Detenho-me diante de um ecrã de televisão. Como traça voadora, fico de olhar atraído por uma sucessão vertiginosa de imagens ali a derramar-se em cachoeira. O ritmo frenético mantém-se, perdura, transforma-se mesmo na característica principal do programa.
As imagens em torrente não me deixam pensar. Nem posso respirar. Encadeado, vejo-as alternarem-se sem tempo para poder percebê-las, pois outras imagens se sucedem, e mais outras, e outras, num corrupio sem fim...
Afasto o olhar, saio do local e liberto-me da sufocação. Aguentei-o apenas um minuto e todavia ainda o recordo. Aquele programa, àquela hora da tarde, destinava-se a público muito jovem, ávido de velocidade e vertigem tanto como de cérebro esvaziado, comida rápida e batata frita.
As suas imagens soltas eram outros tantos planos que se mantinham no ecrã por uns segundos brevíssimos. Ofereciam-se ao olhar sem lhe permitirem um visionamento mínimo, pois logo outra imagem-plano surgia em catadupa. Não davam a ver: cegavam, hipnotizando.
Considerei então que naquele programa se continha uma impressionante manifestação da doideira geral que avassala o mundo. Lembra, por contraste, a aceleração que todos os aspectos da nossa vida quotidiana vem sofrendo desde os anos '50. Aceleração brutal, podemos senti-lo hoje, revendo velhos programas televisivos que se conservam no celuloide ou filmes, por exemplo de Carl Theodor Dreyer (1889-1968) ou de Manoel de Oliveira.
Alguns filmes destes realizadores contém cenas com planos fixos que chegam a manter-se durante largos minutos e atingir mesmo quase meia hora. Evocam assim algo inerente ao palco de teatro que chama o espectador a uma participação o mais possível aprofundada e inteligente. Mas o advento da televisão popularizou o pequeno ecrã, impondo como se sabe a estética do grande plano e, em seguida, encurtando a respectiva duração.
Escasseiam os convites para «ver», ver realmente, e para pensar. Talvez isso possa incomodar o sono dos senhores do mundo e fazer doer alguma cabeça que pensa! Logo, aí temos o programa de ritmo alucinante na vanguarda, a abrir ou a sondar caminho.
Notem-se os últimos avanços das neurociências. Investigam até ao supremo requinte da minúcia, apurando como funcionam as emoções e os impulsos mais íntimos a que obedecem os seres humanos. A publicidade e o marketing interessam-se por tais avanços (aliás, desde o princípio do século XX), avanços que fazem crescer a manipulação dos comportamentos ao serviço dos dominadores do mercado e das consciências.






