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| A poluição veste-se de azul? -- Imagem: de Pawel Kuczynski (1976, Polónia) |
domingo, 25 de setembro de 2011
sexta-feira, 23 de setembro de 2011
Vou com as andorinhas
Desapareceram dos meus lugares as andorinhas. Vejo pardais, melros, arvéloas e mesmo gaivotas, umas detestáveis gaivotas que saem em bandos das areias marítimas e povoam as ruas urbanas para disputarem com as mansas pombas, à bicada omnívora, os alimentos. Faltam-me, portanto, andorinhas nos olhos.
Estou com saudades das suas asas negras em revoluteios aéreos ou rasando as estradas adormecidas da minha infância aldeã. Os animais de trabalho de então foram substituídos pelos motores que afugentam o mosquedo: não o acolhem e alimentam para depois, voando, o mosquedo alimentar as andorinhas. Mas com estas evocações tomo consciência de muito mais que me desapareceu da vista e agora me falta.
Faltam-me os ninhos construídos nos beirais dos prédios, ninhos que as andorinhas utilizavam um ano e outro. Ninhos em forma de bolsa com entrada redonda, feitos voo a voo com bicadas sucessivas de lama barrenta trazida, húmida, de algures e que, depois de seca, era almofadada por dentro com palhinhas. Chegou a ser proibida aos donos dos prédios, queixosos porque lhes estragavam as frontarias, a destruição desses ninhos, de modo que as andorinhas fugiram para as árvores, para os campos do últimos rebanhos e manadas e, por fim, para parte incerta.
Por isso, façam o favor, tragam-me andorinhas para os olhos. Está no fim o verão (que este ano passou e pouco se sentiu) e entramos num outono antecipado. As folhas das árvores, caindo em revoadas amarelas, crepitam sob os nossos passos anunciando a partida iminente das andorinhas para parte incerta e eu estou decidido, vou partir com elas. [Imagem, autor: Pawel Kuczynski, n. 1976, Polónia.]
segunda-feira, 19 de setembro de 2011
A crónica perplexa
Quem escreve a crónica, em primeiro lugar escreve para si. Põe no papel ou no ecrã a expressão que melhor o define. Mas, inevitavelmente, a expressão escrita destina-se a ser lida e, portanto, o escrevente em breve deixa de escrever apenas para si.
Idealizando destinatários, talvez até deseje anular-se por detrás do que escreve para enfatizar ao máximo a expressão que o seu escrito pode ter para quem o leia. Quer justificar o interesse que atribui ao seu texto e que ele próprio quer interessante de tal modo que, ao terminá-lo, sinta que com ele, em primeiro lugar, a si próprio se beneficiou. Mas o escrevente anda agora a sumir-se em perplexidades.
Escrever o quê, para quem? Os seus leitores mostram-se fartos de notícias cada vez mais apavorantes. Preferível é fechar os ouvidos a conversas próximas e não ligar a televisores, rádios e jornais que dia a dia põem a jorrar anúncios de estarrecer em progressão assustadora.
Ninguém gosta de mensageiros de novas desgraças, dá ganas de os pendurar como cartas de prego para abrirmos nas datas aprazadas, quando já for tarde e as ameaças todas que hoje vemos e as do próximo futuro se tiverem consumado como verdadeira tragédia grega por nós revivida. Então, sendo assim, sobre o que vai escrever a crónica? Onde topar asas protetoras que nos abriguem das fúrias da tempestade?
O mundo está em brutal convulsão e Portugal está no mundo. Não sobra lugar para temas sérios mas velhos como a Palestina ocupada e colonizada, o bloqueio ianque a Cuba, a violência desatada no Congo, ou as misérias do povo haitiano após o terramoto, a falência da ONU, as guerras no Iraque e Afeganistão, as calamidades que varrem o Corno de África... O mundo está feio e mau, invadido por angústias, indiferenças ou anestesias, e a crónica, hoje, não pode falar do mundo sem ficar também, para os leitores, um pouco assim.
quinta-feira, 15 de setembro de 2011
quarta-feira, 14 de setembro de 2011
Medíocres contra criativos
O observador atento passa em revista os quatro cantos do mundo conhecido, vai para cima, volta para baixo, e o que vê deixa-o confrangido e mesmo arrepiado. Para onde quer que se vire encontra mediocridade a reinar. Mediocridade estabelecida como modelo consagrado, normalizado, canónico.
Não é apenas a falta de um Mestre, com autêntico prestígio e autoridade moral, que sobressaia da vulgaridade o que marca em desgraça este tempo. O nivelamento cultural violentíssimo imposto pelas forças dominantes ao longo da segunda metade do século XX avançou pelo terreno esmagando mais e mais os brotos da diferenciação. Assim fomos levados na onda massificadora que tudo nivelou por baixo: formação escolar, participação cidadã, mentalidades, gostos predominantes, comportamentos políticos.
Nesta situação, considero muito estimulante o livro intitulado O Elemento (Porto Editora, 2010). O autor, Ken Robinson, aponta uma série de casos de sucesso conhecidos para destacar a criatividade revelada pelas respetivas personalidades. A mensagem tem a força da evidência: se essas pessoas não tivessem tido a coragem de ser «diferentes», ter-se-ia perdido o seu potencial inovador.
É absolutamente essencial para o desenvolvimento das sociedades que os dons (as vocações, as «paixões» cf. Ken Robinson) naturais de cada indivíduo se afirmem com a maior espontaneidade. Não basta declarar que a empresa, a escola, o governo ou centro de investigação querem descobrir novos talentos se não houver aí lugar para a inovação. Porque, se este lugar não estiver aberto, a inovação será travada.
Facilitadas estão somente as «mudanças na continuidade», que têm acolhimento garantido na mediocridade reinante pois parecem ser «de continuidade». Todavia, nos grupos sociais, pequenos ou grandes, uma inovação desafia a coesão do rebanho acomodado em conformismo. De facto, a dinâmica de grupo tende então a salvaguardar a mediocridade reinante contra o elemento inovador.
A expansão de tal clivagem gera e reforça as cumplicidades no interior do grupo em cada setor de atividade. Promove o mesmo-diferente, não o inovador, e assim se reproduz, passo a passo, nas hierarquias empresariais, institucionais, partidárias ou governamentais a ascensão de camadas de medíocres. Estes, habituados à hipocrisia e à lisonja, detestam os «outros» - rivais diferentes, inovadores, criativos num qualquer sentido - porque, concordando com Ken Robinson, dão vida própria ao seu Elemento.
A expansão de tal clivagem gera e reforça as cumplicidades no interior do grupo em cada setor de atividade. Promove o mesmo-diferente, não o inovador, e assim se reproduz, passo a passo, nas hierarquias empresariais, institucionais, partidárias ou governamentais a ascensão de camadas de medíocres. Estes, habituados à hipocrisia e à lisonja, detestam os «outros» - rivais diferentes, inovadores, criativos num qualquer sentido - porque, concordando com Ken Robinson, dão vida própria ao seu Elemento.
quinta-feira, 8 de setembro de 2011
Como acontece «isto»
Parece que não mas «isto» tem algo que se lhe diga. Querem ver? O tema é para mim tão interessante quanto vivido e decerto também para os apreciadores de crónicas que vão passando por aqui.
Anda uma pessoa de cabeça no ar, cabeça-celeiro de umas tantas ideias postas a amadurecer, até que uma delas ganha corpo e energia. Fenómeno esquisito, este, de uma ideia avultar entre as outras e tão esquisito é que desafia qualquer hipótese de explicação. Será capricho das meninges inquietas a namorar com as sinapses, só isso, ou haverá por ali alguma misteriosa alquimia?
Então, no começo, «isto» não passa de um embrião, uma hipótese informe, algo como um girino que fica a boiar na viscosidade matricial. Mas em seguida qualquer coisa acontece. «Isto» estremece, agita-se dentro do seu alvéolo e cresce por incorporação espontânea de segmentos complementares que andavam soltos.
Agora com cabeça, «isto» principia a ser projeto que já deseja ter vida própria. E deseja crescer, ganhar tronco e membros, botar figura. Está tudo, miniatural, contido dentro daquela cabecinha incorpórea, apenas será preciso executar agora o projeto, concretizando-o.
Tarefa complicada. Vem à rede tanto material corporizável, é tanta a abundância em acumulação que ameaça entupir o projeto porque nele, agora se vê, cabe uma apreciável fatia de mundo. No entanto, «isto» tem que desistir de tentar ser o que não pode ser - um longo discurso sobre apreciável fatia de mundo. Rejeita, portanto, todos os materiais que sobram do projeto inicial e que, à medida que vai germinando, se define.
Mas custa, chega a doer a escolha forçosa do que pode ou não pode entrar «n'isto», afinal tão poucochinho, sacrificando a abundância do que fica de fora. «Isto» faz-se presente, enfim, está aqui de corpo inteiro tal como nasceu, acabou! No entanto (pois «isto» só existe no tamanho da crónica), quanto material interessante ficou omisso desta vez e talvez para sempre... [Escultura de Gustav Vigeland: Oslo, Noruega.]
Agora com cabeça, «isto» principia a ser projeto que já deseja ter vida própria. E deseja crescer, ganhar tronco e membros, botar figura. Está tudo, miniatural, contido dentro daquela cabecinha incorpórea, apenas será preciso executar agora o projeto, concretizando-o.
Tarefa complicada. Vem à rede tanto material corporizável, é tanta a abundância em acumulação que ameaça entupir o projeto porque nele, agora se vê, cabe uma apreciável fatia de mundo. No entanto, «isto» tem que desistir de tentar ser o que não pode ser - um longo discurso sobre apreciável fatia de mundo. Rejeita, portanto, todos os materiais que sobram do projeto inicial e que, à medida que vai germinando, se define.
Mas custa, chega a doer a escolha forçosa do que pode ou não pode entrar «n'isto», afinal tão poucochinho, sacrificando a abundância do que fica de fora. «Isto» faz-se presente, enfim, está aqui de corpo inteiro tal como nasceu, acabou! No entanto (pois «isto» só existe no tamanho da crónica), quanto material interessante ficou omisso desta vez e talvez para sempre... [Escultura de Gustav Vigeland: Oslo, Noruega.]
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