Não cheguei a conhecer António Manuel Couto Viana, poeta, dramaturgo, actor, encenador, tradutor e etc. nascido em Viana do Castelo em 1923 e radicado na zona de Lisboa desde longa data. Não trocámos uma palavra, um simples olhar, pois, ao que julgo, nunca estivemos ambos num mesmo sítio e à mesma hora. Isso, porém, não o impediu de me detestar e desancar por simples motivos ideológicos.
No Dicionário Cronológico de Autores Portugueses (vol. V, 2000), Couto Viana aparece integrado, «sobretudo com a sua obra poética, no grupo daqueles que desde finais da década de quarenta se opunham ao neo-realismo, com uma obra que procurava reabilitar o culto do passado, da paisagem e dos amores tímidos e castos.» Quer dizer, opunha-se à corrente literária de esquerda que marcou o pós-guerra para defender posições e valores conservantistas bem tolerados pelo regime da ditadura.
A sua obra teatral dirigida às crianças, bem como a grande quantidade de livros que publicou também para crianças, evocam (acrescenta o Dicionário) um «paraíso infantil perdido», isto é, uma visão idílica da vida. Não admira, pois, que a literatura para crianças que me atrai fosse tida por António Manuel Couto Viana como execrável. Não me quedo, em tal terreno, a rimar flor com amor e muito menos a celebrar a catequese, a missa dominical ou festinhas da comunhão. Quero chegar mais longe, desafiando as imaginações infantis sem recurso a idealizações pueris «bonitinhas».
Todavia, quem faz crítica literária deve obedecer a regras de honestidade intelectual e abertura mental, além de lisura cívica. Deve analisar ou meramente explicar em cada livro o que é como é, não condená-lo em julgamento sumário porque lhe apetece. (Assim se justifica a minha ideia de que o crítico tanto lê o livro como o livro o «lê» a ele, abrindo-o.)
Pois o poeta, agora crítico, mimoseou-me com diversas picardias ao apreciar alguns dos meus livros para crianças enquanto colaborador da Fundação Gulbenkian. Em 1990 desconsiderou três contos de A Nuvem Cor-de-Rosa porque se «perdiam em nebulosas filosofias» e em linguagem «excessivamente poética»; em 1998, pediu «mais clareza» para A Bandeira Escondida, no qual um conto pecava por «pretensão literária» e «busca de originalidade»; em 1999, notou em O Mistério da Floresta Mágica uma «linguagem clara e depurada, embora sem grandes primores de estilo». Nunca os meus livros, em que via «beleza literária», lhe mereceram mais que três das cinco estrelas da tabela. Quando (re)surgi com Tenho uma Ideia (2006), Couto Viana descompôs-se para me descompor.
Num comentário mais longo, achou que não punha a minha prosa «ao serviço dos temas infantis, mas sim ao de mentalidades adultas». Mas tão-pouco as mentalidades adultas (como a dele próprio) conseguiam acompanhar-me em enredos «demasiado confusos»! No entanto, recomendava o livro para a idade dos 0-5 anos!
Tive que reagir ao ler o comentário em «Leituras», na Net. Opor a sua própria concepção de «literatura para crianças» à minha sem nada demonstrar não era aceitável. E havia mais, bem pior...





