«Dia da Criança» ~ Imagem de Pawel Kuczynski
sexta-feira, 1 de junho de 2012
domingo, 27 de maio de 2012
A crónica exausta
Já se escreveram crónicas sobre todos os assuntos imagináveis, desde a dor de cabeça até à falta de assunto. Já se escreveram crónicas mesmo sobre assunto nenhum deveras oportunas e atinadas. Assunto de perpétua eleição é o terror do escriba em face da página em branco.
A arte da crónica permite todas as poéticas deambulações, praticadas desde muito antes do aparecimento dos atuais exercícios da infestante escrita criativa que descobre mundos infinitos no buraco de uma agulha. Lamentavelmente, não se pode, ou nunca foi tentado, meter tudo isso numa única página para se ver no que dava. Mas hoje, para este escriba, isso seria bem o modo de fugir a escrever esta crónica exausta.
A mão que escreve é de carne e osso, sangue e nervos, e há dias em que fica tolhida sob a pesada avalancha dos acontecimentos. Isto é, fica sem forças, inerte como a multidão. Nem pergunta já por que ninguém cuida de perguntar por aí, com estranheza e suspeita, por onde se escaparam os milhares de milhões, os biliões, os triliões que na fuga deixaram crivados de dívidas os Estados, os bancos, as empresas, os clubes desportivos, as famílias.
A música ligeira que enche os ouvidos do país (por algum motivo tantas câmaras municipais se endividaram para comprar os velhos cineteatros agora visitados por cantores do rádio em itinerância), o Futebol é sempre a mais apaixonante questão nacional e, no santuário de Fátima, ecoaram as preces dos desempregados que suplicavam emprego (esperando agora vê-lo cair do céu?). Os empregados trabalham muito mais ganhando muito menos, às vezes melhor seria dormirem no emprego e pouparem nos transportes, e parecem prontos para, como dizem, «dar» outra vez os seus votos - dar! - aos políticos que os sangram e agora amaldiçoam. Mas também a população da União Europeia, 495 milhões, lembra cada vez mais a rã da fábula (do escritor suíço Olivier Clerc) a cozer na panela ao lume onde terá um fim inacreditável.
Esta crónica permite-se não ser menos desaustinada do que por aí vai. Nem pitada de humor irónico salva o escriba da exaustão. Fica-se, quieto, lendo a Ópera do Malandro, de Chico Buarque, por sinal com um (memorável) prefácio de João de Freitas Branco.
Esta crónica permite-se não ser menos desaustinada do que por aí vai. Nem pitada de humor irónico salva o escriba da exaustão. Fica-se, quieto, lendo a Ópera do Malandro, de Chico Buarque, por sinal com um (memorável) prefácio de João de Freitas Branco.
terça-feira, 22 de maio de 2012
Tecno versus Humano
Eduardo Galeano, numa charla recente, tal como noutras anteriores, sugestiva e sumarenta, que teve a sorte de passar na TV portuguesa (no canal 2, a desoras convenientes), deixou bastante demonstrada a perda da diversidade humana e quanto essa perda se deve a mutilações da variedade humana real provocada pelo sistema dominante. Mas Galeano é um óbvio humanista, reafirmado, por exemplo, no vídeo mais antigo sobre a «Ordem criminosa mundial», com janela de acesso aqui ao lado. Este uruguaio nascido em 1940, autor de livros que recusa ser «intelectual», tem portanto uma voz que ressoa tanto mais no mundo quanto neste mundo já rareiam os humanistas.
Estamos a ficar cada vez mais cegos para a nossa variedade humana obedecendo a um sistema que nos empurra uns contra os outros de forma implacável,
-- fazendo reinar o individualismo egoísta e a mediocridade. A economia de mercado que temos a funcionar é mutiladora da possível e apenas sonhada plenitude humana, mas o presente, hoje mais agudo e dramático, na verdade vem de longe a acumular consequências e danos. Agravaram-se os fatores sociais da distinção por via do racismo, do machismo ou do militarismo (lembra Galeano) a somar a exclusões e segregações de pobres, índios, africanos, etc.
Em meados do século XX, nas universidades portuguesas ainda persistiam estudos humanísticos. Todavia, já então eram notados os riscos de endeusamento de uma Técnica invasora trazida pela onda das máquinas-ferramentas e surgia o «homem sem qualidades». Nos anos seguintes operou-se uma viragem e hoje parece não restar vestígio das velhas Humanidades.
Deste modo, a originalidade (isto é, a criatividade) de cada ser humano fica submersa ou mesmo perdida em proveito de uma uniformidade social imposta por um silenciamento conformado. O desenvolvimento social e até a dimensão autêntica das liberdades sofrem constrangimentos -- no meio de seres humanos estereotipados, atomizados e fragmentários, induzidos a uma indiferença obediente pela coisa pública, pelos sindicatos, os partidos, a política, o diálogo cultural. O ser humano, em radical solidão e desprovido de memória, encara o seu vizinho não como irmão, um semelhante, sim como um concorrente incómodo, um estorvo.
Nem o próprio teísmo resgata o indivíduo da solidão para o inserir no conjunto a que pertence na sua comunidade e na sua espécie. Projeta-o para um plano celeste inacessível, atirando-o portanto para fora deste mundo em vez de se realizar como re-ligação possível do homem ao seu semelhante. Vale a pena relembrar aqui as ideias do filósofo inglês David Hume, apontadas a uma «religião natural», sem Deus, a «religião da espécie».
quinta-feira, 17 de maio de 2012
Gosta de pintura verbal?
Fiz bem cedo a descoberta. Foi, por assim dizer, inesperada como uma revelação. Mas a revelação, num flash súbito, entranhou-se para depois demorar a produzir os seus efeitos.
Lentamente, fui percebendo quanto me marcara a experiência vivida naquela manhã do exame escolar, à saída da antiga quarta classe. A prova exigiu de mim algo de novo, a composição de um texto alusivo à primavera. Então, pela primeira vez, o miúdo que eu era teve de redigir uma dúzia de linhas para descrever como sentia aquela estação do ano.
Torci-me todo para espremer, como quem inventa, o que na verdade conhecia e experimentava ainda sem possuir expressão própria. Esforcei-me deveras - era o meu primeiro exame e um exame vale porque fica, definitivo, para memória futura - e lá consegui alinhar umas doze linhas de palavritas paupérrimas que falavam do céu azul povoado de nuvens brancas, andorinhas a cirandar, rebentos verdes a rebentar de seivas novas nos ramos, o sol aberto e o ar morno, talvez sem aroma de pólens e flores...
O caso marcou-me por dois motivos contrapostos: a) passei a encarar os exames escolares como expedientes justificativos do sistema que saía do ano despreocupado e por fim, com o álibi, se livrava de responsabilidades; b) e descobri que podia encontrar em mim a resposta possível para as minhas perguntas desde que, cavando nos meus adentros como mineiro, com afinco as procurasse.
O caso marcou-me por dois motivos contrapostos: a) passei a encarar os exames escolares como expedientes justificativos do sistema que saía do ano despreocupado e por fim, com o álibi, se livrava de responsabilidades; b) e descobri que podia encontrar em mim a resposta possível para as minhas perguntas desde que, cavando nos meus adentros como mineiro, com afinco as procurasse.
Assim comecei a gostar de pintar com palavras o que sentia: impressões, pensamentos, recordações. E tanto gostei da minha descoberta que, durante uns anos juvenis, teimei em dedicar àquela mesma estação do ano uma prosa quase poética como se cumprisse um ritual. Empolgava-me esta possibilidade, por assim dizer mágica, de elaborar um texto para comunicar uma determinada mensagem.
A linguagem oral que uma pessoa usa também o possibilita, daí resultando a imagem que ela de si transmite aos seus interlocutores diretos, mas cedo escolhi para mim a expressão escrita. Transcendia as estreitezas do ambiente natal, permitindo-me atingir espaços sem dúvida mais abertos e estimulantes. Os semanários regionais foram portas abertas que franqueei avançando nos verdes anos ao encontro do vasto mundo.
A peripécia vivida com o meu primeiro exame vem constantemente à tona. Ainda ontem, tentando explicar aos meus pequenos ouvintes como me tornei «escritor», evoquei o caso pela enésima vez. Oxalá eles tenham percebido que este gosto de elaborar «pintura verbal» dialoga ao espelho com este meu gosto, como leitor, de apreciar «pinturas» admiráveis em revoadas enormes de páginas ao vento... sejam de crónicas, ficções, poemas.
A linguagem oral que uma pessoa usa também o possibilita, daí resultando a imagem que ela de si transmite aos seus interlocutores diretos, mas cedo escolhi para mim a expressão escrita. Transcendia as estreitezas do ambiente natal, permitindo-me atingir espaços sem dúvida mais abertos e estimulantes. Os semanários regionais foram portas abertas que franqueei avançando nos verdes anos ao encontro do vasto mundo.
A peripécia vivida com o meu primeiro exame vem constantemente à tona. Ainda ontem, tentando explicar aos meus pequenos ouvintes como me tornei «escritor», evoquei o caso pela enésima vez. Oxalá eles tenham percebido que este gosto de elaborar «pintura verbal» dialoga ao espelho com este meu gosto, como leitor, de apreciar «pinturas» admiráveis em revoadas enormes de páginas ao vento... sejam de crónicas, ficções, poemas.
domingo, 6 de maio de 2012
Net sob vigilância
Quem manda nos poderes do mundo não
desarma. Os ataques continuam a ser lançados porquanto umas ilhotas de liberdade que resistem no espaço cibernético incomodam demais a gente que pretende nivelar tudo por baixo. Depois de SOPA e de ACT, que energicamente soubemos rejeitar, temos agora CISPA (Cyber
Intelligence Sharing and Protection Act) a ameaçar de controlo a Internet.
Esta nova ofensiva contra a liberdade de expressão, esteio fundamental da democracia, foi aprovada pela Câmara dos Representantes norte-americana por 248 votos a favor
e 168 contra. O CISPA será usado, alegadamente (acrescenta a notícia), «em caso de possível ameaça informática», ficando esta
«possível ameaça», para já, a pairar como a maior ameaça da Net que queremos autenticamente livre. O Governo português nestas coisas é zeloso e não perdeu tempo, aderiu logo.
Sobram, porém, motivos de preocupação. O novo projecto da partilha de informações privadas dos cibernautas por uma «inteligência» planetária, facilitada pelos governos aderentes, entrega aos Estados Unidos o pouco que lhe faltará para ter em posse o domínio efetivo das informações da população pouco menos que mundial. Promete agir em nome da «segurança» e da «proteção» não esclarecendo de que segurança e proteção se trata.
A preocupação avulta até porque o anúncio do CISPA coincidiu com a detenção, pela PSP, por «manifestação ilegal», de alguém que distribuía um papel informativo à porta de um centro de emprego e, em França, de um cientista parece que franco-argelino porque, veja-se isto, escreveu umas «ameaças» num mail. Assinalavámos então o Dia Mundial da
Liberdade da Imprensa. E o site da Avaaz, organização consagrada à defesa de causas internacionais justas e humanas, apareceu a queixar-se de um ataque, notando que, pelo seu tamanho, «seria possível só de entidade governamental ou grande corporação».
Vai a onda imperial, finalmente, alagar o planeta e submergir a variedade imensa das ideias e opiniões em confronto vivo da humanidade plural? Ao serviço de quê? Tem a palavra, em primeiro lugar, os cibernautas.
Vai a onda imperial, finalmente, alagar o planeta e submergir a variedade imensa das ideias e opiniões em confronto vivo da humanidade plural? Ao serviço de quê? Tem a palavra, em primeiro lugar, os cibernautas.
domingo, 29 de abril de 2012
O romance da Gândara
A região da Gândara - faixa de terreno situada entre a Bairrada e o Atlântico, a sul do distrito de Aveiro e até imediações da Figueira da Foz - tem presença notada na Literatura mercê da prestigiada obra do autor de Uma Abelha na Chuva. É obra reconhecidamente inspiradora, pelo que, abrindo o caminho, deixa rasto: diversos autores atuais são «gandareses» porque, também de pés assentes naquele chão, a consideram modelar. E eis a novidade: António Canteiro, com o «romance da Gândara», coloca-se ao lado do «mestre».
Com efeito, ponho na estante o romance Largo da Capella (Gradiva; Lisboa, 2012, 178 pp) junto com Turismo, Pequenos Burgueses, Casa na Duna e outros de Carlos de Oliveira. Esta nova ficção de Canteiro tem qualidades que, a meus olhos, justificam o galardão. E é, para mim, o «romance da Gândara» porque evoca o povoamento da Gândara, tema novo mas facto histórico não antes abordado no plano literário.
A narrativa centra-se no povo (em parte ido da Bairrada) que por ali se radicou e principiou a desbravar e a fertilizar as terras ermas e arenosas e assiste depois à construção quase miraculosa de uma capela num largo de povoação também surgida por estranho sortilégio. Organizada em torno do seu motivo, a narrativa ganha matriz épica, prendendo o leitor com o mergulho nesse passado onde encontraremos alguma base documental de mistura com algo mítico. Mas o que mais avulta nestas páginas é a maturidade magnífica atingida pelo prosador.
Depois de Parede de Adobo e Ao Redor dos Muros, os romances anteriores, e de publicar poesia, António Canteiro surge de facto na plena posse do seu talento narrativo. Nesta obra mais recente ecoam as vozes do povo gandarês, de memória calejada pelas agruras da vida, de modo que deixa a fulgir o estilo apurado da sua escrita. A própria arquitectura do romance é interessante, pois alinha por ordem alfabética, de A a Z, as 24 partes dos seus 12 capítulos (assim eu identifiquei também os contos de umas «ficções na Bairrada» quando, em 1987, soletrava esta minha região natal, mas avancei apenas até ao O).
Porém, o «romance da Gândara» deixa-me numa dúvida. António Canteiro regista um certo linguajar quotidiano da região. Por isso tem o cuidado de rematar o volume com um glossário de termos (apenas 25) com semântica ou origem especial. Admite o Autor, portanto, que se desviou um pouco da norma culta da língua, posto que tal seja um pormenor.
Questão complexa e naturalmente controversa. Mas, em última análise, trata-se da matéria expressiva do escritor para a criação literária e tão relevante que me aproxima de dois casos singulares. Aquilino Ribeiro embebeu a sua obra numa escrita vernácula de puro quilate e sabemos em que situação tristonha ela está; Carlos de Oliveira não cedeu à fonética popular gandaresa e, contrastando, essa obra continua viva, circula, inspira...
Depois de Parede de Adobo e Ao Redor dos Muros, os romances anteriores, e de publicar poesia, António Canteiro surge de facto na plena posse do seu talento narrativo. Nesta obra mais recente ecoam as vozes do povo gandarês, de memória calejada pelas agruras da vida, de modo que deixa a fulgir o estilo apurado da sua escrita. A própria arquitectura do romance é interessante, pois alinha por ordem alfabética, de A a Z, as 24 partes dos seus 12 capítulos (assim eu identifiquei também os contos de umas «ficções na Bairrada» quando, em 1987, soletrava esta minha região natal, mas avancei apenas até ao O).
Porém, o «romance da Gândara» deixa-me numa dúvida. António Canteiro regista um certo linguajar quotidiano da região. Por isso tem o cuidado de rematar o volume com um glossário de termos (apenas 25) com semântica ou origem especial. Admite o Autor, portanto, que se desviou um pouco da norma culta da língua, posto que tal seja um pormenor.
Questão complexa e naturalmente controversa. Mas, em última análise, trata-se da matéria expressiva do escritor para a criação literária e tão relevante que me aproxima de dois casos singulares. Aquilino Ribeiro embebeu a sua obra numa escrita vernácula de puro quilate e sabemos em que situação tristonha ela está; Carlos de Oliveira não cedeu à fonética popular gandaresa e, contrastando, essa obra continua viva, circula, inspira...
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