sábado, 11 de abril de 2009

António M. Couto Viana e eu

Não cheguei a conhecer António Manuel Couto Viana, poeta, dramaturgo, actor, encenador, tradutor e etc. nascido em Viana do Castelo em 1923 e radicado na zona de Lisboa desde longa data. Não trocámos uma palavra, um simples olhar, pois, ao que julgo, nunca estivemos ambos num mesmo sítio e à mesma hora. Isso, porém, não o impediu de me detestar e desancar por simples motivos ideológicos.
No Dicionário Cronológico de Autores Portugueses (vol. V, 2000), Couto Viana aparece integrado, «sobretudo com a sua obra poética, no grupo daqueles que desde finais da década de quarenta se opunham ao neo-realismo, com uma obra que procurava reabilitar o culto do passado, da paisagem e dos amores tímidos e castos.» Quer dizer, opunha-se à corrente literária de esquerda que marcou o pós-guerra para defender posições e valores conservantistas bem tolerados pelo regime da ditadura.
A sua obra teatral dirigida às crianças, bem como a grande quantidade de livros que publicou também para crianças, evocam (acrescenta o Dicionário) um «paraíso infantil perdido», isto é, uma visão idílica da vida. Não admira, pois, que a literatura para crianças que me atrai fosse tida por António Manuel Couto Viana como execrável. Não me quedo, em tal terreno, a rimar flor com amor e muito menos a celebrar a catequese, a missa dominical ou festinhas da comunhão. Quero chegar mais longe, desafiando as imaginações infantis sem recurso a idealizações pueris «bonitinhas».
Todavia, quem faz crítica literária deve obedecer a regras de honestidade intelectual e abertura mental, além de lisura cívica. Deve analisar ou meramente explicar em cada livro o que é como é, não condená-lo em julgamento sumário porque lhe apetece. (Assim se justifica a minha ideia de que o crítico tanto lê o livro como o livro o «lê» a ele, abrindo-o.)
Pois o poeta, agora crítico, mimoseou-me com diversas picardias ao apreciar alguns dos meus livros para crianças enquanto colaborador da Fundação Gulbenkian. Em 1990 desconsiderou três contos de A Nuvem Cor-de-Rosa porque se «perdiam em nebulosas filosofias» e em linguagem «excessivamente poética»; em 1998, pediu «mais clareza» para A Bandeira Escondida, no qual um conto pecava por «pretensão literária» e «busca de originalidade»; em 1999, notou em O Mistério da Floresta Mágica uma «linguagem clara e depurada, embora sem grandes primores de estilo». Nunca os meus livros, em que via «beleza literária», lhe mereceram mais que três das cinco estrelas da tabela. Quando (re)surgi com Tenho uma Ideia (2006), Couto Viana descompôs-se para me descompor.
Num comentário mais longo, achou que não punha a minha prosa «ao serviço dos temas infantis, mas sim ao de mentalidades adultas». Mas tão-pouco as mentalidades adultas (como a dele próprio) conseguiam acompanhar-me em enredos «demasiado confusos»! No entanto, recomendava o livro para a idade dos 0-5 anos!
Tive que reagir ao ler o comentário em «Leituras», na Net. Opor a sua própria concepção de «literatura para crianças» à minha sem nada demonstrar não era aceitável. E havia mais, bem pior...

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Uma história com ratos

Mexer nas recordações é, reconhecidamente, como querer extrair uma única cereja de um cesto acumulado. As recordações não se emaranham menos umas nas outras. E aqui estou às voltas do que me aconteceu há mais de vinte anos com uma história de ratos.
Era uma história para crianças ainda inédita e resolvi propô-la a concurso para um prémio então criado para defender a conservação do Ambiente no plano da literatura infanto-juvenil. Honestamente, afigurou-se-me que tinha boas hipóteses de vencer…
De facto, a minha história punha ratarias domésticas, das águas e dos campos, em reunião plenária, a queixarem-se de problemas que já punham em risco a sua saúde e condições de sobrevivência. Relacionava deste modo diversos elementos da abordagem ecológica. As águas e as terras carregadas de produtos químicos tóxicos e a concentração urbana com abundante acumulação de lixos com restos de comida, entre prédios envelhecidos e espaços ao abandono, facilitam um crescimento das ratarias tão anormal que era declarado perigoso para ratos e homens.
Quis que a história fosse fantasiosa e divertida, mas que deixasse também realçada, com nitidez, a ideia fundamental de que os ratos fazem parte do sistema da natureza que nos integra e que, portanto, não podemos deixá-los crescer à solta ou querer exterminá-los como uma praga sem com isso nos ameaçarmos a nós próprios. Temos antes de saber coexistir harmoniosamente, ratos e homens, com todas as variedades de fauna e flora.
A história foi publicada, sem réstia de prémio, primeiro em brochura autónoma (Ed. Afrontamento, 1986) e depois na colectânea Caras e Bichos Caretas (Ed. Caminho, 2001). O júri distinguiu uma outra obra concorrente. O Ambiente na literatura infanto-juvenil era ali tratado nestes termos: rádios espalhavam poluição sonora na praia, onde pessoas deixavam na areia embalagens de gelados, etc.
Para mim, isso era uma banalidade confrangedora… Para o júri, a minha história de ratos era de compreensão difícil, talvez inacessível. E as criancinhas precisam de ser poupadas a tamanhos esforços de inteligência…
Não tardou, até uma senhora também autora de livros para crianças, num comentário de jornal ao livrinho, apareceu a confessar que a minha história a deixara assustada! Ora eu brinquei com aqueles animais na infância e acredito que a miudagem continua a brincar, mas nunca consegui explicar bem o assunto a quem se assustava com ratos numa simples leitura.
Começou ali, então, esta disputa que parece longe de terminar. Vejo autores, críticos e editores, batalhão formado, a avançar pelo caminho que quer para as crianças tudo posto em termos muito simples, claros e explicadinhos, mas que, na minha opinião, as infantiliza ao minimizar nelas as capacidades de entendimento. Eu aposto que uma criança, digamos «normal», é bem capaz de possuir e desenvolver intuições poéticas que anos mais tarde o crescimento atrofia. E vou ao ponto de supor que temos por cá numerosos adultos que se esqueceram de que foram o que foram quando crianças…

sábado, 4 de abril de 2009

No Dia do livro «infantil»

Comecei a publicar com regularidade literatura para crianças por volta de 1985, há mais de vinte anos. O ambiente, nessa altura, já estava em mudança mas era ainda diverso do de hoje. Talvez valha a pena recordar o percurso feito e a experiência recolhida na passagem do Dia do livro «infantil».
Naquele ano registava-se de certo modo a presença em cena de um conjunto de elementos transformadores: os avanços da escolarização, a multiplicação das bibliotecas derivada da criação da rede de leitura pública em ligação com o desenvolvimento das editoras literárias e da indústria dos bens culturais em geral que animou também o mercado livreiro. O comércio do livro «infantil» começou deste modo a ganhar uma preponderância económica de evidente relevo.
Isso, até certo ponto, foi bom. Vulgarizou-se o livro, expandiu-se o campo da leitura. Novas camadas de autores interessaram-se pela literatura infanto-juvenil e correram para as editoras que, por seu turno, iam reforçando o negócio.
Foi bom, digo, até certo ponto. A «rotação das novidades», isto é, o tempo de permanência nas livrarias dos novos títulos do género, em crescente aceleração, mostrou ter graves consequências. Autores e obras estimáveis de um tempo recente ficaram sem demora eclipsados pela voracidade do mercado, que aprecia uma renovação constante dos consumos para obter os melhores resultados. Outra consequência nefasta resultou na vulgarização de um tipo principal de livro dito infanto-juvenil porque esse tipo conveio ao mercado.
Na verdade, declarou-se um nítido excesso presente no mercado da oferta de novelas, ou pequenos romances, de aventuras juvenis, normalmente em formato «livro de bolso». Tornou-se difícil encontrar leitores adolescentes para tanta aventura, convenientemente alegre, divertida e com um fio de mistério. Entretanto, avolumou-se a escassez de livros «para a infância»…
A apreciação crítica das obras e dos autores nunca terá sido a desejável em nenhum momento. Era como se a pequenez dos seus destinatários ideais menorizasse também, por qualquer contaminação, os próprios livros. Ainda hoje tal menorização parece persistir, em contraste com a categorização académica que mestrados e doutoramentos atribuem a certos casos.
Não é, porém, a categorização académica que terá efectiva influência no comportamento dos consumos e dos leitores no sentido de uma intervenção regular orientadora. Nestas condições, instalou-se bastante a ideia de que são bons todo o autor e todo o livro que vendam muito. Alguns historiógrafos do género assimilaram a ideia, transpondo-a para os seus estudos, e alguns autores, incansáveis, puseram-se a percorrer o país para obterem mais mercado.
A literatura infanto-juvenil passou então a valer mais como negócio, formaram-se grupos de interesses convergentes com expressão nas editoras, na composição dos júris de prémios, etc. A ideia simplória de que é melhor o que mais se vende, enraizada, mantém-se. Os grupos de interesses querem agora fundir-se num só.
Nota: Avaria no computador atrasou esta crónica, que deveria ter sido editada anteontem, dia 2.
[Na foto: borboleta transparente; existe na América do Sul.]

segunda-feira, 30 de março de 2009

A barbárie globalizada

A revista americana que anuncia o quadro mundial das maiores fortunas mostrou este ano uma quantidade de mudanças no topo dos primeiros dez e dos primeiros cem lugares. O valor da riqueza de uns quantos potentados milionários diminuíra drasticamente desde 2008 e então falou-se em perdas gerais de riqueza na ordem dos 45%. Alguém terá sentido pena daqueles potentados assim atingidos pela crise?
Realmente, nenhuma montanha de notas do banco ardeu em fogueira purificadora, nenhuma riqueza se esvaiu por um cone de vulcão ávido, os bens imóveis continuam imóveis. Mudou somente de mão o que pôde ser arrebatado por outra mão através de arteirices e traficâncias. E assim chegámos ao momento em que, avaliando a evolução vivida nos últimos trinta anos, podemos perceber o sentido geral dos acontecimentos que nos trouxeram até aqui.
Toda a gente que passou estes trinta anos a defender, de garras afiadas, o avanço das nações pelo caminho que desembocou no triunfo pleno do neoliberalismo, na liberdade do mercado e do comércio, nas privatizações e tudo isso - servido como a mudança, a modernidade, o desenvolvimento e até a forma acabada da democracia -, defendeu afinal o que hoje se declara sem máscara: uma barbárie globalizada.
Nenhum deus enlouquecido obrigou os mais altos pilares da comunidade a criarem os seus paraísos fiscais, a quererem menos regulação e legislação penal amiguinha, a entrarem em transes de infinita avidez, tal como teimam agora em arrecadar para si próprios capitais públicos que os governos dão para curar feridas que deixaram abertas. Quiseram a corrupção e a desordem que lhes conveio, a eles, interlocutores privilegiados dos órgãos do poder, para consumarem as rapinas e as pilhagens, as fraudes e as bancarrotas, e continuarem impunes nos seus malabarismos para acelerar a concentração da riqueza. Avalie-se agora a bondade das ideias neoliberais pela qualidade das suas consequências.
Não caiu do céu o desemprego em massa, a precarização, a instabilidade social, o esmagamento das classes médias, a desarticulação das famílias, enfim, tudo o que agride e fere milhões e milhões de pessoas espalhadas pelo mundo. Não contrariou nenhuma vontade política poderosa a degradação a que foi submetido o Estado social e mesmo a democracia quando atingida por severas restrições. O que trazia dentro o cavalo de Tróia está à vista no terreno sobre camadas de escândalos.
A crise que sobre o mundo se abate não é apenas económica e financeira, é total. Escorraça a vergonha, a ética, o primado da justiça inclusive no plano das relações internacionais. Não é apenas gravíssima, é também assustadora. É a barbárie que se instala perante todos os olhares.
Vivemos num tempo cada vez mais perigoso. Os povos quedam-se num autismo estranho, singular. Talvez nem uma ditadura implantada os tire da apatia. E vem à baila a evocação do crash e o início dos anos ’30 para vislumbrar afinidades com esta entrada no século vinte e um.
Uma nova guerra mundial espreita no horizonte. Vai a história repetir-se, não como comédia, sim, e sempre, como tragédia?! O cronista, calando, promete ficar a ver.

domingo, 15 de março de 2009

Cidade de cultura

Na minha terra natal existe uma cidade desde que, em data recente, desapareceu a vila, e essa cidade é de cultura. Afirma-o o jornal lá da terra em aparatosa manchete e o caso não é para menos. Veja-se só: duvidoso, tenho publicado umas linhas nas suas páginas apelando para mais cultura, mas agora se declara quanto me enganei.
Segundo as conclusões apresentadas por uma sondagem de opinião feita a pedido da Câmara Municipal, a área que os habitantes mais aplaudem na actuação do executivo concelhio é exactamente a área cultural. Logo, reina a satisfação. Talvez em breve, senão já, a cidade possa rivalizar com os grandes centros, onde não faltam conferências, debates, exposições de arte, concertos de música sinfónica, bailados, espectáculos de teatro, tudo em esplendoroso corrupio.
Confesso, não sabia. O ambiente cultural parecia-me até algo rastejante, a contrastar ali um bocadinho com outros tempos ainda na recordação. Cheguei, imagine-se, ao extremo de considerar que se apostava na cultura pimba!
E agora, aqui estou de corda ao pescoço. Perante os quatrocentos habitantes sondados por telefone em suas casas, fico esclarecido. Pena é que só 25% (uma centena dos inquiridos) se tenham pronunciado. E aplaudem a acção cultural do executivo.
Uma centena de pessoas que certamente sabem distinguir o que é cultura. Não a corrida de bicicletas todo-terreno, não a exibição de rancho folclórico ou de banda de música, não a romaria a jorrar decibéis, não a evocação histórica popular ou o jogo de futebol. Sim a cultura dignificada por quem a serve e, servindo-a, a deixa a brilhar.
Gostaria de cumprimentar aquele autêntico escol, cem pessoas perfeitamente sintonizadas com o ambicioso programa camarário de elevação cultural. Estão atentas, conhecem os autores literários locais, lêem-lhes e apreciam-lhes os livros, aproveitam a intensa dinamização que fertiliza o terreno. Pena é que o programa se desenvolva sem ecos, na discrição das promoções como que envergonhadas de sair à rua.
Calem-se os linguareiros que já ouvi a rosnar. Suspeitam de tudo em ano de eleições, vêem propaganda lançada ao ar em qualquer iniciativa e chegam a insinuar que as cem pessoas que estão ali a erguer a cultura ao nível de uma autêntica cidade pertencerão ao quadro de pessoal camarário e vizinhança; que aplaudem a acção em foco porque com pimbalhices (sic) se contentam; e que a cultura seria a única área em condições de receber elogio sem que tal surpreenda, por excessivo, os habitantes.
Se acaso essas críticas pudessem ter razão, a minha terra natal deixaria de ser a Cidade de Cultura que quer ser, para se degradar como mera (nece)cidade de cultura… Mas ei-la a irradiar luz como farol guieiro e a dissipar as escuridões da mediocridade. Do meu chão raso meço-lhe a altura do salto qualificador e sinto vontade de dizer que é também minha aquela terra formidável, apenas me trava esta dúvida de consciência: poderei acaso merecê-la?

quarta-feira, 11 de março de 2009

Mulher dia sim, dia sim

Sempre me arrisquei a pensar pela minha cabeça, pelo menos nos pontos em que outras melhores não me acodem. É teima ingrata, pois nunca me faltou quem desconfiasse de uma cabeça tão pequena como esta e, além do mais, sem coroação na praça pública. Pense então eu o certo, vale tanto como o errado para quantos, fortalecidos pelas certezas da cartilha das verdades feitas, desistiram de remexer nas próprias meninges.
Uma ideia que mantenho há muitos anos parece agora ter por fim quem a atenda. Interpreta de uma forma particular o movimento de autonomização feminina em eclosão desde o início dos anos ’70. O recente «Dia da Mulher» deixou o tema colocado em evidência.
Apesar de o nosso tempo ser de resignação e de conformismo, abriu-se espaço e perspectiva para se avaliar de olhos abertos não a árvore mas sim a floresta. Para consolação da minoria a que pertenço, ainda restam uns quantos que porfiam em remexer nas próprias meninges, até porque a evolução dos acontecimentos vividos pela gente da minha geração pertencem a uma história que não está (bem) feita.
Evidentemente, ninguém contraria a ideia corrente de que foi deveras positiva a dita emancipação da mulher em relação ao homem, pai ou marido. A mulher passou a ter profissão, um trabalho remunerado, ganhou autonomia. Libertou-se da sujeição conjugal que a prendia no lar ao entrar no mercado do emprego e isso até acabou por ser de algum modo emancipador para o próprio cônjuge.
Mas isto é a face consensual da questão, a versão simplificada. É preciso beliscar a face, medir as consequências que os acontecimentos deixam no terreno. Porque, sem dúvida nenhuma, estão à nossa vista consequências que pedem análise ponderada e respostas sociopolíticas globais.
Abundam as mulheres nos mais variados sectores de actividade, a demonstrar quantas barreiras venceram. Chegamos agora ao momento de reconhecer que a saída em massa das mulheres dos seus lares para os empregos provocou um abaixamento geral dos níveis salariais (pela multiplicação da oferta de mão-de-obra) que atingiu, creio eu, os dois sexos em benefício directo dos patrões.
Significa isto, claramente, que a chamada emancipação feminina serviu os interesses de todo o sistema de acumulação capitalista, por outro lado em coincidente fase de avidez e máxima concentração no mesmo período. Lembra que os ideólogos do sistema, decerto vendo longe, acolheram o movimento feminista com simpatia. Mas na verdade sempre o sistema soube virar as coisas a seu favor, sempre gostou de ver no mercado mais mão de obra do que poderia necessitar.
Entretanto, outra consequência se declarou no plano social. As famílias, desestruturadas pelo enfraquecimento dos papéis de esposa e mãe, entraram numa crise que pede remedeio urgente. O ensino pré-escolar é migalha, os anos escolares obrigatórios deixam a nu a situação. As novas gerações estão a ser marcadas por uma situação que as atinge e destrói como se estivessem no meio dos tiros de uma guerra.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Venha alguém explicar ao povo

Pelas ruas do outrora «invicto» burgo multiplicam-se os cartazes nos prédios a oferecer andares, lojas ou escritórios para venda. Multiplicação impressionante! Mais e mais pessoas aflitas querem vender o que possuem e não chega quem, com dinheiro vivo na mão, queira comprar ainda que seja a preços de saldo.
As classes médias estão exaustas, tomadas de pelintrice, a debater-se em angústias e aflições próprias de quem se vê deitado em funda cama de dívidas e sem dinheiro para as pagar. Saber que também abundam câmaras municipais, empresas e associações desportivas principais altamente endividadas provavelmente não lhes dão consolação nem alívio. Até bancos e o próprio Estado precisam de dinheiro e…?
O país todo endividou-se pesadamente. Diz quem sabe que temos vivido bastante acima das nossas reais possibilidades – municípios, empresas, clubes desportivos, bancos, governo, famílias – e há anos e anos que o vêm repetindo, mas em vão. Sempre. Parece que nem para os peixinhos sabem falar.
Neste aperto, o governo poderá imprimir umas rimas valentes de dinheiro novo e pô-lo em circulação para tirar da letargia o movimento fiduciário? É o que os países da zona euro fazem ou projectam fazer. Mas tal prerrogativa pertence em exclusivo a quem manda nas casas da moeda, porque notas de outra proveniência são notas falsas.
Admira é que essas rimas de dinheiro novo se destinem a pagar luxos como linhas de TGV, um novo aeroporto e mais auto-estradas para abraçar este país até à asfixia. Admira é que vá parar, pelos canais já abertos, aos cofres das empresas de obras públicas, às equipas de futebol endividadas, aos municípios deficitários mas com crescentes atribuições e encargos.
O povo, curtido mas ignaro como é, não entende como, no traquejo da sua vida vulgar, de trabalho e aperto constantes, pode ter-se chegado a isto e os nossos políticos não se dispõem a explicar-lhe o mistério. Quer dizer, como é que este país acabou assim endividado ao estrangeiro ao ponto de já ter dificuldade em conseguir créditos. Para onde fugiu o dinheiro, a riqueza?
Para quem e para quê trabalhou o povo, assim governado por quem governa? Não foi a produção de riqueza suficiente? Terão sido poucas as privações do povo? Então vejamos: quem não soube trabalhar, trabalhando; e governar, governando?
Na sua santa ingenuidade, o povo confia que alguém da governação, de costas para o luna park da comunicação política, venha dizer-lhe que os quinze mil euros da dívida que alegadamente cabem agora a cada português não serão da sua responsabilidade, porque o povo sempre trabalhou e poupou, e sim da responsabilidade dos governantes que desgovernaram. Confia que esse alguém venha esclarecer, de olhos nos olhos, como as três maiores empresas exportadoras nacionais que restam, a Galp, a Autoeuropa e a Quimonda, elaborem matérias primas importadas às quais incorporam pouco mais do que mão de obra (por cá ainda baratinha… até um dia). Se uma ou duas das empresas fecharem, o PIB ficará de rastos, mas não se queira falar nisso... [Foto de Carlos Rebola, extraída do blogue Ferroadas]