segunda-feira, 19 de julho de 2010

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Krause, pensador com ideias

Estou pronto para as surpresas - que sejam boas, evidentemente -, como eterna criança a sonhar com berlindes coloridos. Ou com as contas de vidro do jogo de Herman Hesse. E eis que uma nova surpresa me chega em página recém-publicada com artigo onde leio diversas alusões interessantes a um autor: o alemão Carl Christian Friedrich Krause (1781-1832).
O artigo, de Angel Serafín Porto Ucha, da Universidade de Santiago de Compostela, foca Bernardino Machado e a Institución Libre de Enseñanza no quadro das influências das ideias de Krause nas políticas do ensino na Galiza e em Portugal. Todavia, depressa pude concluir que o interesse pelo conhecimento das ideias de Krause para o nosso tempo, isto é, a sua potencial atualidade, ia além daquela abordagem. Foi preciso sair à descoberta do homem para perceber os primeiros elementos e sentidos da obra.
Na verdade, o horizonte das formulações daquele pensador é vasto, universal. Não se restringem às questões da pedagogia e do ensino em discussão desde o século XIX, ainda que, de facto, pelo que vejo, tenha sido essa a abordagem principal de galegos e portugueses (Giner de los Ríos, Rogério Fernandes e outros) avançada ao longo dos anos. Na Península Ibérica, as suas ideias e propostas espelharam uma forma moderada de liberalismo, tendo irradiado também para a Argentina, Brasil, etc..
Pensador idealista, Krause estudou Filosofia com Schelling, Hegel e Fichte, e pretendeu continuar Kant. Rejeitou a teoria do Estado absolutista para considerar a valia das associações livres que, na sua ideia, serviam uma finalidade universal - a família, a nação - pois a humanidade se compõe de seres que se influenciam reciprocamente. Com esta perspectiva, os períodos históricos surgiam como fases sucessivas de uma ascensão para Deus, que culminaria numa humanidade racional.
Como filósofo da identidade, Krause tentou uma combinação do teísmo com o panteísmo (fórmula: pan-en-teísmo). Defendeu que o próprio mundo natural e a humanidade, sua mais elevada componente, constituem um todo orgânico capaz de se desenvolver e progredir pela formação de unidades sociais maiores. Para ele, a sociedade ideal resultaria pela  ampliação do funcionamento do princípio do homem individual para abranger pequenos grupos de homens e depois, finalmente, a humanidade como um todo.
À afirmação emblemática de Krause e do próprio «krausismo» - a união da humanidade - não seria estranha a maçonaria, à qual o pensador aderiu em 1805, após três anos a ensinar Filosofia. Todavia, os seus livros (1803, Fundamentos do Direito Natural; 1804, Esboço dos Sistemas da Filosofia; 1810, Sistemas de Doutrina Moral) não mereceram aplausos francos dos maçónicos. A sua rejeição do Estado (e da dialéctica hegeliana) ia contra a corrente predominante, embora hoje possa aproximar-se de uma concepção anarquista.
Por algum motivo, o professor nascido em Eisenberg, Turíngia, e vitimado por apoplexia em Munique, dedicou-se à produção aforística. Uma sua obra do género foi vertida para Português. Autor: Karl Krause; título, O Apocalipse Estável - Aforismos; seleção, tradução e posfácio de António Sousa Ribeiro; edição, Apaginas tantas [Errata: ver, p. f., Comentários].
Noto que o Centro de Estudos Humanísticos da Universidade do Minho promoveu em Braga, em 1998, um colóquio «O krausismo na Península Ibérica», cujas atas foram publicadas integrando texto de Acílio da Silva Estanqueiro, «Pensar Krause hoje, ou pensar radicalmente a humanidade». Outras fontes de informação usual são utilizáveis. Estamos, lembre-se, no tempo em que muitos Estados ocidentais decretam a extinção do «Estado social» depois de se endividarem até mais não poderem (sugando ao máximo os contribuintes), e as oligarquias pequenas, grandes e gigantescas reclamarem «menos Estado», isto é, o seu fim.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Foi-se o cantar da Tila

Fui assaltado por uma notícia esta manhã. O lugar comum justifica-se: uma notícia pode apanhar-nos de súbito e despojar-nos de qualquer coisa muito nossa. Acabo de saber que morreu Matilde Rosa Araújo.
Foi-se o cantar da Tila, foi-se também a prezada amiga. Um outro lugar comum repete que, quando morre um escritor, fica a sua obra. Consolação mínima, pois sempre o que escreveu e fomos lendo nos colocou em admiração.
Eu vinha acompanhando Matilde desde 1962, ano da publicação do seu livro de contos Praia Nova que recenseei em apreciação crítica. Mas ela (nascida em 20-07-1921) iniciara o percurso literário antes, em 1943, com A Garrana. Só então começou a nossa amizade e companheirismo.
Porém, conhecia já O Palhaço Verde e O Livro da Tila, livros anteriores para a infância que me haviam deslumbrado. E habituava-me à caligrafia larga, rasgada e angulosa, muito feminina, da Matilde, a responder-me às perguntas de uma entrevista que apareceu a seguir já não lembro bem onde. Entretanto, apercebia-me de que, nela, a sua dimensão literária coincidia com uma dimensão humana igualmente apurada.
Nesta moldura era já Matilde considerada em Lisboa (onde nasceu, viveu e morreu) e então só tive que notar a justeza do conceito. Efectivamente, na lavra da escrita que ela prolongou por quase setenta anos se espelha a personalidade ímpar da mulher que ela foi. Agora se pode ver «a sua vida como obra e a sua obra como vida», coincidência rara que eu próprio gostaria de atingir. Continuo a supor que é graças a este encontro da pessoa concreta com a pessoa poética que a arte acontece.
Ora a Matilde Rosa Araújo era um ser poético. Quer dizer, foi tão admirável a Mulher quanto a Escritora. Frequentou a Faculdade com Sebastião da Gama e com ele parecia ter ficado a compartilhar um irradiante amor à humanidade, sobretudo às crianças «de pés frios», e à natureza, que exprimia com uma candura tocante e emocionada beleza.
Amanhã sairá o seu funeral da Sociedade Portuguesa de Autores, onde recentemente lhe foi prestada homenagem. Outras se recordam em maré de saudade e recolhimento, em especial a realizada na Biblioteca de Cantanhede. Trago para aqui uma foto evocativa dessa sessão, para a qual muito contribuiu comigo João Cruz, amigo que de algum modo me fará presente na despedida.

sábado, 3 de julho de 2010

Pintura ao natural

O solo da remota Tsungwei (Yunnan, China), situado num planalto a 900 metros de altitude, tem uma característica invulgar: é avermelhado. O feitio irregular dos terrenos agrícolas cultivados e o tipo variado das plantações que neles se fazem transformam a paisagem em maravilhosas telas dignas de admiração. Faz-se notar o sentido estético que revelam ali os camponeses. O aspecto da paisagem muda constantemente conforme a luz do dia, pelo que a região ganhou a designação de Lexiaguo.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Se o povo não se respeita...

Em maré de grande crise, fica mais evidenciada a idiossincrasia moral da nação. Porque uma grande crise nunca será apenas económica, financeira, cultural ou política, antes aparece gerada pelo encontro de uma com as outras. Mostra ser tão grave e profunda que já por gente insuspeita é declarada a mais grave desde o advento da democracia.
Não o diz gente insuspeita, mas nós sabemos que apenas os dois partidos principais governaram de facto a nação, sendo por isso os primeiros responsáveis por esta crise escancarada. Evidentemente, aquela gente limpa-se de quaisquer culpas ou erros: trabalhou (à direita) sempre na perfeição, grossa mentira é o contrário. O «aperto» atual veio de fora, cá dentro ia tudo bem... vivendo (a crédito) e gastando mais do que a nação produzia. Logo, espera-se que a população continue alegremente a eleger, nas próximas eleições, os mesmíssimos partidos principais (da direita) que nos trouxeram até aqui.
Todavia, é agora que se faz lembrar o dito que tão repetido vem sendo desde o século XIX, que Portugal é país  mal amado pelos seus naturais. Para sentirem alguma afeição ao pátrio solo precisam de lhe transpor as fronteiras. Cá dentro, algo se passa - será  um menosprezo, um deixa-correr, o que leva  à questão:  se o povo não se respeita, como quer ser respeitado?
Quem tem ouvidos, escuta as sentenças até se convencer. O povo comporta-se como os políticos no poder querem, teima até em pôr-se a jeito. Deixa-se governar a favor dos mais poderosos, reservando-se apenas o direito de os meter a todos num único saco.
E de os vaiar. São incompetentes, mentirosos, corruptos. Querem é vida fácil, mordomias e conversa da treta, aproveitando para meter no bolso muito e depressa à custa dos mesmos de sempre.
Mas se o povo aguenta com as cargas que lhes põem em cima, porque não hão-de os políticos aproveitar da facilidade? Os senhores das instituições financeiras junto com os administradores das grandes empresas são poderosos e exigentes, querem facilidades e vantagens para ampliar os privilégios... e são educados, sabem agradecer. O povo, não - não, pelo menos, de igual modo.
Entende cada vez menos o que se passa na realidade e, feito tolo, nem reclama. Espera que outro Guerra Junqueiro lhe grite novamente que é burro que já nem forças tem para enxotar as moscas com o rabo? Talvez não goste de se ver ao espelho: 40% dos trabalhadores portugueses ganham uns 500 euros mensais; 60% dos pensionistas recebem no máximo 450 euros mensais. Se o rendimento médio nacional anda pelos 900 euros, isso faz-nos entender que uns poucos ganham em barda e que uns muitos ganham migalha.
Sem dúvida, o povo empobreceu e as desigualdades incharam à americana. Ora, se no povo está o corpo vivo da nação (na medida em que a entidade «povo» representa a parte substancial dos seus habitantes), poderemos comparar o dinheiro em circulação ao sangue que corre naquele corpo. Então, se o povo  trazia antes no bolso dinheiro agora desaparecido, o dinheiro-sangue não desapareceu, foi simplesmente sugado de um para outro corpo.
Não admira, assim, termos no país uns tantos novos milionários, agora num total  (anunciado) de onze mil. Possuem um milhão de dólares no banco cada um, além de outros bens. E, glória infinita, já sobram capitais nas empresas portuguesas para investirem no estrangeiro, inclusive nos EUA, onde a EDP aplica milhões que criam quatro mil empregos!

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Com Eça, livre-pensador

Atualmente, escasseia a literatura que não atenda às preferências do mercado, isto é, ao gosto popular. Logo, muita «escrita criativa» atenta ao buraco da agulha, muito sobrenatural povoado de vampiros, fantasmas, feitiçarias e prodígios mil, de mistura com novelas policiais ou de reminiscência histórica, ficção dita científica... Ao leitor, cansado de lantejoulas e pechisbeques, resta virar-se para a estante dos «clássicos«» pega num volume ao acaso e sai-lhe o Eça, o sempre novo... de Queirós.
É o volume das Notas Contemporâneas. Pesado. Mas não terá lido o leitor a obra de Eça umas quatro vezes, e quase toda ela de cada vez, ao longo da sua vida? Pois, agora não vai reler o relido, apenas debicar o texto para o recordar.
Abrem-se as folhas e o olhar poisa no início da parte II de «Positivismo e Idealismo», datado de 1893, onde Eça aponta que a «reacção contra o positivismo científico mais decidida e franca é em matéria religiosa.» Terá isto sido realmente escrito há mais de um século?Eis prosa queirosiana:
«Ah! o nosso velho e valente amigo, o livre-pensamento, vai atravessando realmente uma má crise! Talvez a mais aflitiva que ele tem afrontado, desde que nasceu sob os claros céus  helénicos e que balbuciou as suas primeiras lucubrações cósmicas e éticas, sobre os joelhos de Tales e de Sócrates. // Este pobre livre-pensamento está com efeito passando por aquela tortura, que ele já infligiu ao cristianismo no tempo de Voltaire, que é a mais humilhante que pode sofrer uma filosofia, - e que consiste em ser troçado, crivado de pilhérias, apupado pelas ruas como um chéché de entrudo. Quem jamais o diria? O livre-pensamento chasqueado alegremente, neste século...»
Eça apoia-se no discurso de um certo sr. Aulard que, «dos cimos da Sorbonne», lamenta «que o livre-pensamento está sendo, neste Paris da terceira República, ainda mais achincalhado do que o catolicismo no Paris de Luís XV, quando Voltaire era rei». Pior ainda, «o livre-pensamento está fora de moda, entre a mocidade. Hoje, neste ano de 1893, é de mau tom em Paris ser livre-pensador!»
Acrescenta Eça: «Tudo isto é desolador. Tanto mais que ao lado deste movimento negativo contra o positivismo - surge e  cresce paralelamente  um movimento afirmativo de espiritualidade religiosa. (...) É uma outra e renovada ansiedade de descobrir neste complicado universo alguma coisa mais do que força e matéria; de dar ao dever uma sanção mais alta do que a que lhe fornece o código civil; de achar um princípio superior que promova e realize no mundo aquela fraternidade de corações e igualdade de bens, que nem o jacobinismo nem a economia política podem já realizar; e de achar, enfim, alguma garantia da prolongação da existência, sob qualquer forma, para além do túmulo.»
Deixam os olhos estas páginas com desgosto, a prosa queirosiana é sempre apetitosa e suculenta. Mas não estando em causa, no nosso tempo, a defesa do positivismo do século XIX, e notando, por outro lado, a recrudescência do fenómeno religioso no século XXI, apelemos então para o livre-pensamento. Parece-nos que o avanço daquele resulta do definhamento deste, por muito que isso custe ao autor de O Crime do Padre Amaro.
Em moda, hoje, estão crenças teístas as mais retrógradas, não a liberdade do pensamento, por mais que os dados da ciência tenham contribuído decisivamente para a correta compreensão dos fenómenos do mundo e da vida. Subalternizado,  ou subjugado por catecismos doutrinais, o pensamento afundou-se nos pântanos do conformismo e da passividade onde nem chega já a artimanha silogística do livre arbítrio. Livre, resta o direito do indivíduo massificado à submissão e ao apagamento da própria identidade no interior do rebanho.
Pensar pela própria cabeça - que permite erguer a condição humana à sua mais rutilante  dignidade - já parece desafio temerário de mente radical. Todavia, é pelo livre-pensamento que se faz livre o cidadão. O que explica, afinal, o que por aí vemos: o «patriotismo» a manifestar-se, em apoio ao campeonato de futebol, com bandeiras nacionais à janela. Poucas...

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Depois do vírus entranhado

Mantenho uma grande relutância em falar de mim, dos meus livros. Sempre achei mais interessante ouvir cantar os outros do que abrir a própria boca para arejar o ego. Mas há excepções que me puxam para fora do hábito da modéstia e então...
O título destas linhas recorda o meu livro de contos saído em 1999 e apreciado num blogue em termos que comentei há dias na crónica «A obra também lê o leitor» (28 de Maio). A seguir encontrei-me com amigos na Feira do Livro e a conversa recaiu sobre a mesma obra porque eles a tinham pescado num stand. Verdade consensual entre nós: fora de dúvida, a obra também lê o leitor (na medida em que na leitura se espelha a personalidade do leitor), ponto este que explica como a apreciação do autor do blogue, Jorge Candeias, se reviu mais na obra do que terá sido capaz de a perceber.
O que o blogger quis achar no livro era, sem segredo, o que lhe interessava: literatura fantástica e ficção científica, caminho que pode comunicar com algum «mundo» cultivando a história pela história. Não percebeu, portanto, o realismo contido nas metáforas e alegorias das narrativas. Melhor leitura foi, afinal, a de uma jovem jornalista que na sua recensão, se bem me lembro, notou no livro um «pessimismo» de quem temia os nebulosos perigos do milenarismo...
Realmente, em 1999, estávamos prestes a largar o escudo e a entrar no euro, a discutir se o novo milénio começava no ano dois mil se no ano seguinte, e com insónias porque os sistemas informáticos iriam estoirar com a mudança da numeração automática dos anos... Mas havia percepções menos superficiais que anunciavam mudanças mais peremptórias. Os treze contos, escritos no fim dos anos '80, avisavam precisamente de que o dito «vírus» estava «entranhado».
Debatemo-nos desde então em plena crise desatada. O vírus agiu como um exército de térmitas, invadiu e corroeu por dentro as estruturas financeiras, económicas e sociais em que vivemos e que vemos por aí em queda livre, a desabar como castelos de cartas ao vento desabrido de janela aberta. Ora este blogue é disso mesmo que vem falando como quem põe cartas de chumbo em cima da mesa.
Entre o meu livro de 1999 e este meu blogue existe portanto uma relação. A viragem que ali se exprimia com toques surreais e de alguma loucura já instalada evidenciou-se plenamente através do mundo. Hoje ninguém duvida da «crise»  que dizima as classes médias porque a sente e lhe dói na pele. Mas continuará a duvidar de quem lhe anuncie a próxima viragem que se prepara: a de um possível «governo planetário» da alta finança, nomeado e a funcionar oficialmente para governar a crise provocada pela alta finança...
O bichinho trabalha no escuro e as populações têm mais com que se preocupar. Faltam os empregos e o dinheiro para consumir, e consumir, e consumir, até faltam pão e circo para distrair e aliviar o stress. Por isso as populações em confusão já imploram: oxalá apareça quem queira tomar conta disto tudo! Como crianças grandes, ainda acreditam no Pai Natal. [Foto aérea: imagem da poluição industrial. Clique para ampliar.]