quarta-feira, 26 de março de 2014

quarta-feira, 19 de março de 2014

Pensamento débil

Os nossos tempos não vão favoráveis à afirmação vigorosa do pensamento. Criações mentais desejavelmente inovadoras parecem recostar-se numa passividade acomodada ou numa conformação indiferente ao que de renovador mais importaria. O panorama como que adormece numa espécie de estagnação pantanosa ou mesmo numa real decadência.
Onde pode o observador encontrar hoje um sinal de rasgada afirmação? Percorre os diversos sectores da criatividade intelectual e o que se lhe depara? A mentalidade tecnocrática, dedicada ao serviço das empresas, sufocou a cultura humanista obliterando a relação de cada pessoa com a espécie integrada na natureza, nosso berço.
Ia prosseguir, desenrolando o fio do meu discurso, mas, neste ponto, parei a escrita. Caiu-me o olhar numa frase em crónica de Vasco Pulido Valente que parecia exprimir a ideia que começava a enunciar. A frase: “A autoridade da ‘inteligência’ desapareceu.”
Mas, então, de onde emana a autoridade que continua a exercer-se nos variados planos da vida social se a autoridade da “inteligência” desapareceu? Se o regime republicano e o sistema democrático continuam vigentes, incluído o sistema da justiça, que processo terá conseguido descartar a preclara “inteligência”? Substituiu-a acaso a mediocracia eleitoral?
Não poderia eu dizê-lo melhor, com menos palavras nem com maior eloquência. Mas a brutalidade da expressão justifica-se pelo seu inegável realismo: a “inteligência” (que outrora distinguíamos como “intelligentsia”, ou escol, elite dominante) perdeu o seu lugar, autoridade, prestígio. É facto tão notório que espalha pela minoria realmente culta um calafrio visceral e um alarme.
E que espécie de autoridade será essa, declaradamente não iluminada pela “inteligência”? Decorrerá da mediocracia da mediocracia eleitoral e poderá ser ainda legitimável como “civilização”? Ou a monstruosidade contida na síntese de VPV, ao causar-nos um estremeção de profundo horror, também nos adverte do sentido de uma geral deriva política em crescente afirmação da direita (da austeridade programada, do empobrecimento do povo)?
Vejamos. Do que se trata não é, afinal, da abolição da “inteligência” da autoridade (do poder governante, da justiça). É da imposição liminar do seu inverso, ou antónimo, pois a inteligência (democrática) que nos tem governado vai sendo absorvida por uma diversa “inteligência” estratégica que se declara presente e omnipotente.
Por este caminho, quanto tempo faltará para se repetir o memorável caso dos anos ’30 do século passado? Decorria a sangrenta guerra civil espanhola, provocada pelos franquistas contra o governo republicano eleito, patamar preparatório da Segunda Grande Guerra. Quem falasse de “cultura” punha franquistas a puxar da pistola… [Imagem: “Zé Povinho com sua albarda”, pintura de Rafael Bordalo Pinheiro.]

quarta-feira, 12 de março de 2014

Costumes bárbaros

Por favor, digam-me que estou a confundir os aspectos, a exagerar as proporções. Principalmente, deixem-me ao alcance dos olhos o que negue as sombras que os vai cobrindo de tristeza. Porque, para mim, não tem dúvida nenhuma, os nossos costumes entraram em decisiva barbarização.
A barbárie estendeu-se ao ponto de banir, por inúteis, dos comportamentos sociais da “cultura geral” massificada, preceitos e exigências mínimas de convivência humana. Antigas regras e maneiras preceituadas, varridas, deram lugar às errâncias de um voluntarismo desbragado que sobreveio das lacunas de formação. Vejamos: quem se lembra hoje dos guias, manuais e compêndios de civilidade, educação e boas maneiras que “toda a gente” leu até meados do século XX?
Eram leituras básicas, obrigatórias, numa época em que o sistema escolar e o ambiente familiar impunham deveres, gestos e estilos praticamente em todas as particularidades do dia-a-dia (à mesa, caminhando na rua, convivendo, escrevendo cartas) sob pena de grave sanção. Quem era ou queria ser “civilizado” seguia orientações aplicáveis a cada situação que, sem chegarem a ser “de etiqueta”, valiam como emblemas de boa educação compartilhada. Actualmente, a delicadeza demonstrada arrisca-se a valer como sinal de fraqueza, inferioridade ou subalternização perante um outro amiúde propenso a mostrar arrogância, superioridade agressiva, vontade de vencer, como avançados que, no campo de futebol ou jogando a feijões, rematam para ganhar, nunca para saírem derrotados.
Pela idade, tenho fácil memória dessas leituras comuns no meu período juvenil e, a propósito do tema, fui pela memória conduzido até um livro dos tais, O Perfeito Cavalheiro, assinado por Sevim Akmen e traduzido por M. Osswald (pseudónimos?; 317 pp., Porto, 1949). Folheei-o um pouco para sentir como se distinguem hoje, cruamente postas preto no branco, as duas épocas que levo de vida. Larguei-o, arrependido, ouvindo outros idosos em queixas porque não aturam “isto” e não têm mais mundo para onde fugir.
A competição acesa contaminou as mentalidades e os costumes. Se, caído do céu, um cavalheiro se revela aqui ou acolá, é encarado como figura saída de museu, relíquia talvez agradável mas também ridícula. O tempo já não dá para pieguices de bom-tom, o próprio índice de civismo nos espaços públicos baixou tanto quanto subiu a indisciplina nas escolas, a conflitualidade nos meios familiares, a violência nas relações laborais, o impudor nas promessas dos políticos…
Ora não é só a crise que faz reinar a competição; é o sistema socioeconómico de base (capitalista) que desumaniza as relações sociais e as próprias pessoas. Desvaloriza os indivíduos transformando-os em meros consumidores, “máquinas” produtoras-reprodutoras, simples peças descartáveis das bases de dados ou das estatísticas. Que lugar resta para a civilização em relações sociais norteadas pela regra do “cada um por si”?

quarta-feira, 5 de março de 2014

Algumas mudanças

Estão à vista do excelentíssimo público algumas novidades há já uns dias mas, ainda assim, não dispensam umas breves palavras de apresentação. As novidades aparecem na página “Estante de meus livros – links” com entrada na barra ali por baixo do cabeçalho do blogue. Esta nota justifica-se para explicar desde logo que são livros digitais, ebooks.
Todos de minha autoria, sim, agora em edição revista e por vezes com capas renovadas. Contados, são nove, de vários géneros: contos, romance, crónicas, estudos e ensaios. Estiveram aqui antes acessíveis quase todos pela entrada “Os meus amigos podem ler”, onde acumularam milhares de leitores – e onde se mantém os três títulos de autoria alheia (Oscar Wilde e Anónima) ou partilhada comigo.
Voltaram agora à plataforma que os albergou e da qual saíram para tentar a experiência da Amazon, onde permaneceram uns meses. Quer dizer, voltaram à ISSUU de modo que decidi alterar a forma antiga que no blogue os apresentava. Em vez de colocar as capas dos livros (e links) na coluna à esquerda em “escada a descer”, criei uma página especial onde aparecem agora mais bem arrumadas.
A separação dos três títulos de autoria alheia é sem dúvida conveniente, tanto mais que, futuramente, irei agregar ao conjunto dos nove actuais outros ebooks, isto é, livros meus que circularam impressos em papel e logo desapareceram do mercado. (Será preciso recordar neste ponto as vicissitudes por que passou ultimamente a edição literária em Portugal?) Aconteceria então que a “escada a descer” iria alongar-se afundando-se até provocar tonturas…
Outra separação não menos conveniente foi introduzida. Na Amazon vão continuar, enquanto for possível, os meus livros para crianças - apenas esses. A lista actual também ali será ampliada, o que vai requerer digitação de textos impressos, novas ilustrações…
Quem quiser adquirir mesmo os meus ebooks à venda na Amazon (repito, só para crianças) terá que os pagar posto que a preços simbólicos. Na ISSUU, porém, para quem queira lê-los online ou descarregá-los, são gratuitos; oferecem ali uma terceira opção, uma "impressão" a pagar pelo preço indicado, que o não interessado pode dispensar. Em ambas as plataformas, o acesso é possível e fácil, esteja o leitor em qualquer ponto do globo conforme verifico: vou tendo leitores nos EUA, Espanha, Itália, Japão, Dinamarca, Brasil…

segunda-feira, 3 de março de 2014

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Museu do Neo-Realismo

Encontra-se perto de Lisboa, em Vila Franca de Xira, foi criado em 1990 e tem méritos para ser mais conhecido. Quer dizer, mais conhecido e, realmente, apreciado pelo país culto. Porque é museu de índole única: focaliza os movimentos literários portugueses do século XX e, por natural abrangência, o vasto quadro da cultura envolvida.
Conforme a designação indica, o Museu focaliza sobretudo o movimento neo-realista português, tendo crescido com base num centro de documentação com arquivo e biblioteca. Recolheu a seguir numerosos espólios de escritores, artistas e casas editoras, além de arquivos documentais, audiovisuais, museológicos (pintura, escultura, etc.) relacionados com aquele movimento. Alguns dos primeiros espólios, naturalmente, foram marcantes: Manuel da Fonseca, Alves Redol, Alexandre Cabral, Soeiro Pereira Gomes e muitos outros.
Na verdade, ao Museu do Neo-Realismo foram já doados acervos de autores como Alexandre Babo, Álvaro Feijó, Antunes da Silva, Armindo Rodrigues, Arquimedes da Silva Santos, Carlos Coutinho, Garcez da Silva, Faure da Rosa, Joaquim Lagoeiro, Joaquim Namorado, José Ferreira Monte, Jorge Reis, Júlio Graça, Leão Penedo, Manuel Campos Lima, Mário Braga, Orlando da Costa e outros. São uma “galeria” (em crescimento) dos vultos de escritores e artistas que marcaram o neo-realismo como o esteio principal da nossa literatura no século passado. Todos, por sinal, bastante ligados à parte centro-sul do país, o que pode levantar a pergunta: e então, os autores do norte?
O movimento neo-realista surgiu em Coimbra, quando eclodia a Segunda Grande Guerra, em torno da revista “Vértice” (lembre-se: enfrentando toda a repressão da ditadura). Rompendo com o “presencismo” instalado e inovando energicamente, o grupo inicial (Fernando Namora, Carlos de Oliveira, Joaquim Namorado, Mário Dionísio e outros) impôs a nova estética literária nos variados campos da criação artística e intelectual portuguesa daquele tempo. Pedra angular do movimento neo-realista foi sem dúvida a colecção “Novo Cancioneiro”, recentemente reeditada pelo Museu do Neo-Realismo em edição fac-simile.
O Museu promove outras edições, nomeadamente monografias relacionadas com as exposições documentais periódicas que realiza. Organiza também exposições itinerantes (sobre Manuel da Fonseca, Alves Redol, por exemplo), enquanto atende investigadores e visitantes nacionais e estrangeiros. Recolheu ainda os espólios editoriais da revista “Vértice”, dos jornais “O Diabo” e “Horizonte”, e da editora Cosmos, e os espólios artísticos de José Dias Coelho (1923-1961), de Jorge Oliveira e do arquitecto Castro Rodrigues. Além disso, o Museu possui um vasto conjunto de obras de relevantes artistas plásticos (Júlio Pomar, Lima de Freitas, Rogério Ribeiro, Querubim Lapa, Mário Dionísio, Nuno San Payo, Manuel Ribeiro de Pavia, Cipriano Dourado, Avelino Cunhal e Alice Jorge), bem como arquivos fotográfico, audiovisual e outros.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

As leituras do leitor

É facto indisfarçável: o rol de livros que aprecio nesta coluna em breve nota de leitura vai crescendo. Na maioria são obras publicadas no século XX e só uns poucos são novidades literárias ainda frescas. Ora isto resulta de duas ordens de razões que pedem uma razoável explicitação.
Por um lado, conservo ainda uma quantidade de leituras por fazer, ou refazer. As sofreguidões dos anos vividos impediram-nas ou adiaram-nas, de modo que uns tantos livros escolhidos permaneceram comigo como salvados. São agora uma excelente companhia e lenitivo para qualquer monge laico que se retira do bulício e no silêncio da escrita alheia busca a deslumbrante cintilação das obras mestras.
Mas, por outro lado, desde cedo me habituei a registar as minhas impressões do que ia lendo. Ler é também escrever (e a recíproca vale igualmente), o que lembra a regra do “quanto mais intensivo é o leitor mais facilmente se transforma em autor” conforme parece acontecer amiúde na praça literária. E, sem dúvida, é maximamente gratificante para o leitor este acto de enaltecer a obra admirável que o deixe maravilhado.
Assim tenho vindo a comentar autores de obras como Romain Rolland, Thomas Mann, Hermann Hesse, Boris Vian, Johan W. Goethe, Mark Twain, Ken Robinson. Todos estrangeiros, é certo, mas aparecem também portugueses e brasileiros: Sampaio Bruno, Fernando Pessoa, Alexandre Guarnieri, Pires Laranjeira, António Canteiro… Todavia, um aspecto que para mim é o mais significativo encontra-se na sugestão contida nestas notas e que é....
Pretendo sugerir que vale bem a pena virar as nossas atenções para a literatura que ficou publicada e consagrada no século passado, digamos até 1980, aproximadamente. Pouca ou nenhuma dessa literatura se encontra hoje no mercado. O interessado procura-a em vão nas livrarias; se tentar os alfarrabistas talvez neles consiga o que deseja.
Quer dizer, entre os efémeros sucessos literários da actualidade (de autoria dos fabricantes de best-sellers de cada mês aqui repetidamente desmistificados), e as obras que se consagraram no século passado à luz de diversa exigência, eu não hesito na escolha. Não as tem ao alcance o interessado nas redes do comércio normal? Recorra às bibliotecas públicas!
Nas bibliotecas públicas os leitores são convenientemente atendidos por pessoal habilitado. Têm serviço grátis e podem inscrever-se como leitores, o que lhes permite a leitura domiciliária. Se tudo isto os não conforta, que mais pedirão os leitores? [Imagem: pintura de Almada Negreiros]