Na minha terra natal existe uma cidade desde que, em data recente, desapareceu a vila, e essa cidade é de cultura. Afirma-o o jornal lá da terra em aparatosa manchete e o caso não é para menos. Veja-se só: duvidoso, tenho publicado umas linhas nas suas páginas apelando para mais cultura, mas agora se declara quanto me enganei.Segundo as conclusões apresentadas por uma sondagem de opinião feita a pedido da Câmara Municipal, a área que os habitantes mais aplaudem na actuação do executivo concelhio é exactamente a área cultural. Logo, reina a satisfação. Talvez em breve, senão já, a cidade possa rivalizar com os grandes centros, onde não faltam conferências, debates, exposições de arte, concertos de música sinfónica, bailados, espectáculos de teatro, tudo em esplendoroso corrupio.
Confesso, não sabia. O ambiente cultural parecia-me até algo rastejante, a contrastar ali um bocadinho com outros tempos ainda na recordação. Cheguei, imagine-se, ao extremo de considerar que se apostava na cultura pimba!
E agora, aqui estou de corda ao pescoço. Perante os quatrocentos habitantes sondados por telefone em suas casas, fico esclarecido. Pena é que só 25% (uma centena dos inquiridos) se tenham pronunciado. E aplaudem a acção cultural do executivo.
Uma centena de pessoas que certamente sabem distinguir o que é cultura. Não a corrida de bicicletas todo-terreno, não a exibição de rancho folclórico ou de banda de música, não a romaria a jorrar decibéis, não a evocação histórica popular ou o jogo de futebol. Sim a cultura dignificada por quem a serve e, servindo-a, a deixa a brilhar.
Gostaria de cumprimentar aquele autêntico escol, cem pessoas perfeitamente sintonizadas com o ambicioso programa camarário de elevação cultural. Estão atentas, conhecem os autores literários locais, lêem-lhes e apreciam-lhes os livros, aproveitam a intensa dinamização que fertiliza o terreno. Pena é que o programa se desenvolva sem ecos, na discrição das promoções como que envergonhadas de sair à rua.
Calem-se os linguareiros que já ouvi a rosnar. Suspeitam de tudo em ano de eleições, vêem propaganda lançada ao ar em qualquer iniciativa e chegam a insinuar que as cem pessoas que estão ali a erguer a cultura ao nível de uma autêntica cidade pertencerão ao quadro de pessoal camarário e vizinhança; que aplaudem a acção em foco porque com pimbalhices (sic) se contentam; e que a cultura seria a única área em condições de receber elogio sem que tal surpreenda, por excessivo, os habitantes.
Se acaso essas críticas pudessem ter razão, a minha terra natal deixaria de ser a Cidade de Cultura que quer ser, para se degradar como mera (nece)cidade de cultura… Mas ei-la a irradiar luz como farol guieiro e a dissipar as escuridões da mediocridade. Do meu chão raso meço-lhe a altura do salto qualificador e sinto vontade de dizer que é também minha aquela terra formidável, apenas me trava esta dúvida de consciência: poderei acaso merecê-la?



Acreditemos no que meio mundo não se cansa a repetir. A crise do sector financeiro é sistémica, abala o sistema inteiro espalhando interrogações múltiplas, destruidoras como bombas de fragmentação. É a hora de chegar a umas tantas conclusões alcançáveis por toda e qualquer pessoa.
