sábado, 19 de janeiro de 2013

Um povo incompreendido?


A folhinha não mente: a semana começa ao domingo, mas a ordem estabelece que a provação dos cinco dias entra à segunda-feira e logo de manhã. Uma pessoa sai então à rua de mau-humor, entra no café para ingerir o seu quente, escuro e perfumado viático matinal, aprecia o calor do ambiente e dos comentários aos resultados da véspera, solta uns remoques azedos pois continua mal-humorada e corre para o emprego, onde, com mais vagar, entra no fórum habitual que por ali já o espera…
É preciso comentar tudo, mesmo os comentários dos comentários e isso, que já vem da véspera, vai estender-se pela tarde e a noite, nos jornais e nas conversas de rádios e canais de televisão. E… querem ver?! Um relâmpago golpeia o negrume cerrado que parecia amortalhar tanta gente, nela iluminando de golpe novidades maravilhosas.
Subitamente, este país aparece habitado, de norte a sul, por uma população atenta e participante, pronta a tomar a palavra e a intervir em defesa da sua opinião, porque a tem e exerce o direito de se fazer ouvir. Está bem informada e - como é isto possível? - sabe juntar e analisar os factos com lucidez, declarando ou apenas deixando transparecer a inclinação que deveras sente pela cor da sua bandeira. E sabe exprimir-se, e fala com entusiasmo e convicção!
Mas outras surpresas, ainda mais incríveis, saltam. Este povo mostra possuir muito boa memória! Mergulha e torna a mergulhar nos seus arquivos individuais, vasculha nas suas recordações, cita leis, regulamentos e regras aplicáveis, compara factos, raciocina com segurança, analisa, conclui...
Quem diz agora que este povo, a tal maioria silenciosa do Portugal profundo, que não tem memória? Que, por exemplo - chegando uma ou duas horas antes ao seu lugar - não participa com entusiasmo nos confrontos que lhe interessam? Quem diz agora que se afunda em apatia quando lhe sobram motivos para reagir e, zangado, se encabritar?
Uma sucessão de escritores aplicaram-se tentando estudá-lo, entender a sua alma esquiva: desde Estrabão até Antero de Quental, Almeida Garrett, Oliveira Martins, Agostinho da Silva, Eduardo Lourenço, José Gil… Não concordam entre si e nós, hoje, não podemos concordar com eles.
Dizem por aí que somos um povo enigmático? Tão incompreendido quão incompreensível? Pois seja, os tugas perdem a cabeça no jogo da bola e ficam depois sem cabeça para as questões da política (por isso o neoliberal Gaspar os vê como valioso ativo nacional!), mas nada do que é humano lhes é estranho. [Autor da imagem (parcial): Rafael Bordalo Pereira.]

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

A religião em tempo de crise

A situação económica, de crise estrutural, em que se afundam na atualidade tantos segmentos das populações europeias, ajudará realmente os povos a procurar consolo nas igrejas? Ou, inversamente, contribuirá para os afastar e deixar em descrença? A questão torna a pôr-se, pedindo novas avaliações.
O avanço dos conhecimentos científicos e da educação em geral, em coincidência com uma multiplicidade de fatores sociais, tem incentivado um progressivo enfraquecimento da adesão às formas cultuais da religiosidade tradicional. A laicização das populações vulgarizou-se e a religião foi-se resguardando na esfera do privado individual ou de grupo. O anúncio do “fim da fé” sobreveio à proclamada “morte de Deus”, supremo pai da vida substituído, nas sociedades de consumo e da liberdade fictícia, pelo “deus-mercado”.
De facto, Deus é não o criador da vida, logo da humanidade, sim criação humana elaborada em resposta a ignorâncias e medos ancestrais da espécie. Porém, a população católica portuguesa continua a ser maioritária no país, pois representa uns 85%. No entanto, abalada por escândalos de especial impacto (pedofilia, ocorrências no Vaticano), pode ter enfraquecido a fé, concorrendo para o aparecimento de 615.332 habitantes que o recenseamento de 2011 regista sem religião.
Mas a crise socioeconómica, se não anima o valor das côngruas e dos dízimos, pode atrair ao santuário maior peregrinos em renovadas súplicas por um emprego, ainda que lá cheguem de mãos vazias. Por outro lado, nem todas as correntes religiosas sentem a crise de igual modo. Enquanto a católica regista menos fiéis nos templos aos domingos, outras igrejas, da IURD e de outras organizações oriundas do estrangeiro, parece que singram com bom vento.
Nesta situação despontam alguns sinais de uma evolução geral surpreendente. Certas missas e outras celebrações religiosas apresentam-se com liturgias que transformam os templos em teatros e os oficiantes em atores de uma qualquer pantomima, com verbo inflamado e um pequeno sortido de frases repetidas (marteladas) cem vezes até aquecer e levar ao rubro a freguesia. Ora a freguesia aumenta: aprecia o espetáculo, a vozearia, a emocionalidade fácil e mesmo alguma superstição, sai satisfeita e volta.
Deus, lá do Seu etéreo assento, conserva o indefectível mutismo que tomou desde o princípio das idades e, portanto, nada diz. A liturgia deixa-se contaminar pelo lado laico e as celebrações religiosas, com abundantes Bíblias e crucificados, abrem-se para a cultura do espetáculo ruidoso e festivo. A vivência espiritual intimista sai para o exterior a tomar ares, prova da novidade e gosta, fechada num individualismo que não mais distingue religião de religiosidade, fé de crença iluminada por inteligência viva. [Imagem: placa de ugarit, a primeira escrita alfabética.]

sábado, 12 de janeiro de 2013

sábado, 5 de janeiro de 2013

O povo judeu foi inventado

É o que afirma o historiador judeu Shlomo Sand,  professor de História na Universidade de Telavive nascido em Linz, Áustria, em 1946. O seu livro, publicado em 2008 em hebreu e, em 2010, em francês (título: Comment le peuple juif fut inventé - De la Bible au sionisme, edição Fayard), fez desabar sobre o Autor uma chuva de insultos. Porém, a gritaria ajudou a divulgar a obra, depressa traduzida e publicada noutras línguas principais.
Shlomo Sand baseia-se em diversos documentos para, levantando a polémica, negar "que os judeus constituam um povo com uma origem comum e sustentar que foi uma cultura específica e não a descendência de uma comunidade arcaica unida por laços de sangue o instrumento principal da fermentação proto-nacional" - anota o jornalista e escritor Miguel Urbano Rodrigues em artigo que recenseia a obra. Portanto, a criação do Estado "judaico" de Israel, longe de realizar o sonho nacional de uma comunidade étnica com mais de 4 000 anos, deveu-se simplesmente a uma falsificação da história com origem no século XIX, em Theodor Herzl e outros ideológos do sionismo.
Deste modo, Sand deita por terra este mito fundador de Israel. Apoiado em documentação exaustiva, ridiculariza a propaganda sionista desprovida de base científica: afirma que não há afinidades biológicas, ou pontes, entre os antigos habitantes dos reinos da Judeia e de Israel e os judeus do nosso tempo. Observa Miguel U. Rodrigues: “O mito étnico contribuiu poderosamente para o imaginário cívico. As suas raízes mergulham na Bíblia, fonte do monoteísmo hebraico. Tal como a Ilíada, o Antigo Testamento não é obra de um único autor. Sand define a Bíblia como «biblioteca extraordinária» que terá sido escrita entre os séculos VI e II antes da nossa Era. O mito principia com a invenção do «povo sagrado» a quem foi anunciada a terra prometida de Canaã.”
No seu estudo, Shlomo Sand demonstra à evidência que os judeus são um povo filho de uma cadeia de mestiçagens. O que lhes confere uma identidade própria é uma cultura e a fidelidade a uma tradição religiosa enraizada em falsificações da história e num conjunto de mitos que o Autor destrói. Não tem fundamento, por exemplo, a longa viagem de Moisés rumo à Terra Santa, os sucessivos exílios bíblicos, as expulsões de massas de judeus pelos assírios, etc., e deixa em dúvida as “grandes construções” de Salomão.
Sand aponta dados da arqueologia em Jerusalém e na Cisjordânia que desmentem os historiadores israelitas adeptos da alegada pureza da raça, pilar ideológico da “nação judaica”,
e lança dúvidas sobre a origem dos 12 milhões de judeus da diáspora. Por algum motivo, Israel não tem “nacionais”, apenas “judeus” e “árabes” incluso nos passaportes, e não permite casamentos civis. Nota ainda que a língua israelita oficial, o hebraico sagrado dos rabis, era desconhecida do povo da Judeia, que falava aramaico, a língua da Bíblia.
Surpreende um pouco que a investigação do Autor tenha sido publicitada dentro de Israel em face da poderosa desmistificação que introduz na apreciação das razões políticas da organização daquele Estado. Mas tal surpresa resulta do pouco que de oposição interna transpira, atravessando os filtros, para o exterior. Seja como for, Sand prossegue: após Como foi inventado o povo judeu, reaparece, em 2012, com A invenção da Terra de Israel, em inglês.

sábado, 29 de dezembro de 2012

O direito à pensão

Tenho um amigo a ferver de indignação, pronto a explodir em revolta acesa. Tal como a tantos outros comeram-lhe, além dos subsídios, um pedaço da sua pensão. E, oh espanto em cima de espanto!, preparam-se para continuar a comer com imenso à vontade e declarada desfaçatez.
O percurso existencial e profissional daquele amigo tem alguma semelhança com o meu (jornalismo, literatura, livros), daí o confronto que ele faz dos nossos casos. Talvez procure consolação mas termina cada conversa a espirrar desespero. É mais novo, nasceu uma dezena de anos depois...
Evidentemente, toda a pessoa de boa fé reconhece sem hesitar o direito que nos assiste à indignação e mesmo à revolta. Estamos a ser espoliados - ilegalmente, imoralmente - de uma parte da pensão, palavra esta cuja semântica, neste caso, requer explicitação para lhe realçar o significado: pensão é renda vitalícia, foro, encargo, ónus, pois o vocábulo deriva de pensione = «pagamento». É, portanto, um direito essencial para o trabalhador usufruir quando as forças o abandonam e chega ao crepúsculo da vida.
Pagou esse direito mês a mês, ano a ano, sem regatear e por fim o receber tão proporcional quanto o pagou. Mas até neste ponto o meu amigo se encrespa, lembrando o período que dedicou a traduzir livros para editoras (antes do 25 de Abril) em que pagou Imposto Profissional sem usufruir da mínima contrapartida. E lembra bem: eu e outros tradutores pagámos o imposto, abrangidos por equiparação a profissão liberal.
Quer isto dizer - clama e reclama o meu amigo - que pagámos bem pagas as nossas reformas, assim negando o que afirmou o tagarela governante. O Estado não nos dá nada que não tenhamos entregado confiadamente, por imposição da lei, à sua guarda, assumindo connosco uma dívida... de honra. E o Estado é a tal «pessoa de bem», ou não é?
Parece que o governo, administrador do Estado, tem opinião diversa e avisa sem descanso que a Caixa Nacional de Pensões vai falir. Ouvindo-o, o meu amigo explode. Aos berros, aponta uma lista de factos como se para mim fossem novos, como se eu ignorasse os saques e outros desmandos que têm comido o bolo amassado com o suor dos descontos obrigatórios, isto é, como se eu não tivesse aturado a ditadura, vivido o processo da democratização e esteja só agora a aturar uns rapazinhos saídos da catequese neoliberal... 

sábado, 22 de dezembro de 2012

No país das cantigas

Alguém deve pensar que o povo está a ter o que quer em medo e repressão. Engana-se, mas, no seu tolo contentamento, não o admite. Então este país em crise fica a rever-se outra vez, como num espelho baço, na metáfora criada por um rançoso filme dos anos '50.
Portugal torna a ser um «pátio das cantigas», pois se foi enchendo de música, muita música, para alegrar todos os gostos à medida que, por outro lado, se foi enchendo de depressão e desespero, desemprego e baixos salários, raiva e opressão. Música, a ligeira, mais abundante, ou a outra, dita culta, são cultura apreciável, é verdade. Mas a dificuldade talvez seja já a de ouvi-la, tanta é a que se espalha pelos quatro cantos da agitação sem conseguir distrair ou acalmar as dores dos brutais apertos de cinto.
Não há dúvida, porque é facto evidenciado, o comércio da música gravada caiu a pique. Os autores queixam-se da pirataria que a Internet permite, embora permita também imensas cópias legais gratuitas entre outras pagas. Alterada pela generalização do formato digital, a situação atingiu duramente editores e sociedades de autores, que reclamaram contra a liberdade na Net reagindo contra a «liberdade da pirataria» (duas questões distintas, julgo eu).
Mas, neste tempo de terríveis carências, é música embaladora o que mais abunda. As rádios debitam-na, torrencial, e os diversos aparelhos de reprodução portátil em uso levam-na para todo o lado. Somando os festivais, não é pequena a romaria, mas falta ainda agregar qualquer coisa.
Temos, estrategicamente semeados pelo país, uma apreciável quantidade de antigos cine-teatros que foram adquiridos pelos municípios (lembre-se, com subsídios europeus tão generosos como os que serviram para construir isto e paralisar aquilo - a agricultura, as pescas, a produção nacional de bens de consumo) e transformados em modernos auditórios onde realizam concertos bandas nacionais e estrangeiras em itinerância. E temos a jóia da coroa, a Casa da Música, a funcionar no Porto, com subvenção anual do Orçamento de dez milhões, agora reduzido apenas a sete, imagine-se o revés musical!
Todavia, o povo dispõe-se a abrir a boca cada vez menos para cantar modas de embalar meninos. Prefere gritar, de goela aberta, os seus protestos pelas avenidas, erguendo bandeiras vermelhas e negras e exibindo palavras de ordem em faixas que estendem de lado a lado. Já não vai em cantigas.

domingo, 16 de dezembro de 2012

Um discurso na canção

Foi há um monte de anos tão farto que até nos permite apreciar o caso percebendo nenhuma mudança histórica apesar das aparências. Estou a lembrar 1961, ano em que escrevi uma nota em página cultural de semanário de Águeda sobre as letras das canções para lamentar a fraca categoria poética de muitas das que andavam em voga. O assunto surpreendeu mas, como se desejava, despertou interesse.
A surpresa e o interesse resultavam da quase nula atenção que as pessoas davam às palavras que ouviam cantar ou cantavam com gosto. Embaladas pela música, distraíam-se do resto. Porém, nesse «resto» pode estar o gato atrevido a miar com o rabo de fora...
Realmente, é com base na sonoridade das palavras que começa muitas vezes a articular-se a melodia, como acontece de forma mais reconhecível quando a letra é anterior à canção. As palavras não têm apenas conteúdo melódico, essa «coloração» especial que o compositor transpõe para as notas que inscreve no pentagrama. Possuem também o seu ritmo próprio, de maneira que numa canção perfeita tudo se harmoniza: as palavras e a melodia que as canta de acordo com o ritmo que melhor as diz.
Mas nem todas as canções que andam no ar são perfeitas, nem quem as ouve - outrora como hoje - lhes dá a devida atenção. Esquecem que, inoculadas nessas letras (aparentemente inofensivas), podem ir mensagens ideológicas um tanto subliminares e, nessa medida, invasivas. Desejável é, sem dúvida, que um belo poema surja «vestido» com uma inspirada composição para nos agradar e ficar na outiva se não nos puser desde logo a cantarolar.
Todavia, as modas e os ventos sopram pouco nesta direção, confundindo tristemente duas épocas que deviam permanecer contrastadas (o ambiente da ditadura e o da atualidade). o que mais anda no ar não prima pelo bom gosto qualificador. Certas letras parecem inventadas em cima do joelho por principiantes, não por poetas experientes, conhecedores do fenómeno poético e do gosto literário bem formado.
Evidentemente, a melodia que apareça a revestir banalidades surradas, pacóvias e popularunchas de tais letras sucumbirá à mesma banalidade, repetindo uns acordes caçados aqui e ali para compor um tema novo-velho igualmente para esquecer. Ai que saudades temos de autores como Zeca Afonso, Ary dos Santos e tantos outros que refulgiram com o dealbar da democratização! Paro aqui para, em homenagem, os recordar.