Pelas ruas do outrora «invicto» burgo multiplicam-se os cartazes nos prédios a oferecer andares, lojas ou escritórios para venda. Multiplicação impressionante! Mais e mais pessoas aflitas querem vender o que possuem e não chega quem, com dinheiro vivo na mão, queira comprar ainda que seja a preços de saldo.As classes médias estão exaustas, tomadas de pelintrice, a debater-se em angústias e aflições próprias de quem se vê deitado em funda cama de dívidas e sem dinheiro para as pagar. Saber que também abundam câmaras municipais, empresas e associações desportivas principais altamente endividadas provavelmente não lhes dão consolação nem alívio. Até bancos e o próprio Estado precisam de dinheiro e…?
O país todo endividou-se pesadamente. Diz quem sabe que temos vivido bastante acima das nossas reais possibilidades – municípios, empresas, clubes desportivos, bancos, governo, famílias – e há anos e anos que o vêm repetindo, mas em vão. Sempre. Parece que nem para os peixinhos sabem falar.
Neste aperto, o governo poderá imprimir umas rimas valentes de dinheiro novo e pô-lo em circulação para tirar da letargia o movimento fiduciário? É o que os países da zona euro fazem ou projectam fazer. Mas tal prerrogativa pertence em exclusivo a quem manda nas casas da moeda, porque notas de outra proveniência são notas falsas.
Admira é que essas rimas de dinheiro novo se destinem a pagar luxos como linhas de TGV, um novo aeroporto e mais auto-estradas para abraçar este país até à asfixia. Admira é que vá parar, pelos canais já abertos, aos cofres das empresas de obras públicas, às equipas de futebol endividadas, aos municípios deficitários mas com crescentes atribuições e encargos.
O povo, curtido mas ignaro como é, não entende como, no traquejo da sua vida vulgar, de trabalho e aperto constantes, pode ter-se chegado a isto e os nossos políticos não se dispõem a explicar-lhe o mistério. Quer dizer, como é que este país acabou assim endividado ao estrangeiro ao ponto de já ter dificuldade em conseguir créditos. Para onde fugiu o dinheiro, a riqueza?
Para quem e para quê trabalhou o povo, assim governado por quem governa? Não foi a produção de riqueza suficiente? Terão sido poucas as privações do povo? Então vejamos: quem não soube trabalhar, trabalhando; e governar, governando?
Na sua santa ingenuidade, o povo confia que alguém da governação, de costas para o luna park da comunicação política, venha dizer-lhe que os quinze mil euros da dívida que alegadamente cabem agora a cada português não serão da sua responsabilidade, porque o povo sempre trabalhou e poupou, e sim da responsabilidade dos governantes que desgovernaram. Confia que esse alguém venha esclarecer, de olhos nos olhos, como as três maiores empresas exportadoras nacionais que restam, a Galp, a Autoeuropa e a Quimonda, elaborem matérias primas importadas às quais incorporam pouco mais do que mão de obra (por cá ainda baratinha… até um dia). Se uma ou duas das empresas fecharem, o PIB ficará de rastos, mas não se queira falar nisso... [Foto de Carlos Rebola, extraída do blogue Ferroadas]

Acreditemos no que meio mundo não se cansa a repetir. A crise do sector financeiro é sistémica, abala o sistema inteiro espalhando interrogações múltiplas, destruidoras como bombas de fragmentação. É a hora de chegar a umas tantas conclusões alcançáveis por toda e qualquer pessoa.


