Fui assaltado por uma notícia esta manhã. O lugar comum justifica-se: uma notícia pode apanhar-nos de súbito e despojar-nos de qualquer coisa muito nossa. Acabo de saber que morreu Matilde Rosa Araújo.
Foi-se o cantar da Tila, foi-se também a prezada amiga. Um outro lugar comum repete que, quando morre um escritor, fica a sua obra. Consolação mínima, pois sempre o que escreveu e fomos lendo nos colocou em admiração.
Eu vinha acompanhando Matilde desde 1962, ano da publicação do seu livro de contos Praia Nova que recenseei em apreciação crítica. Mas ela (nascida em 20-07-1921) iniciara o percurso literário antes, em 1943, com A Garrana. Só então começou a nossa amizade e companheirismo.
Porém, conhecia já O Palhaço Verde e O Livro da Tila, livros anteriores para a infância que me haviam deslumbrado. E habituava-me à caligrafia larga, rasgada e angulosa, muito feminina, da Matilde, a responder-me às perguntas de uma entrevista que apareceu a seguir já não lembro bem onde. Entretanto, apercebia-me de que, nela, a sua dimensão literária coincidia com uma dimensão humana igualmente apurada.
Nesta moldura era já Matilde considerada em Lisboa (onde nasceu, viveu e morreu) e então só tive que notar a justeza do conceito. Efectivamente, na lavra da escrita que ela prolongou por quase setenta anos se espelha a personalidade ímpar da mulher que ela foi. Agora se pode ver «a sua vida como obra e a sua obra como vida», coincidência rara que eu próprio gostaria de atingir. Continuo a supor que é graças a este encontro da pessoa concreta com a pessoa poética que a arte acontece.Ora a Matilde Rosa Araújo era um ser poético. Quer dizer, foi tão admirável a Mulher quanto a Escritora. Frequentou a Faculdade com Sebastião da Gama e com ele parecia ter ficado a compartilhar um irradiante amor à humanidade, sobretudo às crianças «de pés frios», e à natureza, que exprimia com uma candura tocante e emocionada beleza.
Amanhã sairá o seu funeral da Sociedade Portuguesa de Autores, onde recentemente lhe foi prestada homenagem. Outras se recordam em maré de saudade e recolhimento, em especial a realizada na Biblioteca de Cantanhede. Trago para aqui uma foto evocativa dessa sessão, para a qual muito contribuiu comigo João Cruz, amigo que de algum modo me fará presente na despedida.






