quarta-feira, 27 de maio de 2009

Abriu biblioteca na freguesia

Fui à inauguração. A freguesia onde resido, que é a mais populosa da cidade do Porto e certamente de todo o país, tem desde ontem biblioteca pública. Abriu na antiga Casa de Cultura da autarquia, que passou agora a ser a Casa dos Livros.
Foi lembrado na ocasião que o projecto surgiu em face de uns quatro mil livros armazenados há anos. Parece que se perdeu a memória de quem, e como, e quando, e porquê ali os tinha feito chegar. E mais: entre esses livros encontravam-se primeiras edições valiosas e obras estimáveis deterioradas...
Tudo isto enreda em reflexões várias quem vive desde sempre não dos livros mas com os livros. Na véspera, dia da abertura da tradicional Feira do Livro, a maior de sempre (de regresso, após 34 anos, à Avenida dos Aliados varrida dos seus canteiros ajardinados), encontrei à venda, em bancas bem sortidas, a três ou cinco euros, edições recentes e de boas editoras.
Na cerimónia da inauguração foi evocada a frase de Monteiro Lobato, que um país se constrói com homens e com livros. Nos convites veio citado o padre António Vieira: «O livro é um mundo que fala, um surdo que responde, um cego que guia, um morto que vive.» E estoutra, de Emerson: «Que imenso tesouro pode estar oculto em uma biblioteca pequena e seleccionada! A companhia dos mais sábios e dignos indivíduos de todos os países, através de milhares de anos, pode tornar o resultado de seus estudos e de sua sabedoria acessíveis a todos nós.»
Na verdade, o livro banalizou-se, a leitura não. Quer dizer, nem tanto. Repetir nestes dias a queixa de que os bons livros são caros já colhe pouco. Sim, de facto, as novidades editoriais costumam aparecer a preços altos, de quinze, trinta ou mais euros. Abundam, porém, os saldos, as feiras das sobras que os editores querem deitar fora a qualquer preço.
Encontro há semanas uma vasta tenda erguida junto da Reitoria, no Carmo, atulhada de livros em saldo. Lá adquiri os Contos de J. L. Borges, o Bom ami de Guy de Maupassant, o Rudolfo de Olga Gonçalves, entre outros. Nem digo quanto paguei, acho que me aproveitei de tanta barateza... recordando o dito de Borges: «Sempre imaginei que o paraíso seria uma espécie de biblioteca».
Aos quatro mil títulos da Casa dos Livros de Paranhos se juntarão mais seis mil que por lá já se amontoam à espera de catalogação, perfazendo o total dos dez mil que a nova biblioteca passará em breve a ter nas estantes. A autarquia solicitou ofertas à população da freguesia e as ofertas choveram. Eu levei lá um saco cheio.
Dez mil livros. Só esperam por leitores que os façam sair do sono e ganhar voz. Leitores que não tenham moedas para compras nas feiras dos saldos mas que tenham inclinação de sobra para a leitura na biblioteca pública da vizinhança. Leitores em condições de poderem apreciar cada obra, folheando-a do princípio ao fim não como quem mata o tempo e sim como quem o aproveita inteligentemente.
Onde estão eles?

sábado, 23 de maio de 2009

Carta para Linda Ln

Caro amigo: Da tua ida ao Uruguai, há uns meses, em sentimental busca de parentela, trouxeste-me uma especial lembrança: um livrinho de poemas, edição de bolso. O autor não tinha nome neste lado do oceano, era um desconhecido: Mario Benedetti.
Li a obra e senti-me um tanto perplexo. O poeta, apresentado pela editora como autor de uns oitenta títulos de todos os géneros e um dos escritores latino-americanos mais lidos, cultivava uma expressão de simplicidade desarmante. Fiquei em amadurecer a primeira leitura, pois algo me prevenia contra a pressa.
Porém, a releitura tardou no corropio de constantes solicitações e, por isso, nem cheguei a agradecer-te a lembrança (queria enviar-ta com as minhas impressões). Penitencio-me agora da omissão, percebendo, porque te conheço, que indagaste em Montevideu que notabilidade literária máxima havia ali, no espaço nacional, para ma trazeres em oferta e revelação.
Revelação foi, sem dúvida. Tardia. Sei agora que Mario Benedetti é um verdadeiro desconhecido em Portugal, apesar de uma editora lisboeta lhe ter publicado dois romances renomados que todavia quase ninguém leu. E sei-o agora porque Mario Benedetti acaba de morrer e aparece referido na imprensa.
Em sua homenagem e agradecimento a ti devido, traduzo a seguir dois poemas do livrinho tentando penetrar o mais possível no alento que ali respira escondido.


DEPOIS

O céu sem dúvida não será este de agora
quando me aposentar o céu
vai durar todo o dia
todo o dia cairá
como chuva de sol sobre a minha calva.

Eu estarei um pouco surdo para escutar as árvores
mas de todos os modos saberei que existem
talvez um pouco velho para andar na areia
mas o mar ainda me deixará melancólico
estarei sem memória e sem dinheiro
com o tempo nos meus braços como um recém-nascido
e chorará comigo e chorarei com ele
estarei sozinho como uma ostra
mas poderei falar dos meus fiéis amigos
que como sempre relatarão da Europa
seus cada vez mais tímidos contrabandos e galardões.

Claro estarei na orla do mundo contemplando
desfiles de crianças e pensionistas
aviões
eclipses
e regatas
e porei o chapéu para mirar a lua
ninguém me pedirá relatórios nem balanços nem cifras
e só terei horário para morrer
mas sem dúvida o céu não será este de agora
esse céu de quando me aposentar
terá vindo demasiado tarde.


EDITORIAL

A nação é uma maçã
uma vermelha e convidativa maçã
e não sabemos quem a morderá

a nação é uma corneta
uma rouca gasta corneta
e não sabemos quem a tocará

a nação é uma lagosta
uma atlética horrível lagosta
e não sabemos quem a matará

ah nós estamos pela Reforma
ou seja afogamos as cornetas na sua tinta
e comemos as maçãs com a sua casca
e convidamos as lagostas para o chá dos domingos

claro que estamos pela Reforma
ou - por outras palavras - contra a Reforma
e já que o prestigioso colega nos recorda
que onze por cento dos nossos lactantes
são comunistas e úteis cretinos
o nosso próximo slogan terá que ser
dar-lhes-emos biberões com arsénico

assim estaremos moralmente preparados
para regar com método e talvez com piedade
a terra dos homens de boa vontade.

Mario Benedetti, Poemas de la oficina / Poemas del hoyporhoy (1956-1961), Editorial Sudamericana, Buenos Aires, 2000, pp 24 e 44, respectivamente.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

A ideologia do mercado


Aponto o dedo desde há anos para a nefasta expansão da ideologia do mercado. Assim designo uma feição ideológica procriada pelo neoliberalismo agora mergulhado em profunda crise. Mas poucas têm sido, em geral, as chamadas de atenção para o fenómeno. Porém, há dias veio da América o Nobel de Economia de 2001 palestrar a Lisboa, falou sem papas na língua e, felizmente, tem opinião sonora.
O senhor não poderia ser mais claro. Segundo li, explicou as fraudes, as ganâncias e toda a hecatombe económico-financeira do capitalismo globalizado responsabilizando os donativos, cada vez mais vultosos e chorudos, que magnatas foram dando aos políticos (ali, aqui, acolá) para que aprovassem regulamentações «favoráveis» e afrouxassem as supervisões legais. Ousou mesmo observar (suprema heresia) que esta crise global resultou de uma luta de classes desencadeada pelo topo da pirâmide social para extrair da base os tostões.
Assim fica atestado na vinha (o mundo) o escalracho (a corrupção). E também contada fica a história do neoliberalismo e entendida a origem da ideologia do mercado, visível, aliás, desde que começaram a valer como prova distintiva e qualificadora os mais altos consumos do mercado. Por exemplo, o livro que estivesse a ser comprado por milhares de pessoas tinha que ser bom, isto é, digno de sucesso.
O livro, ou qualquer outro produto de consumo, serviria portanto para as necessidades práticas e espirituais de qualquer povo em qualquer país! Promovia-se a formatação das populações
- silenciosa mas violenta e opressiva - no molde único que convinha ao mercado. As produções em massa eram prestigiosas porque, alegadamente, pertenciam a marcas «eleitas» pelo mercado (comandado pelo marketing).
Os teólogos da ideologia do mercado chegaram a pô-lo no altar como a expressão acabada da democracia, teimando sempre, às cegas, que o mercado podia e sabia auto-regular-se. Hoje sabemos que gera concentrações, massificações e desumanização. A variedade do mundo, a capacidade natural para a renovação da vida, a liberdade criadora iam ficando esmagadas pelo cilindro compressor posto a rolar.
Recordo um caso. Folheei certo dia uma pretensa história da literatura infanto-juvenil em Portugal. O seu autor, em prova académica, focava autores e obras ao longo do tempo, desde o aparecimento dos assomos iniciais do género até à contemporaneidade. Nada a estranhar. A partir, porém, dos anos ’80, a bitola do autor alterou-se. Passou a avaliar os autores e as obras não por cânone pessoal, fosse qual fosse, mas atendendo nitidamente à dimensão visível que tivessem no mercado.
Quer dizer, aquele «historiador» demitia-se ali do seu papel de «historiar» reconhecendo tão-só os autores mais mediáticos e as obras com maiores sucessos de vendas. Prescindia de assumir opinião própria ao submeter-se aos ditames do mercado, ou seja, em última análise, aos poderes do marketing comercial e das autopromoções pessoais. Onde iriam entrar a categorização estético-literária, a qualificação do género em arrumação crítica? Aquilo era uma sociologia dos consumos, nada mais. Perguntei-lhe: será melhor o que mais se vende? Não me respondeu… e eu a querer diálogo!

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Apocalipse em 2012

Estamos no século vinte e um, reclama quem protesta contra a persistência de certos anacronismos aspirando à modernização que varra do nosso tempo velharias de todo o género, perniciosas, abstrusas ou empecilhentas. Mas alguém ouve? As evidências troçam dos protestos. Este século vira-se decididamente para a negação da inteligência racional, fonte única de toda a modernização.
Disso mesmo tem falado aqui bastantes crónicas desta actual-idade. Falam de um recuo geral da luz do conhecimento para um negrume algo medievo onde a grosseria individual se avizinha da ileteracia, a brutalidade da propensão para agredir e a barbárie implantada se avizinha da destruição humana a consumar-se. A inteligência racional das massas, como que já cansada ou desiludida consigo mesma, entra numa espécie de eclipse e, querendo adormecer e desistir, decreta a sua desacreditação.
As evidências espalham-se e multiplicam-se. Também os medos, medos irracionais que podem ter pé em augúrios de Nostradamus, Bandarra ou um qualquer outro profeta, ou medo do próximo ciclo solar que ameaça alterar perigosamente o «escudo» magnético que livra a Terra das piores radiações e é capaz de «desnortear» bússolas e polarizações. Ou de uma pandemia de gripe...
O ano de 2012 surge em vários discursos apresentados em tom sério e «científico» como o ano do Apocalipse. Prosperam os videntes, as bruxas, os adivinhos, novos xamãs da tribo. Gente sofisticada e culta (dizem), inclusive empresários, jogadores da Bolsa e de futebol, consultam nigromantes entendidas no tarot e demais sortilégios que anunciam o futuro. Cansaram-se a repetir os especialistas que o nível de saúde mental ia baixo e que enfraquecia a capacidade de autogoverno.
Os signos do zodíaco tornaram-se mais e mais populares, ganha a astrologia à astronomia já que poucos erguem o nariz para contemplar o céu. As chamadas ciências ocultas povoam-se de magias negras, macumbas de cores africanas, feitiços brasileiros. As superstições entram na onda de mistura com muita esquizofrenia, a insegurança generalizada, o desgarramento dos indivíduos.
Sedimenta-se uma crença no destino traçado por uma qualquer justiça imanente, cresce um fatalismo que se identifica com a consciência do fim colectivo. É o «fim do tempo», o limite supremo atingido pela consciência de que não mais poderíamos continuar assim. Como num sonho desvairado, acordamos não à beira do abismo mas já em queda e sem salvação.
O dealbar deste primeiro século do segundo milénio traz consigo um crepúsculo carregado de premonição e tragédia. As massas estão domesticadas, abúlicas, atónitas, ausentes. Maduras para o que os senhores do mundo queiram dispor. Prontas para a sorte que lhes for prescrita: aceitarão passivamente a perda da liberdade, da democracia, em troca da opressão violenta, da fome e da guerra, em pagamento e expiação de faltas e erros de alguém que viveu num lugar estranho, num outro tempo...
Mas também poderão despertar, num sobressalto de horror, e atirar um berro uníssono e potente como tiro de libertação.

sábado, 2 de maio de 2009

1930 em visita

Fazer anos não tem nenhum mérito especial. Mas quando isso nos deixa quase à porta dos oitenta, os amigos reforçam os cumprimentos, apreciando e festejando decerto a longevidade. Merecem que em sua intenção escreva uma resenha dos acontecimentos principais registados no ano em que nasci.
Em 1930 estava uma boa metade do mundo a debater-se no buraco do famoso crash que, visto a esta distância, parece recuar a um remoto século, a uma outra era. Dizem agora os entendidos que o crash actual, designado como crise económico-financeira, é bem pior buraco do que o antigo, afinal um simples degrau preparatório a descer para o abismo.
Apesar de tudo, 1930 foi um ano efervescente. Salazar, ministro interino das Colónias, promulga o Acto Colonial e surgem os caboucos da União Nacional. O nazismo avança na Alemanha (onde os socialistas ganham 143 lugares e os comunistas 77, enquanto os nazis obtêm 107 lugares sobretudo à custa dos eleitores moderados). A cidade de Constantinopla, antes Bizâncio, passa a chamar-se Istambul. Mahatma Gandhi inicia na Índia a sua campanha de desobediência civil que desembocará na independência do poder colonial inglês pela via da não-violência.
J. M. Keynes, apoiante do nacional-socialismo hitleriano, publica o Tratado sobre o Dinheiro, Ortega y Gasset A Revolta das Massas, Albert Einstein Sobre o Sionismo, Leão Trotsky a sua Autobiografia e Wilhelm Reich Maturidade Sexual, Continência, Moral Conjugal. Na União Soviética 55% dos camponeses ficam integrados em unidades colectivas de produção e são inventados o plástico acrílico e o flash. Segismundo Freud publica O Mal-Estar da Cultura e o bispo de Leiria declara dignas de crédito as aparições de Fátima.
O Salão dos Independentes lança a polémica sobre as tendências da arte e Robert Musil aparece com O Homem sem Qualidades, Vladimir Maiakovski com Os Banhos e Dashiell Hammett com O Falcão de Malta. Arnold Schönberg estreia a ópera De Hoje para Amanhã e Igor Stravinski a Sinfonia dos Salmos. Aquilino Ribeiro lança O Homem Que Matou o Diabo e Ferreira de Castro A Selva. Bertolt Brecht põe no palco A Excepção e a Regra enquanto Andre Bréton divulga o Manifesto do Surrealismo.
Os realizadores cinematográficos andavam num idêntico frenesim. Manoel de Oliveira fazia Douro, Faina Fluvial, Leitão de Barros Maria do Mar, J. von Sternberg O Anjo Azul, René Clair Sob os Telhados de Paris, Alfred Hitchcock Assassínio, etc. Tudo isto tem hoje um cheiro inconfundível a mofo, a insinuar que a nossa vida vivida já possui algo de histórico... e, veja-se, nascemos quando Raul Brandão se finava e Herberto Helder nascia (a 23 de Novembro). Assistimos à popularização da radiofonia, ao aparecimento da televisão e dos motores a jacto. Escapámos à Segunda Grande Guerra e sobrevivemos ao racionamento, à repressão salazarista, à moral farisaica. Envolveu-nos, depois da democratização, a onda da comunicação de massas, a massificação das telecomunicações, a informática, a internet...
Massificados ficámos? Consumidores consumidos pelo deus mercado todo-poderoso? Incapazes, sempre, de exclamar com saudade: «ai, no meu tempo, é que foi»!

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Eu e António M. Couto Viana

«E havia mais, bem pior», escrevi no termo da crónica antecedente, pois atingira no Word a quadragésima linha. Era o momento de parar. Retomo o fio suspenso nesta página nova para explicar o que no caso era bem pior. E foi assim…
Em Janeiro do ano passado, deparei-me com o que António M. Couto Viana escrevera sobre alguns dos meus livros destinados às crianças enquanto membro do Conselho de Leitura da Fundação C. Gulbenkian. A recensão mais recente que me dedicava remontava a 2006. Percebi-lhe, sorrindo, os toques e os tiques mas, ao ler o que dizia de Tenho uma Ideia, invadiu-me a fervura e saltei.
O email que enviei à directora do Serviço de Educação e Bolsa da Gulbenkian dizia: «Estamos em Janeiro de 2008 e só agora e por acaso tomo conhecimento desta apreciação de AMCV ao meu livro. Acho-a lamentável. Porque, sem analisar a sua própria concepção da chamada “literatura para crianças”, a opõe à minha, demonstrada na obra em foco. E em que se baseia para considerar o meu livro para os 0-5 anos em vez dos 8 no mínimo? E porque supõe que uma criança não entende ou não aceita bem certos enigmas do mundo e da vida? Vejamos, então, a inteligência de AMCV, que nem foi capaz de transcrever sem graves falhas umas frases do meu livro, deturpando-as gravemente decerto para ficar mais cheio de razão contra o livro. Eu não o defendo, ele que se defenda sozinho. Mas gostaria de trocar umas impressões sobre o assunto, pois na verdade já me cansa tanta “crítica” desta a circular para impor no mercado uma literatura para crianças consumível, vulgaríssima, que não apela à inteligência, ao bom gosto, à renovação estética!»
A Drª Maria Helena Melim Borges, directora daquele Serviço, respondeu-me logo, corrigiu o nível etário e repôs a integridade das citações deturpadas. Antes das correcções lia-se: «O primeiro conto passa-se numa aula, onde o professor, traçando no ar um pequeno espaço [um círculo, figura simbólica!], interroga os alunos sobre como desejariam preenchê-lo. Com a aprovação do professor, um deles expõe a sua opinião, da seguinte forma: “Dá-me vontade de reunir muitas palavras escolhidas e de as enlaçar nas outras até formarem o cordão de um sentido, para depois se estudar [as estender], bem apoiadas nas margens do abismo, como uma fonte [ponte] salvadora, logo seguida de outras fontes [pontes] sucessivas até que o buraco fique completamente tapado por uma superfície de palavras sólidas tecidas pela fantasia”. Muito claro, como se vê! Para dificultar o assunto, o escritor apresenta uma fábula sobre dois gémeos e o rio, a tal ponto enigmática que»… / O conto Tenho uma ideia também não deve nada à clareza.»
Era notória, em AMVC, a má vontade contra mim e contra o livro, ao qual até não augurava «grande futuro». Mas ele, como leitor, poeta, e como crítico, embora já octogenário, confessava em público que não entendia as palavras que transcrevia (mal), como se fossem uma língua esquisita! Ora o livro ia na 2ª edição e de facto, até hoje, não encontrei uma criança que não compreenda a história - a vantagem da inocência!
Bem melhor recepção tiveram depois os meus livros (Tenho uma Ideia incluído) em http://www.casadaleitura.org/ igualmente da Gulbenkian.

sábado, 11 de abril de 2009

António M. Couto Viana e eu

Não cheguei a conhecer António Manuel Couto Viana, poeta, dramaturgo, actor, encenador, tradutor e etc. nascido em Viana do Castelo em 1923 e radicado na zona de Lisboa desde longa data. Não trocámos uma palavra, um simples olhar, pois, ao que julgo, nunca estivemos ambos num mesmo sítio e à mesma hora. Isso, porém, não o impediu de me detestar e desancar por simples motivos ideológicos.
No Dicionário Cronológico de Autores Portugueses (vol. V, 2000), Couto Viana aparece integrado, «sobretudo com a sua obra poética, no grupo daqueles que desde finais da década de quarenta se opunham ao neo-realismo, com uma obra que procurava reabilitar o culto do passado, da paisagem e dos amores tímidos e castos.» Quer dizer, opunha-se à corrente literária de esquerda que marcou o pós-guerra para defender posições e valores conservantistas bem tolerados pelo regime da ditadura.
A sua obra teatral dirigida às crianças, bem como a grande quantidade de livros que publicou também para crianças, evocam (acrescenta o Dicionário) um «paraíso infantil perdido», isto é, uma visão idílica da vida. Não admira, pois, que a literatura para crianças que me atrai fosse tida por António Manuel Couto Viana como execrável. Não me quedo, em tal terreno, a rimar flor com amor e muito menos a celebrar a catequese, a missa dominical ou festinhas da comunhão. Quero chegar mais longe, desafiando as imaginações infantis sem recurso a idealizações pueris «bonitinhas».
Todavia, quem faz crítica literária deve obedecer a regras de honestidade intelectual e abertura mental, além de lisura cívica. Deve analisar ou meramente explicar em cada livro o que é como é, não condená-lo em julgamento sumário porque lhe apetece. (Assim se justifica a minha ideia de que o crítico tanto lê o livro como o livro o «lê» a ele, abrindo-o.)
Pois o poeta, agora crítico, mimoseou-me com diversas picardias ao apreciar alguns dos meus livros para crianças enquanto colaborador da Fundação Gulbenkian. Em 1990 desconsiderou três contos de A Nuvem Cor-de-Rosa porque se «perdiam em nebulosas filosofias» e em linguagem «excessivamente poética»; em 1998, pediu «mais clareza» para A Bandeira Escondida, no qual um conto pecava por «pretensão literária» e «busca de originalidade»; em 1999, notou em O Mistério da Floresta Mágica uma «linguagem clara e depurada, embora sem grandes primores de estilo». Nunca os meus livros, em que via «beleza literária», lhe mereceram mais que três das cinco estrelas da tabela. Quando (re)surgi com Tenho uma Ideia (2006), Couto Viana descompôs-se para me descompor.
Num comentário mais longo, achou que não punha a minha prosa «ao serviço dos temas infantis, mas sim ao de mentalidades adultas». Mas tão-pouco as mentalidades adultas (como a dele próprio) conseguiam acompanhar-me em enredos «demasiado confusos»! No entanto, recomendava o livro para a idade dos 0-5 anos!
Tive que reagir ao ler o comentário em «Leituras», na Net. Opor a sua própria concepção de «literatura para crianças» à minha sem nada demonstrar não era aceitável. E havia mais, bem pior...