Queixam-se de que são uma classe profissional em vias de extinção e, de facto, são cada vez mais raras as barbearias. Não será isso apenas para nos obrigarem a estender a procura e a caminhar? Há motivos de sobra para dizer que não sou feliz com os barbeiros.
Podem fugir-nos de ao pé da porta para algures, longe, e rarearem como cervejas frias no deserto que nem por isso baixam o preçário. Fazem-nos esperar nos assentos da resignação uma hora, despacham-nos em sete minutos e pagam-se por este tempo à razão de um euro por minuto. No fim, de escova na mão, com toques simbólicos na indumentária, avezam mais um de gorjeta.
Um euro por minuto equivale a sessenta por hora. Nada mau para um fígaro, pois o aproxima em ganhos de especialistas, catedráticos e sumidades diversas. Tesourar uns pêlos reveste-se assim de uma auréola especial própria do oficiante que nos recebe, iniciado em arte cheia de mistérios.
Desde que, pela mão do meu pai, comecei a ir ao barbeiro e pela primeira vez me sentei na cadeira propiciatória, encolhi-me sob o manto que me envolveu como veste talar. Tinha a cara no espelho grande e, vendo-me, não me reconheci. Ouvia o tric-tric da tesoura, as suas batidas no pente junto das orelhas entre as conversas dos homens que prosseguiam apenas para disfarçar a solenidade do acto da criança inicianda.
Levo longos anos encolhido sob o manto, a celebrar o ritual sacrifício. Encaneceram-me os cabelos, luziu-me a calvície, alastrou a dita em coroa como incêndio na floresta. Restam-me umas dúzias de pêlos bem contados e nem assim me vejo livre das barbearias.
Diz o povo que os barbeiros têm pacto com o demo: sabem fazer-se indispensáveis nem que seja pela simples mancheia de penugem que nos reste. E têm artes de, em unânime consenso, quererem cortar-nos os cabelos dos cantos, nas têmporas, ainda que digamos que os queremos tal como estão. Trata-se, sem dúvida, de uma expropriação abusiva de um bem pessoal levado pela lâmina, o que levanta uma suspeita: o que ganharão os fígaros com isso?
Admirável é o consenso estabelecido pela classe quanto a desbastar a eito uns milímetros nos cantos. Falam pouco ou nada uns com os outros, devem dispor de técnicas de entendimento tácito que encontram paralelo apenas nuns tiques novos de expressão vocabular que de repente toda a gente partilha: falam de «mídia» em vez de media, «sendo que» em vez de porquanto, e sempre à última «da» hora...
Se há quem pense ainda que é difícil, hoje em dia, pôr um povo a falar pelos canais mediáticos a uma só voz, ponha o sentido neste milagre. Mas não sou feliz com barbeiros porque conversam com o freguês e, quando o diálogo fica interessante, perde-se em evasivas. Um deles abriu-se um dia e falou-me das cabeças tortas que com arte endireitava. Nunca mais consegui retomar tão fascinante conversa e nunca mais encontrei outro disposto a falar das cabeças tortas que lhe iam às mãos... [Ilustração: extraída de PowerPoint; sem indicação de autor.]





