Este blogue completa hoje cinco anos de existência. Não tem estouro de rolha, taças a tinir, brindes de braços no ar em redor de bolo comemorativo. Mas um bolinho, escorrendo doçuras, fica à vista a sinalizar a efeméride.
Aqui se vem fazendo algo como uma “crónica em progresso” dos tempos que vivemos - estes tão atribulados cinco anos da crise estrutural que estende sobre nós um negrume de desastre. Tentando registar os sinais mais óbvios da deriva que nos atola nas desgraças que são a marca deste tempo. Ora, porque já tivemos, no século XIX, um Charles Dickens com os Tempos Difíceis (e já não vamos ter outro porque o romancista londrino da crítica social foi único), constituiu-se esta coluna como o sítio da crónica para acompanhar a queda geral no abismo e ser de facto o juízo do tempo ~ no tempo do juízo.
Cronicando (isto é, praticando um género de escrita situado entre o jornalismo e a literatura), assim se escreve o trágico romance da época terminal que, pessoalmente, também ao escriba cabe viver. Uma época assombrosa, incrível: povos e mais povos avançam como autómatos pelo caminho dos sacrifícios em que se despojam dos direitos humanos conquistados em lutas heróicas travadas ao longo de séculos de progresso social apenas porque já não lhes parece agora tão ruim a escravidão. Uma época histórica de tamanho impacto merece que alguém a testemunhe.
Pode esta coluna não ter os leitores e a atenção que merece. Mas também não está à porta, de chapéu na mão, a pedir que entrem. Quem é livre respeita por princípio a liberdade alheia para não perder a que tem.
Enfim, tentaremos continuar. Sem perguntar ao futuro como ou até quando. Enquanto se mantiver por aqui este nosso lugar…






