quinta-feira, 13 de outubro de 2011

A comida e a cultura

Têm abundância de motivo os adeptos dos prazeres da boa mesa que se justificam repetindo a frase em voga: comer é um ato de cultura. Pois é, mas ocorre a pergunta: quem mastiga comida lenta alcança até que ponto a verdade factual do dito? O sentido da frase é amplo e é rico, vale a pena sondá-lo nem que seja num breve bosquejo.
Teremos, mais uma vez, de pegar em palavras para as abrirmos e vermos os vestígios que nelas se contém, pois em questões idosas como as da comida teremos que nos limitar a uma abordagem filológica. Realmente, relacionadas com o alimento, aparecem palavras cujas raízes etimológicas ainda podem surpreender os leigos. O saber parece ter começado pela capacidade de distinguir o sabor...
O sapore latino (sabor, gosto, odor, perfume, ação de provar) confunde-se com o sapere (saber, ter gosto, exalar cheiro ou odor) e a sapientia (sabedoria). Gustare (gostar, provar, comparar), assim como degustar (provar, apreciar, saborear), remete igualmente para a capacidade humana do paladar enquanto órgão de distinção inteligente. Nesta base, nem admira já que o symposium (banquete, festim) tenha expandido o seu campo semântico até abranger a designação do nutrido volume que víamos nos consultórios médicos.
Os requintes da boca estimularam sempre os requintes da faculdade pensante, eis o que pode concluir-se. Todavia, mesmo com as meninges bem acordadas por ricos manjares, talvez só uns poucos dos comensais sentados à mesa serão capazes de consciencializar que é pela alimentação que todos se integram no sistema da natureza em que vivemos e nos faz viver. O «ato de cultura» ficaria completo.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Ler textos digitais

Lembram-se? Apareceu na última Feira do Livro um stand dedicado exclusivamente a ebooks. Foi a primeira vez, de modo que a novidade ficou assinalada aqui.
Não era para menos. Demonstrava, com a eloquência dos factos, que a edição digital de obras literárias já atingia tamanho que merecia «casa» própria para aparecer no certame dos editores. Cá dentro, tal como além fronteiras, a novidade expandia-se rapidamente enquanto os leitores ainda atulhavam as estantes domésticas de papel impresso e tão rapidamente que nem tempo conseguiam já para o cheirar.
A resistência ao texto virtual está assim a mostrar-se em dissipação. De facto, habituamo-nos cada vez mais a ler nos ecrãs dos nossos computadores e telemóveis. Mudar dos ecrãs para os designados (à inglesa) ereaders  acaba por ser mudança bem mais pequena e fácil do que parecia.
Realmente, as coisas aceleram-se e evoluem bastante mais depressa do que poderíamos supor. A leitura de textos digitais progride no terreno, silenciosa e veloz como jacintos de água na pateira de Fermentelos. Acredita-se que não vai desbancar a circulação do livro impresso mas com certeza irá impor-se, não tarda, de forma concorrencial.
Vantagens óbvias: a edição embaratece a leitura e facilita a circulação dos textos; para os leitores, acresce a dispensa de espaço domésticos (estantes) e uma ágil arrumação. Podem não ser numerosas as obras literárias que se encontram de momento em oferta com formato digital no conjunto global dos textos digitalizados em Português (jornais e revistas, textos diversos). Esse número, porém, irá crescer, acompanhando de algum modo o que se passa na área do Inglês.
Eis porque é de saudar a formação, pela Fundação Gulbenkian, de um grupo que vai estudar durante dois anos o processo da leitura em suporte digital. O sociólogo Gustavo Cardoso, do ISCTE, coordena o grupo constituído por um naipe de entendidos. Pretendem investigar como é que as pessoas lêem e o que muda, para essas pessoas, com a nova tecnologia.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Arte não tem idade

No período terminal da sua vida, Vergílio Ferreira (1916-1996) continuou a escrever afanosamente. Dizia que precisava dessa atividade para seguir vivendo. Os seus leitores, porém, sentiam nas páginas que então escrevia uma perda do fulgor que notabilizara Aparição ou Estrela Polar e alguns críticos até sugeriam que o romancista retomava, repetindo, os seus temas essenciais como que em busca da obra definitiva, perfeita.
Ocorreu algo parecido também com Eugénio de Andrade (1923-2005), quando o poeta, já debilitado pela doença e a idade, se esforçava em publicar para atender às necessidades da fundação de que era patrono. Houve quem notasse o esforço, notando ao mesmo tempo alguma cedência do rigor do poeta à necessidade de gerar direitos de autor. Não são casos únicos os casos de Vergílio Ferreira e Eugénio, pois muitos outros se encontram na extensão do universo literário.
Esta questão ressurgiu no correr de uma conversa e ficou à tona, a pedir desenvolvimento, provando que não há questões velhas e arrumadas, pois todas precisam de a elas regressarmos de vez em quando para as debatermos como se novas fossem. A ideia central consiste em perceber se com efeito a arte não tem idade. Parece óbvio que não tem, rodeados como nos vemos por tantas expressões de arte «sem idade» porque se tornaram «clássicas», digamos, de sempre.
Todavia, isso não impede que a obra de arte surja com marcas do seu tempo, pois será a síntese desse mesmo tempo nela cristalizado que amiúde a tornam memorável. A arte, realmente, não tem idade, mas o seu criador, o artista, esse tem-na. E deve saber, em proveito próprio, quando parar.
Se, como ao ginasta habituado a exercitar músculos e articulações, não lhe convier a imobilização no interesse da própria saúde, pratique em casa, fora das atenções do mundo.

domingo, 25 de setembro de 2011

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Vou com as andorinhas

Desapareceram dos meus lugares as andorinhas. Vejo pardais, melros, arvéloas e mesmo gaivotas, umas detestáveis gaivotas que saem em bandos das areias marítimas e povoam as ruas urbanas para disputarem com as mansas pombas, à bicada omnívora, os alimentos. Faltam-me, portanto, andorinhas nos olhos.
Estou com saudades das suas asas negras em revoluteios aéreos ou rasando as estradas adormecidas da minha infância aldeã. Os animais de trabalho de então foram substituídos pelos motores que afugentam o mosquedo: não o acolhem e alimentam para depois, voando, o mosquedo alimentar as andorinhas. Mas com estas evocações tomo consciência de muito mais que me desapareceu da vista e agora me falta.
Faltam-me os ninhos construídos nos beirais dos prédios, ninhos que as andorinhas utilizavam um ano e outro. Ninhos em forma de bolsa com entrada redonda, feitos voo a voo com bicadas sucessivas de lama barrenta trazida,  húmida, de algures e que, depois de seca, era almofadada por dentro com palhinhas. Chegou a ser proibida aos donos dos prédios, queixosos porque lhes estragavam as frontarias, a destruição desses ninhos, de modo que as andorinhas fugiram para as árvores, para os campos do últimos rebanhos e manadas e, por fim, para parte incerta.
Por isso, façam o favor, tragam-me andorinhas para os olhos. Está no fim o verão (que este ano passou e pouco se sentiu) e entramos num outono antecipado. As folhas das árvores, caindo em revoadas amarelas, crepitam sob os nossos passos anunciando a partida iminente das andorinhas para parte incerta e eu estou decidido, vou partir com elas. [Imagem, autor: Pawel Kuczynski, n. 1976, Polónia.]

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

A crónica perplexa

Quem escreve a crónica, em primeiro lugar escreve para si. Põe no papel ou no ecrã a expressão que melhor o define. Mas, inevitavelmente, a expressão escrita destina-se a ser lida e, portanto, o escrevente em breve deixa de escrever apenas para si.
Idealizando destinatários, talvez até deseje anular-se por detrás do que escreve para enfatizar ao máximo a expressão que o seu escrito pode ter para quem o leia. Quer justificar o interesse que atribui ao seu texto e que ele próprio quer interessante de tal modo que, ao terminá-lo, sinta que com ele, em primeiro lugar, a si próprio se beneficiou. Mas o escrevente anda agora a sumir-se em perplexidades.
Escrever o quê, para quem? Os seus leitores mostram-se fartos de notícias cada vez mais apavorantes. Preferível é fechar os ouvidos a conversas próximas e não ligar a televisores, rádios e jornais que dia a dia põem a jorrar anúncios de estarrecer em progressão assustadora.
Ninguém gosta de mensageiros de novas desgraças, dá ganas de os pendurar como cartas de prego para abrirmos nas datas aprazadas, quando já for tarde e as ameaças todas que hoje vemos e as do próximo futuro se tiverem consumado como verdadeira tragédia grega por nós revivida. Então, sendo assim, sobre o que vai escrever a crónica? Onde topar asas protetoras que nos abriguem das fúrias da tempestade?
O mundo está em brutal convulsão e Portugal está no mundo. Não sobra lugar para temas sérios mas velhos como a Palestina ocupada e colonizada, o bloqueio ianque a Cuba, a violência desatada no Congo, ou as misérias do povo haitiano após o terramoto, a falência da ONU, as guerras no Iraque e Afeganistão, as calamidades que varrem o Corno de África... O mundo está feio e mau, invadido por angústias, indiferenças ou anestesias, e a crónica, hoje, não pode falar do mundo sem ficar também, para os leitores, um pouco assim.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Armanda Passos vai expor a sua coleção de «Reservas» na Casa Andresen, no Jardim Botânico, de 23 próximo até 6 de novembro. A exposição integra-se no programa do centenário da Universidade do Porto.