar com quem falamos e o que consumimos, talvez, não tarda, o que pensamos. Temos o cartão único de cidadão, onde cabe o documento de identificação, de eleitor, de contribuinte, de utente do SNS, mais assinatura digital e uns quantos registos eventuais que outros lerão por nós. Teremos ainda, em breve, o DEM, aquele dispositivo electrónico que uma certa lei nos obriga a pagar e a instalar nos veículos, para que se saiba a cada momento por onde andamos.
Estamos entregues ao Grande Irmão quando confiamos nas máquinas e mais máquinas que o servem, por exemplo quando carregamos uma conta de telemóvel cujo consumo não nos é dado controlar. Ou quando desistimos de perceber que juros cobra de facto o nosso banco pela dívida. Ou de confirmar se os preços afixados nos produtos se mantém quando os paga e se a quantia somada das compras no supermercado está certa. Ou se a quantidade de gasolina que da bomba entrou no depósito do carro é realmente a que pagamos.
Quem conta já as notas recebidas do Multibanco? Quem duvida do saldo que tem na conta de depósitos à ordem, das contagens dos contadores de luz e água? Quantos contribuintes se dão ao tormento de averiguar a exactidão do cálculo feito à sua declaração de IRS?
Confiar nas máquinas convida ao comodismo e à passividade. Passamos os dias a carregar em teclas e botões e ficamos exaustos. É bom, então, confiar nas máquinas, tão úteis, quando já desistimos de uma boa porção de nós próprios. Alegar imenso stress permite aos adultos, como crianças grandes, quererem a vinda diária do Pai Natal para os brindar com lindos brinquedos. Mas isso é também confiar no Grande Irmão.
Nem todos se entregam, nem todos confiam na rede que se estende, aberta em acenos e convites. São, quero crer, minoria. Cidadãos de corpo inteiro num país devastado, cidadãos livres e sem compromissos que não os advindos da própria consciência. Ficam arredados, à margem, de vozes sumidas no barulho, sentindo o amargor da própria lucidez no ponto onde exorbita a solidão.
Maioria óbvia são o ques se entregam. Arrebanhados como obediente carneirada e conduzidos por pastores que nem o rebanho querem ver olhando quem os segue. É isto o que os políticos e até administradores de grandes empresas almejam para reinar plenamente nas suas sete quintas. Têm vindo a trabalhar sagazmente para isso e as criancinhas grandes, por fim, chegam ao que lhes faltava: depois de Salazar, eis um novo Pai! [Ilustração: pintura de Imán Maleki – n. 1976, Teerão, Irão]
Estamos entregues ao Grande Irmão quando confiamos nas máquinas e mais máquinas que o servem, por exemplo quando carregamos uma conta de telemóvel cujo consumo não nos é dado controlar. Ou quando desistimos de perceber que juros cobra de facto o nosso banco pela dívida. Ou de confirmar se os preços afixados nos produtos se mantém quando os paga e se a quantia somada das compras no supermercado está certa. Ou se a quantidade de gasolina que da bomba entrou no depósito do carro é realmente a que pagamos.
Quem conta já as notas recebidas do Multibanco? Quem duvida do saldo que tem na conta de depósitos à ordem, das contagens dos contadores de luz e água? Quantos contribuintes se dão ao tormento de averiguar a exactidão do cálculo feito à sua declaração de IRS?
Confiar nas máquinas convida ao comodismo e à passividade. Passamos os dias a carregar em teclas e botões e ficamos exaustos. É bom, então, confiar nas máquinas, tão úteis, quando já desistimos de uma boa porção de nós próprios. Alegar imenso stress permite aos adultos, como crianças grandes, quererem a vinda diária do Pai Natal para os brindar com lindos brinquedos. Mas isso é também confiar no Grande Irmão.
Nem todos se entregam, nem todos confiam na rede que se estende, aberta em acenos e convites. São, quero crer, minoria. Cidadãos de corpo inteiro num país devastado, cidadãos livres e sem compromissos que não os advindos da própria consciência. Ficam arredados, à margem, de vozes sumidas no barulho, sentindo o amargor da própria lucidez no ponto onde exorbita a solidão.
Maioria óbvia são o ques se entregam. Arrebanhados como obediente carneirada e conduzidos por pastores que nem o rebanho querem ver olhando quem os segue. É isto o que os políticos e até administradores de grandes empresas almejam para reinar plenamente nas suas sete quintas. Têm vindo a trabalhar sagazmente para isso e as criancinhas grandes, por fim, chegam ao que lhes faltava: depois de Salazar, eis um novo Pai! [Ilustração: pintura de Imán Maleki – n. 1976, Teerão, Irão]




