domingo, 19 de julho de 2009

Avança a desestabilização

O que podemos considerar hoje em posição protegida pelo direito público mais respeitável? Aparentemente, quase nada; de qualquer maneira, cada vez menos. A desestabilização geral avança. A convulsão envolve imensos espaços e põe tudo a tremer.
Tome-se o caso espantoso das Honduras, onde o presidente democraticamente eleito foi posto no exílio por um golpe de Estado militar. Quer regressar pela legalidade, o povo aclama-o, enfrenta a repressão, e...?! Obama apela ao «diálogo», a negociação com os golpistas já traduz uma cedência crucial e uns quantos indagam quantos governos haverá em Washington.
Porém, o mais espantoso está na versão dos acontecimentos nas Honduras que tem corrido nos media portugueses. A falta de isenção que deveria ser apanágio da informação fica demonstrada ao acatar a propaganda dos golpistas que deturpa os factos. Alega que o presidente se preparava para, através de referendo, se perpetuar no poder, escondendo todavia que o referendo era perfeitamente democrático e que o mandato presidencial até estava no fim.
Uma sondagem de opinião documentaria a manipulação operada entre nós pelas notícias relativas ao caso. O público sintoniza o discurso da treta dos golpistas porque é esse o preponderante na informação. E não está apenas mal informado, está enganado.
A inspiração e a própria índole política do movimento golpista saltam aos olhos. São, descaradamente, de direita radical, isto é, antidemocrática. E os órgãos informativos portugueses, sem qualquer interesse objectivo no caso, dão-lhe franco apoio.
Como acreditar na soberania do povo, no sistema democrático, no regime da legalidade? Como esquecer que esta imprensa está concentrada em «boas mãos»? Como não repetir que meia verdade é mentira sobretudo quando se gera a mercantilização das notícias? [Por favor, unamo-nos, para que os senhores do mundo não nos tirem a Net, derradeiro canto de liberdade!]
A democracia é, não há dúvida, um sistema que pode admitir diversos aprofundamentos sem se negar. Mas não pode ter geometria variável: fechado aqui, alargado acolá, como funil em posições alternantes, de modo a servir causas espúreas. Até Salazar pretendia que o seu regime era uma democracia «orgânica».
Por este caminho tortuoso avança e avassala o mundo uma geral desestabilização, uma geral insegurança. Houve outros casos (Obama, a propósito da sua «abertura» com o Irão, lembrou o democrático Mossadegh derrubado em 1953 por ter nacionalizado o petróleo iraniano), e casos como o Governo republicano espanhol derrubado com guerra civil por Franco, golpe sangrento em El Salvador após vitória eleitoral comunista, Salvador Allende derrubado por Pinochet no Chile, etc., etc. E nem lembro os desmandos praticados em África aquando da descolonização...
Quem vai poder confiar nas afirmações que correm em público? Enfim, aumenta a distância entre cidadãos e políticos... até o dia em que aqueles baterão à porta destes a pedir-lhes contas.

domingo, 12 de julho de 2009

A idolatria das massas

A dimensão do espaço mediático expande-se incomensuravelmente. Parece que não tarda a abranger o mundo inteiro e a cantar vitória definitiva. Será então o momento de vermos em cena o Espectáculo Único transmitido em directo para o palco mundial.
Dois casos recentes o demonstram e anunciam: a apresentação de Ronaldo em Madrid e a morte e funeral de Michael Jackson. Canais de televisão, rádios e jornais competiram freneticamente para manter as massas, dias e dias, de olhos em alvo. Cheios até à cegueira total.
No primeiro caso, exibia-se o jogador de futebol como um troféu conquistado porque o clube paga por ele a brutalidade de uns 95 milhões. E o rapaz lá foi recebido no estádio com aplausos de 85 mil espectadores - que bem já o conheciam e que, felicíssimos, se deslumbraram vendo-o dar uns breves toques na bola - ao mesmo tempo que milhões de outros telespectadores de uma longa série de canais de tv e rádio transmitiam a cena na hora.
O segundo tomou a morte e a vida do cantor pop como os animais necrófagos devoram na selva as carnes putrefactas. Não vão largar o pitéu enquanto multidões inteiras não vomitarem de nojo e repulsa. As tristezas e misérias da vida do cantor, tal como algum misteriozinho notado na sua morte, até serviram para que o seu funeral fosse outro espectáculo gigantesco transmitido em directo.
Estes dois casos ocuparam imenso espaço mediático durante dias, num ensaio geral do que promete implantar-se e ser o Espectáculo Único. As massas estão a ficar prontas e maduras. Os senhores do mundo têm vindo a trabalhar para isso, a massificação (que, lembre-se, resulta numa tirania), avança.
As massas, porém, precisam de ídolos. Os ídolos, por sua vez, precisam de adoradores, adoração. O que foi possível ver no estádio que vitoriou Ronaldo foi, por um lado, os milhões que ele recebia pelo seu jogo de pernas, e por outro, a promessa sonhada de que outra pessoa, por exemplo tu ou eu, podem tornar-se milionárias, com um pouco de sorte, neste mundo que é um estádio onde se jogam os golos do futebol da vida.
Um ídolo é elevado à altura de um deus, categoria que um certo jornal dito de referência atribuiu a uns tantos numa página onde coube uma farturinha de «deuses». A um ídolo pop, que vendeu milhões de discos e faleceu deixando o mísero corpo crivado por incontáveis agulhas, também não falta magia trespassada pelo drama. No fim de contas, em última análise, as massas adoram estes ídolos como bezerros de ouro.
Diz-se por vezes que é ínfima a distância que vai de um ídolo a um deus e que as massas criam os deuses e os monstros de que necessitam para justificarem as suas esperanças, medos e terrores. Ora os problemas deste nosso tempo não pernitem grandes esperanças. Uma nuvem densa de medos e terrores avança sobre as massas cativas e subjugadas, que se resignam a consumir o que lhes levam à boca e metem pelos olhos - mais e mais do mesmo, cada vez mais do mesmo, a indigesta palha com sabores e cheiros de antigamente.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Não sou feliz com barbeiros

Queixam-se de que são uma classe profissional em vias de extinção e, de facto, são cada vez mais raras as barbearias. Não será isso apenas para nos obrigarem a estender a procura e a caminhar? Há motivos de sobra para dizer que não sou feliz com os barbeiros.
Podem fugir-nos de ao pé da porta para algures, longe, e rarearem como cervejas frias no deserto que nem por isso baixam o preçário. Fazem-nos esperar nos assentos da resignação uma hora, despacham-nos em sete minutos e pagam-se por este tempo à razão de um euro por minuto. No fim, de escova na mão, com toques simbólicos na indumentária, avezam mais um de gorjeta.
Um euro por minuto equivale a sessenta por hora. Nada mau para um fígaro, pois o aproxima em ganhos de especialistas, catedráticos e sumidades diversas. Tesourar uns pêlos reveste-se assim de uma auréola especial própria do oficiante que nos recebe, iniciado em arte cheia de mistérios.
Desde que, pela mão do meu pai, comecei a ir ao barbeiro e pela primeira vez me sentei na cadeira propiciatória, encolhi-me sob o manto que me envolveu como veste talar. Tinha a cara no espelho grande e, vendo-me, não me reconheci. Ouvia o tric-tric da tesoura, as suas batidas no pente junto das orelhas entre as conversas dos homens que prosseguiam apenas para disfarçar a solenidade do acto da criança inicianda.
Levo longos anos encolhido sob o manto, a celebrar o ritual sacrifício. Encaneceram-me os cabelos, luziu-me a calvície, alastrou a dita em coroa como incêndio na floresta. Restam-me umas dúzias de pêlos bem contados e nem assim me vejo livre das barbearias.
Diz o povo que os barbeiros têm pacto com o demo: sabem fazer-se indispensáveis nem que seja pela simples mancheia de penugem que nos reste. E têm artes de, em unânime consenso, quererem cortar-nos os cabelos dos cantos, nas têmporas, ainda que digamos que os queremos tal como estão. Trata-se, sem dúvida, de uma expropriação abusiva de um bem pessoal levado pela lâmina, o que levanta uma suspeita: o que ganharão os fígaros com isso?
Admirável é o consenso estabelecido pela classe quanto a desbastar a eito uns milímetros nos cantos. Falam pouco ou nada uns com os outros, devem dispor de técnicas de entendimento tácito que encontram paralelo apenas nuns tiques novos de expressão vocabular que de repente toda a gente partilha: falam de «mídia» em vez de media, «sendo que» em vez de porquanto, e sempre à última «da» hora...
Se há quem pense ainda que é difícil, hoje em dia, pôr um povo a falar pelos canais mediáticos a uma só voz, ponha o sentido neste milagre. Mas não sou feliz com barbeiros porque conversam com o freguês e, quando o diálogo fica interessante, perde-se em evasivas. Um deles abriu-se um dia e falou-me das cabeças tortas que com arte endireitava. Nunca mais consegui retomar tão fascinante conversa e nunca mais encontrei outro disposto a falar das cabeças tortas que lhe iam às mãos... [Ilustração: extraída de PowerPoint; sem indicação de autor.]

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Um mar de mentiras

O jornal que me suja os dedos e não sei que mais anunciou há dias que esta crise liquidou 700 milionários no nosso país. Ninguém chorou, que se saiba, com pena deles pois aquelas centenas de milionários não deixaram de o ser por terem distribuído pelos pobres o que possuíam. As suas fortunas, simplesmente, tinham-se sumido sem proveito para alguém com verdadeira necessidade.
Eram vítimas do jogo que jogavam, o mesmo jogo que os terá enriquecido, mas o jornal omitia este lado da questão nem referia que os milionários continuavam decerto longe da condição de pobres e, quem sabe, prontinhos para emendar o destino. Com efeito, os jornais , e em geral os media generosos, habituaram-se a dar dos factos meia verdade. Ora, como se sabe, meia verdade é uma grande mentira.
A informação transformou-se numa indústria de «conteúdos» não menos alienantes do que a circulação de produtos da cultura pimba. A relação entre a realidade dos factos principais que a todos nos importam e as notícias diárias enfraqueceu-se até quase desaparecer como coisa de somenos, incómoda ou negligenciável. Passámos a vogar na ondeação de um mar de mentiras.
A deriva começou sob a desculpa de que a informação, devidamente contextualizada, ocupava muito espaço. Tornava-se maçadora para quem a pretendia breve, rápida, sintética, ágil, isto é, para quem queria aceder aos factos e só aos factos do dia. Acabámos imersos numa literatura sobre a realidade feita por discursos diversos proliferantes mas homogeneizados e afins sobre os factos da realidade.
A informação vital sobre as questões determinantes foi-se distanciando e ficando sonegada em níveis cada vez mais elevados. Mesmo nas administrações (da governação, das instituições públicas, das empresas), vai-se reduzindo o número de indivíduos com conhecimento cabal do conjunto de segredos que de algum modo os implicam. Têm portanto um conhecimento parcial e não global, ou actualizado, do que lhes toca.
O dramatismo incrível a que chegámos nesta situação sente-se e pode medir-se quando simples conversas, nos contactos interpessoais quotidianos, nos deixam estarrecidos ao revelarem a desinformação instalada em gente informada. Ouçamos, por exemplo, a lojista mãe de aluno no ensino básico a falar da luta dos professores por um outro estatuto da carreira. Ou, noutro caso, trate-se do rendimento mínimo, da percentagem dos desempregados, das fraudes e das ganâncias dos banqueiros, dos efeitos reais do programa agrícola comum, da dívida da Estado... Misturemo-nos com intelectuais e ouçamo-los opinar sobre os direitos dos palestinianos ocupados e combatidos por Israel, o 11 de Setembro, a invasão do Iraque, a posição do Irão ou da Coreia do Norte perante os Estados Unidos e o Conselho de Segurança...
Abra então a boca quem dispõe de informação bebida em fontes alternativas. Será olhado com estranheza, como um extraterrestre. A língua que fala será estrangeira, suspeitosa, incompreensível. Um mundo de mentiras alagou os espaços públicos e vai formatando sem cessar as consciências, embalando-as num sonho irreal. Quando as massas acordarem, um dia, voará tudo no fragor de um imparável explosão. [Ilustração: de Edgar Mueller, artista alemão que pinta ilusões de óptica no piso das ruas.]

quinta-feira, 18 de junho de 2009

De olhos nos olhos

Estou a vê-la lá fora, na esplanada do café, numa cadeira que a coloca à`frente do vidro. Parece que os nossos olhares se cruzam, ficamos por momentos de olhos nos olhos, mas eu estou na sombra do interior, sei que sou invisível e que ela, rapariga de radiosa juventude, apenas se contempla espelhada no vidro. Conversa com outra jovem, sentada diante dela, decerto um pouco mais idosa pois já é mãe. Tem ao seu lado um carrinho de bebé para o qual se inclina enquanto conversa.
Tenho tempo de sobra não apenas para degustar a bebida, também para me perder em divagações, contemplações, minúcias várias. A rapariga acende agora um cigarro, talvez mais um (não sei, estou a chegar), é fumadora, motivo por que se sentou lá fora com a amiga. Imagino que está a pedir confidências à recém-casada, quer saber como é uma vida conjugal, ter sexo regular, ser mãe, lida doméstica.
A luz filtrada pelo toldo põe a resplandecer a pele doirada da rapariga que um decote generoso mas não exagerado descobre até às espáduas, onde poisa o feixe de cabelos compridos, enrolados na nuca, que lhe cai até o sovaco. Tem óculos de sol encarrapitados no coruto da cabeça. Perguntem-me e eu direi que conversam em voz baixa, ainda que o ruído do trânsito possa envolver numa amálgama o som das frases.
A rapariga pega no telemóvel e fotografa o bebé deitado no carrinho. Continuam a falar, são sem dúvida amigas íntimas, uma casou-se e hoje, por fim, encontrou-se com a amiga solteira para renovar a amizade. Naturalmente, esta sente uma ponta de inveja da outra, já casada e mãe, enquanto ela própria...
Terá, ao menos, namorado? Saberá de quantas outras moças da sua idade não conseguem encontrar quem? Idealiza o seu casamento com todos os pormenores e requintes para preencher o vazio emocional que vai crescendo?
Uma jovem de vinte anos, assim bonita, olha para o mundo entendendo-o como se tivesse sido criado para ela e que, sendo assim, apenas precisa de o abraçar para o fazer seu. Custa-lhe a acreditar que este mundo não está à sua espera nem está preparado para a receber e que tão-pouco sente a pressa de viver que a galvaniza, a pressão aguda de todas as suas expectativas a adiar-se no tempo.
Deve pensar que é «única», um caso especial autêntico, tão especial que acharia espantoso que um desconhecido idoso como eu, a observá-la desta minha concha de sombra, estivesse a percebê-la nestes termos. Se as minhas percepções forem ajustadas e certeiras, conforme creio, ela duvidará da minha compreensão e perguntará quem me informou do que sei. Mas eu poderia explicar-lhe coisas simples embora inacreditáveis.
Os pais da rapariga, e os pais dos pais, e os amigos da família, todos terão querido um mundo diferente deste para dar a esta filha. Mesmo eu, um desconhecido que com ela de vez em quando fica de olhos nos olhos, queria para ela melhor sorte. Não a tem e todavia ninguém se sente culpado. O tempo que lhe cabe viver é por infelicidade o da imensa abolição dos sentimentos, da fragilidade das relações interpessoais, da geral desumanização. A beleza plena da juventude, a força maravilhosa dos seus sonhos, tudo cabe no triturador que tudo esmaga e deixa numa boçal banalidade. [Ilustração: pintura de alunos da escola EB 2-3 Dr. Carlos Pinto Ferreira, Junqueira, Vila do Conde.]

terça-feira, 9 de junho de 2009

Vendo na gota o oceano

Caminho por esta avenida desde há uns cinquenta anos. Encontrava-a então com a louçania da novidade. Era poiso da burguesia abastada, invisível para além dos muros das suas amplas e ostentosas mansões. Todas exibiam estes espaços ajardinados com entradas de garagem.
Era agradável caminhar por aqui, pelos passeios orlados de arvoredo. Jovens criadas devidamente fardadas passeavam bebés nos carrinhos das senhoras. Não eram largos apenas os passeios, também a avenida se estendia de lado a lado no sossego de coisa adormecida a crescer ao sol.
Evoco estas imagens confrontando o antes com o agora. Antigamente, o trânsito era escasso e corria nos dois sentidos. Agora segue em sentido único e a fila abunda de ligeiros e pesados. E já não aparecem carrinhos de bebés.
Os moradores antigos saíam de manhã para as suas empresas, localizadas nos arrabaldes; hoje moram nos arrabaldes e vêm trabalhar na cidade.
Em cinquenta anos, os bebés cresceram, já não moram aqui. A avenida que foi poiso da burguesia abastada (a brilhar com nome do país tido como pátria da cultura europeia desde a sua Grande Revolução) tem as moradias ocupadas não com famílias e sim com negócios. As fábricas e fabriquetas de antigamente fecharam onde estavam, os donos descartaram-se de empregados e converteram-se ao novo paradigma.
Estas moradias, aparatosas mansões, albergam agora empresas diversas, de pouquíssimo pessoal. Aparentemente, nenhuma esbarrou com dificuldades burocráticas quando quis deixar de ser habitação para ter outra serventia. Ou, se teve dificuldades, soube resolvê-las.
Umas poucas estão a ficar decrépitas, desabitadas e ao abandono. Contrastam no ambiente da avenida, mas os negócios em geral não estão agora propriamente risonhos e em expansão. Pelo menos para os que ficaram, como «vencidos da vida», sem esperteza para trabalhar com importações, transportes marítimos, seguros, sociedades financeiras e etc...
Numa esquina próxima, uma destas moradias serviu para acolher um novo banco quando foi criado, há anos. Provavelmente, o seu dono passou a ser um dos novos banqueiros. As três letras do acrónimo desse banco andam por sinal, há meses, nas bocas do mundo.
Uma avenida não é uma cidade e uma cidade não é um país. Estamos entendidos. Mas acaso não poderemos ver, numa simples gota de água, o oceano?
Vejamos. A luz do sol concentra-se na gota até a fazer brilhar como um diamante. Se a encontramos a repousar em cima de uma folha verde, mostra-nos as nervuras dessa folha. Ajuda-nos, portanto, a ver com mais luz essa imagem ampliada.

domingo, 31 de maio de 2009

Como ler um dicionário


São de vário género os dicionários existentes. Quase todos, porém, partilham a característica distintiva: contêm informação útil. Servem para consultas, tirar-dúvidas ou tirar-teimas. Mas um dicionário, pelo menos, pede propriamente uma leitura. Não aspira a ser consultado apenas pelas entradas que contém, quer também suscitar uma apreciação de outro nível.
É o caso do dicionário que publiquei em 2001 para recensear os escritores, artistas, músicos, poetas e animadores de teatro popular nascidos ou ligados de algum modo à Bairrada. Embora servindo para o que todo o dicionário serve, pede uma abordagem diferente. Será esta uma opinião suspeita? Passo a explicar.
Pela primeira vez, ao que parece, aquela obra tentou coligir todos os autores (então já falecidos) que constituíram e de algum modo compuseram o mosaico da «paisagem cultural» de uma região caracterizada. E eis o que fica então à vista: as circulações e práticas culturais, nas suas variadas corporizações vivas ali ocorridas ao longo do tempo. O meu dicionário oferece uma visão panorâmica da imagem do que tem sido «cultura» na Bairrada até aos nossos dias.
Surpreende decerto que a obra recenseie uns 170 autores tendo em conta a relativa pequenez e o ambiente rústico tradicional do espaço em foco. Mas a Bairrada, planície baixa bastante fértil situada entre Aveiro e Coimbra, quase bate à porta da lusa-Atenas, o que poderá explicar alguma coisa. Além disso, como é natural, sempre houve bairradinos cultos que se enraizaram na região enquanto outros se dispersaram. A obra referencia mesmo autores de origem externa que, por relações pessoais de amizade ou outras, marcaram presença na terra do vinho e do leitão, colaborando nos seus jornais ou deixando intervenção memorável.
É notório, de facto, o relevo que a região atinge graças a obras devidas a vultos como António Feliciano de Castilho (autor do romance Mil e um Mistérios) cuja juventude ficou tão ligada à terra natal de seu pai, ou como António Augusto de Aguiar, Fialho de Almeida, Machado de Castro, António Lima Fragoso, Manuel Rodrigues Lapa, Alexandre da Conceição, António de Cértima, Tomás da Fonseca (revelou o Poeta-Cavador, escreveu o romance Filha de Labão), Samuel Maia, Emídio Navarro, Visconde de Seabra, Fausto Sampaio, Luís de Albuquerque, Arlindo Vicente, e tantos, tantos mais. Compuseram música e poesia, pintaram, escreveram ficções, estudos… Alguns destes autores principais dispõem de informação acessível, mas o Dicionário de Autores da Bairrada referencia imensos outros que andam omissos ainda que tenham avultado no seu tempo. E será o único a registar as ligações de todos à Bairrada.
Com este «modelo», decerto algo inovador, o dicionário dá a ver a realidade de um movimento cultural no terreno, percebendo quanto sai do espaço regional para o espaço nacional, e vice-versa. Admirará que uma segunda edição digital, corrigida e aumentada, esteja em oferta para descarga neste blogue porque a reedição impressa ficou inédita? Era resultado previsível atendendo à rareza do conceito «região» entre nós, em divergência, por exemplo, com Franceses ou Espanhóis.