Manda a tradição, muitos são ainda os amigos que preenchem os dias desta quadra trocando saudações e votos de boas festas. Andamos de ouvidos e olhos cheios de «Feliz Natal», «próspero Ano Novo» em exibição por todo o lado. E até cheios de doces, chocolates mil e rabanadas com a noite da consoada todavia distante... Já cansados de ver tantos pais Natal vermelhuscos e rotundos a cheirar a Coca-cola publicitária, tantas árvores de todos os tamanhos carregadas de lantejoulas, tantos papéis de fantasia a envolver o presentinho, tanto presépio tosco embora comovente na sua pobreza. Fartos de neves cenográficas lindinhas, de renas e veados em paisagens nórdicas, que nos dão vontade de escaqueirar o cenário postiço para aceder à realidade real... Uma quadra assim consumista e mercantilizada é cansativa em demasia! (Uma notícia dizia há dias que o comércio nacional, apesar da crise, vendeu mais 18% do que em 2008. Sabemos todos, 2010 vai ser pior.) Mas vou retribuir aqui, por este meio expedito, os votos que com amizade e gentileza os amigos me enviam, simbolizando a festa do Sol, celebrada no solstício, na reprodução de uma nova pintura que simboliza o Amor, garante da renovação da vida. (Pintura de Isa Ventura, 2009: 50x70 cm.)
domingo, 20 de dezembro de 2009
quinta-feira, 17 de dezembro de 2009
E continuo no país
Mal comparado, um prédio assemelha-se a um país. A portaria dá para os negócios estrangeiros, no primeiro piso temos a produção económica. No teor do regulamento interno encontramos o sistema legal em vigor, na administração podemos ver o governo nacional... e por aí acima até ao telhado, cobertura da justiça e da segurança social.
No condomínio, é a administração das partes comuns que governa o essencial no interior das casas. Porém, a gente da nação-prédio manifesta uma indiferença, quando não um desprezo pela governação das suas partes comuns. Diz, convencidíssima, que, se são de todos, não são de ninguém.
A gente quer lá saber disso! Tem mais que fazer, vamos lá. A propriedade colectiva é metáfora incompreensível.
Do que é «público» cuidem os «políticos», que se colam à coisa como as sanguessugas à perna, mas que por isso mesmo e por muito mais que não vem ao caso, a gente olha de revés ou com desprezo. Não fazem nada e ganham balúrdios, diz a gente. Sabemos bem o que se passa, aquela malandragem a nós não nos engana.
De facto, o prédio-nação mete água por todas as frestas. De momento parece estar num coma induzido, mas logo, atingido por um disparo, acordará dentro de um pesadelo. Ou estará a lembrar-se daquele especialista que veio estudar-nos e partiu dizendo que, se não fosse a corrupção, teríamos por cá um nível de vida médio igual ao da Finlândia?
Felizmente, nunca escassearam «políticos» para se devotarem, voluntariosos e sem queixas, ao serviço público. Quando uns se reformam e saem da liça, sobra sempre um pequeno exército de pretendentes. Todavia, as reservas dos melhores anos estão como que esgotadas, até já vem recrutas de divisões distritais e juniores.
Os papéis estão distribuídos e aceites, tratem «eles» da coisa pública que nós sabemos o nosso lugar. Ah?! Sim, ouvi dizer. Discute-se actualmente na assembleia o novo orçamento? É o segundo rectificativo, as despesas têm crescido em barda? Correu-se a salvar os bancos, os elevadores, a coluna de água, as receitas minguadas sem previsão nem aviso prévio? Que gente portuga liga a isso? Isso é para «eles», nós temos que trabalhar, ir à vidinha... Haja alguém que nos governe.
terça-feira, 10 de novembro de 2009
No meu prédio estou no meu país
Tenho habitação num prédio em regime de propriedade horizontal. Estou aqui - porque daqui vejo o mar - há mais de trinta anos e ando agora a remoer uma ideia esquisita. O meu prédio lembra-me o país em ponto pequeno e os associados no condomínio parecem-me cada vez mais uma amostra elucidativa do povo portuga.
O prédio é muito mal administrado e não é lá grande coisa quanto a categoria. Falta-lhe ambiente cuidado porque reina indisciplina nas partes comuns. Há obras que são autênticos despedícios. Até a limpeza e a arrumação são medíocres.
Todavia, a administração faz-se pagar. A despesa do condomínio sobe constantemente. Todos reclamam e protestam quando o elevador avaria ou umas lâmpadas fundidas demoram a ser substituídas nas escadas, murmuram e cochicham de boca na orelha apontando o preço alto das últimas obras e dos remendos por tapar que essas obras deixaram à vista. Mas é difícil convencer um condómino a aceitar o cargo de administrador.
As assembleias são demoradas, fatigantes e, no entanto, improdutivas. Fala-se muito para o ar, em queixas e queixinhas de uns contra outros que nada têm a ver com a ordem de trabalhos. Ignoram-na tão irremediavelmente como ignoram a regulamentação legal dos condomínios. Querem sentir-se livres para avançar por cima do que der jeito.
Nas reuniões não abrem o bico para soltar reparos sérios, críticas pertinentes. Guardam isso para as suas conversas de corredor ou desvão de porta, onde repudiam decisões que antes aprovaram em reunião. E foi assim que concordaram com uma proposta surpreendente, para pagarem melhor a administração, e dizem agora que o senhor ganha muito e quase nada faz.
O telhado reclama revisão e conserto urgentes há muitos anos... e nada. Um condómino ousou pensar numa solução e expôs formalmente em assembleia o projecto que resolveria decerto o problema sem gastar dinheiro: estudar ali a instalação de painéis fotovoltaicos. A microgeração seria financiada por banco, a exposição solar do prédio e as dimensões da instalação eram verdadeiramente apropriadas, o contrato tinha boas garantias e até o velho problema do telhado ficaria resolvido...
Mas era um projecto extraordinário. Prometia um rendimento bonito para o prédio? Cuidado, portanto!
E os meus vizinhos continuam beatificamente a ver as telenovelas e o futebol, a espiar o que faz ou não faz a vizinhança e a mexericar pelos cantos. Tão entretidos no dia a dia que nem vêem o que pagam e ainda sem medir o que poderiam poupar... para viver melhor.
segunda-feira, 26 de outubro de 2009
sábado, 24 de outubro de 2009
O novo ópio das massas
Em anos ainda recentes, os três pilares clássicos das sociedades modernas tiveram alguma companhia. Os poderes executivo, legislativo e judicial funcionavam sob o escrutínio das notícias e dos comentários jornalísticos. Mas onde pára hoje o «quarto poder» da Imprensa?
Os actuais media - os jornais, as rádios, as televisões, os satélites - alargaram incomensuravelmente o espaço da sua comunicação ao ponto de a tornar invasiva, sufocante. A propriedade desses órgãos e meios principais foi entregue a potentados financeiros «de confiança», atentos apenas aos lucros da indústria dos «conteúdos». O anterior pluralismo das ideias e das opiniões em circulação deu lugar a uma informação normalizada, conformista e manipuladora que percorre o mundo.
O poder da Imprensa transformou-se na Imprensa do poder. Acentuaram-se ou ocorreram outras transformações decisivas. O modelo de vida americano contagiou a Europa e o Ocidente com a sua avidez consumista, o seu individualismo radical, a sua procura de triunfo na carreira da vida, enriquecendo.
Os valores materiais subiram, a pouco e pouco, aos altares. As sociedades, libertando-se das superstições (ou substituindo-as apenas?), laicizaram-se. Laicas passaram a ser as regras morais e as concepções éticas na medida em que se adaptaram à prática.
As igrejas, antes tão poderosas e de tão predominante influência religiosa e profana, recuaram. Contavam nos templos os fiéis que os frequentavam, os clérigos novos que já nem revezavam os idosos, e poucos reis havia para os cardeais e os arcebispos coroarem nas catedrais entre nuvens de incenso. Era um facto, a religião perdera força, imenso terreno nestas sociedades individualistas embriagadas pelo consumismo hedonista.
Fez-se então lembrar a frase de Marx (1818-1883). A religião deixara de ser o ópio do povo. E um senhor, creio que nada revolucionário nem de esquerda, aparece agora a escrever (cito um trecho):
«Nos dias de Marx, a religião era o ópio das massas. Hoje são os media. Basta ver a informação dos media que facilita a capacidade da oligarquia financeira para iludir o povo.»
O senhor é Paul Craig Roberts. Foi secretário assistente do Tesouro na Administração Reagan e é co-autor do livro The Tyrany of Goods Intentions. [Foto: aspecto, virado para o céu, da montanha em Michu Picchu.]
sexta-feira, 16 de outubro de 2009
ADVERTÊNCIA
Advirto os amigos de que este blogue vai manter-se sem novos posts durante um mês ou, no máximo, dois. Todavia, se alguma migalha de disponibilidade surgir neste período, é bem possível que o «jejum» venha a ser quebrado. Motivo: tenho que concentrar tempos e energias para atender a um compromisso absorvente. É só isso. Portanto, vou ali e volto já!
O sentido das coisas
Atribuir o Nobel da Paz a Barack Obama foi um óbvio gesto político. Nada desprestigiante para quem o dava ou para quem o recebia, tudo pelo contrário. Porém, ouviram-se resmungos: o prémio podia condicionar o presidente da América, deixando-o metido num colete de forças...
Os resmungos percorreram o mundo. Mesmo no canteiro nacional houve gente fina preocupada que desejou e pediu a Obama para não descurar nunca a «segurança», como se a lusa gente fosse americana, moradora numa imperial rua do Far West, e o presidente ali fosse o xerife de revólveres à cinta. Ou como se o prémio lhe tirasse da mão os revólveres.
Para além de todas as conjecturas, admite-se como certo que a atribuição do prémio dá força à causa global da paz, mas nesta base é que poderá estranhar-se que haja gente que prefere dar força ao inverso da paz. Vão ao ponto de querer dar lições de papismo ao papa!
O discurso da informação do jornalismo amordaçado, manipulador das consciências, vulgarizou-se desde o 11 de Setembro e promove sem descanso o propagandeado «choque de civilizações» que, decerto não por acaso, cheira a combustíveis fósseis que tresanda. Ainda menos por acaso, estamos em plena situação de crise económico-financeira.
A crise abre rasgões no mais simples bom senso que abrem caminho a uma nova hecatombe humana, outra aventura bélica de renovada violência. Impõe-no, dizem, a lógica do sistema em que vivemos: para se sair da crise, só uma guerra... Mas faz-se lembrar a frase de Milan Kundera, onde se afirma a ideia de que é a perda da memória das dores e das destruições antes sofridas que torna possível a repetição de tão medonha loucura. Sem esquecer, porém, que todas as guerras se justificam com amontoados de perversas mentiras.
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