Pegou num livro, abriu-o ao meio e, com notória avidez, cheirou-lhe as páginas. Diante das câmaras, para a televisão, disse que cheiravam a tintas, colas, e até notou a acidez do papel. Ele, um autor literário mediático, intervinha na apresentação do novo romance de outro autor literário em voga, também presente junto da rotativa da editora que lançava no tapete velozes rimas de volumes.
As sessões de lançamento das novidades editoriais até para algumas «vedetas» em promoção ficaram gastas e cansadas. Já não conseguem garantir bons resultados, atrair leitores, gerar visibilidade para o autor e o seu livro. Era preciso, portanto, introduzir no caso uma inovação: o performer.
O apresentador dispensou-se de ler a obra, de expor uma apreciação, uma leitura. Bastou-lhe o cheiro e a visão exterior. Assim declarou em público o que ao público cumpre saber e recordar: aquela novidade literária, como tantas outras em correnteza, é para ver e cheirar, não para o que serviam os livros antigos. Acredita-se, portanto, o que já se diz no meio editorial, que uns 80% dos livros não chegam a ser lidos.
Os avoengos possuíam valor e dignidade cultural. Podiam caber no bolso, ser impressos em papel rugoso e amarelado, exibir capas pobrezinhas, mas ainda hoje muitos deles são procurados nos alfarrabistas que os marcam por bons preços. Eram lidos e relidos, criticados e comentados, e ninguém se lembrou alguma vez de os cheirar.
Entrámos agora nisto, na literatura consumível. As capas aparecem cheias de cores, fortes e com altos relevos, os formatos cresceram e já não cabem num bolso, por vezes nem na estante, as lombadas abraçam já centenas e centenas de páginas de bom papel. Tudo histórias da carochinha, que é preciso consumir depressa no seu curto prazo de validade porque a máquina da produção industrial acelera às cegas.
Entrámos agora nisto, na literatura consumível. As capas aparecem cheias de cores, fortes e com altos relevos, os formatos cresceram e já não cabem num bolso, por vezes nem na estante, as lombadas abraçam já centenas e centenas de páginas de bom papel. Tudo histórias da carochinha, que é preciso consumir depressa no seu curto prazo de validade porque a máquina da produção industrial acelera às cegas.
Para ela trabalham, produzindo romances e outros textos, não «escritores», sim fabricantes de literatura cheirosa quanto baste. Escrevem guiões para telenovelas, vão ao estrangeiro aprender guionismo, arranjam agente literário, reclamam-se profissionais da escrita. O mercado dos gostos massificados é o seu ambiente.
Edita-se muito - mais de mil novas edições por mês, mais de doze mil por ano - mas publica-se pouco. De facto, editar deixou de corresponder a publicar (pôr o livro em público, isto é, nas livrarias). Mas, decerto por isso mesmo, as tiragens desceram tanto que, ao que se diz, andam agora em geral por níveis irrisórios.
São os próprios autores que encomendam e pagam a edição da sua obra e que a distribuem por oferta ou venda direta a amigos e conhecidos. Variadas editoras entraram neste negócio do print-on-demand. Consagrou-se plenamente a consigna dos editores-patrões: são os autores que vendem as obras, não os seus editores (que as trocam por dinheiro). E é vê-los por aí a palmilharem o terreno.
Melhor sorte têm os best-sellers, evidentemente, na justa medida em que o sejam. Qualquer editor sonha com eles. E eis as consequências: a literatura de consumo, cultura de massas, é hoje a cultura popular que nos resta... e façam o favor de não perguntar, entre a aurea mediocritas, onde pára a «outra» cultura, a tal que, respeitosos, outrora até víamos escrita com maiúscula.






