quarta-feira, 24 de abril de 2013

25 de Abril

A LUTA NECESSÁRIA

É preciso avisar toda a gente
dar notícias informar prevenir
que por cada flor estrangulada
há milhões de sementes a florir.


É preciso avisar toda a gente
segredar a palavra e a senha
engrossando a verdade corrente
duma força que nada detenha.


É preciso avisar toda a gente
que há fogo no meio da floresta
e que os mortos apontam em frente
o caminho da esperança que resta.


É preciso avisar toda a gente
transmitindo este morse de dores.
É preciso imperioso e urgente


mais flores mais flores mais flores.


       João Apolinário (1924-1988)

In Morse de Sangue
Porto, 1955

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Que livros “para crianças”?

Retomo este assunto chamado por uma notícia que, na sua simples gravidade, deixa à vista o avanço da destruição operada pelas pedagogias em uso no sistema do ensino no país democratizado. O blogue de uma escola do primeiro ano do ensino básico, algures no Ribatejo, anunciou que as ilustrações de certo livro de histórias para crianças eram “pobres” no parecer dos seus professores. Ora é neste ponto preciso que o caso se torna exemplar.
Quem assina aquelas ilustrações é Júlio Resende, artista de renome nacional decerto desconhecido algures no Ribatejo, que foi mestre de muitos outros artistas e director da Escola de Belas Artes do Porto; pintou e expôs longamente, além de ilustrar livros com geral aplauso. Vejamos agora: que gosto estético, ou educação artística, abonará a classificação atribuída pelos professores às aguarelas que iluminam o livrinho publicado pela ASA em 1989 e que, figurando na lista do PNL, ia na 6ª edição em 2010? Acharam-nas “pobres” porque, tratando-se de histórias com vincado teor poético, J. R. optou por imagens cheias de sonho e leveza, nada afins, portanto, das vulgares bonecadas giríssimas, em cores berrantes e muita animação.
Percebe-se de relance o que subjaz neste caso. Desde logo, equaciona o lugar que a literatura “para crianças” pode e deve ter na Escola. Que literatura?
Desde há anos que as escolinhas do país entraram nos roteiros habituais dos autores dispostos a disputar no terreno a sua fatia de vendas a outros autores não menos ansiosos de promoverem as suas obras. As editoras publicam-nas (são “autores que vendem”) e, como alvejam a população escolar, os autores caem sobre esse “mercado” que, apesar de exaurido, ainda gosta de os receber. Os visitantes proporcionam a alunos e professores uma sessão divertida: dão-se a conhecer e reconhecer (aparecendo em anos seguidos), falam da obrinha que estão a lançar e das suas histórias divertidíssimas e os putos compram-na para levar o autógrafo.
Acontece assim que o “mercado” se encheu de subliteratura descartável, com histórias mais infantilizantes do que “infantis” e muitas ilustrações a condizer. Não servem à formação correcta do gosto literário nem à formação estética das novas gerações, posto que sejam fáceis de ler, ver e também esquecer.
Quer dizer, longe vão os costumes de as escolinhas convidarem os autores que os professores de Português liam e apreciavam; escolhiam um livro, punham uma ou mais turmas a apreciá-lo e, quando o autor surgia, a sua obra em geral e aquele livro em particular eram bem conhecidos (com leituras, composições, dramatizações, trabalhos manuais, etc.), não careciam de propaganda, e ele, entrevistado, não tinha de responder a perguntas de chacha. Vão longe essas escolinhas de apenas há trinta anos ou menos, a idade dos jovens tecnocratas que por aí andam, “especialistas” de crista ao alto, a impor políticas neoliberais portadoras de austeridade, desemprego e geral empobrecimento. [Imagem: livro-árvore iluminada.]

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Novos escritores: apolíticos?

Venho a comentar desde há anos as transformações operadas por uma deriva ideológica que arrasta a literatura portuguesa. Os novos autores, surgidos nos últimos trinta anos, revelam tendências para uma “neutralidade” política nas obras que publicam e essa tendência parece em expansão. Evidentemente, pouco escutada tem sido esta voz recôndita, mas de súbito eis-me colocado em notória companhia.
O escritor Eduardo Pitta, em crónica saída na rubrica Heterodoxias da revista “Ler” de Março passado, que um bom amigo me trouxe, pôs o assunto na mesa com magnífica frontalidade. Alinhou uma dúzia de novos ficcionistas para lhes notar uma “aparente abulia política”.
Que escritores portugueses eram os mais relevantes em abril de 1974?, começa Eduardo Pitta por perguntar. Recorda José Gomes Ferreira, Miguel Torga, Vergílio Ferreira, Óscar Lopes, Jorge de Sena, Sophia de Mello Breyner Andresen, Fernando Namora, Carlos de Oliveira, Natália Correia, Urbano Tavares Rodrigues e David Mourão-Ferreira. Acrescenta Alexandre O’Neill, Herberto Helder e Ruy Belo, que “eram grandes poetas, admirados e respeitados pelas elites cultas, mas sem peso no Meio”. E agrega ainda, entre os “dominantes”, os “tolerados (Cesariny) e os tonitruantes (Ary dos Santos)” para reconhecer – “todos davam a cara”.
Quer dizer: eram figuras da oposição democrática ao regime da Ditadura; autores de obras literárias impregnadas de valores ideológicos afins e cidadãos prestigiados pela coerência ideológica que demonstravam. Eram!... E hoje?
Pitta confronta-os com os “novos” Rui Cardoso Martins, Gonçalo M. Tavares, Afonso Cruz, Alexandre Andrade, Valter Hugo Mãe, Rui Herbon, Rui Manuel Amaral, Jacinto Lucas Pires, José Luís Peixoto, Sandro William Junqueira, João Tordo e David Machado. São “autores nascido entre 1967 e 1978” e, note-se, distinguidos com prémios e traduções! “Gostava de saber – escreve Eduardo Pitta – o que pensam da falácia europeia, do desemprego sem freio, do empobrecimento geral, dos direitos das minorias”, etc., ou seja, dos problemas que afligem os portugueses na actualidade. Simples equação. Serve para demonstrar a radical limpeza que tem vindo a expurgar a nossa literatura – e não só a ficção – de sinais de envolvimento social dos novos autores. O alheamento ou a recusa de cor ideológica (máxime, de esquerda) implantou-se como regra.
O compromisso dos novos ficcionistas é com o mercado, onde qualquer tendência politica ou ideológica não “natural” (isto é, estranha à opinião vulgar) resulta “incómoda” pelo risco de poder estragar o negócio. Esses autores do verbo-de-encher escrevem histórias apurando os recursos das suas particulares “oficinas” mas, faltando-lhes o envolvimento social, privam-se de histórias novas para contar. Sigam Romain Rolland: “Toda a obra que perdura é feita da própria substância do seu tempo: o artista não foi sozinho a construí-la; reproduziu o que sofreram, amaram, sonharam, os seus companheiros, todo o grupo.”

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Estamos no desaforo total

Observou Bertrand Russell: “A humanidade tem uma moral dupla: uma que prega mas não pratica, outra que pratica mas não prega.” O filósofo britânico (1872-1970), prémio Nobel e grande divulgador da filosofia, condena nestes termos essa duplicidade tão velha quanto o mundo. Mas o que diria nestes nossos tempos de subversão total?
O desaforo maior, mais escandaloso, não é apenas permitido e praticado. É assumido como regra normal, aceitável e justa quando “convém” aos interesses instalados, por altos governantes e outras figuras públicas de relevo principal. Assim, os pilares da sociedade desabam e, no meio dos destroços, põem a reinar a insegurança e a aflição. 
Exigências éticas e legais, consciência da justiça, respeito humano, procura da paz social – vacilam e caem na lama com restos do que foi honradez, carácter, brio pessoal. O valor que vale a sério reside agora, em primeiro lugar, no esplendor dos milhões que a ganância do lucro gordo, fácil e rápido acumula, pois o poder, a honra e a dignidade – de uma nação, uma empresa ou de um indivíduo - estão na força atribuída à riqueza material. O que importa, portanto, é acumular, seja como for, essa riqueza (que dá honra, dignidade, poder) para que o indivíduo, a empresa ou a nação cresça e se glorifique. 
Comportamentos escandalosos parecem agora toleráveis e facilmente olvidáveis na precipitação contínua de novos escândalos. Mas quem esquece os governos que usaram dinheiro público para salvar bancos privados falidos na América e na Europa? E quem lembra os depósitos avultados, de bastantes milhões, que o Iraque fizera em bancos ingleses, entre outros, antes que Saddam Hussein fosse derrubado e que foram “congelados” - dinheiro do povo iraquiano que depois caiu… em que mãos? 
Quem pode lembrar os milhões também substanciais que a Líbia depositava em bancos europeus no tempo de Khaddafi e que foram também “congelados” – para onde terá ido o que era do povo líbio? É difícil ter memória pronta quando se impõe a regra do vale tudo… A conspiração desestabilizadora ou mesmo a guerra ofensiva não declarada, com ocupação militar, de uma nação poderosa contra outra enfraquecida acontece e a ONU, e instâncias de direito internacional calam e consentem. 
Tudo isso, no entanto, não passou de um calculado avanço passo a passo da ofensiva geral da subversão em curso. Conduziu por fim à decisão da troika, com a Alemanha à frente e a Holanda atrás, de obrigar os cipriotas com depósitos nos bancos da ilha a perder sessenta por cento das suas economias para os salvar da falência – esses bancos que em data recente foram considerados por peritos europeus de stress com nota positiva! A confiança dos povos europeus ficou terrivelmente abalada. 
Sabem agora esses povos o que, um após outro, os espera. Têm diante da cara, nua e crua, a força destruidora da subversão gerada pelas políticas da estratégica neoliberal. É preciso, é urgente esmagar o monstro para restaurar os valores da civilização e do desenvolvimento social!

sexta-feira, 29 de março de 2013

De olhos nos jornais


Os jornais deste fim de semana pascal aparecem com manchetes e outras letras gordas, nas capas e páginas interiores, bastante sugestivas e animadas. Paro à entrada do quiosque em apreciação das capas de semanários e diários sentindo pelo menos a ilusão de um sopro de vento novo a correr. Quase nem preciso de sujar os dedos a folheá-los para decidir que hoje quem escreve a crónica são os títulos, subtítulos e destaques da imprensa. 
A manchete do “Público” avisa: “Tensão”. Não é para menos: “O PSD pressiona Tribunal Constitucional a ter em conta «contexto económico» do país | PS diz que eleições são «única saída democrática» para a crise | Partidos trocam acusações no Parlamento sobre Silva Carvalho” [o espião] 
O “Sol” anuncia: “2º Resgate à vista. Passos avisou vices do PSD para a probabilidade de um segundo resgate [da troika] após o chumbo do Tribunal Constitucional e apresentou dois cenários possíveis 1. Governo de Salvação Nacional. 2. Eleições imediatas”. 
A capa do segundo caderno do “Expresso” põe a ler: “Ficar o sair do euro, eis a questão”. Outras frases em destaque: de Barry Eichengreen, “O cenário está montado para uma década perdida na Europa”; de João Duque, “O eurogrupo acaba de criar um euro fraco”; de Luís Marques, “Selassie levou um ano a perceber o país”; de Manuela Ferreira Leite, “A decisão do Eurogrupo [Chipre] não tem perdão. Mais uma acha para a fogueira”. 
O jornal i afirma na manchete: “Portugueses perderam confiança na austeridade da Troika. Popularidade do Governo cai a pique”. E mais: entrevistado, José Ribeiro e Castro declara: “Esta União Europeia não presta”. Adiante pergunta: “Como é que o Eurogrupo aceita ser presidido pelo rosto [holandês] de um modelo fiscal de corsários? É uma vergonha!” 
Nas páginas interiores, o i publica: “O PS é favorável que este governo cesse o seu mandato”; “OCDE apela à zona euro a pôr um travão a medidas de austeridade”; “Passos e PSD aumentam pressão sobre Tribunal Constitucional”. Refere também resultados do inquérito Barómetro i /Pitagórica: “Maioria já não acredita no sucesso do programa da Troika”. Acrescenta: “Mais de dois terços dos inquiridos consideram insuficientes os resultados da renegociação com a troika das metas do défice e dos cortes na despesa que permitiram ao governo ganhar um ano”. Distingue-se uma frase: “Cipriotas sentem que estão «a ser assaltados pelos europeus» mas mantêm calma”. 
Hoje os jornais portugueses ficam a ganhar ao cronista. Venceram-no. Ele não seria capaz de escrever um texto, de tão animado, assim tão animador…

domingo, 24 de março de 2013

Um prémio por castigo


Mulher rica que caia na pobreza não é notícia, mas a pobre mulher do povo que nestes tempos agrestes arrisca duas moedas no totoloto e ganha 51 milhões já tem manchete. Aconteceu desta vez na zona nortenha do país. A sortuda, casada e com filhos, correu logo a Fátima com a família para agradecer à Virgem a colossal fortuna que lhe caía em cima da cabeça e, assim de golpe, virava o mundo do avesso.
Um mundo de loucura. A nova milionária, antiga empregada doméstica, junto com os familiares, têm agora que obedecer a rigorosas medidas de segurança (até escondeu a cara quando deu entrevista à tv) que os agentes lhes ditam: ninguém pode sair à rua, ir fazer compras, dar uma volta. Está presa dentro de uma casa nova, em local secreto, onde foi metida de urgência com a família e todos rodeados de gente estranha paga para os proteger.
E agora todos têm motivos para se perguntar, com genuíno espanto, se um prémio tão bom será castigo. Têm de se entregar, confiantes, a toda aquela gente estranha, seguranças e conselheiros de investimentos, gente desconhecida. E estão a ocorrer coisas absolutamente extraordinárias: o Estado também saiu premiado pois confiscou, do prémio, uns dez milhões de impostos; dizem que um governo de um qualquer país europeu, mandado pela Alemanha, vai confiscar uma parte dos depósitos bancários das pessoas como impostos para pagar as suas dívidas; o patriarca da Igreja daquele país ofereceu os bens da Igreja para ajudar a pagar as dívidas!
Nunca coisas tais aconteceram nos dias da vida! E a sortuda, reunida com os familiares, deita contas ao que lhes resta do bolo dos 51 milhões e já lhe parece pouco. Mas não, o problema agora é outro, o de conservar os milhões que restam a salvo de alguma expropriação legal ordenada por este governo também atolado em dívidas ou de um banco hoje seguro e amanhã falido.
As despesas e encargos da família crescem desalmadamente ainda que isso por ora não lhe doa. Dói-lhe é ouvir que enriqueceu à custa de milhões de pobres que apostaram e perderam no jogo e agora, sem compreensão pelos caprichos da sorte, até discutem a justiça divina ou os rios de dinheiro que saem do país para o jogo em troca de uns raros “camiões-cisterna” que cá entram quando entram. Roem-se de invejas miudinhas, ela conhece-as bem, mas… deixou de ser pobre!
Graças a Deus agora é milionária, quer conservar o que ganhou, pelo menos metade do prémio e com esses milhões ganhar outros tantos. Diz adeus à pobreza antiga, que recorda com crescentes saudades ao atingir uma conclusão. Mais do que ter monte de riqueza tão colossal que nem sabe avaliar, já sente que essa riqueza toda é que a tem a ela, bem amarrada, como fiel guardiã.

quinta-feira, 21 de março de 2013

Dia Mundial da Poesia


MENSAGEM DE MARIA TERESA HORTA
divulgada pela Sociedade Portuguesa de Autores

Beleza a beleza,
constrói-se a poesia, pedra a pedra de luz, imagem a imagem, na busca da
linguagem indócil, a quebrar a solidão e a entrega. Farpa, espinho e lenho, mas
também júbilo e regozijo. Nada é impossível ao nosso imaginário, em poemas
inquietos e fulgentes, por onde a pantera corre,
        ao longo de versos e sonhos.

Desobediência a desobediência,
constrói-se a poesia. Asa e voo voado, até se tornar rosa de cintilação maior, a nomearmos a criatividade, a fundação das escritas, em busca dos cometas
suicidas e das constelações, no labor do poema.
Sírius e cassiopeia. Oh, a nossa língua construída com os rigores das palavras
únicas,
        sublevadas e insurrectas.

Deslumbramento a deslumbramento,
constrói-se a poesia. Navegação de versos a derrubar fronteiras, negando-se às
obediências cegas e às interdições, aos tempos de assombramentos e
obscurantismos.
A recusar princípios de aceite imposto e ruínas, de onde nos espreitam já: os
ditadores, os lobos da crueldade, os censores e os inquisidores embuçados,
        do Apocalipse.

Insubmissão a insubmissão,
constrói-se a poesia. A combater a escuridade e o punhal da insídia, as
mordaças, as algemas. Com o canto, com as odes e os hinos de versos
revoltosos, armados com as nossas palavras de poeta, poente e alva.
        Voo ardente e desacato.

Corpo a corpo,
constrói-se a poesia, no seu insondável trabalho de sílabas e imagens,
metáforas e rimas, coração tumultuado e incansável, a combater as vozes
obscuras, à cabeceira da lonjura. Grão e bago de claridade de nos salvar,
porque a poesia redime mas não apazigua.
        Porque a poesia salva, mas não aquieta.

Sonho a sonho,
constrói-se a poesia, de utopia em utopia, de igualdade em igualdade, a deitar-se
o poema na mesa, no lençol, no joelho, na pele ensimesmada do pulso.
Nossa arma maior
        De liberdade em liberdade.

Maria Teresa Horta