sexta-feira, 16 de outubro de 2009

ADVERTÊNCIA

Advirto os amigos de que este blogue vai manter-se sem novos posts durante um mês ou, no máximo, dois. Todavia, se alguma migalha de disponibilidade surgir neste período, é bem possível que o «jejum» venha a ser quebrado. Motivo: tenho que concentrar tempos e energias para atender a um compromisso absorvente. É só isso. Portanto, vou ali e volto já! 

O sentido das coisas

Atribuir o Nobel da Paz a Barack Obama foi um óbvio gesto político. Nada desprestigiante para quem o dava ou para quem o recebia, tudo pelo contrário. Porém, ouviram-se resmungos: o prémio podia condicionar o presidente da América, deixando-o metido num colete de forças...
Os resmungos percorreram o mundo. Mesmo no canteiro nacional houve gente fina preocupada que desejou e pediu a Obama para não descurar nunca a «segurança», como se a lusa gente fosse americana, moradora numa imperial rua do Far West, e o presidente ali fosse o xerife de revólveres à cinta. Ou como se o prémio lhe tirasse da mão os revólveres.
Para além de todas as conjecturas, admite-se como certo que a atribuição do prémio dá força à causa global da paz, mas nesta base é que poderá estranhar-se que haja gente que prefere dar força ao inverso da paz. Vão ao ponto de querer dar lições de papismo ao papa!
O discurso da informação do jornalismo amordaçado, manipulador das consciências, vulgarizou-se desde o 11 de Setembro e promove sem descanso o propagandeado «choque de civilizações» que, decerto não por acaso, cheira a combustíveis fósseis que tresanda. Ainda menos por acaso, estamos em plena situação de crise económico-financeira.
A crise abre rasgões no mais simples bom senso que abrem caminho a uma nova hecatombe humana, outra aventura bélica de renovada violência. Impõe-no, dizem, a lógica do sistema em que vivemos: para se sair da crise, só uma guerra... Mas faz-se lembrar a frase de Milan Kundera, onde se afirma a ideia de que é a perda da memória das dores e das destruições antes sofridas que torna possível a repetição de tão medonha loucura. Sem esquecer, porém, que todas as guerras se justificam com amontoados de perversas mentiras.

domingo, 11 de outubro de 2009

Obama Nobel da Paz

Quando Obama entrou na Casa Branca, saltou e derramou-se o optimismo como champanhe a borbulhar de garrafa festiva. Mas é evidente, a pessoa que faz o lugar também é feito por ele, de modo que a relação dialéctica entre os dois termos pode variar sem se perder. Então, como entender agora Obama distinguido com o prémio Nobel da Paz?
Vai ele resolver finalmente o problema dos milhões de palestinianos sem pátria na sua própria terra milenar ou exilados para que Israel exista? Proibir novos colonatos, abrir a faixa de Gaza, decidir a pertença legítima de Jerusalém?
Vai acabar com o velho, indecente e inútil bloqueio a Cuba e normalizar as relações com a ilha? Encerrar Guantánamo?
Vai deter a invasão no Iraque sem o deixar afundado em guerra civil e admitir o julgamento em tribunal de quem ali praticou atrozes crimes impunes?
Vai ter pulso para desatar o nó que antecessores ataram no Afganistão, onde já muitos vêem outro Vietname? Vai considerar correctas e fiáveis as eleições que favoreceram Karzai?
Vai continuar a querer impor um regime democrático pela força das armas a povos com outras preferências por motivos de formação histórico-cultural?
Vai desapoiar os golpistas que tomaram o poder nas Honduras, depondo o presidente democrático legitimamente eleito (refugiado na embaixada brasileira de Tegucicalpa e apoiado pelo seu povo apesar da repressão)?
Vai ponderar nas críticas ocidentais ao governo do Irão de modo a torná-las absolutamente credíveis, isto é, sem vestígio de petróleo nem sionismo?
Vai deixar em paz o regime dito bolivariano de Chávez, que inferniza embora o líder tenha um óbvio apoio popular e siga o sistema democrático?
Vai deixar à porta da Casa Branca os industriais de armamentos e os seus arautos do Pentágono? Duvidar de alguma outra «invenção conveniente» da CIA? Pôr em sentido os senhores do petróleo e do gás natural?
Vai reduzir para metade, ou para um décimo, ou para dez apenas, as quase mil bases militares que os Estados Unidos têm espalhadas pelo mundo?
Vai cortar nas despesas militares que levam todos os anos, dizem, metade do orçamento nacional e que transforma os EE.UU. na primeira potência militar mundial (logo, por definição, imperialista)?
Vai consentir em colocar o seu país no concerto das nações, em autêntica paridade com alguns outros principais, e trabalhar pela reorganização e redignificação da Organização das Nações Unidas?
Quem pergunta quer saber. E fica para ver...

domingo, 4 de outubro de 2009

Autores literários sofrem

São abundantes, invasivas, as distracções nacionais. Tudo gira e se renova no simples borbulhar de cada dia e tanto que nem sobrou atenção para atender à Conferência internacional sobre comodato que decorreu em Lisboa nos fins de Setembro. Até parece que a Sociedade Portuguesa de Autores, anfitriã da conferência, rodeou de severo secretismo a iniciativa...
Entretanto, eu mesmo chego com grande atraso ao assunto e, todavia, não entrei em submarinos nem dancei entre Belém e São Bento. Mas soube que estiveram representados 26 países na conferência onde foi elaborada «uma visão geral da situação do regime de comodato ou empréstimo nas bibliotecas em cerca de 30 países.»
Nas conclusões, a conferência analisa a transposição para os ordenamentos jurídicos nacionais da directiva europeia de 1992, codificada em 2006, que regulamenta aquele sistema. Ponto essencial, considera «inexplicável o facto de o Governo português continuar a incluir no regime de excepção as bibliotecas públicas», notando que tal «é particularmente decepcionante num país de tão forte tradição literária» como o nosso.
Não é, em verdade, caso único no ambiente europeu. Por isso, a conferência apela aos países relutantes para que estabeleçam sem mais demora o direito de leitura pública (Public Lending Rights ou, em português, Direito de comodato público). A leitura de obras ainda com copyright (i. e., ainda cativa de direitos) em biblioteca pública nada rende ao seu autor embora possa servir a dezenas de leitores.
Neste quadro, faz-se lembrar que o direito de autor começou em Portugal a implantar-se, pela mão de Almeida Garrett, em meados do século XIX. Não mais cessou de se desenvolver até à actualidade, que foi quando enfrentou a pirataria das fotocópias, a banalização do livro lançado às carradas e logo posto em saldo e agora enfrenta a concentração das editoras, a sofreguidão (porventura a pilhagem) dos conteúdos.
Creio que o direito de autor apenas enriqueceu uma minoria ínfima de quantos escreventes se ergueram à categoria de escritores notáveis. Confirmando a regra, apenas uns quantos e raros atingiram tiragens e vendas, e traduções no estrangeiro, em volume suficiente ao menos para viverem do que escreviam. No melhor das hipóteses, ao falecerem, os seus familiares puderam beneficiar do seu trabalho durante uns setenta anos.
Mas hoje a situação complicou-se deveras. O direito de autor sofre ataques múltiplos e mal resiste... e o direito à variedade da criação literária e cultural, encolhendo-se, vai definhando. A esmagadora maioria dos autores literários mal ganha para os cafés que bebe.
Eis porque adiar a transposição do direito de comodato público e resistir à sua aplicação prática é atitude falta de visão e algo mesquinha. A leitura pública continuará grátis para quem a quiser e a retribuição por cada leitura terá um valor meramente simbólico. Somado à nossa escala nacional, esse encargo será menor do que o custo de outra rotunda do nosso circular descontentamento.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

A Grande Mentira

Um jornal «de referência» informou hoje que um qualquer senador brasileiro achou que o seu país se desprestigiava acolhendo na sua embaixada, nas Honduras, o presidente Zelaya deposto por um golpe militar. O jornal é «de referência» porque, assim dito, foge à eterna questão de se saber que diário temos no país com qualidade suficiente para ser entre todos «o melhor». Mas, modéstia à parte, pretende tornar equivalentes as duas designações.
Porém, no jornal que por cá é «dos melhores» ainda nada vi sobre o que na realidade se passa em Tegucicalpa, onde foi e continua imposto o recolher obrigatório e abolidas as liberdades democráticas constitucionais sob o comando do governo de facto, isto é, da ditadura instalada. O povo que se manifesta na rua a favor do presidente democraticamente eleito sofre violenta repressão. Sangue, ferimentos, detenções, mortes sobretudo em torno da embaixada brasileira onde Zelaya encontrou refúgio depois de ser posto no exílio.
Tão-pouco disse uma letra sobre ataques com gases tóxicos disparados contra multidões de manifestantes. E nem a sombra de uma letra forneceu aos leitores quanto a um dispositivo sofisticado, dito «de ponta», fornecido por Israel, que emite para a multidão algo como radiações intoleráveis, pois provocam perturbações físicas bastante graves. O sangue torna-se invisível antes de cair na rua e os mortos não contam.
Órgãos de informação democráticos, apoiantes do presidente Zelaya, ficam amordaçados. Rádios, jornais, cadeias de televisão são tomados de assalto por tropas entre encapuzados que levam consigo tudo o que entendem. A liberdade de imprensa, nas Honduras, jaz morta e arrefece - mas estes acontecimentos não chegam à nossa informação «de referência» decerto porque a capital daquele país latino-americano ficou isolada do mundo exterior, algures do outro lado da Lua.
Atenção, pois, ao que diz o senador brasileiro. Atenção à Casa Branca. Atenção ao Pentágono. Perdura o unilateralismo, proclamando a Verdade Única, poleiro da Ditadura. E viva a Mentira Geral!

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Três ou quatro erres (sem erro)

Há afirmações óptimas: explicam claramente muita coisa mas, decerto por isso mesmo, deixaram de se ouvir e repetir. Uma afirmação óptima é a que aponta a procura de lucro para explicar a origem das crises que afectam periodicamente, com maior ou menor gravidade, o sistema capitalista. Mas, na verdade, não é outro o objectivo principal das forças que intervém no mercado.
A produção de bens orientada para o lucro - e não, desejavelmente, para as reais necessidades da população - determina a acumulação dos bens mais lucrativos no mercado que uma publicidade intensificada até ao frenesim tentará escoar quando os consumidores já desistem por escassez de dinheiro ou de crédito.
É possível distinguir nos traços da crise económico-financeira actual as marcas de tal situação (em resultado do comportamento da especulação financeira gananciosa e fraudulenta), de modo que, se bem pensarmos, estaremos prontos para encarar sem erro três ou quatro erres absolutamente imperiosos e oportunos caso queiramos poupar-nos a mais crises calamitosas como esta. Na verdade, a conjuntura mundial empurra-nos de encontro às seguintes disposições fundamentais:



Reduzir os consumos descartáveis;
Reciclar o mais possível, com regras;
Reutilizar para poupar.
Encolher os ombros, adiar mudanças urgentes, persistir na atitude da indiferença vai apressar o fim. O petróleo tem os seus dias contados e essa alteração socioeconómica determinará uma tremenda alteração global das actuais formas de vida nos planos económicos e sociais. Mas à míngua do petróleo se acrescentará a escassez de água potável, a poluição do ar, da terra e do subsolo, o desemprego, o degelo, as ondas de emigrantes e refugiados... Haverá menos viagens e deslocações, mais carestia, logo a imposição de hábitos frugais, espartanos.
O planeta acumulou problemas ingentes e não tem soluções, apenas paliativos e adiamentos. A crise económico-financeira actual acelerou a exigência de respostas políticas realmente corajosas e eficazes que sem dúvida serão tanto mais difíceis quanto mais se atrasem até rastilharem uma nova guerra. Descarte-se desde já o sonho impossível de um crescimento contínuo dos dados da economia e uma elevação dos níveis gerais de conforto e bem-estar.
A conjuntura convida-nos a rever os nossos queridos modelos de vida e a regressar de alguma maneira a comportamentos mais amigos do ambiente, atentos à renovação dos recursos naturais e aos destinos do lixo produzido. Mudanças dolorosas, sem dúvida, que não serão aceites sem resistência e sem desgosto, pois se impõem e são decisivas. Tardarão certamente a implantar-se no terreno, atrasadas pelos egoísmos loucos e as cegueiras colectivas, mas hão-de contribuir para deixar o mundo mais harmonizado, mais humano e mais pacífico - ou seja, menos brutal e incivilizado. [Imagem: pintura "Extase de lirios", de Octávio Ocampo (México, 1943): fisionomia composta com figuras embebidas. Clique para ampliar.]

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Conversei com ATM

Nunca tal coisa me passaria pela cabeça - e aconteceu! Apresentei-lhe o meu cartão, vi o sorriso de boas-vindas, indiquei o que pretendia. Tudo bem, normalíssimo, até que fui servido.
Peguei nas notas e foi então que estranhei: eram mais seis das tais, todas novinhas em folha! Encheu-me uma vontade louca de barafustar e, no entanto, consegui travar uma conversa aparentemente normal.
Onde param as notas de dez e de vinte que usávamos há dez meses? Eram notas populares, quase tanto como as de cinco. Andavam há anos de mão em mão, eram os nossos euros, tinham as marcas das nossas mãos...
E agora só nos vêm às mãos notas acabadinhas de sair da máquina que as imprimiu para o banco que no-las dá. De dez ou de vinte, das acastanhadas e das esverdeadas, pois das outras, de cinquenta, cem e et caetera, até quinhentos, nem falamos. Não querem nada connosco e nós nada queremos com elas.
Perguntamos: onde param as notas que usávamos, para onde foram elas tão fugidas que andam da nossa vista? Quem as arrebatou à socapa para o seu monte escondido e criou esta necessidade de fabricar à pressa notas e mais notas? Quem manda pôr em movimento as gráficas que noite e dia enchem paletes com rimas espessas destes bilhetes, papéis coloridos já dispensados da referência ao padrão ouro e que prometem valer tanto como o seu próprio peso?
Nós queríamos de volta o nosso velho dinheiro, não este fabricado à pressa para tapar o buraco que assim pretendem entulhar.