domingo, 25 de abril de 2010

Recordar e comemorar

É dia de recordar e comemorar. Mas, quando a memória dos momentos felizes nos põe a recordar, estamos também a comemorá-los. Comemorar, assim, é o ato de puxar pela memória, um recordar.
O «25 de Abril» aconteceu há 36 anos. Coincidiu com o dia do meu aniversário natalício. O movimento dos «capitães de Abril» foi para mim o derrube da negregada ditadura salazarista-mercelista e, simultaneamente, a melhor prenda  e festa de anos que poderia ambicionar.
Passei então, em 1974, a ter o aniversário garantido no feriado nacional. Mas já ia nos meus 46 anos, vividos no regime antidemocrático repressivo. Era tempo, caramba! Experimentara o jornalismo sob a vigilância da censura prévia, sentira diversas vezes a mordaça que proibia a publicação de certas afirmações nada revolucionárias em jornais ou em livros (apreendidos), e provara mesmo a «hospitalidade» da polícia política, que quis acolher-me durante três meses.
Não tardou, tive de desistir daquele jornalismo - o possível. E foi graças à democratização que tornei à profissão finalmente dignificada.
Pedem-me muitas vezes para recordar aquele dia glorioso da libertação. Evoco-o sempre com gosto, mas isso (e ainda menos a erosão que destrói, minando o sistema, os partidos e etc.) não vem agora para aqui.
Agora lembro apenas: completo hoje 80 anos. Existe este blogue desde 27 de janeiro de 2008 - recordo a data pela primeira vez. Aqui foram editados 216 posts - crónicas, ao todo, serão quase duzentas. Meus caros, façam o favor, digam-me se é tempo de parar! Ou não estão cansados ainda desta companhia?

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Quem diz «Adeus»

Hoje vou ceder a palavra a alguém. Alguém que se despede e, portanto, vira as costas e se distancia. Mas vai transido. E, de mordaça na boca, deixa-nos palavras vivas e escaldantes, dramáticas como a situação real de crise (ética, financeira, económica) em que estamos a viver. Poucos que sejamos, temos de as atender.
As palavras são de Paul Craig Roberts, economista norte-americano, lembrado autor de How the Economy Was Lost, que foi editor do «Wall Street Journal», elemento preponderante de vários outros jornais, como o «Washington Times», assistente do secretário do Tesouro dos EUA, colaborador emérito da imprensa, etc. Porém, desde há seis anos, não tem um único espaço onde escrever. Por isso diz «Adeus», assim:

«Houve um tempo em que a caneta era mais poderosa do que a espada. Houve um tempo em que as pessoas acreditavam na verdade e a encaravam como uma força independente e não como um auxiliar do governo, classe, raça, ideologia, interesse pessoal ou financeiro.
Hoje os americanos são dominados pela propaganda. Os americanos têm pouco respeito pela verdade, pouco acesso a ela e pouca capacidade para a reconhecer.
A verdade é uma entidade importuna. É perturbadora. Está fora dos limites. Aqueles que a exprimem correm o risco de serem marcados como "antiamericano", "anti-semita" ou "teórico da conspiração".
A verdade é uma inconveniência para promotores públicos que querem condenações, não a descoberta da inocência ou da culpa.
A verdade é inconveniente para ideólogos.
Hoje, muitos daqueles cujo objectivo era outrora a descoberta da verdade são agora generosamente pagos para a esconderem. "Economistas do mercado livre" são pagos para vender a deslocalização ao povo americano. (...)
Economistas que outrora foram respeitáveis ganharam dinheiro a fim de contribuir para este mito da "Nova Economia". (...)
Todas as vezes em que o dinheiro é insuficiente para enterrar a verdade, a ignorância, a propaganda e a memória curta acabam o trabalho. (...)
Como economista, fico estupefacto pelo facto de os profissionais da Ciência Económica americanos não terem consciência de que a economia dos Estados Unidos foi destruída pela deslocalização do PIB dos EUA para países além-mar. As corporações dos EUA, na busca da vantagem absoluta ou dos mais baixos custos do trabalho e dos máximos "bónus de desempenho" dos seus presidentes, transferiram a produção de bens e serviços vendidos a americanos para a Chinaa, Índia e outros lugares no exterior. Quando leio economistas a descreverem a deslocalização como comércio livre baseado em vantagens comparativas, percebo que não há inteligência ou integridade na profissão americana da Ciência Económica. (...)
Os americanos, ou a maior parte deles, demonstraram ser maleáveis nas mãos da polícia do Estado. (...)
Nos últimos seis anos fui banido dos media de referência. A minha última coluna no «New York Times» apareceu em Janeiro de 2004, em coautoria com o senador democrata Charles Schumer, representante de Nova Iorque. Tratámos da deslocalização dos empregos estado-unidenses. O nosso artigo na página editorial provocou uma conferência na Brookings Institution, em Washington D.C. e uma cobertura ao vivo do C-Span. Foi lançado um debate. Nada disso poderia acontecer hoje.»

Lamento reproduzir apenas uns trechos, não o artigo na íntegra. É importante. Mas pode ser lido inteiro no endereço http://www.counterpunch.org/roberts03242010.html [Foto: criação de Erik Johansson.]

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Mulheres confrontam homens

A maioria das pessoas que vemos à espera de consulta num centro de saúde, num lar ou em qualquer outro local onde se concentrem os idosos, são mulheres. Achamos isso tão natural que quase nem vemos o que é visível. Habituámo-nos longamente à desproporção sabendo todavia que o normal é nascerem mais rapazes do que meninas.
A explicação que havia para o facto de a maioria inicial do género masculino depois se perder na demografia nacional apontava para as baixas que os rapazes iam sofrendo enquanto não saíam do período da juventude. Grande razia! Tão grande que entrava também na explicação uma superior resistência das mulheres aos achaques: mulher doente, mulher para sempre, dizia-se.
Mas o paradoxo não está aqui. Começa a aparecer em dados recentes do INE que mostram as mulheres com mais desemprego, aguentando também velhas desigualdades salariais. Trabalhando, ganham menos do que os colegas machos, mas elas são de facto, no conjunto do país, a maioria da população: em 2005 seriam 5,5 milhões, algo como 51,6%.
Segundo o INE, a desproporção aumentou entre 1975 e 2005: ficámos com 94 homens para cem mulheres. Na verdade, estas aumentaram para sete anos a sua esperança média de vida. As raparigas casam-se mais cedo do que os rapazes e, enquanto estudantes, por sinal até se distinguem com melhores classificações.
Apesar de tudo, algo nos escapa na situação. A diferença numérica existente entre os sexos, favorável às mulheres, não ajuda deveras a entender o que se nos oferece à vista. Abunda bem mais o sexo feminino que ensina nas escolas ou trabalha nos empregos mal pagos (caixas de supermercados, cafetarias, lojas), em centros de diversão noturna, etc., e vai-se multiplicando nos recintos desportivos como praticantes ou espetadoras.
Abunda, aliás, por todos os lados: nas enfermarias, repartições públicas, redações dos jornais, forças de segurança, além de escritórios, fábricas... As raparigas correm para fora de casa, enchem a paisagem. E se, comparativamente, casam mais cedo, talvez admitam o enlace com rapazes uns anos mais novos.
Por tudo isto, parece estar a instalar-se a impressão de que é o sexo feminino que sobressai hoje, avultando sobre o masculino. Este como que se encolhe (apenas numericamente?) em face do avanço impetuoso a que assiste, numa especial inversão dos papeis sociais que os dois géneros desempenharam até anos recentes. Mas acaso estará contido nesta anotação um qualquer preconceito machista?
Nem de longe. O que pode fazer-se lembrado é o aviso de que certos plásticos diluídos na água dos rios estarão a contribuir para a multiplicação de espécies de peixes com aparentes dificuldades de gerar machos e portanto de se manterem como espécies. Estudos posteriores, bem mais alarmantes, apontam o mesmo efeito provocado na espécie humana: numa comunidade sob investigação, salvo erro canadiana,  cresce a desproporção dos sexos, pois nasciam cada vez mais meninas e menos rapazes.
Admiração, nenhuma. As cidades pequenas e grandes bebem dos rios. Os químicos presentes nos vulgares plásticos, diluídos, espalharam-se nas águas, nas terras, nos ares... e a espécie humana, com toda a sua imensa e poderosa sabedoria, talvez venha a ter, nos próximos séculos, tanta sorte como a dos peixinhos em degenerescência...

sexta-feira, 9 de abril de 2010

IURD: em nome do Senhor

São marcados por estranhos e inquietantes sinais estes nossos tempos. Fantásticos mirabolantes, feitiçarias medievais, magias negras, terrores delirantes de mentes sem mais imaginação e fantasias inconsequentes invadem a rodos o cinema e a literatura. Está em moda a irracionalidade supersticiosa que, por exemplo, leva tanta gentinha a consultar astrólogos, videntes, quiromantes, adivinhos, bruxas e professores Caramba.
O fenómeno parece apontar para este outro, contraditório: o do enfraquecimento do poder efetivo da Igreja e da religião católica que de algum modo assiste à instalação e expansão de novas seitas. Uma delas, muito notada, é a designada Igreja Universal do Reino de Deus, vinda do Brasil para Portugal, aparentemente inspirada num credo (pentecostal) nascido nos Estados Unidos em meados do século XX. Recusa os santos (incluso a pontapé), centrando a fé em Jesus e no seu poder triunfador.
Estarão as formas da religiosidade popular tradicionais a enfraquecer-se, a desaparecer? Ou, simplesmente, a modificar-se (para corresponder a uma procura, sem dúvida mais cega, de respostas teístas)? Até que ponto aí se manifestam: um remanescente dos anos da ditadura salazarista, a mudança para as grandes cidades de massas camponesas em fuga das zonas rurais em extinção, a situação de carência social originada pela crise económica, o desemprego, o desvalimento, a solidão?
Difícil responder. Admito, todavia, que no presente caldo cultural tudo isso se mistura. As religiões «oficiais» perdem influência e avançam as superstições mais grosseiras. Mas os crentes, que exclamam «graças a Deus!» à saída de qualquer dificuldade, continuam a agradecer a «salvação» teimando em não perceber de onde lhes veio a aflição...
As «missas» da IURD são, sem segredo, autênticos espetáculos com cenas emocionantes e «milagres» de encher o olho ceguinho. Frequenta-os gente da mais modesta e mesmo humilde condição. Serão já uns 30 mil, que sustentam mais de cem templos, ditos centros de ajuda espiritual, criados no país desde 1989.
Em cerca de vinte anos, a nova seita estendeu-se pelo país graças ao dízimo que uma falange de «dizimadores» aplica de garra e verbo afiado à freguesia em nome do Senhor que é preciso adorar, pagando dez por cento do salário, pela nossa pessoal salvação. E agora está para breve a inauguração, no Porto, da primeira catedral construída no país ao custo de uns 18 milhões. É edifício imponente, dotado com estúdios de tv e rádio (pudera não!), apartamentos residenciais, etc.
Depois dos conflitos e escândalos, entre acusações de lavagem de dinheiro, a IURD ergue à máxima altura a afirmação de que cresce mesmo no meio da cidade do maior desemprego, da pobreza e da miséria. Se isto não nos deixa pensativas as cabeças, então já não há mais cabeças pensantes. E a religião pode assumir qualquer coisa de sobrenatural para trazer para a realidade o vampirismo. [Cartaz da IURD no Brasil. Clique na imagem para ampliar.]

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Portugueses: estúpidos e mansos?

Circula na Net um texto curioso, daqueles que grupos de amigos compartilham e que faz comparações entre o que é viver em Portugal e nos Estados Unidos. Um novaiorquino, bom conhecedor do nosso país, discute com um português que considera sermos um país pobre. Conclusão do visitante, previsível: «Vocês não são pobres, gastam é muito mal o vosso dinheiro.»
Porquê? Vem no remate do texto a «explicação»: porque nós, portugueses, somos estúpidos ou mansos, ou, digo eu, uma qualquer mistura de tais atributos consoante cada visão: mais mansos que estúpidos, ou a inversa. E os norte-americanos mostram-nos toda a sua esperteza...
O que abordagens deste tipo têm de lamentável é a superficialidade que revelam. Contribuem para alimentar nos portugueses o criticismo negativista que justifica a desistência e a convicção de que, entre nós, nada é já remediável. Promove a desmobilização geral e o pessimismo fatalista.
Todavia, neste caso, apetece tomar nas mãos a abordagem para a dissecar em cima da mesa, no teatro anatómico. Começando por perguntar, logo de entrada, os verdadeiros motivos por que os norte-americanos pagam o litro de gasolina por menos do triplo do preço que os portugueses; um automóvel que lhes custa 8.320 dólares, pagamo-lo por mais de 20 mil euros; as tarifas de electricidade e de telemóvel ficam para nós 80% mais caras do que nos EUA; comissões bancárias custam-no o triplo conforme o texto proclama.
Continuando com o «sonho americano»: em Nova Iorque, atendendo à sua «pobreza», o governo estadual cobra IVA de apenas 2% e 4% de imposto estadual  (total: 6%!), a comparar com «os 20% dos ricos [sic, a piada é esta] que vivem em Portugal»... e «pagais ainda impostos municipais». Continua: «Além disso, são vocês que têm "impostos de luxo" como são os impostos na gasolina e no gás, álcool, cigarros, cerveja, vinhos etc., que faz com que estes produtos cheguem em certos casos até [...] 300% do valor original, e outros como imposto sobre a renda, impostos nos salários, impostos sobre sobre automóveis novos, sobre bens pessoais, sobre bens das empresas, de circulação automóvel.»
Neste ponto não restará qualquer dúvida: do lado do Tio Sam vive-se bastante melhor. Mas os portugueses nem estúpidos nem mansos sabem que esse bem-estar não chega a todos, lá na pátria das maiores desigualdades do mundo; e que esse bem-estar não é separável do papel de potência imperial que os States desempenham com toda a convicção sempre que podem.
Naturalmente, as mil bases militares que o Tio Sam espalha pelo mundo e o esforço inteiro da sua «Defesa» têm um peso esmagador no orçamento federal.  Para terem gasolina e automóveis baratos, entre outros bens de consumo, andam a impor-se crescentemente como «polícia mundial» de revólveres nos coldres e até invadiram um país com pretextos mentirosos, destruindo o seu povo e cultura milenar ao cheiro do petróleo de qualidade bebido à flor da terra.
Mas nem vale a pena falar de crimes de guerra, de atropelos a direitos humanos fundamentais, da nação que é a mais poluidora do planeta ou até a mais endividada posto que não a obrigam a declarar falência em atenção aos revólveres que mostra nos coldres... Porque não basta ter boca e cara para dizer diante das câmaras e microfones que o quadrado é redondo. Sem esquecer que foram os States os primeiros a acudir a bancos falidos pela prática de «uma espécie de casino» e  logo protegidos, também pelos sobrinhos do Tio Sam, igualmente «com o dinheiro que enviam para o Estado»...
As classes médias, que suportam a canga do Estado, que fazem as guerras «de interesse nacional» e com elas sofrem, lá como aqui empobrecem e desaparecem, dizimadas pelas políticas neoliberais dos governos ostensivamente vitimizadoras lançadas contra elas. Abram os olhos, livrem-se da canga e das moscas se acaso o rabo ainda mexe!

sexta-feira, 26 de março de 2010

Entramos na nova ortografia

A língua, enquanto órgão da fala, funciona graças ao músculo mais forte que temos no corpo. Mas a língua, enquanto idioma, também tem força quanto basta. Um toque, mínimo que seja, chega para acirrar e até exaltar os ânimos.
Já o disse e repito: questões linguísticas são aborrecidas, são detestáveis, não interessam a ninguém... enquanto o assunto dorme em paz. Porém, logo que um cisco lhe mexa, entra-se no reviralho. De repente, cada falante torna-se dono da «sua» língua e não admite que lha disputem.
As coisas são assim, naturalmente. Nada a fazer. Quando uma mudança se anuncia, nem o mais acreditado linguísta consegue fazer-se ouvir e respeitar pelo menos douto dos falantes no meio da vozearia.
E foi o que tornou a acontecer perante o novo acordo ortográfico e a aplicação prática das suas normas. Muita gritaria, muita agitação. Infelizmente, não será esse o problema maior da situação actual da nossa língua materna em Portugal e no mundo.
Deficiências do ensino, agravadas por erros da administração escolar, casam-se com variadas outras deficiências que  constituem outros tantos aspectos de fragilização da norma linguística consagrada. A par do empobrecimento vocabular geral (a língua falada e escrita usa um léxico cada vez mais reduzido e uniforme, o que já torna bastante «difícil» a leitura de obras de romancistas contemporâneos, por exemplo), implantam-se atropelos como ervas invasoras em terreno não cultivado. Escrever ou falar com erros, inclusive em jornais de referência e outros meios de comunicação social como a rádio e a tv, deixou de causar mossa e merecer reparo.
O Português tem vindo a perder brilho e terreno aquém e além fronteiras em resultado da inexistência de uma verdadeira política da língua também virada para o exterior. Em face das locuções inglesas que por aí abundam e são correntes em tantas bocas nacionais bem falantes - que até articulam o vocábulo latino media à inglesa, dizendo «mídia» (mas os ingleses não são latinos!) - já nem espanta que, perante a decadência, alguém como eu teime em vaticinar um grave apagamento da nossa língua materna num breve espaço de tempo.
Neste contexto, ganha significado e sentido a CPLP, Comunidade de Povos de Língua Portuguesa, e o acordo ortográfico com o Brasil e restantes países lusófonos. Estamos, finalmente, a chegar agora à respectiva aplicação. Multiplicam-se adesões pontuais aqui e ali mas entidades oficiais terão que o acatar sem demora e, entretanto, ao sector escolar a nova ortografia só chegará no próximo ano.
Continue cada pessoa a escrever conforme quiser, não irá preso por isso. Lembrando sempre que falar e escrever obedecem a regras com registos diferentes e que a norma é a norma. Ora, porque nesta página se escreve e deixei dito (em 15-09-2008) que aceitava o novo acordo, tentarei doravante respeitar o mais possível as regras ortográficas em vigor.

sexta-feira, 19 de março de 2010

O que sabemos

Recapitulando a matéria como em prova de cultura geral.

Sabemos que o simples rótulo de «terrorismo» mudou de mãos. Antes serviu para denunciar acções ilegais (isto é, criminosas) dos Estados lançadas contra cidadãos. Depois passou a servir os Estados para acusar cidadãos patriotas em luta acesa contra dominação ou prepotência ilegítima.  
Sabemos que a ideologia «neoliberal» se foi instalando por força de interesses dos mais poderosos com directa influência nos governos eleitos pelo povo mas obedientes aos senhores. Leis, regulamentos e comportamentos foram abrindo caminho às «reformas» a fim de permitir uma mais rápida e voraz acumulação da riqueza. A ganância surgiu então como objectivo único a alcançar a todo o preço, incluso ao preço de fraudes colossais impunes e descaradas que desestabilizaram não apenas os sectores financeiros mundiais e desencadearam a presente crise socioeconómica.
Sabemos que a designada «globalização» encobriu, pela deslocalização das empresas, a procura e exploração de mão de obra barata onde quer que existisse, fosse quase escrava ou fosse infantil. Forçou países altamente industrializados, como os Estados Unidos, a suportar importações maciças, crescente desemprego, menos impostos cobrados, dívida pública externa galopante. A corrupção (de políticos, banqueiros, traficantes) fez multiplicar os paraísos fiscais.
Défices das contas públicas então cresceram e tornaram-se crónicos porque os senhores do dinheiro quiseram e foram conseguindo expandir isenções fiscais e receber mais apoios. Para «tapar» os buracos orçamentais, os governos venderam bocado a bocado património público do mais lucrativo e mesmo vital, por isso cobiçado pelos senhores do dinheiro que já dispunham de meios financeiros acumulados suficientes para todas as privatizações. O poder dos Estados enfraqueceu-se, depauperou-se o património público, inchou até à desmesura o poder do sector financeiro privado ao ponto de em breve se pôr a questão decisiva: o que vale um Estado que (património de um lado, dívida pública do outro) quase nada possui e continua a subir os impostos? 
Sabemos que a versão oficial dos atentados com aviões civis que inauguraram o século XXI, pulverizando três edifícios emblemáticos no centro de Nova Iorque e atingindo o Pentágono, já parece incapaz de convencer alguém com juízo próprio independente. São cada vez mais numerosos os grupos de pessoas e meios de comunicação social que levantam dúvidas avassaladoras sobre múltiplos aspectos estruturais do caso. Sugere-se assim que se tratou de mais uma conspiração horrenda levada a efeito lá onde presidentes federais e mesmo líderes religiosos como Martin Luther King são abatidos e tudo acaba envolto em mistério.
Sabemos que o unilateralismo resultou de uma superpotência que a conjuntura mundial favorável fez emergir e logo se convenceu do papel redentorista que iria cumprir no plano da história. Mas o imperium bellum cresceu desmesuradamente para dominar o mundo e já mostra não ter forças suficientes para ambição tão gigantesca. Nações rivais já lhe disputam a primazia... e torna a repetir-se a fábula: sic transit gloria mundi.
Sabemos tudo isso e o mais que fica omisso. E sabemos também que poucos somos a sabê-lo, entre as maiorias que votam escolhendo quem lhes vai dirigir os destinos e depois decide enviar para a guerra exércitos de pobres do seu país para, longe, destruirem bens e outros pobres. Se, calculando ad hoc, considerarmos que um por cento da nossa população está esclarecida e sabe, realmente sabe, teremos de reconhecer que nem toda essa população, talvez nem a metade, desejará algo que não seja a conservação da situação presente...
A política transformou-se num espectáculo, e espectáculo sobretudo televisivo, dos que têm «voz para falar». Os negócios do Estado são reservas para iniciados, não para o nível popular educado na alienação cidadã. Tudo isto adensa e atrai o perigo de uma espantosa hecatombe planetária (a final?). [Clique sobre a imagem de cada post para a ampliar.]