Sabemos que as mudanças são cada vez mais velozes e que, em onda, envolvem «tudo». Mas não continuaremos a ver o objecto Livro de olhos fechados? Quantos advertem as mudanças radicais surgidas nestes últimos vinte, trinta anos?
As mutações foram radicais porque alteraram os sectores da edição literária, distribuição e comercialização do livro, redes de leitura. O factor mais expressivo do quadro das alterações encontra-se no aumento da quantidade de editoras em actividade, da respectiva concentração operada pelo grande capital, da diversificação das chancelas editoriais. A situação permite atingir e exceder a cifra de 1200 novas edições por mês, cerca de 15 mil por ano...
Cifra espantosa num país pequeno, sem grandes hábitos de leitura e fraco nível médio de rendimentos, que nem sequer exporta livros em quantidade significativa. Todavia, nesta base é que poderemos entender o motivo por que têm baixado constantemente as tiragens das novas edições. Mas, por isso mesmo, tem subido o seu preço (o que, por outro lado, multiplicou as feiras dos saldos e já leva editora a guilhotinar restos de edições armazenadas para poupar espaço).
Portanto, editam-se cambulhadas loucas de livros que têm tiragens cada vez mais reduzidas ou mesquinhas. Muitos não aparecem nas livrarias nem entram no mercado, onde «os que se vendem» precisam de se impor na primeira semana porque, quatro semanas depois, serão «velhos», mercadoria descartável. A rotação dos títulos e das edições vai em aceleração, o mercado fica invadido por uns poucos autores mediáticos com grandes vendas (um ou outro português, os restantes estrangeiros).
O livro transformou-se assim numa vulgar mercadoria e quase tão perecível como as couves da horta ou os iogurtes do supermercado. Faltam leitores para toda a imensa literatura que se publica. Cada autor fica na realidade contido pelo mero círculo das suas relações pessoais, a lembrar o argumento neoliberal de que «são os autores que vendem as suas obras»...
Em suma, abundam as editoras literárias activas, abundam as livrarias, abundam os postos de venda de livros e os autores a promover a venda dos seus livros no terreno... Negócio lucrativo! (E, todavia, só ingénuos estranham que tenham de ir aos alfarrabistas para encontrar as obras que querem ler porque nelas sentem a palpitação vibrante que parece ter-se perdido à medida que os novos autores aprenderam «escrita criativa».)
Há editoras que vêm publicando originais na condição de os autores adquirirem, pagando, uma parte substancial da edição. (O dinheiro de prémio literário antes recebido suportava a factura.) E agora avança-se um pouco e aparecem «editoras» que editam por encomenda directa do autor os exemplares da sua obra que ele pagará. É o print-on-demand, a suprema maravilha!
Os efeitos perversos destas mudanças são variados e são visíveis. Haja olhos.






