Sempre me arrisquei a pensar pela minha cabeça, pelo menos nos pontos em que outras melhores não me acodem. É teima ingrata, pois nunca me faltou quem desconfiasse de uma cabeça tão pequena como esta e, além do mais, sem coroação na praça pública. Pense então eu o certo, vale tanto como o errado para quantos, fortalecidos pelas certezas da cartilha das verdades feitas, desistiram de remexer nas próprias meninges.Uma ideia que mantenho há muitos anos parece agora ter por fim quem a atenda. Interpreta de uma forma particular o movimento de autonomização feminina em eclosão desde o início dos anos ’70. O recente «Dia da Mulher» deixou o tema colocado em evidência.
Apesar de o nosso tempo ser de resignação e de conformismo, abriu-se espaço e perspectiva para se avaliar de olhos abertos não a árvore mas sim a floresta. Para consolação da minoria a que pertenço, ainda restam uns quantos que porfiam em remexer nas próprias meninges, até porque a evolução dos acontecimentos vividos pela gente da minha geração pertencem a uma história que não está (bem) feita.
Evidentemente, ninguém contraria a ideia corrente de que foi deveras positiva a dita emancipação da mulher em relação ao homem, pai ou marido. A mulher passou a ter profissão, um trabalho remunerado, ganhou autonomia. Libertou-se da sujeição conjugal que a prendia no lar ao entrar no mercado do emprego e isso até acabou por ser de algum modo emancipador para o próprio cônjuge.
Mas isto é a face consensual da questão, a versão simplificada. É preciso beliscar a face, medir as consequências que os acontecimentos deixam no terreno. Porque, sem dúvida nenhuma, estão à nossa vista consequências que pedem análise ponderada e respostas sociopolíticas globais.
Abundam as mulheres nos mais variados sectores de actividade, a demonstrar quantas barreiras venceram. Chegamos agora ao momento de reconhecer que a saída em massa das mulheres dos seus lares para os empregos provocou um abaixamento geral dos níveis salariais (pela multiplicação da oferta de mão-de-obra) que atingiu, creio eu, os dois sexos em benefício directo dos patrões.
Significa isto, claramente, que a chamada emancipação feminina serviu os interesses de todo o sistema de acumulação capitalista, por outro lado em coincidente fase de avidez e máxima concentração no mesmo período. Lembra que os ideólogos do sistema, decerto vendo longe, acolheram o movimento feminista com simpatia. Mas na verdade sempre o sistema soube virar as coisas a seu favor, sempre gostou de ver no mercado mais mão de obra do que poderia necessitar.
Entretanto, outra consequência se declarou no plano social. As famílias, desestruturadas pelo enfraquecimento dos papéis de esposa e mãe, entraram numa crise que pede remedeio urgente. O ensino pré-escolar é migalha, os anos escolares obrigatórios deixam a nu a situação. As novas gerações estão a ser marcadas por uma situação que as atinge e destrói como se estivessem no meio dos tiros de uma guerra.


Acreditemos no que meio mundo não se cansa a repetir. A crise do sector financeiro é sistémica, abala o sistema inteiro espalhando interrogações múltiplas, destruidoras como bombas de fragmentação. É a hora de chegar a umas tantas conclusões alcançáveis por toda e qualquer pessoa.

