Há afirmações óptimas: explicam claramente muita coisa mas, decerto por isso mesmo, deixaram de se ouvir e repetir. Uma afirmação óptima é a que aponta a procura de lucro para explicar a origem das crises que afectam periodicamente, com maior ou menor gravidade, o sistema capitalista. Mas, na verdade, não é outro o objectivo principal das forças que intervém no mercado.A produção de bens orientada para o lucro - e não, desejavelmente, para as reais necessidades da população - determina a acumulação dos bens mais lucrativos no mercado que uma publicidade intensificada até ao frenesim tentará escoar quando os consumidores já desistem por escassez de dinheiro ou de crédito.
É possível distinguir nos traços da crise económico-financeira actual as marcas de tal situação (em resultado do comportamento da especulação financeira gananciosa e fraudulenta), de modo que, se bem pensarmos, estaremos prontos para encarar sem erro três ou quatro erres absolutamente imperiosos e oportunos caso queiramos poupar-nos a mais crises calamitosas como esta. Na verdade, a conjuntura mundial empurra-nos de encontro às seguintes disposições fundamentais:
Reduzir os consumos descartáveis;
Reciclar o mais possível, com regras;
Reutilizar para poupar.
Encolher os ombros, adiar mudanças urgentes, persistir na atitude da indiferença vai apressar o fim. O petróleo tem os seus dias contados e essa alteração socioeconómica determinará uma tremenda alteração global das actuais formas de vida nos planos económicos e sociais. Mas à míngua do petróleo se acrescentará a escassez de água potável, a poluição do ar, da terra e do subsolo, o desemprego, o degelo, as ondas de emigrantes e refugiados... Haverá menos viagens e deslocações, mais carestia, logo a imposição de hábitos frugais, espartanos.
O planeta acumulou problemas ingentes e não tem soluções, apenas paliativos e adiamentos. A crise económico-financeira actual acelerou a exigência de respostas políticas realmente corajosas e eficazes que sem dúvida serão tanto mais difíceis quanto mais se atrasem até rastilharem uma nova guerra. Descarte-se desde já o sonho impossível de um crescimento contínuo dos dados da economia e uma elevação dos níveis gerais de conforto e bem-estar.
A conjuntura convida-nos a rever os nossos queridos modelos de vida e a regressar de alguma maneira a comportamentos mais amigos do ambiente, atentos à renovação dos recursos naturais e aos destinos do lixo produzido. Mudanças dolorosas, sem dúvida, que não serão aceites sem resistência e sem desgosto, pois se impõem e são decisivas. Tardarão certamente a implantar-se no terreno, atrasadas pelos egoísmos loucos e as cegueiras colectivas, mas hão-de contribuir para deixar o mundo mais harmonizado, mais humano e mais pacífico - ou seja, menos brutal e incivilizado. [Imagem: pintura "Extase de lirios", de Octávio Ocampo (México, 1943): fisionomia composta com figuras embebidas. Clique para ampliar.]





