quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Perante um quadro exposto

A obra de arte nasce partindo naturalmente do rumor do mundo, mas, quando nos aparece, convida ao silêncio. É isto, pelo menos, o que amiúde se repete de um modo bastante consensual, ao ponto de quase nos distrair do outro lado da questão: convidando embora ao silêncio, a obra de arte aspira ao verbo. No recolhimento de que por dentro se envolve mesmo quando por fora grita, pulsa na obra o desejo latente de se esventrar em palavras. As formas e as cores realizam-se mais plenamente através do discurso.
Assim se articulam as relações da pintura com a literatura, dos pintores com os escritores. Não falo de críticos ou de historiadores da arte enquanto tais; falo, sim, da sucessão de homens de letras que ao longo dos anos escreveram sobre a obra dos artistas, seja porque com eles conviveram, quantas vezes na intimidade dos espaços domésticos ou dos próprios ateliers, seja por qualquer outra situação. De resto, alguns pintores largam mesmo os pincéis para usarem da palavra, convencidos por momentos de que esta é a sua expressão mais eloquente e satisfatória.
O signo pictórico e a palavra literária acompanham-se e complementam-se reciprocamente de tal maneira que já ninguém perde tempo a indagar o motivo por que no fundo os poetas e os ficcionistas, por exemplo, parecem estar tão próximos dos artistas e em tão boas condições de lhes entenderem as obras; o motivo, em suma, por que os textos dos catálogos de exposição e livros tendem na actualidade a constituir-se mais como comentários decorrentes de leituras feitas na matriz de cada gosto do que como abordagens críticas, isto é, valorativas, das obras em foco. Em resultado, estas tornam-se cada vez menos frequentes. A questão toda é: serão as abordagens críticas dispensáveis?
Os artistas quase nada as dispensam, pintem ou não quadros naturalistas, neo-figurativos ou os ditos abstractos. Sabemo-lo bem: desde a revolução de Marcel Duchamp, a arte do nosso tempo é uma arte intervalar, suspensa de uma espera. Exprime-se hic et nunc sem augurar um amanhã, algures. Vimos acabar as escolas, as correntes, os epigonismos, as revoluções estéticas, como se já tivesse sido descoberto tudo o que havia a descobrir; restam agora os artistas individualizados, com a multiplicidade das suas linguagens e das suas expressões pessoais. Nunca se pintou tão intensamente, tão variadamente a angústia do impasse que é a marca distintiva deste tempo.
A crise não atinge só a pintura; percorre transversalmente os sistemas da economia, da política, da ética e da estética, tocando inclusive na literatura. Os velhos cânones estão velhos em demasia, os novos ainda não advieram.
 [Cópia, parcial, de escrito em catálogo de exposição.]

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Agosto, mês de ripanço

O costume tem seis anos. Em Agosto, o cronista fica deitado à sombra, braço esquerdo com a mão em concha a apoiar a nuca e a direita a acenar boas-vindas aos visitantes de perto ou de longe, aqui chegados, que se deparam com a cena: o escriba correu os taipais e pôs aqui, no exterior, o aviso: "Fechámos para férias do pessoal. Reabrimos no início de Setembro."

terça-feira, 22 de julho de 2014

O velho e o cão

Um velho caminha lentamente pela rua. Alto e magro, apoia a mão direita na bengala, atento aos desníveis do passeio tortuoso, e coxeia um pouco. Aparecem covas, buracos, declives, pedaços de cimento roto, pedras de lancil gastas, e o homem avança, cauteloso, tentando evitar quedas. 
Adiante uns metros, um cão fraldiqueiro, pequenito, sentado mas erguido nas patas dianteiras, espera enquanto a dona, trela na mão, conversa com pessoa assomada à porta. De repente, o cão fica atento ao avanço do velho. No seu olhar, além de atenção, há também uma carinhosa simpatia. 
Vê o homem aproximar-se passo a passo, pois carrega idade muita e fôlego pouco para governar as pernas bambas sobre as quais, mal seguro, dança. O cão parado, de olhos fitos, parece esperar a chegada da pessoa conhecida e amiga. Mas o velho, já próximo, não o nota, cuidando apenas de seguir rente aos prédios para evitar choques com transeuntes apressados ou distraídos, em grupo imóvel, de cigarros nos dedos a fumegar, e ele se desequilibrar, cair. 
Quando a perna esquerda do velho chega ao alcance do nariz do animal, ele está pronto. No instante em que a perna se imobiliza para logo seguir em alternância, cola o nariz à calça e aspira com força (será beijo canino?). Depois volta a cabeça, de olhar já entristecido, e vê o velho afastar-se. 
Talvez um dia o homem lhe tenha oferecido algum bocado de comida, uma carícia, mas esqueceu o gesto. O cão, porém, não o esqueceria. Ou terá pressentido no velho a tristeza de uma solidão maior que a sua, que tem a sorte de ser fraldiqueiro embora ature a dona que pára aqui e ali a conversar em vez de continuar o passeio. 
Faz supor que o cão pressente no homem tamanha tristeza, tanto desgarramento que gostaria de o beneficiar com amizade. Duas solidões compartilhadas teriam menos solidão. Mas o cão não sabe que o velho se desprendeu de tudo, até de uma amizade canina, e que o cantinho onde vive está repleto de ausências, saudades, lutos, memórias, sofrimentos e sem espaço para nada mais. 
Diferente é a sorte do sem-abrigo ancorado em frente do mercado municipal. Consegue viver bem com seis ou mais cães que o rodeiam habitualmente, todos em família sobre uns farrapos. Recebe a comida que as senhoras piedosas lhe dão para os animais e com eles come.

terça-feira, 15 de julho de 2014

O Português nasceu em 1214?

A nossa língua materna existe há oito séculos, assinalaram diversas entidades no próprio dia da efeméride. Basearam-se no testamento do rei Afonso II (1185-1223) feito no dia 27 de Junho de 1214, documento arquivado na Torre do Tombo. Trata-se, porém, de uma data simbólica, pois nenhuma língua aparece feita de um dia para o outro.
O documento foi redigido em Coimbra, pela mão de um certo escriba, seguindo a norma que viria a consagrar-se. Mas, bem entendido, uma nova língua não é elaborada por um único escriba para uso de um povo inteiro (e, então, língua também em uso na Galiza), antes resulta de uma longa sedimentação e decantação de factores diversos presentes no terreno. É obra de uma comunidade inteira, o que nos dá motivo para considerar, à evidência, a nossa língua materna como a mais genial criação dos povos galego-português.
Todavia, houve que esperar três séculos, até 1536, pela primeira gramática de Fernão de Oliveira, publicada em Lisboa, a que se seguiu a de João de Barros quatro anos depois. A língua passou a ter as suas próprias regras de forma e composição, uma morfologia disciplinar canónica. A reluzir ficaram os contributos literários de Gil Vicente (c. 1465-c. 1536), Garcia de Resende (1470-1536), Sá de Miranda (1481-1558), Bernardim Ribeiro (1482?-1552?) e outros, de modo a perceber de relance o “salto” portentoso dado pela língua na primeira metade do século XVI.
O contributo de Luís de Camões (1524-1580), outro artífice da língua, foi marcante para o progresso do Português. Mas a língua, sistema aberto sempre vivo, continuou a evoluir tanto quanto se sabe. Estendeu-se pelo mundo onde pés portugueses se demoraram fazendo nascer, após descolonização, a CPLP, Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.
Rodearam a organização da comunidade lusófona grandes expectativas que mais óbvias têm deixado as fraquezas de uma autêntica e eficiente política da língua que Portugal adia. A CPLP parece transformar-se, ao que se diz, sobretudo em centro diplomático de negócios e o falhanço do Acordo Ortográfico de 1990, que prometia um mínimo de unificação, deixa à solta naturais derivas.
A defesa e promoção da nossa língua materna no mundo mostra-se inadequada e inconsistente, com cada um dos países integrantes a seguir ao seu próprio ritmo. Ora, em vez das vozes que entronizam o Português com frases altissonantes, bom seria intervir no espaço da lusofonia em situações como em Timor ou na Guiné-Bissau. Neste país, por exemplo, inserido em região francófona e com uns 56% de analfabetos, as diversas etnias falam algo como 32 dialectos nativos; não existe ensino da nossa língua condigno, sendo o Português falado só por brancos e alguns guineenses escolarizados e o crioulo usado em cidades e zonas do litoral… [Nota: clique na imagem para ampliar.]

terça-feira, 8 de julho de 2014

O Estado e a religião


Segundo leio, restam apenas três estados teocráticos no mundo. São o Estado do Vaticano, o Irão, país dos ayatollahs, e Israel. Mas este vai ao ponto de entronizar a religião como elemento constitutivo do próprio Estado, identificando e agregando não cidadãos enquanto tal mas crentes e praticantes da Tora.
Os outros países, sendo mais ou menos laicos, organizam o Estado de muito diversas maneiras. De facto, o desenvolvimento dos povos e as mudanças das mentalidades e dos costumes provocou a evolução geral das estratégias políticas. Os hierarcas da igreja dominante não coroaram mais os reis de antanho nem, por exemplo, os governantes impuseram mais barretes cardinalícios.
Assim, parece ter-se imposto, desde o fim do século XIX, uma tendência crescente para afastar a religião da esfera dos estados. O laicismo correspondeu a esse desígnio incluso em Portugal sem conseguir, no entanto, iludir deveras a influência da igreja dominante. A Católica mantém entre nós a primazia em muitos aspectos da vida nacional, de modo que deixa ver ainda hoje o poder estatal bastante subordinado ao poder religioso.
Em tal contexto, vem à memória um livrinho publicado em Portugal em Novembro de 1970, intitulado “Sobre a Religião”. Lembro: Marcelo Caetano era presidente do Conselho desde 27-9-1968 e o país debatia-se entre a continuidade ou a evolução com tamanha ânsia que rebentava as baias da repressão da ditadura. Ora, se o tema do livrinho era melindroso, atente-se no seu autor: V. I. Lenine.
Naquela circunstância, exagerando possivelmente, direi que a obra causou um grande impacto. Mas faço declaração de interesses: fui o tradutor e editor o livro (estreou, por sinal, as efémeras Edições Razão Actual). Singularidade: uns tantos exemplares foram apreendidos nas livrarias pela PIDE (os livreiros mandaram os autos de apreensão) mas o livro, sem reedição, acabou por não entrar na lista dos proibidos!
Traduzi o texto do espanhol, que encontrei publicado em Cuba, em volume com prólogo de Francisco. Era uma recompilação de vários artigos de Lenine (mais duas cartas dirigidas a Máximo Gorki) datados de 1905 a 1922 que expõem o seu pensamento acerca do tema religioso. Uma ideia essencial percorre a obra: “Nós exigimos que a religião seja um assunto privado relativamente ao Estado […] O Estado nada tem que fazer com a religião; as sociedades religiosas não devem estar ligadas ao poder do Estado. Qualquer pessoa deve ser completamente livre de professar a religião que lhe agrade ou não aceitar nenhuma religião, ou seja, ser ateu” (pp 33-34).
Entretanto, a ideia da separação dos dois poderes tornou-se bastante consensual, ao ponto de atravessar o espectro político-ideológico da esquerda à direita. De facto, uma eficaz e rigorosa delimitação dos poderes das duas partes transformou-se numa aspiração dos povos. Desejam o fim da intromissão da influência de uma parte sobre a outra para que saia favorecida a maior transparência do processo de tomada das decisões democráticas. [Imagem: desenho de Almada Negreiros (1893-1970)]