quinta-feira, 21 de março de 2013

Dia Mundial da Poesia


MENSAGEM DE MARIA TERESA HORTA
divulgada pela Sociedade Portuguesa de Autores

Beleza a beleza,
constrói-se a poesia, pedra a pedra de luz, imagem a imagem, na busca da
linguagem indócil, a quebrar a solidão e a entrega. Farpa, espinho e lenho, mas
também júbilo e regozijo. Nada é impossível ao nosso imaginário, em poemas
inquietos e fulgentes, por onde a pantera corre,
        ao longo de versos e sonhos.

Desobediência a desobediência,
constrói-se a poesia. Asa e voo voado, até se tornar rosa de cintilação maior, a nomearmos a criatividade, a fundação das escritas, em busca dos cometas
suicidas e das constelações, no labor do poema.
Sírius e cassiopeia. Oh, a nossa língua construída com os rigores das palavras
únicas,
        sublevadas e insurrectas.

Deslumbramento a deslumbramento,
constrói-se a poesia. Navegação de versos a derrubar fronteiras, negando-se às
obediências cegas e às interdições, aos tempos de assombramentos e
obscurantismos.
A recusar princípios de aceite imposto e ruínas, de onde nos espreitam já: os
ditadores, os lobos da crueldade, os censores e os inquisidores embuçados,
        do Apocalipse.

Insubmissão a insubmissão,
constrói-se a poesia. A combater a escuridade e o punhal da insídia, as
mordaças, as algemas. Com o canto, com as odes e os hinos de versos
revoltosos, armados com as nossas palavras de poeta, poente e alva.
        Voo ardente e desacato.

Corpo a corpo,
constrói-se a poesia, no seu insondável trabalho de sílabas e imagens,
metáforas e rimas, coração tumultuado e incansável, a combater as vozes
obscuras, à cabeceira da lonjura. Grão e bago de claridade de nos salvar,
porque a poesia redime mas não apazigua.
        Porque a poesia salva, mas não aquieta.

Sonho a sonho,
constrói-se a poesia, de utopia em utopia, de igualdade em igualdade, a deitar-se
o poema na mesa, no lençol, no joelho, na pele ensimesmada do pulso.
Nossa arma maior
        De liberdade em liberdade.

Maria Teresa Horta

sábado, 16 de março de 2013

De dom até dono e domus


Ando a ser perseguido por umas palavras que me agoiraram o miolo. São antigas, mergulham as raízes no latim e provavelmente em outras mais antiguidades. Mas não é verdade que nas palavras se guarda a história do tempo que as fez e que, se nos dispusermos a um esforçozinho para as abrir, veremos a luz que têm lá dentro?
Comecei a empreender no vocábulo dom. Sentia-lhe, desde há tempos, uma esquisitice intrigante. Na escola primária habituei-me, como toda a gente, a vê-lo ligado a reis e outras figuras da aristocracia, depois também a bispos e cardeais e por fim, graças à democratização, a senhoras donas. No tira-teimas, lá estava abonada a semântica: donativo, dádiva, qualidade ou vocação; do lat. donu-, “oferta aos deuses” e, como título, do lat. dominus, “senhor, dono [de casa], possuidor, proprietário; chefe, soberano, árbitro, senhor (com sentido próprio e figurado)”.
Eis quanto foi preciso para ficar agarrado ao tema. O dicionário regista que “dono”, proprietário, provinha do lat. dominu- e remetia-nos para o “dom”. Ora dominiu-, domínio (propriedade, direito de propriedade; banquete solene, festim) conduzia a domina, “dona de casa, esposa, e também senhora, soberana”…
Neste ponto, tendo na mão o dom e respectivas derivações fui, inevitavelmente, até ao lat. domus (casa, morada, habitação, domicílio), que lembra a domus municipalis. Era evidente a correlação existente entre as partes deste conjunto lexical. Apontava para um facto de grande relevância histórica com especial significado.
O facto demonstra que o dom era adquirido pelos felizes, então muito raros, possuidores de bens terrenos, propriedades. Um rei, portanto, adquiria-o por possuir vastos domínios com povos, palácios e castelos. No período feudal esses domínios entraram em progressiva fragmentação (repetiam-se as doações régias), de modo que o número dos senhores “donos”, isto é, com “dom”, foi crescendo.
Mas acaso poderiam assistir a isso os grandes hierarcas da cristandade sem disputa, eles que, no esplendor das catedrais, coroavam as cabeças dos reis sagrando-os em nome da divindade? A Igreja também possuía bens terrenos (e não eram assim tão poucos), ainda que, alegadamente, o seu reino não fosse deste mundo: estaria numa transcendência. Todavia, os “príncipes da Igreja” chegaram a ser titulares de domínios celestes atribuídos pelo soberano absoluto, o papa.
É verdade, os príncipes da realeza e da cristandade, conservadores empedernidos, continuam a manter na actualidade o seu dom, ao passo que outros grandes donos do planeta o dispensam, abraçados como estão aos seus milhares de milhões ou de triliões, mas será de notar que os colonos romanos da antiga Lusitânia, sentindo-se decerto miraculados, dotavam muitas vezes as suas villae com uma capela, costume depois mantido por donos posteriores de palacete solarengo. E por aqui me detenho, sem atender a outras derivações de tão prodigioso dom. [Iluminura medieval: tocadores de sanfona.]

sábado, 9 de março de 2013

Depois de ler Romain Rolland


Estou a sair de uma experiência realmente singular. Terminei a leitura de Alma Encantada, romance de Romain Rolland referido na crónica de 28 de Janeiro. Realço ali um trecho da obra notando-lhe uma surpreendente actualidade. 
Todavia, muitas outras surpresas se contêm na vastidão da obra (cerca de duas mil páginas). A principal, para mim, situa-se no confronto estabelecido entre dois modelos literários: um texto com data limite de 1934 e a escrita típica da ficção no século XXI.
Romain Rolland (1866-1944) foi premiado com o Nobel em 1915 pelo elevado idealismo da sua produção literária e pela simpatia e amor à verdade e também por conciliar o idealismo patriótico com um internacionalismo humanista. Sendo já então escritor assaz influente, notabilizara-se publicando os dez volumes de Jean-Christoph (1904-1912), pois este seu outro ciclo romanesco, Alma Encantada, teve início posterior, em 1922. Ora, neste como no ciclo anterior, é notável a forma como o Autor descreve os diferentes tipos de seres humanos no painel agitado das grandes transformações da sociedade francesa e da Europa daquele tempo.
França, mal refeita das múltiplas devastações causadas pela Primeira Grande Guerra (1914-1918), via crescer os efeitos da crise económico-financeira, o capitalismo selvagem, o desemprego, o fascismo e o nazismo... enquanto, a leste, se consolidava o regime soviético. Alma Encantada, centrada em Anita, familiares e amigos, traça um vasto panorama da evolução que caracterizou o fervilhar dos acontecimentos da época vivida pelo Autor. Saíam então do ventre da história os nossos infaustos tempos modernos.
De facto, Rolland desfibra as linhas entrecruzadas da decadência europeia, pois é nesse grandioso pano de fundo que situa a trama romanesca da obra. Com elevada afirmação ética, evoca personagens e acontecimentos históricos (da política, cultura, etc.) para narrar o processo complexo de uma desagregação dos valores da burguesia parisiense e europeia. Testemunhando-o, Anita, sobretudo, mas também os seus próximos, opõem-lhe uma resistência moral enérgica fundada na consciência individual da equidade social e humana (ao ponto de Anita chegar por fim a lembrar, de algum modo, o romance de M. Gorki, A Mãe).
Quer dizer, Romain Rolland equaciona, em termos verdadeiramente empolgantes, as transformações por que passou a França e a envolvência europeia que persistem como o próximo passado do nosso presente. Simultaneamente, oferece-nos uma jóia literária rutilante embora despida de certos cultismos linguísticos da escrita actual produzida para servir o mercado. Justifica-se: Toda a obra que perdura é feita da própria substância do seu tempo: o artista não foi sozinho a construí-la; reproduziu o que sofreram, amaram, sonharam, os seus companheiros, todo o grupo. (3º vol., p 216).
Alma Encantada esteve na minha estante desde 1966, data da sua edição em Lisboa. Portanto, li a obra decorridos quase 50 anos, a perguntar-me: quantos leitores terá tido desde então? Gostaria de a apreciar com espaço, isto é, sem a curteza desta nota, digamos como comentei, em 1966, Jean-Christoph (ver meu livro Inclinações Pontuais, 2000) mas agora limito-me a apelar: ide às bibliotecas públicas!... [Imagem: Romain Rolland retratado por Gisèle Freund.]

sábado, 2 de março de 2013

Cheira a Primavera Árabe


Sopradas do Ocidente para o Oriente, as brisas da primavera árabe começaram a correr sobre os povos mouros e árabes. Tocaram na Tunísia há uns dois anos, mas já vinham de trás. A valer, ainda sem nome, iniciou-se com a invasão e guerra do Iraque, onde o cheiro do seu rico petróleo pôs à vista aquela acumulação perigosíssima de armas de destruição maciça afinal inexistentes.
A Primavera Árabe, com maiúsculas, ganhou todo o seu esplendor na Líbia, país dos mais prósperos e desenvolvidos da região graças aos seus recursos naturais. Não tardou, porém, a cobrir-se de invernia logo que Kaddafi, ditador pintado de horrores negros como o belzebu, teve fim justiceiro como Saddam Hussein, o outro negregado ditador caído nas mãos dos seus gloriosos vencedores.
Não precisamos hoje de esperar mais para avaliar, em rápida vista panorâmica, os frutos gerados pelas brisas primaveris. Sem Hussein, os iraquianos antes pacificados continuam a digladiar-se na fogueira ateada dos seus problemas intestinos: xiitas, sunitas e curdos matam-se e destroem-se em guerra civil com armas que nunca lhes faltam. Sem Kaddafi, os líbios retalham o país no entrechoque de três partidos opostos, qual deles o mais radical. 
A Tunísia continua também longe da paz. Desde que o regime malvado tombou, correntes religiosas e facções políticas contrapostas fazem reinar a violência, a destruição e a morte: o povo tunisino quer paz e dança no barulho instalado sem encontrar porta de saída. A sul, no antigo Sudão, Darfur, independente em 2011 (rico-pobre de energias fósseis), negros muçulmanos conflituam com árabes e não árabes, enquanto no Mali tropas francesas... 
E a Somália, e... Adiante. Mubarak, o faraó aliado de Israel, tremeu até cair mas as concentrações nas praças continuaram imparáveis porque polícias e militares apoiam o novo poder (teocrático, da sharia), não o povo egípcio. Entretanto, na Síria, uma guerra civil desencadeada por rebeldes armados destroem a República para destruir al-Assad (e dar o poder à jihad = guerra santa?) com pleno apoio da imprensa e de governos adeptos da verdade única. De repente um relâmpago ilumina a noite da memória e o quadro ganha sentido. 
O fundamentalismo islâmico, com ou sem rótulo taliban, espalha-se por países árabes, do magrebe e do continente africano. Saiu do colo das tropas americanas no Afeganistão, depois emigrou (massacres na Argélia, etc.) para onde, por coincidência, reservas de energias estratégicas pediam que era preciso dividir para reinar. O “perigo terrorista” tornou-se tão necessário como foi outrora o “perigo comunista”, mas o pior é haver tantos cidadãos incapazes de perceber o que se passa realmente no mundo e já barulha à sua porta.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Democracia ou partidocracia?

Os partidos assenhorearam-se do sistema democrático, colocando-o flagrantemente ao seu serviço. É essencial que existam para que o sistema funcione, bem o sabemos, mas na condição única de que os partidos sirvam realmente a democracia e não a inversa.
De facto, as organizações partidárias, em particular as que ocupam habitualmente as cadeiras do poder, onde se substituem numa rotina assente em função das  maiorias eleitorais, apregoam grandes exigências de “transparência democrática” estando na oposição ou governando. No entanto, essas declarações de formal conveniência não chegam para que os actos da governação ou a vida interna dos partidos alcancem o nível razoável de transparência que a democracia supõe. Temos que denunciar a torpeza da situação para fazer reinar os princípios democráticos ou, em alternativa, reconhecer a sua falência.
É o funcionamento concreto dos partidos da órbita do poder que começa e acaba por atestar e validar a saúde do sistema. Nesta base, uma questão avulta desde logo com crucial relevância. É a mesma questão que agita nestes dias a Espanha, ameaçando de demissão o governo PP de Rajoy - a do financiamento desses partidos.
Uma opacidade esconde do conhecimento geral as fontes onde os partidos obtém os proventos que lhes permitem prosseguir posto que rodeados de dispositivos de controlo faz-de-conta. O erário público subsidia-os, recebem doações e donativos ocasionais de montante com máximo estabelecido e os seus militantes pagam quotas. Mas há leis em vigor da iniciativa de partidos que os próprios são os primeiros a desrespeitar e uma delas é a que estabelece a apresentação das respectivas contas integrais para competente análise e aprovação.
Essas contas, em geral, não são tidas como claras, completas e convincentes. Documentam uma parte da actividade desenvolvida e, alegadamente, deixam na sombra receitas e despesas talvez tão elevadas que se afundam numa escuridão clandestina sem deixar rasto. Por outro lado, sofre constantes atrasos a apresentação dessas contas.
Alguém sabe, sequer pergunta, quanto vencem mensalmente os líderes dos partidos da oposição ou do governo em funções? E os restantes dirigentes desses partidos? Será isso um segredo aceitável? Ou não será uma negação viva da transparência?
Acusam Mariano Rajoy, primeiro-ministro espanhol, no caso Bárcenas, de receber do PP um “mensalão” canalizado por empresas construtoras. Em Portugal, banqueiros e empresas multinacionais parecem também muito próximos dos partidos que se revezam no poder ao ponto de provocar graves insinuações. A corrupção pode entrar por aí, pela porta dos partidos e dos políticos que os protagonizam; existindo dentro do sistema que os permite e requer, esses partidos e políticos podem virar-se contra a democracia e chegarem a subvertê-la, deixando à vista a ilusão de uma simples aparência.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Vaticano: o papa resigna

A resignação de Bento XVI, tal como foi anunciada, de rompante, provocou o choque mediático que podia prever-se. Os ares e os dias encheram-se com ladaínhas devotas dos turibulários de sacristia a incensar e a glorificar os esplendores da decisão papal. Mal se ouviu, porém, no meio do alarido, a voz de quem percebeu no caso o sinal perturbante de uma crise que se aprofunda na cúria romana.
Essa crise aumentou ao ponto de provocar esta insólita novidade, impelindo para a desistência de funções o chefe supremo da Igreja católica. Certas fontes vinham de referir o seu real isolamento, o poder fragilizado. A situação geral merecia comentários, as preocupações adensavam-se.
Aparentemente, a renúncia de Bento XVI descerra o que as espessas paredes do Vaticano gostam de conservar bem dentro de círculos muito restritos e esse gesto, de chamar as atenções de um público mais amplo para a situação, será por certo o resultado maior que pretendeu atingir. Talvez o contexto em que se consumou deva incluir, por exemplo, a recente declaração do papa, que condenou o capitalismo selvagem, num pano de fundo em que se movem e contrapõem interesses que tomam o Vaticano como presa em disputa (máfias, maçonaria, opus dei...) Os poderosos senhores do planeta - novos deuses invisíveis - ambicionam estabelecer um governo mundial que naturalmente se completa com a integração do poder religioso.
Seja como for, a Igreja católica atravessa um período agitado de crise geral e de grave decadência. O papa pôde fazer-se perdoar pelo juvenil “passado nazi” mas não teve igual sorte pela cobertura dada enquanto cardeal Ratzinger a padres pedófilos alemães. Por outro lado, não contribuiu para o prestigiar o seu perfil conservador ou a sua pressa na produção de tantos e tantos beatos e santos.
Na verdade, a religião, e particularmente a católica, tem vindo a perder influência no interior das novas gerações (só europeias?), demonstrando que não há religião com as barrigas vazias. O que pode resultar do apelo do papa, há dias, para um renovado aggionarmento da Igreja católica, um outro Vaticano II? As populações envelhecem, há menos nascimentos, mas a sociedade actual, laica, ao desumanizar-se, aprofunda uma radical indiferença pelo outro, o próximo, o semelhante.
O enfraquecimento da vivência religiosa ressalta onde se generaliza a materialização das relações humanas que afirma o individualismo egoísta, a sensualidade ávida de prazeres fáceis e rápidos. Não será decerto apenas a falência da religião enquanto tal. Será também a perda do sentido do que é humano-humanizante no homem, dos valores universais da cultura, matriz da espiritualidade.