sábado, 14 de dezembro de 2013

O que é ”Kitsch”?

O termo veio do alemão e tem utilização crescente. Um vulgar dicionário regista o que significa: “produto artístico, literário, de utilidade doméstica, etc., de qualidade inferior, mas com cunho sensacionalista, que pretende ir ao encontro do gosto popular.” Assunto esclarecido e encerrado?
Não, está em esclarecimento e continua aberto. Assunto agora reavivado pelo contributo de João Medina (“O Kitsch português, reflexões sobre o inautêntico na história cultural lusa”) publicado há dias num blogue (http://malomil.blogspot.pt/2013/11/o-kitsch-portugues.html). Agradeço ao prezado amigo que mo trouxe ao conhecimento.
O termo, na origem alemã, deriva de “atamancar” (obra mal feita) ou impingir como boa coisa de qualidade inferior. Mas, em Portugal, em alguns círculos sociais, o kitsch até tem categoria próxima do belo ainda que, agrega o dicionário, seja “manifestação cultural ou artística que explora estereótipos sentimentalistas, melodramáticos ou sensacionalistas”. Porém, o sentido real do termo é obviamente pejorativo: é tendência, expressão ou conjunto de objectos considerados de mau gosto ou de má qualidade por terem características associadas ao gosto popular.
O trabalho do Prof. João Medina – um ensaio muito ilustrado – desfaz quaisquer confusões assentando desde logo no conceito do que deve entender-se correctamente por kitsch. Abre com epígrafe do ensaísta Abraham A. Moles, autor de basilar livro sobre o tema: “O mundo dos valores estéticos deixou de ser dicotomizado entre o Belo e o Feio; entre a arte e o conformismo estende-se a vasta praia do Kitsch.”
Para Moles, a civilização do consumo produz a cultura de massas, identificável como kitsch. Surge a indagação: poderá a produção industrial ser arte?
Vem a seguir uma outra epígrafe, do espanhol Antonio Muñoz Molina (“«Kitsch» nacional”, Babelia, 21-IX-2013), e é extensa: “…o kitsch é o império dos espaventos descontrolados da emoção e a sensibilidade, da desproporção entre a substância e o invólucro (…). O kitsch define-se por comparação porque a sua natureza é derivada e parasitária. O kitsch está para a arte como a margarina para a manteiga, o Arcopal para a louça, o romance histórico para a História, a Isabel Allende para o melhor Garcia Marquez, (…). O que os anúncios turísticos da Junta da Andaluzia para a realidade da Andaluzia (…). O kitsch é inseparável da efusão nacional porque esta consiste na translação para o público daquilo que em rigor pertence ao âmbito das emoções privadas. (…).”
Estabelecida a abordagem correcta e precisa da questão em foco, João Medina passa a aplicar o conceito exposto ao “kitschismo” acéfalo que invade a realidade portuguesa sem esquecer ideologias e doutrinas conservadoras. À literatura (os best-sellers José Rodrigues dos Santos, Margarida Rebelo Pinto, ou Dan Brown, Leon Uris, etc.) e à arte (Joana de Vasconcelos, José de Guimarães, o Malhoa de “O fado”, etc.) segue-se o teatro, o cinema, a arquitectura, a música… Acende-se, inevitável, a polémica e aí vem a discordância caceteira pedir desforra das “ofensas”. Enfim, o que é kitsch? [Imagem: cartaz-réplica do conhecido quadro "O Fado", de José Malhoa; autoria omissa.]

sábado, 7 de dezembro de 2013

O sonho da eternidade

É inesgotável a necessidade humana de sonhar. Os teístas crêem na vida eterna, os artistas, escritores incluídos, crêem na perenidade das suas obras. Cada existência individual, condenada à sua efémera duração, suspende-se por vezes para questionar se a vida é ou poderá ser só “isto” sem mais transcendência, apenas o breve rasto num caminho que depressa o vento dilui.
Sonhar com a eternidade resgata a condição humana à sua contingência ao projectá-la na tela do infinito. Assim elabora a arte, toda a arte que podemos admirar enquanto afirmação estética da plena dignidade do homem. E neste sentido aparece o novo livro do poeta Izacyl Guimarães Ferreira.
Izacyl, na sua longa carreira (nasceu em 1930, Rio de Janeiro), já publicou mais de vinte livros, um dos quais, Discurso Urbano, mereceu o prémio de Poesia da Academia Brasileira de Letras em 2008. Desde então acrescentou à sua obra mais três títulos e uma antologia. Reaparece agora com Altamira e Alexandria (ed. Scortecci, São Paulo, 2013, 66 pp), onde os seus poemas tomam as pinturas rupestres da caverna de Espanha e a antiga biblioteca do Egipto como símbolos expressivos de uma humana “ânsia de eternidade”.
O tema essencial deste livro, envolvendo a questão (agónica) do que é nascer para morrer, isto é, a atitude ou as ideias que o Autor pode ter perante a vida no seu ocaso, assenta num pano de fundo que implica a questão do crepúsculo em que parece afundar-se tanta civilização e cultura no Ocidente, senão no mundo inteiro. A voz do poeta, octogenário (nasceu no “meu ano”), sintoniza ou coincide com as sombras do nosso tempo nos quarenta poemas que compõem este ciclo.
Yracyl evoca pirâmides e mausoléus, pedras lavradas e páginas escritas, casas e mobílias domésticas, álbuns e retratos contra o mortal esquecimento, pois “a grã ceifadora não perdôa / se o coração do homem já não sôa”… “porque é preciso não morrer de todo”.
Num breve antelóquio, Antonio Carlos Secchin considera esta poesia uma “ode ao humano”. Tem razão. Com estilo conciso, exacto e seguro, percorrido por um fio de lirismo, oxalá Izacyl Guimarães Ferreira atinja Portugal e encontre apreciadores. Veja-se:
“O sonho é prosseguir, continuar, / como o prazer do amor e toda a caça / a eternizar o instante e expondo a raça, / é não perder-se no pó que se espalha / ou na limalha a dispersar-se à toa, / é perpetuar-se em pedra, ser pessoa.”

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Formiga navegante em fuga de inundação sai por portaló e alcança terra firme [foto: autor desconhecido]

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

O Português sem mestre

O crónico praticante da escrita acaba por se enredar nas palavras que usa. Com elas se veste para sair à rua e a elas se prende ao enamorar-se, senão de todas, pelo menos de algumas escolhidas. Então, como fugir ao golpe que sente ao ver atropeladas algumas delas por descuido ou ignorância?
O respeito pela língua materna confundiu-se outrora com o respeito pela pátria e o patriotismo. As regras da educação impunham o máximo primor da linguagem no contacto directo, oral ou por escrito, das relações sociais. Mas os costumes mudaram, esfumou-se a civilidade e deliquesceu a educação tanto quanto a consideração pelo “outro”.
A desvalorização sistemática do próximo acompanhou a desvalorização do respeito pela língua materna como se uma insubordinação civil pudesse tornar mais tolerável uma subordinação larvar imposta pelo sistema dominante em crise (e por aí se avançou até à degradação dos princípios e dos valores). Os atropelos às regras do bem falar e bem escrever vulgarizaram-se ao ponto de se instalar a confusão actual e se banalizarem liberdades e libertinagens. O léxico vulgar e a semântica abriram-se a inovações sem critério alargando-se tanto quanto, por outro lado, se empobreceram.
Exemplos? Vejamos o caso das palavras formadas por iniciais (Pide, laser, sida): têm crescente uso pois simplificam a elocução tornando-a mais eficaz. São, realmente, acrónimos, mas a designação correcta vê-se substituída por esta outra, sigla, termo com significado diverso que os dicionários registam.
Cresce também a utilização de estantes que apoiam microfones e textos dos oradores em variadas sessões. Chamam-lhes pulpitre (ou mesmo púlpito) quando julgam atinar na designação correcta, mas o termo vem do espanhol significando “carteira escolar”. Ora o objecto, conhecido desde há séculos, tem nome bem português: é atril, “estante em forma de plano inclinado, para se pôr aberto o livro, ou o papel, a fim de se poder ler comodamente”.
O anglicismo ranking popularizou-se nas esferas desportivas, escolares e outras. Dispensa vocábulos como categoria, classificação, posição, tal como tranche, galicismo igualmente escusado porque ignora expressões portuguesas aplicáveis como prestação, fatia, parte. Parece que é chique usar estrangeirismos na elocução, comportamento que revela o abandono a que os portugueses votam a sua língua materna, isto é, a sua literatura, a sua cultura, a sua identidade. Mas continuo (e na melhor companhia!) a ver esta língua como a maior criação do génio deste povo… vendo-a, lamentavelmente, a corromper-se no interior da sua própria matriz.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Autores no olho do tufão

Tudo muda com rapidez crescente. A vertigem das mudanças percorre o mundo como brutal tufão e nós, apanhados, mal conseguimos adaptações às novidades em sôfregas corridas de última hora e nem chegamos a perceber o sentido de quanto mudou. Os meios da edição literária e dos circuitos da leitura passam também por dramáticas alterações mas, para camadas de autores e grande número de leitores, aparentemente, pouco ou nada está a acontecer.
Num piscar de olhos, meia dúzia de anos, a edição de livros concentrou-se em Portugal em três ou quatro grandes empresas e o mercado do livro (não apenas o sector da edição, conforme estava previsto e anunciado), alterou-se radicalmente. Os autores, nacionais e estrangeiros, com obras de grande sucesso, veloz e renovável, predominam no mercado ao ponto de o tornarem quase exclusivo. Mas as suas obras, produzidas para os gostos predominantes, de ficção ou de tema sensacional, levantam cada vez mais objecções por parte de conhecedores especializados.
Os próprios autores dessas obras de grande consumo caem já em algum descrédito pois tendem a repetir-se nas suas estratégias de sucesso. Nos circuitos da leitura massificada surgem também sinais claros de saturação e cansaço (que só por distracção poderão interpretar-se como efeitos da crise). E é suposto que os “outros” autores que se vêem arredados do mercado não terão opinião pessoal abonatória sobre o que mais se vende.
Esses “outros”, assaz numerosos, amontoam-se nas editoras de segunda linha, nas baixas tiragens, nas vendas directas pela multiplicação de sessões de autógrafos. Mas, embora arrebatados pelo tufão, não desistem de imprimir os seus livros, de gastar papel. Sentindo, entretanto, uma clivagem a acentuar-se: entre a literatura de consumo rápido e a própria Literatura, ou seja, o mercado e a autêntica criação literária.
Uma cultura realmente viva entrou assim em contradição com uma cultura popular asfixiante. A resposta está, julgo eu, na saída das edições impressas (caras, com distribuição e venda difícil) em direcção aos ebooks. São publicações muito menos onerosas e a sua distribuição pode atingir uma escala global com vendas online, por moeda à escolha, a preços deveras reduzidos… serão, afinal, a ponte levadiça que resta aos “outros” autores para a conquista do seu “castelo das nuvens”.

Escrevo estas linhas equacionando os dados da situação presente sem pretender motivar alguém (sublinhando, todavia, o meu caso pessoal: a experiência em curso atrai-me porque, além do mais, me proporciona a oportunidade de publicar cada livro sem os atropelos que por vezes atingiram as respectivas edições impressas). Que cada autor faça as suas opções! Realmente, na situação actual, torna-se apetecível a exploração das várias plataformas de publicação de livros em formato digital existentes, os já vulgares ebooks – a ponte do castelo!

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Pintura é “coisa mental”?

Uma frase de Leonardo, o da Vinci, andou-me no juízo às voltas tempos infindos. Dizia simplesmente: “A pintura é coisa mental”. O que pretenderia expressar o génio da Renascença? 
Coisa mental, isto é, criação da inteligência, a pintura, obviamente, é. Então, como admitir que Leonardo ia registar algo tão óbvio (ele que, ó espanto, até caligrafava as frases escrevendo-as pelo inverso de maneira que eram legíveis para um leigo apenas quando “recompostas” num espelho)? 
Quem gosta da arte e aprecia o convívio com pintores, frequentando-lhes os ateliês, habitua-se a descobrir a figura que surge no limiar da imagem. A imagem forma-se naturalmente, quase irresistivelmente, estimulada por algumas sugestões visuais. Logo, é “coisa mental”… 
Toda a pintura? Sim, evidentemente, na medida em que a imagem visual se forma no cérebro que a recebe. Seria este o pensamento, então inovador, de Leonardo? 
Perceber isto, porém, para mim não foi fácil. Mas calhou-me ler um texto admirável de autor creio que japonês sobre o poder da linha, a linha do desenho traçada pela mão do artista, e a sua tremenda expressividade. O nome do autor sumiu-se, ficou apenas a revelação.
Basta a linha, o minimal risco preto-no-branco que descreve no papel um contorno para que o objecto, a coisa nascente adquira forma, volume, relevo – vida! Será esta a ideia contida na frase de Leonardo? Enfim, nesta presunção fiquei até esbarrar, recentemente, num vocábulo velho cuja semântica se alarga, ao que suponho, com um significado novo. 
Os dicionários registam-no assim: “escotoma s. m. (med.) mancha negra ou brilhante que, na doença da retina, se forma diante dos olhos; do gr. skótoma, «vertigem», pelo lat. trad. Scotoma, «id.»”. Outras fontes agregam as derivações “escotoma psíquico” e “escotomização” (“supressão de uma parte do campo visual” e “mecanismo psíquico inconsciente”), sempre em ligação com a oftalmologia, e também “escotópico”, relacionado com a visão em que só são impressionados os bastonetes da retina. Mas aparece agora o neologismo que usa escotoma para significar o fenómeno visual que dá vida à linha e atrai o olhar para a mancha no limiar da imagem (no sentido em que os olhos vêem o que o cérebro quer ver).
Ninguém se atreve a garantir a interpretação correcta da frase mas a ideia de Leonardo parece intuir ali um segredo conhecido e estudado muito mais tarde. Nada surpreendente, afinal, no caso renascentista repleto de prodígios. Pois não continuamos parados diante de milhentas mona lisas no museu imaginário a inquirir se foi pintada por Leonardo e quem retrata, se é homem ou mulher, se sorri ou se…?!

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

O futuro da lusofonia


Há poucos dias, uma conferência que reuniu em Lisboa um naipe de linguistas, debruçou-se sobre o futuro da comunidade lusófona. Considerou então que a nossa língua materna, hoje vista num sexto lugar entre as principais do mundo, iria atingir nos próximos trinta ou quarenta anos um ainda mais radioso futuro. Atingiria o terceiro lugar, a seguir ao Mandarim e ao Hindi!
O sentimento patriótico deve ter pulado nos peitos lusitanos com uma alegria de taça conquistada no campeonato e erguida, de braço no ar, em triunfo. Em tão pouco tempo, o nosso Português até iria suplantar o Inglês, língua franca da globalização! A comunidade lusófona seria, finalmente, a suprema coroa de glória do agora tão deprimido povo português…
No entanto, com tamanho optimismo, varria-se para debaixo do tapete um facto tão irrecusável quão comezinho. Não pode ser omitido que... os portugueses não são donos da sua língua! O Português pertence a cada falante e cada escrevente que, algures, resolva utilizá-lo conforme saiba ou entenda porque estará a exercer um incontestável direito!
Somar mecanicamente as populações de cada membro da comunidade e projectar no porvir as taxas dos seus crescimentos demográficos, para inserir os dados num quadro estático, é exercício vão. Vejamos: quantos indivíduos dessas populações dominam actualmente a nossa língua? Quantas, e como, aderem ou vão aderir ao Português?
Perfilhada na comunidade como língua oficial justifica, ao que parece, tiradas grandiloquentes e triunfalismos indómitos dentro do pátrio rectângulo, mas o que vale isso? Quem vai ao Brasil (o Brasil!) é questionado por bastantes dos seus naturais que lhe perguntam “que língua falam os portugueses”? Tente utilizá-la, para glorificar Camões, quem viaje pelo vasto interior de Angola… e talvez nem precise de ir mais longe.
Cada uma das oito nações da comunidade lusófona (repito: excluindo, lamentavelmente, a Galiza) segue as coordenadas de desenvolvimento da sua própria conjuntura. Todavia, são ainda raras as tentativas para apreender cada uma dessas situações particulares e as integrar numa visão complexa do conjunto em perspectiva (foi o que eu fiz em Inclinações Pontuais, Porto: Campo das Letras, 2000, pp 127-173; e, antes, na rev. “Nós”, Braga-Pontevedra, 1986-1988). Bem mais fácil – e confortável - é colocar simplesmente o conjunto lusófono no mapa das derivações românicas…
Afinal, o Português está a herdar os resultados históricos de uma prolongada falta de investimento que tem mantido a “política da língua” em banho-maria. Nem sequer teve a sorte do Inglês ou do Francês, por exemplo, nos decénios posteriores à descolonização portuguesa (até os nossos emigrantes se queixam de perder apoios escolares). Em suma, o futuro da nossa língua materna, no pátrio território, apenas provoca apreensão (conforme digo em
O futuro do Português) e o futuro da lusofonia vai também por esse caminho.