domingo, 30 de agosto de 2009

«Arre, porra, que é demais!»

Um amigo dos velhos, que são dos melhores, mandou-me para a caixa de correio um e-mail com os versos assim intitulados. A autora, identificada, foi sua antiga condiscípula e continua a ser dele uma amiga. Li o texto e também achei graça. Apreciem-nos como eu, saudando MLM, autora de poemas já publicados em dois volumes.


Portugal tem grandes vidas
Carros de luxo e mansões
Ensina a viver de dívidas
E a jogar no euromilhões

Ai este povo enganado
Vai andar sempre de banda
É agora e no passado
Quando a banca era a Holanda

Para a corte e outros mais
Terem palácios e nome
Este povo de mortais
Como dantes, passa fome

Ensinar às nossas gentes
Que o bom é viver à larga
E à custa de expedientes
É a herança mais amarga

Trabalho qualificado?
Sim senhor, seja o que for
Mas aqui no endividado
Corre tudo a ser dótor

Educação? E o exemplo?
Valores? Quem pode exigir?
Quando melhor neste tempo
É ter dívidas, mentir?!...

Portugal tem grandes vidas
E até dá boas esmolas
E cada um que se vire
Nos hospitais, nas escolas

Nos campos, no mar, a gente
Os portugueses mortais
Gritam como antigamente:
Arre, porra, que é demais!...

MLM/2009

Mundo de contrastes


Um estudo recente de Emmanuel Saez, da Universidade de Califórnia, indica que, em 2007, apenas 0,01% dos mais ricos do mundo têm 1.080 vezes mais de rendimento médio do que 90% da base social (os mais pobres).
No ano seguinte, 2008, esta desproporção, já tão dramática, agravou-se sem dúvida ainda mais.
Por aí se contempla, em visão panorâmica, o crescimento dos contrastes violentos que estão a invadir e a marcar a fogo o nosso tempo, onde há gente sem abrigo a dormir nas ruas, a morar em casebres e casas assim assim, ao lado de mansões e prédios em condomínios fechados com piscinas postas nem que seja em varandas de engenho arquitectónico.
Mas sabe-se perfeitamente que tamanha acumulação da riqueza exprime uma proporcional violência, banalizada pela expansão da desvalorização da condição humana e pelo alastrar contínuo da miséria e do desemprego. A manipulação das consciências, outra forma de opressão, fomenta as marginalidades cívicas, culturais, sociais - a alienação.
Este mundo em crise estrutural parece maduro para o desencadear de outra guerra, que mais uma vez será «a última» se Deus quiser. Mas cuidem-se os senhores do mundo. Talvez venha a ser inesperadamente perigoso o disparo do conflito político-social na presente conjuntura. Talvez as massas então se mobilizem espontaneamente, numa revolta cega, incontível, para, em crescentes avalanchas, avançarem contra tudo o que vejam como «alheio» e tudo destruam e arrasem sem uma ideia, um programa de acção, um líder e, ainda menos, um partido, apenas pelo gosto de destruir algo que, como quem enfim pode «desabafar», sintam quantos nada têm. Será então das massas anárquicas em revolta o mundo dos senhores.
Eis a reflexão atinente ao fim deste Agosto que decorreu sem os sóis que deixam as areias a escaldar e as águas tépidas. Se são infaustas as novas trazidas pelo mensageiro, ordenem ao carrasco que o decapite, ele habituou-se a morrer por cada má notícia que anuncia.

domingo, 26 de julho de 2009

Em Agosto, férias

Não é sorte do cronista, é imposição da canícula: estamos a poucas folhas do mês de Agosto, vamos então respirar as frescas brisas de umas férias. O cronista reivindica uma deserção anual deste espaço (que de resto não troca por maresia da praia, ar seco da montanha ou verduras de turismo rural). Mas podem acreditar no seu regresso.
Estamos, pois, no período em que o movimento nas cidades se acalma ao ponto de as tornar sonolentas, o que quer dizer habitáveis. Os locais comerciais aparecem fechados «para férias» e os cães ficam abandonados pelos seus donos. Uns tantos pais perguntam-se onde poderiam deixar entregues os filhos para poderem ir descansados...
Será bom lembrar, nestes dias quentes, uns vídeos que têm andado a circular na Net, alguns dos quais produzidos pela National Geographic? Mostram comportamentos de animais ditos irracionais mas tão «humanos» que se tornam admiráveis como lições vivas de verdadeira humanidade.
É, por exemplo, o caso visto de uma chita esfomeada que caça uma macaca para se alimentar e, no momento em que vai devorá-la, a fêmea, grávida, dá à luz; outras feras acodem a disputar a presa, a chita aboca a cria e foge para um ramo alto, salvando-a (mas continuando esfomeada), limpa-lhe o pêlo, cuida dela e protege-a.
Vários vídeos exibiram uma porca a adoptar uma cria como se fosse sua embora viesse de espécie diferente e que estaria condenada a sucumbir ao abandono; e outros casos do mesmo género repetiam-se proporcionando surpresas sucessivas.
Cenas tais dão vontade de pedir a certos progenitores, que até desejam que as escolinhas funcionem todo o ano sem interrupções, para que aprendam a comportar-se em casa como as feras irracionais na selva, dizendo-lhes:
- Paizinhos, sejam como animais para os vossos filhos!

domingo, 19 de julho de 2009

Avança a desestabilização

O que podemos considerar hoje em posição protegida pelo direito público mais respeitável? Aparentemente, quase nada; de qualquer maneira, cada vez menos. A desestabilização geral avança. A convulsão envolve imensos espaços e põe tudo a tremer.
Tome-se o caso espantoso das Honduras, onde o presidente democraticamente eleito foi posto no exílio por um golpe de Estado militar. Quer regressar pela legalidade, o povo aclama-o, enfrenta a repressão, e...?! Obama apela ao «diálogo», a negociação com os golpistas já traduz uma cedência crucial e uns quantos indagam quantos governos haverá em Washington.
Porém, o mais espantoso está na versão dos acontecimentos nas Honduras que tem corrido nos media portugueses. A falta de isenção que deveria ser apanágio da informação fica demonstrada ao acatar a propaganda dos golpistas que deturpa os factos. Alega que o presidente se preparava para, através de referendo, se perpetuar no poder, escondendo todavia que o referendo era perfeitamente democrático e que o mandato presidencial até estava no fim.
Uma sondagem de opinião documentaria a manipulação operada entre nós pelas notícias relativas ao caso. O público sintoniza o discurso da treta dos golpistas porque é esse o preponderante na informação. E não está apenas mal informado, está enganado.
A inspiração e a própria índole política do movimento golpista saltam aos olhos. São, descaradamente, de direita radical, isto é, antidemocrática. E os órgãos informativos portugueses, sem qualquer interesse objectivo no caso, dão-lhe franco apoio.
Como acreditar na soberania do povo, no sistema democrático, no regime da legalidade? Como esquecer que esta imprensa está concentrada em «boas mãos»? Como não repetir que meia verdade é mentira sobretudo quando se gera a mercantilização das notícias? [Por favor, unamo-nos, para que os senhores do mundo não nos tirem a Net, derradeiro canto de liberdade!]
A democracia é, não há dúvida, um sistema que pode admitir diversos aprofundamentos sem se negar. Mas não pode ter geometria variável: fechado aqui, alargado acolá, como funil em posições alternantes, de modo a servir causas espúreas. Até Salazar pretendia que o seu regime era uma democracia «orgânica».
Por este caminho tortuoso avança e avassala o mundo uma geral desestabilização, uma geral insegurança. Houve outros casos (Obama, a propósito da sua «abertura» com o Irão, lembrou o democrático Mossadegh derrubado em 1953 por ter nacionalizado o petróleo iraniano), e casos como o Governo republicano espanhol derrubado com guerra civil por Franco, golpe sangrento em El Salvador após vitória eleitoral comunista, Salvador Allende derrubado por Pinochet no Chile, etc., etc. E nem lembro os desmandos praticados em África aquando da descolonização...
Quem vai poder confiar nas afirmações que correm em público? Enfim, aumenta a distância entre cidadãos e políticos... até o dia em que aqueles baterão à porta destes a pedir-lhes contas.

domingo, 12 de julho de 2009

A idolatria das massas

A dimensão do espaço mediático expande-se incomensuravelmente. Parece que não tarda a abranger o mundo inteiro e a cantar vitória definitiva. Será então o momento de vermos em cena o Espectáculo Único transmitido em directo para o palco mundial.
Dois casos recentes o demonstram e anunciam: a apresentação de Ronaldo em Madrid e a morte e funeral de Michael Jackson. Canais de televisão, rádios e jornais competiram freneticamente para manter as massas, dias e dias, de olhos em alvo. Cheios até à cegueira total.
No primeiro caso, exibia-se o jogador de futebol como um troféu conquistado porque o clube paga por ele a brutalidade de uns 95 milhões. E o rapaz lá foi recebido no estádio com aplausos de 85 mil espectadores - que bem já o conheciam e que, felicíssimos, se deslumbraram vendo-o dar uns breves toques na bola - ao mesmo tempo que milhões de outros telespectadores de uma longa série de canais de tv e rádio transmitiam a cena na hora.
O segundo tomou a morte e a vida do cantor pop como os animais necrófagos devoram na selva as carnes putrefactas. Não vão largar o pitéu enquanto multidões inteiras não vomitarem de nojo e repulsa. As tristezas e misérias da vida do cantor, tal como algum misteriozinho notado na sua morte, até serviram para que o seu funeral fosse outro espectáculo gigantesco transmitido em directo.
Estes dois casos ocuparam imenso espaço mediático durante dias, num ensaio geral do que promete implantar-se e ser o Espectáculo Único. As massas estão a ficar prontas e maduras. Os senhores do mundo têm vindo a trabalhar para isso, a massificação (que, lembre-se, resulta numa tirania), avança.
As massas, porém, precisam de ídolos. Os ídolos, por sua vez, precisam de adoradores, adoração. O que foi possível ver no estádio que vitoriou Ronaldo foi, por um lado, os milhões que ele recebia pelo seu jogo de pernas, e por outro, a promessa sonhada de que outra pessoa, por exemplo tu ou eu, podem tornar-se milionárias, com um pouco de sorte, neste mundo que é um estádio onde se jogam os golos do futebol da vida.
Um ídolo é elevado à altura de um deus, categoria que um certo jornal dito de referência atribuiu a uns tantos numa página onde coube uma farturinha de «deuses». A um ídolo pop, que vendeu milhões de discos e faleceu deixando o mísero corpo crivado por incontáveis agulhas, também não falta magia trespassada pelo drama. No fim de contas, em última análise, as massas adoram estes ídolos como bezerros de ouro.
Diz-se por vezes que é ínfima a distância que vai de um ídolo a um deus e que as massas criam os deuses e os monstros de que necessitam para justificarem as suas esperanças, medos e terrores. Ora os problemas deste nosso tempo não pernitem grandes esperanças. Uma nuvem densa de medos e terrores avança sobre as massas cativas e subjugadas, que se resignam a consumir o que lhes levam à boca e metem pelos olhos - mais e mais do mesmo, cada vez mais do mesmo, a indigesta palha com sabores e cheiros de antigamente.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Não sou feliz com barbeiros

Queixam-se de que são uma classe profissional em vias de extinção e, de facto, são cada vez mais raras as barbearias. Não será isso apenas para nos obrigarem a estender a procura e a caminhar? Há motivos de sobra para dizer que não sou feliz com os barbeiros.
Podem fugir-nos de ao pé da porta para algures, longe, e rarearem como cervejas frias no deserto que nem por isso baixam o preçário. Fazem-nos esperar nos assentos da resignação uma hora, despacham-nos em sete minutos e pagam-se por este tempo à razão de um euro por minuto. No fim, de escova na mão, com toques simbólicos na indumentária, avezam mais um de gorjeta.
Um euro por minuto equivale a sessenta por hora. Nada mau para um fígaro, pois o aproxima em ganhos de especialistas, catedráticos e sumidades diversas. Tesourar uns pêlos reveste-se assim de uma auréola especial própria do oficiante que nos recebe, iniciado em arte cheia de mistérios.
Desde que, pela mão do meu pai, comecei a ir ao barbeiro e pela primeira vez me sentei na cadeira propiciatória, encolhi-me sob o manto que me envolveu como veste talar. Tinha a cara no espelho grande e, vendo-me, não me reconheci. Ouvia o tric-tric da tesoura, as suas batidas no pente junto das orelhas entre as conversas dos homens que prosseguiam apenas para disfarçar a solenidade do acto da criança inicianda.
Levo longos anos encolhido sob o manto, a celebrar o ritual sacrifício. Encaneceram-me os cabelos, luziu-me a calvície, alastrou a dita em coroa como incêndio na floresta. Restam-me umas dúzias de pêlos bem contados e nem assim me vejo livre das barbearias.
Diz o povo que os barbeiros têm pacto com o demo: sabem fazer-se indispensáveis nem que seja pela simples mancheia de penugem que nos reste. E têm artes de, em unânime consenso, quererem cortar-nos os cabelos dos cantos, nas têmporas, ainda que digamos que os queremos tal como estão. Trata-se, sem dúvida, de uma expropriação abusiva de um bem pessoal levado pela lâmina, o que levanta uma suspeita: o que ganharão os fígaros com isso?
Admirável é o consenso estabelecido pela classe quanto a desbastar a eito uns milímetros nos cantos. Falam pouco ou nada uns com os outros, devem dispor de técnicas de entendimento tácito que encontram paralelo apenas nuns tiques novos de expressão vocabular que de repente toda a gente partilha: falam de «mídia» em vez de media, «sendo que» em vez de porquanto, e sempre à última «da» hora...
Se há quem pense ainda que é difícil, hoje em dia, pôr um povo a falar pelos canais mediáticos a uma só voz, ponha o sentido neste milagre. Mas não sou feliz com barbeiros porque conversam com o freguês e, quando o diálogo fica interessante, perde-se em evasivas. Um deles abriu-se um dia e falou-me das cabeças tortas que com arte endireitava. Nunca mais consegui retomar tão fascinante conversa e nunca mais encontrei outro disposto a falar das cabeças tortas que lhe iam às mãos... [Ilustração: extraída de PowerPoint; sem indicação de autor.]

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Um mar de mentiras

O jornal que me suja os dedos e não sei que mais anunciou há dias que esta crise liquidou 700 milionários no nosso país. Ninguém chorou, que se saiba, com pena deles pois aquelas centenas de milionários não deixaram de o ser por terem distribuído pelos pobres o que possuíam. As suas fortunas, simplesmente, tinham-se sumido sem proveito para alguém com verdadeira necessidade.
Eram vítimas do jogo que jogavam, o mesmo jogo que os terá enriquecido, mas o jornal omitia este lado da questão nem referia que os milionários continuavam decerto longe da condição de pobres e, quem sabe, prontinhos para emendar o destino. Com efeito, os jornais , e em geral os media generosos, habituaram-se a dar dos factos meia verdade. Ora, como se sabe, meia verdade é uma grande mentira.
A informação transformou-se numa indústria de «conteúdos» não menos alienantes do que a circulação de produtos da cultura pimba. A relação entre a realidade dos factos principais que a todos nos importam e as notícias diárias enfraqueceu-se até quase desaparecer como coisa de somenos, incómoda ou negligenciável. Passámos a vogar na ondeação de um mar de mentiras.
A deriva começou sob a desculpa de que a informação, devidamente contextualizada, ocupava muito espaço. Tornava-se maçadora para quem a pretendia breve, rápida, sintética, ágil, isto é, para quem queria aceder aos factos e só aos factos do dia. Acabámos imersos numa literatura sobre a realidade feita por discursos diversos proliferantes mas homogeneizados e afins sobre os factos da realidade.
A informação vital sobre as questões determinantes foi-se distanciando e ficando sonegada em níveis cada vez mais elevados. Mesmo nas administrações (da governação, das instituições públicas, das empresas), vai-se reduzindo o número de indivíduos com conhecimento cabal do conjunto de segredos que de algum modo os implicam. Têm portanto um conhecimento parcial e não global, ou actualizado, do que lhes toca.
O dramatismo incrível a que chegámos nesta situação sente-se e pode medir-se quando simples conversas, nos contactos interpessoais quotidianos, nos deixam estarrecidos ao revelarem a desinformação instalada em gente informada. Ouçamos, por exemplo, a lojista mãe de aluno no ensino básico a falar da luta dos professores por um outro estatuto da carreira. Ou, noutro caso, trate-se do rendimento mínimo, da percentagem dos desempregados, das fraudes e das ganâncias dos banqueiros, dos efeitos reais do programa agrícola comum, da dívida da Estado... Misturemo-nos com intelectuais e ouçamo-los opinar sobre os direitos dos palestinianos ocupados e combatidos por Israel, o 11 de Setembro, a invasão do Iraque, a posição do Irão ou da Coreia do Norte perante os Estados Unidos e o Conselho de Segurança...
Abra então a boca quem dispõe de informação bebida em fontes alternativas. Será olhado com estranheza, como um extraterrestre. A língua que fala será estrangeira, suspeitosa, incompreensível. Um mundo de mentiras alagou os espaços públicos e vai formatando sem cessar as consciências, embalando-as num sonho irreal. Quando as massas acordarem, um dia, voará tudo no fragor de um imparável explosão. [Ilustração: de Edgar Mueller, artista alemão que pinta ilusões de óptica no piso das ruas.]