Em anos ainda recentes, os três pilares clássicos das sociedades modernas tiveram alguma companhia. Os poderes executivo, legislativo e judicial funcionavam sob o escrutínio das notícias e dos comentários jornalísticos. Mas onde pára hoje o «quarto poder» da Imprensa?
Os actuais media - os jornais, as rádios, as televisões, os satélites - alargaram incomensuravelmente o espaço da sua comunicação ao ponto de a tornar invasiva, sufocante. A propriedade desses órgãos e meios principais foi entregue a potentados financeiros «de confiança», atentos apenas aos lucros da indústria dos «conteúdos». O anterior pluralismo das ideias e das opiniões em circulação deu lugar a uma informação normalizada, conformista e manipuladora que percorre o mundo.
O poder da Imprensa transformou-se na Imprensa do poder. Acentuaram-se ou ocorreram outras transformações decisivas. O modelo de vida americano contagiou a Europa e o Ocidente com a sua avidez consumista, o seu individualismo radical, a sua procura de triunfo na carreira da vida, enriquecendo.
Os valores materiais subiram, a pouco e pouco, aos altares. As sociedades, libertando-se das superstições (ou substituindo-as apenas?), laicizaram-se. Laicas passaram a ser as regras morais e as concepções éticas na medida em que se adaptaram à prática.
As igrejas, antes tão poderosas e de tão predominante influência religiosa e profana, recuaram. Contavam nos templos os fiéis que os frequentavam, os clérigos novos que já nem revezavam os idosos, e poucos reis havia para os cardeais e os arcebispos coroarem nas catedrais entre nuvens de incenso. Era um facto, a religião perdera força, imenso terreno nestas sociedades individualistas embriagadas pelo consumismo hedonista.
Fez-se então lembrar a frase de Marx (1818-1883). A religião deixara de ser o ópio do povo. E um senhor, creio que nada revolucionário nem de esquerda, aparece agora a escrever (cito um trecho):
«Nos dias de Marx, a religião era o ópio das massas. Hoje são os media. Basta ver a informação dos media que facilita a capacidade da oligarquia financeira para iludir o povo.»
O senhor é Paul Craig Roberts. Foi secretário assistente do Tesouro na Administração Reagan e é co-autor do livro The Tyrany of Goods Intentions. [Foto: aspecto, virado para o céu, da montanha em Michu Picchu.]





