domingo, 7 de fevereiro de 2010

Cronista de mão tremente

Treme a mão do cronista abalada por tantas e tamanhas convulsões. É um sismógrafo sem agulha nem tinta a escrever sobre rolo de papel, mas o telurismo louco dos estremeções do mundo sacode-o igualmente. A violência das convulsões cruzadas acumula-se por fim até ao ponto de paralisar a mão escrevente.
De facto, o cronista sente-se aturdido e confuso no emaranhado de acontecimentos principais em veloz sucessão. Quer deixar constância do seu tempo, registando o essencial, e fica sem saber o que tomar como expressão da geral hecatombe a que assiste. Não é segredo para ninguém, pois todos o sabemos, estamos há anos num processo de feroz decadência e agora afundamo-nos num paradigma de máxima e conscienciosa desonestidade.
A contravenção e mesmo o crime perderam já a carga infamante que tinham. A fraude gigantesca e a trampolinice descarada já parecem afirmar o talento, senão mesmo o génio dos seus executores. A hipocrisia mais cínica e a mentira mais descarada já se justificam como direito legítimo à defesa dos arguidos criminosos.
A busca do negócio lucrativo invade o terreno, contamina instituições de índole não lucrativa. A força do dinheiro é a força do poder, ter dinheiro ficou no lugar da meta suprema ainda que seja à custa de escândalo. O exemplo vem do cimo da pirâmide social e propaga-se até baixo.
Operou-se uma difusa «italianização» da política. As mafias podem influenciar partidos, governantes, administrações. Os antigos «pilares da sociedade», corroídos por lepra que tudo devora, oscilam e baqueiam. Invocar a «consciência» (individual, em criminosos, ou colectiva) não passa de um vulgar truísmo de careca ao léu.
A esfera da política internacional deixa-se invadir por conspirações constantes que negam o primado das leis aplicáveis e das aspirações populares a uma coexistência pacífica. A informação dos media vê-se «normalizada»(isto é, açamada) e berra para proteger a quinta do dono. Torna-se cada vez mais difícil acreditar no sistema democrático, no governo, na justiça.
A palavra, desonrada e aviltada, perdeu o valor. A desestabilização geral entrou por aí, não só num país, também por aí fora. É preciso restaurar a palavra honrada e, por esse caminho, regressar ao que os Homens podem possuir de mais digno e humanizador.
Restauremo-la, pois, urgentemente. Com o remorso de quem sente no peito o peso imenso das monstruosidades vulgares que invadem os nossos quotidianos e já deles querem fazer parte «natural». Vendo claramente vista a monstruosidade maior de todas, que é a de deixarmos de herança às novas gerações a montanha asfixiante dos nossos problemas (nacionais, planetários) que soubemos criar e amontoar e não soubemos resolver!  

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Entre dois terramotos

Poderá dizer-se que a maluqueira humana rivaliza com um terramoto em poder destruidor? Se alguém o diz, obviamente, exagera a bandeiras despregadas. Mas acontece, uma pessoa ouve o dito e descobre, passado algum tempo, que o dito lhe mói o ouvido, fazendo-a pensar.
Recorda-se a pessoa, perante a hecatombe haitiana, que nem é preciso um terramoto em solo português para deitar abaixo uma quantidade de construções festivas e grandiosas. Bastam os camartelos municipais. Para aliviar os orçamentos camarários em asfixia das despesas correntes insuportáveis.
Sim, está a lembrar-se de uns seis estádios desportivos do celebrado conjunto de dez recém-construídos em Aveiro, Leiria e etc. Sabe quanto empenho político e ginástica financeira essas construções exigiram na convicção geral de que viriam atender uma necessidade vitalíssima para a afirmação e o desenvolvimento do país.
Era, em suma, dinheiro bem gasto ainda que obtido a crédito. E agora, seis em dez estádios são para demolir - porque se mantém às moscas e não rendem por escassez de público pagante. Irão desaparecer para ficarem a demonstrar que nem precisamos de terramotos para arrasar o que foi mal feito.
Limpar os terrenos dos trambolhos inúteis vai também custar mais dinheiro e elevar as dívidas. Mas estancam-se as sangrias orçamentais incómodas, põem-se a trabalhar as equipas das demolições e os transportes dos escombros, oferecem-se novas perspectivas risonhas às empresas construtoras. Parece até que todos saem a lucrar!
Porém, o que impede a pessoa que vê futebol no televisor de se sentir entre dois terramotos? E de ter ainda uns restos de memória na cacholinha? Nesta cidade, por exemplo, outra construção está destinada à demolição. É o notável Edifício Transparente, concebido pelo notável arquitecto que desenhou a gloriosa Casa da Música e que foi implantado, entre aplausos frenéticos, na frente marítima do Parque da Cidade.
O mamarracho nunca teve qualquer serventia ou utilidade. Em poucos anos, naturalmente, degradou-se. Teve obras, intervenções de recuperação, projectos diversos, tentativas... e nada.
Vai acabar, tudo o indica, no mesmo destino dos seis estádios «a mais». Só dá despesa, inclusive para desaparecer da vista - como mamarracho que é.
Eis o que nos deixam ficar por cá aqueles que depositam num instante nove mil milhões de euros em «paraísos fiscais». Para fugir aos impostos que nós pagamos. Para podermos compreender bem, até ao tutano, o lamiré que nos deixou aquele senhor, o tal que disse: sem corrupção, Portugal poderia ter o nível de vida dos países nórdicos.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Abutres sobre o Haiti

Não é pouca a coragem que se requer para abordar a tragédia que o povo haitiano vive há dez dias. Quer dizer, uma abordagem sem sensacionalismo mediático, sem jornalistas em primeiro plano e escombros ao fundo. Na ilha mártir, agora mais que nunca, poisam abutres vários atraídos pelos estendais da destruição, do sofrimento e da morte.
Há bons lucros a tirar da miséria, é só aproveitar. O caos atiça os sobreviventes de dentro e atrai a cobiça de fora. Como espectáculo geral, a tragédia é mercadoria de venda oportuna e proveitosa a explorar nos seus variados aspectos pela máquina mediática até à máxima exaustão.
Entre ajudas humanitárias de autêntica benemerência, milhares de pessoas sentem-se abandonadas, sem água, alimentos, remédios. Milhares de crianças orfãs são raptadas e levadas sem qualquer controlo para o estrangeiro por gente com intenções inconfessáveis. E ficamos a saber que há haitianos sem registo civil, sem papéis, sem escola, sem nada, incapazes de falarem francês ou espanhol e atirados no fim para a vala comum tão ignorados na morte como em vida.
Multidões de estropiados, sem pernas ou braços, documentam a violência de uma guerra que em silêncio destrói mais sem fragor de bombas. As últimas pessoas recuperadas dos escombros declaram que o seu salvamento foi um «milagre» sem todavia cuidarem de explicar que raio de força divina provocou ali o terramoto. A miséria de muitos em expansão explosiva sempre rendeu bem na terra e no céu. Os milhões das ajudas monetárias internacionais e as toneladas de géneros alimentícios largadas no terreno vão gerar alguns novos milionários - e isto, sim, será um verdadeiro «milagre».
Obama não olhou para o lado. Secundarizando a ONU, quis logo «liderar a ajuda» ao Haiti. Tomou o aeroporto e ocupou o lugar do caótico governo. Mas a intervenção, sem dúvida com aspectos humanitários positivos, conduziu ao envio de vinte mil tropas (o Afeganistão e o Iraque que esperem).
Esta intervenção despertou as memórias. Fez lembrar quantas pancadas os EUA têm dado naquela ilha mártir desde que, em 1804, os haitianos conquistaram à França a independência. Primeiras pancadas: recusaram reconhecer o novo país durante uns 60 anos e sujeitaram-no a embargo económico até 1863 (com a França, que obrigou o Haiti a pagar balúrdio pelos escravos libertos). Depois ocuparam militarmente o país entre 1915 e 1934 com imenso derramamento de sangue, apoiaram as ferozes ditaduras de «Papa Doc» e «Baby Doc», que deixaram uma enorme dívida externa, e destruíram a agricultura haitiana.
Não é tudo. Há críticas por os EUA terem apoiado em 2004 o golpe contra o presidente Aristides e gostarem de usar o Haiti para turismo sexual. Atenção, o povo da meia ilha ganha menos de dois dólares por dia. 

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Este Congo que foi belga

Temos a obrigação de saber que a informação que podemos recolher em cada época é uma informação unilateral. Prefere dar voz a um só lado como se quisesse não complicar ou aliviar o discurso informativo. Mas, pior do que ser unilateral, é a informação deficiente. Omite factos que muitos anos depois, quando esses factos já não incomodam, acabam por ser divulgados entre alguma selecta minoria.
Sempre em crescendo, esta evolução tem um resultado cada vez mais óbvio e sensível: as massas afundam-se na ignorância espessa dos que se contentam com pão e circo, enquanto o acesso ao conhecimento dos factos e das realidades do mundo se torna fragmentário e rarefeito no interior de segmentos socioculturais restritos pouco menos que residuais.
A memória dos acontecimentos históricos contemporâneos anda assim a dissipar-se, levada por ventos erosivos cujas consequências poucos cuidam de medir em todos os seus alcances. Mas uma pessoa suficientemente idosa e que tenha permanecido atenta aos acontecimentos sente-se um pouco memória viva. O seu tempo é já tempo da história, podendo por isso lembrar, por exemplo, as mordaças da censura salazarista, o broto revolucionário do 25 de Abril e o baile mandado que se seguiu.
Lembrará também o que foi a descolonização em África. Precisará, porém, de ver num canal popular de tv, de sinal não aberto, um surpreendente trabalho sobre a situação na República Democrática do Congo para despertar. Português, europeu, percebe de súbito que esteve alheado daquela situação devido a um boicote informativo, porque é ingrato, melindroso, falar na Europa de assuntos africanos...
Complexos de culpa que sobram do egoísmo. Mas a situação no Congo-Kinshasa que o vídeo mostrava era terrífico, a extensão do horror acabrunhante. O banditismo generalizado, a violência sem freio, o caos total. Tomada de reféns, violações, escravatura. Miséria infernal e sem lei. Soou como um grito poderoso, lancinante, a reclamar: como é possível?, como é possível?, e nós por aqui sem saber de nada?
Foi então o momento de lembrar o título de um livro de Sidónio Muralha (1920-1982), escritor português neo-realista injustamente esquecido, e colá-lo em título desta crónica. E depois prosseguir nas lembranças para avaliar todo o sofrimento que os povos daquela antiga colónia têm vindo a suportar perante a gelada indiferença dos democratas, defensores de direitos humanos e de tanta civilização exemplar.
Atrocidades horríveis contra os africanos começaram, ao que se sabe, quando em 1884 a Conferência de Berlim outorgou ao rei belga Leopoldo II o Estado Livre do Congo como património pessoal. Época linda! Em 1908 a colónia passou a ser controlada pelo Parlamento belga mas no essencial a situação persistiu até à independência, em 1960. A conspiração imperialista interveio, o Catanga declarou-se independente, o primeiro-ministro Patrice Lumumba (2-7-1925-17-1-1961) é abatido (ele que proclamara à entrada: «A independência política não é suficiente para libertar a África do seu passado colonial, era também preciso que a África deixasse de ser controlada economicamente pela Europa»).
Na verdade, na República Democrática do Congo estavam e continuam a estar instalados poderosos interesses europeus e americanos. Exploram petróleo, ouro, diamantes e outras produções minerais, recursos florestais, etc. Pode-se dizer que a incrível miséria dos congoleses e dos bárbaros e escandalosos sofrimentos que lhes são impostos se explicam somente porque o seu país é soberbamente rico.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Obama: o homem no lugar

Quem acreditou que «o homem faria o lugar» vê Obama no poder há uns meses e já tem ao seu alcance razões sobejas para se corrigir. O lugar também  faz o homem. Porém, se estivermos diante da Casa Branca, onde mora com vasto clã o bastonário do império global, teremos de perceber que o homem é ali bem menos determinante que o lugar.
O abençoado Nobel da Paz, premiado em glória entre nuvens de incenso e cânticos de louvor à América, concorda em dotar o Pentágono com o maior orçamento militar de sempre. A América, portanto, arma-se não para impor a paz, mas para expandir a guerra. Não se pode ser império global sem assumir como obrigação sagrada o combate ao «terrorismo» onde quer que levante a crista.
Acertou na previsão quem se limitou a dizer que Obama tentaria melhorar algo da situação social interna (apesar de calamitosa, a reforma da saúde para os necessitados ficou reduzida à expressão mais simples - contempla uns poucos milhões - mas demonstra quem manda realmente no país), para deixar sem alteração todo o plano da política externa. Certo, houve uma alteração: decidiu o envio de 35 mil tropas mais para «segurar» o Afeganistão em queda.
Dissipa-se o encantamento, abrem-se os olhos. Talvez os profetas que anunciam por aí que é no Afeganistão e no Iraque que o império já está a partir e a deixar os dentes não encontrem ninguém capaz de os seguir. O ambiente mediático anda repleto de histórias mal contadas, não seremos só nós os confusos e mal informados, também os próprios profetas.
Estendem-se os conflitos pela região do Médio Oriente. O império resolve intervir no Iémen, buraco do qual em breve não saberá igualmente como sair, e controla por inteiro o corno de África. Mantém alta a pressão sobre o Irão e o apoio sem restrições à política israelita.
Apenas más línguas, com maléfico gosto pela difamação, poderão alegar que tantos conflitos imperiais se estendem na região do petróleo fácil e baratinho. Querem saber que rendimentos do seu petróleo recebeu nestes anos de guerra, até hoje, o povo iraquiano.
Entretanto, o modelo democrático que a prática política do império vai tendo em clara preferência aponta para regimes como o afegão, o paquistanês, o colombiano. A Venezuela, rica em ouro negro, sente-se rodeada por um círculo de bases militares estado-unidenses. O presidente Zelaya, das Honduras, continua refugiado na embaixada do Brasil no seu país depois de ter sido derrubado por um golpe militar que Obama não condenou e parece admitir após uma farsa eleitoral.
O homem no lugar ainda mal o aqueceu, o ano novo apenas começou, mas num instante tudo fica frio e velho sem esperar pelo tempo.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Rãs a cozer na panela

Quantos de nós terão partilhado um anexo de e-mail que, muito solícito, nos pedia para identificarmos os três últimos símbolos do código de barras? A ideia seria boa. Identificávamos o que era da produção nacional. Consumindo o que produzíamos, apoiávamos a nossa economia e combatíamos o desemprego.
Mas o que seria boa ideia, nesta cabeça irremediável, emperrou. Cogitando, não partilhei a mensagem com ninguém. Acusem-me agora de boicotar os esforços portugueses para sair da crise.
É que a sugestão para apoiarmos desse modo a produção nacional trouxe à lembrança outras sugestões recentes igualmente positivas. Uma apresentação (ou pps) sobre a «pegada humana» referia que deitamos fora, para o lixo, a cada cinco minutos, dois milhões de vasilhas de água - garrafas de plástico - (isto sem esquecer os maços de cigarros, os telemóveis, etc.). A mensagem era clara: devíamos banir a compra de água envasilhada em garrafas de plástico.
 Beberemos então a água directamente da canalização? Errado. Outra presentação anunciou que cada pessoa ingere com a água, num ano, um quilo de excrementos. Logo, optemos por beber vinho; mas...
Foi preciso parar neste ponto. A estranhar, como o menino estremunhando do seu sono. Então agora é assim?!
Então o Estado, administrado pelo Governo nacional, que tem autoridade para nos compelir a pagar impostos, já não tem autoridade nem vontade para nos garantir a máxima segurança quanto ao ambiente, à saúde, à formação escolar, à justiça e à paz no território? Se o vasilhame de plástico é problema, por que não impor o de vidro (reciclável)? Se a água do abastecimento público anda cheia de matérias fecais pois os rios se transformam em canos de esgoto, por que não aplicar regras normativas severas e eficazes que os protejam? Se os maços de cigarros e os telemóveis usados são montanhas de lixo, não vê isso o Estado tão ágil e pressuroso a salvar bancos falidos?
Quer dizer, é a nós, consumidores individuais, que compete ter consciência dos problemas sociais e meios para os resolver? Motivados um a um (isto é, verticalmente) por mensagens deste género, bem intencionadas mas condenadas ao fracasso? Quando o Estado, administrado pelo Governo, tem na mão os instrumentos operatórios para abranger com a máxima eficácia, no plano horizontal, toda a população? Afinal, para que lado governa o Governo que deixa aos consumidores o encargo de atender aos problemas colectivos?
Estas interrogações trouxeram à memória a fábula proposta há tempo por Olivier Clerc, escritor (e muito etc.) nascido em 1931 em Genebra, Suíça. Se a rã que nada na panela sentir a água a 50º, salta fora para não se queimar; mas se a temperatura for subindo pouco a pouco... Escreve ele (texto revisto da tradução brasileira): «Isto mostra que, quando uma mudança acontece de um modo suficientemente lento, escapa à consciência e não desperta, na maior parte dos casos, reacção alguma, oposição alguma, ou alguma revolta. / Se olharmos para o que tem acontecido na nossa sociedade desde há algumas décadas, podemos ver que nós estamos sofrendo uma lenta mudança no modo de viver, com o qual estamos a acostumar-nos. / Uma quantidade de coisas que nos teriam causado horror há 20, 30 ou 40 anos, foram pouco a pouco banalizadas e hoje apenas incomodam ou deixam completamente indiferente a maior parte das pessoas.» Legenda da ilustração original , em italiano: «Vejam: se a água aquece muito lentamente, a rã não se apercebe de nada!»
E, todavia, sentem o escaldão a crescer cada vez mais pessoas. Rãs apanhadas na panela com todas as outras, são opinião pública amordaçada pelos abastecedores da opinião publicada.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Homens que faltam à vida social

Não vão bons os tempos para uma certa estirpe de homens de qualidade. Isto é perfeitamente claro mas, ainda assim, a consciência da falta que deles se avoluma na vida social parece facilitar pouco a definição do seu perfil. É, ou pode ser em partes desiguais, um misto de intelectual-cidadão, escritor-artista, pensador-interventor...
Também pode agregar, conforme os casos, algo de monástico. A figura do monge mistura-se razoavelmente com o perfil geral da estirpe dos homens que faltam. É alguém que vive na Cidade e, simultaneamente, à margem, como que ostracizado por decisão própria.
Talvez haja por aí algum homem destes e não consigamos senti-lo entre o vozear tumultuoso que nos envolve. É por certo um desconhecido quase ignorado. Não habita no espaço público embora o frequente e é um desconhecido porque foge da esfera mediática.
A disciplina a que se obriga separa com clareza a cultura de massas (que encobre a cultura popular tradicional em extinção tal como a sua matriz, os espaços rurais, substituídos pela invasão do suburbano) da cultura culta. A de massas, para ele, é o consumismo consumidor, o reino do espectáculo alienante e da mediocridade instalada pelo negócio.
Os homens que fazem falta à vida social aparecerão com figura bastante anacrónica e, todavia, podem ser de vanguarda. Avaliam quanto teriam de perder desde logo em autêntica liberdade mental e em coerência ética se embarcassem nas vulgares aventuras. Não lhes interessa a fama, o poder ou o dinheiro - interessa-lhes, por definição, afirmar em plenitude a liberdade criadora do que é humano, do que é estético e deveras redentor.
Quem respira o oxigénio da esfera mediática sujeita-se aos ditames do mercantilismo, da concorrência, das imagens de marca em circulação "pós moderna". Ora o mercado coisifica o que nele entra; o dilema consiste portanto em alguém se deixar coisificar ou não. O intelectual-cidadão (compósito do escritor-artista, do pensador-interventor, etc.) recusa subverter a sua lucidez, a sua independência de espírito na agitação estéril do espectáculo
permanente que serve hoje para o que serviu outrora o "ópio do povo".
A vida social precisa angustiosamente de homens assim, com mentalidade e cultura humanista para opor eficazmente à mentalidade e à cultura tecnocráticas. Capazes de permanecer em retiro, atentos aos sinais do mundo, sempre disponíveis para descer à praça a clamar J'acuse!, e afastarem-se em seguida. Homens de modéstia mas também de altiva dignidade e coragem suficiente para responder ao rei que apenas querem que se desviem um bocadinho e não lhes façam sombra...